Artmed Editora S.A., 2008

Documentos relacionados
PRINCIPAIS CAMPOS DA PSICOPATOLOGIA. Marco Aurelio Soares Jorge

terapia cognitiva para transtornos da personalidade

IMPRESSÃO & ACABAMENTO

SÍNDROMES PSICÓTICAS (quadros do espectro da esquizofrenia e outras psicoses) Psicopatologia II - DEPSI-UFPR Profª Melissa Rodrigues de Almeida

Bertolino, Marco Túlio. Sistemas de gestão ambiental na indústria alimentícia / Marco Túlio Bertolino. Porto Alegre : Artmed, p. ; 23 cm.

DOENÇA MENTAL: DIAGNÓSTICO, INCAPACIDADE LABORATIVA, ASPECTOS CONFLITANTES

EMENTAS DAS DISCIPLINAS

HISTÓRICO. Ayur-Veda, 1400 ac Estados demoníacos. Sorano, dc Doente recusava urinar, com medo de provocar um dilúvio

Aspectos neurológicos da deficiência mental (DM) e da paralisia cerebral (PC) - IV Congresso Paulista da ABENEPI - VI(s1)

INTRODUÇÃO A PSICOPATOLOGIA E FUNDAMENTOS DA CLÍNICA

PLANO DE CURSO. Proporcionar aos alunos conhecimentos na área de saúde mental II, articulando teoria e prática.

Curso de Atualização em Psicopatologia 7ª aula Decio Tenenbaum

S583q Silk, Alvin J. O que é marketing? / Alvin J. Silk ; tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre : Bookman, p. ; 23 cm.

PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU ESPECIALIZAÇÃO AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

PLANO DE CURSO. Proporcionar aos alunos conhecimentos na área de saúde mental II, articulando teoria e prática,

EMENTAS DAS DISCIPLINAS

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE Decanato Acadêmico

hipnoterapia cognitiva

FUNDAMENTOS BÁSICOS E TEORIA EM SAÚDE MENTAL

A disciplina estuda as noções fundamentais da psicopatologia, aprofundando o conhecimento sobre as funções mentais e suas alterações patológicas.

Transtorno Afetivo Bipolar. Esquizofrenia PROFª ESP. LETICIA PEDROSO

RESOLUÇÃO DE QUESTÕES DA SES UNIDADE III (Parte 1)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA PLANO DE ENSINO I.

O QUE É DESIGN DE MODA?

A esquizofrenia é uma perturbação psiquiátrica caracterizada pela presença de comportamento psicótico ou amplamente desorganizado;

MALHARIA. Juliana Sissons. s.f. confecção de tecidos em malha

2.2 APLICAÇÕES DA PSICOLOGIA NA ADMINISTRAÇÃO, Objetivos da Psicologia como ciência, Uso da Psicologia na Administração, 11

NOSSO. planeta verde

Curso de Atualização em Psicopatologia 2ª aula Decio Tenenbaum

Psicopatologia Concursos PSI SÉRIE RESUMOS TEÓRICOS PSICOPATOLOGIA. Profissional Gráfica & Editora Ltda. Salvador

CRONOGRAMA SESAB 19/ 09 PSICOLOGIA HOSPITALAR 25/09 PSICOLOGIA DA SAÚDE 21/09 SAÚDE COLETIVA

Universidade Anhanguera-Uniderp Pró-Reitoria de Graduação. Curso: PLANO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

Avaliação Psicológica e DOR

PSICOLOGIA CLÍNICA COM ÊNFASE NA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Patologia Dual. Dr. Jorge Jaber

ESTRUTURA CURRICULAR CURSO: PSICOLOGIA HORÁRIA 1 SEMESTRE 2 SEMESTRE 3 SEMESTRE

Transtornos Mentais no Trabalho. Carlos Augusto Maranhão de Loyola CRM-PR Psiquiatra.

INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA. Profa. Dra. Laura Carmilo granado

psicopatologia.qxp :31 Page 1 E S T U D O S 1 3

NÚCLEO DE APOIO ACADÊMICO NAAC

Carga horária total: 04 Prática: 04 Teórico Prática: Semestre Letivo 1º/2012 Ementa

Pré-requisito Coreq Disciplina 01 PSI101 - Introdução à História da Psicologia - Ativa desde: 01/01/2009. Natureza - OBRIGATÓRIA TEÓRICA 36

Prevalência de transtornos mentais em pacientes com ulceração

Componente Curricular: Psicopatologia I Professor(a): Dalmir Pereira Lopes Período: 5º Matutino - Ano: TOTAL DE AULAS 72h/a

Ciclos de Manutenção. em Terapia. Cognitivo-Comportamental

Universidade Anhanguera-Uniderp Pró-Reitoria de Graduação. Curso: Psicologia PLANO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

Material produzido pelos alunos Cerise, Gil e Purpurine

RESOLUÇÃO DE QUESTÕES UPENET/SES-PE (Parte I)

TRANSTORNOS DE HUMOR

O QUE É O MATRICIAMENTO? Rafael Moreno Médico Psiquiatra

O mundo esquizofrénico visto por Klaus Conrad Psicopatologia Geral e Especial Carlos Mota Cardoso

DISTÚRBIOS, TRANSTORNOS, DIFICULDADES E PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM

Fracasso Escolar: um olhar psicopedagógico

CURSO DE CAPACITAÇÃO EM PSIQUIATRIA DA INFÂNCIA E DA ADOLESCÊNCIA 2017

MATRIZ CURRICULAR DO CURSO DE PSICOLOGIA ASMEC OURO FINO/MG

Processos Psicológicos Básicos II. Prof.ª Melissa Fernanda Fontana Aula 2

Psicologia Aplicada em

CURSO: PSICOLOGIA EMENTAS º PERÍODO

CRONOGRAMA DE AULAS CURSO PREPARATÓRIO PARA RESIDÊNCIAS EM PSICOLOGIA 03/10 PSICOLOGIA HOSPITALAR 9/10 PSICOLOGIA DA SAÚDE 5/10 SAÚDE COLETIVA

Semana de Psicologia PUC RJ

Doutora em Psicologia e Educação USP, Mestre em Psicologia da Educação PUC-SP, Neuropsicóloga, Psicopedagoga, Psicóloga, Pedagoga.

Obras de J.-D. Nasio publicadas por esta editora:

NEGÓCIO FUNDACIONAL Criação de fundações privadas

MARTIN, Emily. Bipolar Expeditions: mania and depression in American culture. Princeton: PrincetonUniversity Press, p.

O NÃO LUGAR DAS NÃO NEUROSES NA SAÚDE MENTAL

Psicopatologia Geral. Dr. Paulo Dalgalarrondo

A PSICOLOGIA COMO PROFISSÃO

SUICÍDIO NO TRABALHO. Rosylane N. das Mercês Rocha

DIRETRIZES SOBRE COMORBIDADES PSIQUIÁTRICAS EM DEPENDÊNCIA AO ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

PLANO DE ENSINO - Psiquiatria

Matriz Curricular CURSO: PSICOLOGIA CÓD. CURSO: PSC CÓD. NOME

PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE DISTÚRBIOS DO SONO

INTRODUÇAO AO ESTUDO DO DIREITO

DISFORIA DE GÊNERO E TRANSEXUALIDADE: UMA REVISÃO DOS CONCEITOS ª RESUMO

28/04/2011. Profa. Dra. Marilene Zimmer Psicologia - FURG

BARALHO DOS COMPORTAMENTOS DE LIDERANÇA. Paulo Eduardo Benzoni

Este Baralho contém:

CURSO DE PSICOPATOLOGIA PSICOPATOLOGIA 2º MÓDULO PROF. DR. JEFFERSON CABRAL AZEVEDO

DUPLO DIAGNÓSTICO: Transtornos Mentais na Síndrome de Down

Ansiedade Generalizada. Sintomas e Tratamentos

Transcrição:

Artmed Editora S.A., 2008 Capa Paola Manica Preparação do original Cristiane Marques Machado Leitura final Lisandra Pedruzzi Picon Supervisão editorial Cláudia Bittencourt Projeto e editoração Armazém Digital Editoração Eletrônica Roberto Vieira D142p Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais [recurso eletrônico] / Paulo Dalgalarrondo. 2. ed. Dados eletrônicos. Porto Alegre : Artmed, 2008. Editado também como livro impresso em 2008. ISBN 978-85-363-1493-8 1. Psicopatologia. 2. Transtornos mentais. I. Título. CDU 616.89-008 Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto CRB 10/1023 Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à ARTMED EDITORA S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana 90040-340 Porto Alegre RS Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070 É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. SÃO PAULO Av. Angélica, 1091 - Higienópolis 01227-100 São Paulo SP Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333 SAC 0800 703-3444 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL

Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 35 4 Os principais campos e tipos de psicopatologia Umas das principais características da psicopatologia, como campo de conhecimento, é a multiplicidade de abordagens e referenciais teóricos que tem incorporado nos últimos 200 anos. Umas das principais características da psicopatologia, como campo de conhecimento, é a multiplicidade de abordagens e referenciais teóricos que tem incorporado nos últimos 200 anos. Tal multiplicidade é vista por alguns como debilidade científica, como prova de sua imaturidade. Os psicopatólogos são criticados por essa diversidade de explicações e teorias, por seu aspecto híbrido em termos epistemológicos. Dizem alguns que, quando se conhece realmente algo, se tem apenas uma teoria que explica cabalmente os fatos; quando não se conhece a realidade que se estuda, são construídas centenas de teorias conflitantes. Discordo de tal visão; querer uma única explicação, uma única concepção teórica, que resolva todos os problemas e dúvidas de uma área tão complexa e multifacetada como a psicopatologia é impor uma solução simplista e artificial, que deformaria o fenômeno psicopatológico. A psicopatologia é, por natureza e destino histórico, um campo de conhecimento que requer debate constante e aprofundado. Aqui o conflito de idéias não é uma debilidade, mas uma necessidade. Não se avança em psicopatologia negando e anulando diferenças conceituais e teóricas; evolui-se, sim, pelo esforço de esclarecimento e aprofundamento de tais diferenças, em discussão aberta, desmistificante e honesta. A seguir, são apresentadas algumas das principais correntes da psicopatologia, dispostas de forma arbitrária, por motivos estritamente didáticos, em pares antagônicos. PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA DINÂMICA Para a psiquiatria descritiva, interessa fundamentalmente a forma das alterações psíquicas, a estrutura dos sintomas, aquilo que caracteriza a vivência patológica como sintoma mais ou menos típico. Já para a psiquiatria dinâmica, interessa o conteúdo da vivência, os movimentos internos de afetos, desejos e temores do indivíduo, sua experiência particular, pessoal, não necessariamente classificável em sintomas pre-

36 Paulo Dalgalarrondo viamente descritos. A boa prática em saúde mental implica a combinação hábil e equilibrada de uma abordagem descritiva, diagnóstica e objetiva e uma abordagem dinâmica, pessoal e subjetiva do doente e de sua doença. Assim, logo na introdução de seu tratado de psiquiatria, Bleuler (1985, p. 1) afirma que: Quando um médico se defronta com a grande tarefa de ajudar uma pessoa psiquicamente enferma, vê à sua frente dois caminhos: ele pode registrar o que é mórbido. Irá, então, a partir dos sintomas da doença, concluir pela existência de um dos quadros mórbidos impessoais que foram descritos. [...] Ou pode trilhar outro caminho: pode escutar o doente como se fosse um amigo de confiança. Nesse caso, dirigirá a sua atenção menos para constatar o que é mórbido, para anotar sintomas psicopatológicos e, a partir disso, chegar a um diagnóstico impessoal, e mais para tentar compreender uma pessoa humana na sua singularidade e covivenciar suas aflições, seus temores, seus desejos e suas expectativas pessoais. PSICOPATOLOGIA MÉDICA VERSUS PSICOPATOLOGIA EXISTENCIAL A perspectiva médico-naturalista trabalha com uma noção de homem centrada no corpo, no ser biológico como espécie natural e universal. Assim, o adoecimento mental é visto como um mau funcionamento do cérebro, uma desregulação, uma disfunção de alguma parte do aparelho biológico. Já na perspectiva existencial, o doente é visto principalmente como existência singular, como ser lançado a um mundo que é apenas natural e biológico na sua dimensão elementar, mas que é fundamentalmente histórico e humano. O ser é construído por meio da experiência particular de cada sujeito, na sua relação com outros sujeitos, na abertura para a construção de cada destino pessoal. A doença mental, nessa perspectiva, não é vista tanto como disfunção biológica ou psicológica, mas, sobretudo, como um modo particular de existência, uma forma trágica de ser no mundo, de construir um destino, um modo particularmente doloroso de ser com os outros. PSICOPATOLOGIA COMPORTAMENTAL-COGNITIVISTA PSICANALÍTICA Na visão comportamental, o homem é visto como um conjunto de comportamentos observáveis, verificáveis, que são regulados por estímulos específicos e gerais, e por certas leis e determinantes do aprendizado. Associada a essa visão, a perspectiva cognitivista centra atenção sobre as representações cognitivas conscientes de cada indivíduo. As representações conscientes seriam vistas como essenciais ao funcionamento mental, normal e patológico. Os sintomas resultam de comportamentos e representações cognitivas disfuncionais, aprendidas e reforçadas pela experiência sociofamiliar. Em contraposição, na visão psicanalítica, o homem é visto como ser determinado, dominado, por forças, desejos e conflitos inconscientes. A psicanálise dá grande importância aos afetos, que, segundo ela, dominam o psiquismo; o homem racional, autocontrolado, senhor de si e de seus desejos, é, para ela, uma enorme ilusão. Na visão psicanalítica, os sintomas e síndromes mentais são considerados formas de expressão de conflitos, predominantemente inconscientes, de desejos que não podem ser realizados, de temores aos quais o indivíduo não tem acesso. O sintoma é encarado, nesse caso, como uma forma-

Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 37 ção de compromisso, um certo arranjo entre o desejo inconsciente, as normas e as permissões culturais e as possibilidades reais de satisfação desse desejo. A resultante desse emaranhado de forças, dessa trama conflitiva inconsciente, é o que se identifica como sintoma psicopatológico. PSICOPATOLOGIA CATEGORIAL DIMENSIONAL As entidades nosológicas ou transtornos mentais específicos podem ser compreendidos como entidades completamente individualizadas, com contornos e fronteiras bem-demarcados. As categorias diagnósticas seriam espécies únicas, tal qual espécies biológicas, cuja identificação precisa constituiria uma das tarefas da psicopatologia. Assim, entre a esquizofrenia e os transtornos afetivos bipolares e os delirantes, haveria, por exemplo, uma fronteira nítida, configurando-os como entidades ou categorias diagnósticas diferentes e discerníveis na sua natureza básica. Em contraposição a essa visão categorial, alguns autores propõem uma perspectiva dimensional em psicopatologia, que seria hipoteticamente mais adequada à realidade clínica. Haveria, então, dimensões como, por exemplo, o espectro esquizofrênico, que incluiria desde formas muito graves, tipo demência precoce (com grave deterioração da personalidade, embotamento afetivo, muitos sintomas residuais), formas menos deteriorantes de esquizofrenia, formas com sintomas afetivos, chegando até um outro pólo, de transtornos afetivos, incluindo formas com sintomas psicóticos até formas puras de depressão e mania (hipótese esta que se relaciona à antiga noção de psicose unitária). Algumas polaridades dimensionais em psicopatologia seriam, por exemplo: Esquizofrenia deficitária / Esquizofrenia benigna / Psicoses esquizoafetivas / Transtornos afetivos com sintomas psicóticos / Transtornos afetivos menores ou Depressões graves (estupor, psicótica) / Depressão bipolar / Depressões moderadas / Distimia / Personalidade depressiva / Depressão subclínica. PSICOPATOLOGIA BIOLÓGICA SOCIOCULTURAL A psicopatologia biológica enfatiza os aspectos cerebrais, neuroquímicos ou neurofisiológicos das doenças e dos sintomas mentais. A base de todo transtorno mental são alterações de mecanismos neurais e de determinadas áreas e circuitos cerebrais. Nesse sentido, o aforismo do psiquiatra alemão Griesinger (1845) resume bem essa perspectiva: doenças mentais são (de fato) doenças cerebrais. Em contraposição, a perspectiva sociocultural visa estudar os transtornos mentais como comportamentos desviantes que surgem a partir de certos fatores socioculturais, como discriminação, pobreza, migração, estresse ocupacional, desmoralização sociofamiliar, etc. Os sintomas e os transtornos devem ser estudados, segundo essa visão, no seu contexto eminentemente sociocultural, simbólico e histórico. É nesse contexto de normas, valores e símbolos culturalmente construídos que os sintomas recebem seu significado, e, portanto, poderiam ser precisamente estudados e tratados. Mais que isso, a cultura, em tal perspectiva, é elemento fundamental na própria determinação do que é normal ou patológico, na constituição dos transtornos e nos repertórios terapêuticos disponíveis em cada sociedade.

38 Paulo Dalgalarrondo PSICOPATOLOGIA OPERACIONAL- PRAGMÁTICA VERSUS PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL Na visão operacional-pragmática, as definições básicas de transtornos mentais e sintomas são formuladas e tomadas de modo arbitrário, em função de sua utilidade pragmática, clínica ou orientada à pesquisa. Não são questionados a natureza da doença ou do sintoma e tampouco os fundamentos filosóficos ou antropológicos de determinada definição. Trata-se do modelo adotado pelas modernas classificações de transtornos mentais; o DSM-IV, norteamericano, e a CID-10, da OMS. Por sua vez, o projeto de psicopatologia fundamental, proposto pelo psicanalista francês Pierre Fedida, visa centrar a atenção da pesquisa psicopatológica sobre os fundamentos de cada conceito psicopatológico. Além disso, tal psicopatologia dá ênfase à noção de doença mental como pathos, que significa sofrimento, paixão e passividade. O pathos, diz Berlinck (1977), é um sofrimento-paixão que, ao ser narrado a um interlocutor, em certas condições, pode ser transformado em experiência e enriquecimento. Questões de revisão Cite e defina oito correntes da psicopatologia. Discuta as principais diferenças entre a psicopatologia médica e a existencial, assim como entre a psicopatologia categorial e a dimensional.