A presença árabo-muçulmana Corão - Surāt al-fathia (Abertura) Os textos árabes não falam de Torres Vedras, assim como silenciaram o espaço litoral entre Lisboa e Sintra e Coimbra. Sem estas fontes, restam-nos a arqueologia, a toponímia e os textos cristãos para o conhecimento da região de Torres Vedras, sob o domínio islâmico. Existem muitos husūn (fortalezas) cuja menção também não aparece nas fontes árabes, talvez dado o seu interesse menor do ponto de vista militar, ou porque não dispunham de uma guarnição.
O núcleo «urbano» de Torres Vedras deveria corresponder a uma fortaleza/castelo ou in (sítio fortificado, com uma função militar, pelo menos defensiva, mas também o território em volta que dela dependia) com um amplo domínio sobre os percursos ao longo do Vale do Sizandro. Uma localização que lhe permitia simultaneamente o controle de diversos eixos viários terrestres de alguma importância já no período romano, que de Olisipo (Lisboa) seguiam para Aeminium (Coimbra), pelo litoral, passando por Chretina, que Vasco Gil Mantas identifica com Torres Vedras, e por Eburobrittium (Óbidos). As suas muralhas, sobretudo na época omíada (756-c.1093, com a conquista almorávida de Lisboa) não abrigariam a população permanentemente, servindo talvez apenas de lugar de vigilância e refúgio das populações rurais, em caso de perigo. Fortificação talvez construída e mantida pelas populações rurais, sem intervenção directa de uma autoridade militar. Centro administrativo e fiscal, junto da fortaleza encontrar-seiam os camponeses para o mercado e a oração de sexta-feira, crendo na tradição de ter sido a igreja de Santa Maria anteriormente uma mesquita. Tratando-se de uma fortificação, do período islâmico ou anterior, estaria associada a povoados rurais, dispersos por um território sob o seu domínio e controlo, tendo alguns desses povoados uma ocupação que data pelo menos do período romano. Em volta da fortaleza, mas dela dependentes, localizavam-se muitas qurā (aldeias; pl. de qarya).
Os trabalhos arqueológicos recentes levados a cabo nos Paços do Concelho permitiram identificar uma ocupação islâmica, datada do período califal (Era Cristã 926-1029 * Hégira 313-419). O território de Torres Vedras fazia parte do sāil (região litoral) de Santarém, a qual era protegida, a Ocidente, pela fortaleza de Óbidos, Peniche, então uma ilha, e o castelo de Ourém. Interessava defender a fronteira litoral, sobretudo desde 844, momento do primeiro grande ataque Viking a Lisboa. Os estudos ainda introdutórios sobre a toponímia árabe e moçárabe da região confirmam a ocupação intensa do espaço rural, à escala medieval. Gibraltar, por exemplo, trata-se de um nome pessoal árabe «Tariq» convertido em nome de lugar, ao qual se juntou um elemento topográfico monte ou outeiro. É provável que a maioria dos vestígios árabes se devam a moçárabes ou mouros feitos cativos, que se prolongaram na Estremadura para além da reconquista, uma vez que não temos notícia de qualquer comunidade árabe. Parece-nos, porém, bastante forte a ocupação moçárabe da região. Muitos topónimos testemunham a sua presença: Atalaia, talvez o topónimo tursifal que pela raiz «trs» pode querer significar defesa, guarda ou protecção. A estes juntam-se muitos outros lugares, como alfacias, Alfeiria (horta ou espaço cercado onde se guardaria o gado), Almargem (do ár. al-marj = prado), Almageira, Almiarça (do ár. al-marsā = porto), Asseisseira (do lat. salice = salgueiro), Moçafaneira, Azueira, Pero Negro, Apaul de Alvim, ribeira de Alpilhão, Almofala (do ár. al-maalla = campo ou pequeno
aglomerado, aldeia), Secarias (do ár. saqarias), ribeira de Alcabrichel, Enxara do Bispo (D. Vasco), Enxara (do ár. an-xara = Charneca) dos Cavaleiros. Em suma, o território de Torres Vedras sob o domínio áraboislâmico já se encontrava muito povoado. Seria um espaço rural pontuado por aldeias e casais isolados, cuja população se ocuparia das actividades agrícolas. Grande parte do território era, e seria durante muito tempo, ocupado por terrenos de floresta e pauis. Nota-se um contraste entre as partes Norte e Sul do espaço que viria a ser o termo medieval cristão de Torres Vedras. A Norte, um povoamento escasso e concentrado em volta da Ribeira de Alcabrichel. A Sul, um povoamento mais abundante, mas disperso. Um idêntico contraste entre o litoral, cujo povoamento é bem mais recente, e o interior com uma ocupação anterior. Topónimos que são na sua maioria moçarabismos, isto é, termos latinos com o prefixo ou o sufixo árabes, próprios duma região onde era natural o contacto ente cristãos e muçulmanos, entre as culturas árabe e cristã. Dados que confirmam ter sido maior a arabização do que a islamização do Gharb al-andalus (o Ocidente sob o domínio islâmico). Uma situação que se justifica também pelo facto da maioria dos povos colonizadores serem berbéres saharianos, pouco islamizados, de que ficou o testemunho do termo «saloio», de sahrāwi - habitante do Sahara. SAIBA MAIS: SILVA, Carlos Guardado da, «A estruturação e o povoamento da defesa na Estremadura Islâmica: elementos para o seu
estudo», in Turres Veteras V: História Militar e da Guerra, Torres Vedras, Câmara Municipal de Torres Vedras Sector da Cultura e Instituto de Estudos Regionais e do Municipalismo Alexandre Herculano, 2003, pp.21-35.