Transformação do dinheiro em capital

Documentos relacionados
O Capital Crítica da Economia Política. Capítulo 4 Transformação do dinheiro em capital

O Capital Crítica da Economia Política. Capítulo 4 Transformação do dinheiro em capital

História das Teorias Econômicas Aula 5: Karl Marx Instituto de Geociências / Unicamp

Capital Portador de Juros: Marx e Chesnais

O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias. O Capital Crítica da Economia Política Capítulo III

A sociologia de Marx. A sociologia de Marx Monitor: Pedro Ribeiro 24/05/2014. Material de apoio para Monitoria

O TRABALHO NA DIALÉTICA MARXISTA: UMA PERSPECTIVA ONTOLÓGICA.

A partir de nossas análises e estudos, preencha adequadamente as lacunas da sentença abaixo, na respectiva ordem:

Durkheim, Weber, Marx e as modernas sociedades industriais e capitalistas

MAIS-VALIA ABSOLUTA E MAIS-VALIA RELATIVA

FASES DO CAPITALISMO, REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS E A GLOBALIZAÇÃO PROFº CLAUDIO FRANCISCO GALDINO GEOGRAFIA

Teoria de Karl Marx ( )

Trabalho e socialismo Trabalho vivo e trabalho objetivado. Para esclarecer uma confusão de conceito que teve consequências trágicas.

A Teoria Neoclássica da Firma. Aula de setembro de 2008

A fenomenologia de O Capital

AS RELAÇÕES CONSTITUTIVAS DO SER SOCIAL

FLUXOS ECONÔMICOS BÁSICOS DO CAPITALISMO

O TRABALHO E A ORIGEM DO HOMEM EM SOCIEDADE: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DA FILOSOFIA DE MARX E LUKÁCS

Como nasceram os Grundrisse 21

CONCEITO DE TÍTULO DE CRÉDITO

Os Sociólogos Clássicos Pt.2

A Questão da Transição. Baseado em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico de Friedrich Engel.

Acumulação de Capital- Dinheiro. Fernando Nogueira da Costa Professor do IE- UNICAMP h>p://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

Uma pergunta. O que é o homem moderno?

10/03/2010 CAPITALISMO NEOLIBERALISMO SOCIALISMO

Índice. Fetichismo da mercadoria. A vida. As classes sociais Mais-valia. Materialismo histórico. Comunismo. Estrutura e superestrutura ALIENAÇÃO

Maria Luiza Costa

SEQUÊNCIA DIDÁTICA PODCAST CIÊNCIAS HUMANAS

TEORIA DA EMPRESA - EMPRESA, EMPRESÁRIO E SOCIEDADES

O CAPITALISMO ESTÁ EM CRISE?

CIÊNCIAS CONTABÉIS: NASCEU COM UM ÊRRO E CONTINUA ERRADA ATÉ HOJE.

01/09/2009. Entrevista do Presidente da República

RACIONALIDADE ECONÔMICA DO GOVERNO Questão 37: Acerca da intervenção do Estado na economia, assinale a opção correta. a) A existência de bens

Marx e as Relações de Trabalho

TESTE SEUS DONS ESPIRITUAIS

Alienação e trabalho * Alienation and Work

Seja Bem Vinda a 1º treinamento online de % do sucesso se baseia simplesmente em insistir.

Teorias socialistas. Capítulo 26. Socialismo aparece como uma reação às péssimas condições dos trabalhadores SOCIALISMO UTÓPICO ROBERT OWEN

2.1 - SISTEMA ECONÔMICO

Geografia e mundo atual

Sociologia 23/11/2015 PRODUÇÃO & MODELOS ECONÔMICOS TIPOS DE MODOS DE PRODUÇÃO

ECONOMIA POLÍTICA MATERIAL PREPARADO PARA A DISCIPLINA DE ECONOMIA POLÍTICA, PROFESSORA CAMILA MANDUCA.

Notas sobre a estrutura dialética do Livro Primeiro de O Capital. Jadir Antunes. Introdução

INTRODUÇÃO À ECONOMIA DOS TRANSPORTES

TRABALHO, SOCIEDADE E DESIGUALDADES

INSS Economia Conceitos Básicos Fabio Lobo

Positivismo de Augusto Comte, Colégio Ser Ensino Médio Introdução à Sociologia Prof. Marilia Coltri

MERCADO: OFERTA X DEMANDA EXCEDENTE DO CONSUMIDOR E DO PRODUTOR

REPRESENTAÇÃO GRAFICA; TERMINOLOGIA CONTÁBIL; E TIPOS DE CAPITAL. PROFª: Gitano Souto Silva

Qdx= Px, que é a simples multiplicação da função para mil indivíduos.

Matemática Financeira Descontos. Prof.: Joni Fusinato

Grupos e Organizações. Daniel Abud Seabra Matos

Definição. é um sistema econômico (e por. vezes político) em que os meios de produção, distribuição, decisões sobre oferta, demanda, preço

GESTÃO DAS FINANÇAS PESSOAIS. A fórmula de ouro. Rubie José Giordani

Nas linhas seguintes, discutimos as contradições inerentes à

LIBERDADE E POLÍTICA KARL MARX

fevereiro PC Sampaio Alex Amaral Gabriel Ritter (Allan Pinho)

Fórum Social Mundial Memória FSM memoriafsm.org

ATIVIDADE FINANCEIRA DO ESTADO

CONQUISTE SEU IP ESTÁ PREPARADA??

FILOSOFIA E SOCIEDADE: O TRABALHO NA SOCIEDADE MODERNA

Escritos de Max Weber

CUIDADOS NA FIXAÇÃO DE PREÇOS DE

COMO UTILIZAR AS TAXA DE APLICAÇÃO E CAPTAÇÃO DO DINHEIRO NA FORMAÇÃO DO PREÇO A VISTA E A

TREINAMENTO PARA NOVAS CONSULTORAS. Ana Carla Vizentainer Diretora de Vendas Independente Unidade Pink Diamonds

Indústria cultural. O termo foi empregado pela primeira vez em 1947, por Adorno e Horkheimer.

RESENHA. Luiz Gustavo Leonel dos Reis Curso de Graduação em Geografia/UFTM Uberaba/MG Brasil

Curso DSc Microeconomia Bacen - Básico 2015

O que é venda consultiva

Módulo 8 Teoria da Produção

Mercados e Instrumentos Financeiros II. Fundamentos de Opções. Mercados Futuros. Hedge com Futuros e Opções. Fundamentos de Opções

A Cultura empresarial como diferencial competitivo. Odino Marcondes

Unidade II COMPORTAMENTO DO. Profa. Daniela Menezes

araribá matemática Quadro de conteúdos e objetivos Quadro de conteúdos e objetivos Unidade 1 Números inteiros adição e subtração

O LIVRO VERMELHO DAS VENDAS

Enquanto a Microeconomia estuda a relação entre oferta e demanda para estimar, em uma interação do conjunto de consumidores com o conjunto de

A função social da empresa

Trabalho Produtivo e Improdutivo: o cerne da questão

ORIGEM DA MOEDA. Prof. Me. Wesley Vieira Borges Economia e Mercado

O Processo de Trabalho e seus componentes. Horácio Pereira de Faria Marcos A. Furquim Werneck Max André dos Santos Paulo FleuryTeixeira

Como usar o Agendor para criar um processo de vendas e vender mais

Conhecimentos Bancários. Item Derivativos

Formulação e resolução de problemas de matemática: teoria e prática. Luiz Roberto Dante

Introdução à Microeconomia

OS FUNDAMENTOS DO TRABALHO EM MARX: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TRABALHO PRODUTIVO E DO TRABALHO IMPRODUTIVO

Transcrição:

Transformação do dinheiro em capital

"Dinheiro como dinheiro e dinheiro como capital diferenciam-se primeiro por sua forma diferente de circulação". Ou seja, M - D - M e D - M - D. D - M - D, tal como M - D - M, tem duas fases antitéticas que formam uma unidade: D - M e M - D. "O resultado, em que todo o processo de apaga, é a troca de dinheiro por dinheiro, D - D ". Isto já mostra que "seria insosso [...] permutar o mesmo valor em dinheiro por igual valor em dinheiro [...]"

"Na circulação M - D - M, o gasto do dinheiro nada tem, pois, a ver com seu refluxo. Na circulação D - M - D, pelo contrário, o refluxo do dinheiro é determinado pelo modo de seu próprio gasto. Sem esse refluxo, a operação está fracassada..." "A forma completa desse processo é, portanto, D - M - D', em que D' = D + ΔD, ou seja, igual à soma de dinheiro originalmente adiantado mais um incremento. Esse incremento, ou o excedente sobre o valor original, chamo de - mais-valia (surplus value). O valor originalmente adiantado não só se mantém na circulação, mas altera nela a sua grandeza de valor, acrescenta mais-valia ou se valoriza. E esse movimento transforma-o em capital".

M D M, M D M, M D M D M D M D M D M D... D M D... D M D... D M D... D M D...

"Dinheiro surge de novo no fim do movimento como seu início. O fim de cada ciclo individual, em que a compra se realiza para a venda, constitui, portanto, por si mesmo o início de novo ciclo. A circulação simples de mercadorias - a venda para a compra - serve de meio para um objetivo final que está fora da circulação, a apropriação de valores de uso, a satisfação de necessidades. A circulação do dinheiro como capital é, pelo contrário, uma finalidade em si mesma, pois a valorização do valor só existe dentro desse movimento sempre renovado. Por isso o movimento do capital é insaciável".

"Como portador consciente desse movimento, o possuidor de dinheiro torna-se capitalista. Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é o ponto de partida e o ponto de retorno do dinheiro. O conteúdo objetivo daquela circulação - a valorização do valor - é a sua meta subjetiva, e só enquanto apropriação crescente da riqueza abstrata é o único motivo indutor de suas operações, ele funciona como capitalista ou capital personificado, dotado de vontade e consciência."

"O valor de uso nunca deve ser tratado, portanto, como meta imediata do capitalismo. Tampouco o lucro isolado, mas apenas o incessante movimento do ganho. Esse impulso absoluto de enriquecimento, essa caça apaixonada ao valor, é comum ao capitalista e ao entesourador, mas enquanto o entesourador é apenas o capitalista demente, o capitalista é o entesourador racional. A multiplicação incessante do valor, pretendida pelo entesourador ao pretender salvar o dinheiro da circulação, é alcançada pelo capitalista mais esperto ao entregá-lo sempre de novo a circulação".

Na circulação simples, a forma dinheiro assumida pelo valor das mercadorias media apenas o intercâmbio. "Na circulação D - M - D, pelo contrário, [...] mercadoria e dinheiro funcionam apenas como modos diferentes de existência do próprio valor; o dinheiro é o seu modo geral e a mercadoria é o seu modo particular, por assim dizer apenas camuflado, de existência". D M D

2. Contradições da forma geral "O possuidor de mercadorias pode formar valores por meio do seu trabalho, mas não valores que se valorizem. Ele pode aumentar o valor de uma mercadoria, acrescentando, mediante novo trabalho, novo valor ao valor preexistente. [...] É, portanto, impossível que o produtor de mercadorias, fora da esfera da circulação, sem entrar em contato com outros produtores de mercadorias, valorize o valor e, daí, transforme dinheiro ou mercadoria em capital".

"Capital não pode, portanto, originar-se da circulação e, tampouco, pode não originar-se da circulação. Deve, ao mesmo tempo, originar-se e não originar-se dela". Em outras palavras, a mais-valia tem de ser criada fora da circulação, mas fora da circulação ela só existe em potência; para que ela se torne mais-valia efetivamente existente, ela tem que vir a ser dentro da circulação - ou seja, ela tem de se realizar.

"Um resultado duplo foi, portanto, alcançado. A transformação do dinheiro em capital tem de ser desenvolvida com base nas leis imanentes ao intercâmbio de mercadorias, de modo que a troca de equivalentes sirva de ponto de partida. Nosso possuidor de dinheiro, por enquanto ainda presente apenas como capitalista larvar, tem de comprar as mercadorias por seu valor, vendê-las por seu valor e, mesmo assim, extrair no final do processo mais valor do que lançou nele. Sua metamorfose em capitalista borboleta tem de ocorrer na esfera da circulação e não tem de ocorrer na esfera da circulação. São essas as condições do problema Hic Rhodus, hic salta!"

Compra e venda da força de trabalho "Para extrair valor do consumo de uma mercadoria, nosso possuidor de dinheiro precisaria ter a sorte de descobrir dentro da esfera de circulação, no mercado, uma mercadoria cujo próprio valor de uso tivesse a característica peculiar de ser fonte de valor. Uma mercadoria cujo consumo fosse em si objetivação de trabalho, por conseguinte, criação de valor." Ora, essa mercadoria existe; é a "capacidade de trabalho ou a força de trabalho".

Não devemos confundir a força de trabalho nem com o trabalhador e nem com o trabalho. "Por força de trabalho ou capacidade de trabalho entendemos o conjunto das faculdades físicas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento toda vez que produz valores de uso de qualquer espécie".

"Para transformar dinheiro em capital, o possuidor de dinheiro precisa encontrar, portanto, o trabalhador livre no mercado de mercadorias, livre no duplo sentido de que ele dispõe, como pessoa livre, de sua força de trabalho como sua mercadoria, e de que ele, por outro lado, não tem mercadorias para vender, solto e solteiro, livre de todas as coisas necessárias à realização de sua força de trabalho".

"O valor da força de trabalho, como o de toda outra mercadoria, é determinado pelo tempo de trabalho necessário à sua produção e reprodução,... [o qual] corresponde... ao tempo de trabalho necessário à produção dos meios de subsistência" que permitem essa produção e reprodução. Dizendo de outro modo, "o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção do seu possuidor".

"A natureza peculiar dessa mercadoria específica, a força de trabalho, faz com que, com a conclusão do contrato entre comprador e vendedor, seu valor de uso ainda não se tenha verdadeiramente transferido para as mãos do comprador. O seu valor, como o de qualquer outra mercadoria, estava determinado antes de ela entrar em circulação... mas o seu valor de uso consiste na exteriorização posterior dessa força". Eis que essa exteriorização é a geração de um novo valor e esse valor é maior do que o valor da força de trabalho. Eis, pois, o segredo da mais-valia que está sendo desvendado: a força de trabalho produz mais valor do que custa para se reproduzir.

A esfera da circulação ou do intercâmbio de mercadorias, dentro de cujos limites se movimentam compra e venda de força do trabalho, era de fato um verdadeiro éden dos direitos naturais do homem. O que aqui reina é unicamente Liberdade, Igualdade, Propriedade e Bentham. Liberdade!

O único poder que os junta e leva a um relacionamento é o proveito próprio, a vantagem particular, os seus interesses privados. E justamente porque cada um só cuida de si e nenhum do outro, realizam todos, em decorrência de uma harmonia preestabelecida das coisas ou sob os auspícios de uma previdência toda esperta, tãosomente a obra de sua vantagem mútua, do bem comum, do interesse geral.

Ao sair dessa esfera da circulação simples ou da troca de mercadorias, da qual o livre-cambista vulgaris extrai concepções, conceitos e critérios para seu juízo sobre a sociedade do capital e do trabalho assalariado, já se transforma... O antigo possuidor de dinheiro marcha adiante como capitalista, segue-o o possuidor de força de trabalho como seu trabalhador; um cheio de importância, sorriso satisfeito e ávido por negócios; o outro, tímido, contrafeito, como alguém que levou a sua própria pele para o mercado e agora não tem mais nada a esperar, exceto o - curtume.