ACASALAMENTO PREFERENCIAL
A endogamia representa um desvio do acasalamento ao acaso no qual o parentesco biológico entre indivíduos afeta a probabilidade de se acasalar. Indivíduos também podem ter sua probabilidade de acasalamento influenciada pelas características ou fenótipos apresentados pelos parceiros em potencial. Um desses desvios do acasalamento ao acaso baseados em fenótipos individuais é chamado de acasalamento preferencial.
Sob acasalamento preferencial, indivíduos com fenótipos similares têm maior probabilidade de se acasalar do que o esperado sob acasalamento aleatório na população.
Embora o acasalamento preferencial possa surgir da preferência individual para se acasalar com outro indivíduo de fenótipo similar, o acasalamento preferencial pode surgir de diversos fatores que não a escolha de parceiros
Considere um modelo simples de um locus autossômico com dois alelos (A e a), de tal forma que exista uma relação de 1:1 entre genótipo e fenótipo, com cada genótipo tendo um fenótipo distinto. Se o acasalamento for 100% preferencial para estes fenótipos (ou seja, indivíduos apenas se acasalam com outros indivíduos de fenótipo idêntico), obteremos uma transição de uma geração para a outra como mostrada na figura a seguir:
As frequências genotípicas mudarão a cada geração enquanto houver heterozigotos. A frequência dos heterozigotos é reduzida à metade a cada geração. As frequências genotípicas não entram imediatamente em equilíbrio. As frequências genotípicas do heterozigoto são reduzidas à metade a cada geração, o deme gradualmente alcança um equilíbrio genotípico no qual a população é completamente homozigota.
O "coeficiente de endogamia" F mede desvios das frequências genotípicas de Hardy- Weinberg, de tal forma que F pode também medir o impacto do acasalamento preferencial na população. Este exemplo mostra que chamar F de um "coeficiente de endogamia" pode, algumas vezes, ser enganador. Um valor diferente de zero para F pode surgir em situações nas quais não há nenhuma endogamia (no sentido do sistema de acasalamento).
O acasalamento preferencial também mimetiza os efeitos da endogamia de heredograma no que diz respeito ao aumento das frequências fenotípicas de caracteres recessivos. Exemplo: surdez profunda precoce em humanos. Tal surdez pode ser causada por doença, acidentes e genes. Causas genéticas explicam cerca de 50% destes casos, com a homozigose para alelos recessivos em qualquer um dos cerca de 35 loci diferentes, levando à surdez.
Entretanto, as frequências alélicas associadas à surdez na maioria destes loci são extremamente baixas. A única exceção é o locus GJB2 que codifica para a proteína de junção gap conexina-26. Este locus tem um alelo com q ~ 0,01 em populações europeias e dos EUA. A homozigose para este alelo responde por cerca da metade dos casos genéticos de surdez profunda precoce.
Sob acasalamento ao acaso, esperaríamos q 2 = 0,0001, ou cerca de 1 em 10.000 nascimentos deveriam produzir uma criança surda devido à homozigose para este alelo. A incidência real de surdez por este alelo é de cerca de 3 a 5 em 10.000 nascimentos. A razão para isso é que há um forte acasalamento preferencial para surdez, com uma taxa de preferência fenotípica acima de 80% nos EUA, 92% na Inglaterra e 94% na Irlanda do Norte.
Crianças com surdez precoce frequentemente estudam em escolas ou classes especiais e, portanto, socializam principalmente entre si. Além disso, elas comunicam-se melhor entre si. Como resultado, existe urna forte tendência de se casarem entre si, o que, por sua vez, aumenta a homozigose para os alelos produzindo surdez além do que seria esperado por acaso.
O impacto do acasalamento preferencial para surdez sobre a frequência de homozigotos no locus GJB2 é reduzido pelo fato da surdez poder ser causada por diversos outros loci e também por fatores não genéticos. Em geral, o impacto do acasalamento preferencial em produzir um F é proporcional tanto à correlação fenotípica entre parceiros (que é alta para surdos) e a correlação entre genótipos e fenótipos. Esta última correlação é reduzida quando o fenótipo tem diversas causas genéticas e não genéticas, como é o caso da surdez.
Referência Templeton, A.R. Genética de populações e teoria microevolutiva. SBG. 2011. Capítulo 3, pg 63 a 73