PARECER Nº 13.746 DOAÇÃO DE BEM IMÓVEL, ONDE IMPLANTADA ESCOLA MUNICIPAL, AO MUNICÍPIO DE CAPIVARI. VIABILIDADE, DESDE QUE PRESENTE INTERESSE PÚBLICO DEVIDAMENTE JUSTIFICADO, FEITA PRÉVIA AVALIAÇÃO DO BEM E EDITADA LEI AUTORIZATIVA DA ALIENAÇÃO, NOS TERMOS DO ARTIGO 17, INCISO I, ALÍNEA B, DA LEI Nº 8.666/93. Sra. Procuradora-Geral: O presente expediente é remetido para esta Procuradoria-Geral pela Casa Civil, para análise do pleito formulado pelo Sr. Prefeito do Município de Capivari, no sentido de que seja doado àquela municipalidade o imóvel de propriedade do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem - DAER -, já ocupado pelo Município para abrigar escola municipal, com amparo no Termo de Cessão de Uso firmado entre as partes em 16/12/98 e respectivo Termo Aditivo datado de 08/08/00. Requer, então, o Sr. Prefeito, o empenho do Sr. Governador do Estado no encaminhamento de projeto de lei à Assembléia Legislativa que autorize tal doação.
Considerando que o mesmo pedido já fora formulado pelo Município de Capivari anteriormente, dando origem ao expediente nº 006002-08.01/00-2, solicitei fosse o mesmo apensado para exame conjunto. Analisando aquele expediente, verifica-se que o pleito foi indeferido, porque entendeu a Assessoria Jurídica do DAER que a doação dos imóveis não poderia ser deferida face à Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 927-3/9/3STF, que suspendeu a eficácia dos dispositivos da Lei de Licitações que a facultavam (fl. 23). Aduziu, ainda: No que tange a esses casos, reiteradamente esta Autarquia vem decidindo pela celebração de Autorização de Uso do bem público, inclusive com outros órgãos públicos, preenchendo-se a lacuna legislativa com o instituto mais apropriado. Assim, foi firmado com o Município de Capivari o Termo de Autorização de Uso nº PJ/027/01 (fl. 30), em 16/08/01, com vigência por prazo indeterminado, tendo como objeto 1 (um) terreno urbano, com área aproximadamente de 10.000m2, bem como, suas benfeitorias (patrimônios: 2279, 3422, 3464, 3636 e 3434), localizado no local Sesmaria do Quilombo, junto a antiga RS1, com frente para a Av. Quilombo e a rua 14, do mapa cadastral da Prefeitura de Capivari do Sul, registrado no Registro de Imóveis sob o nº - Osório 1/9359 do Livro nº 02, visando a implantação de sua Escola Municipal (cláusula 2ª). É o relatório. A Lei nº 8.666/93, em seu artigo 17, permite à Administração Pública a doação de bens, tanto imóveis (inciso I) quanto móveis (inciso II), dispensando, nestes casos, a licitação. Como assevera MARCOS JURUENA VILLELA SOUTO, Os casos de licitação dispensada são os relacionados com a dação em pagamento, doação e permuta de bens; nestas hipóteses, o destinatário é certo, não havendo razão para instaurar-se o processo seletivo, pelo que a própria lei encarregou-se de dispensá-lo, sem que haja aí qualquer violação aos princípios da moralidade ou da isonomia (In Licitações & Contratos Administrativos, ed. ADCOAS, 3ª ed., 1998, p. 142). 2
Assim, o caput do artigo 17 prevê que a alienação dos bens da Administração Pública deva ser sempre subordinada ao interesse público (devidamente justificado) e precedida de avaliação. Distingue, depois, outras exigências, variáveis conforme se trate de bem imóvel ou móvel. Sendo o bem imóvel, diz o inciso I que a alienação dependerá de autorização legislativa para órgãos da administração direta e entidades autárquicas e fundacionais, e, para todos, inclusive as entidades paraestatais, dependerá de avaliação prévia e de licitação na modalidade de concorrência, dispensada esta nos seguintes casos. A seguir, arrola, nas alíneas a até f, as hipóteses de dispensa de licitação, tratando da doação na alíena b, que tem a seguinte redação: b) doação, permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo. Este dispositivo foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADIn nº 927-3, cuja medida cautelar foi deferida pelo Supremo Tribunal Federal, sendo a decisão publicada no DJU de 03/11/93, seção 1, p. 23801. Em razão da medida liminar concedida, a expressão permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo restou suspensa, de modo que a norma passou a permitir a doação sem restrições. Comentando a referida decisão, MARÇAL JUSTEN FILHO elucida seu alcance, verbis: O STF, em decisão cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 927-3/RS, promovida pelo Governador do Estado do Rio Grande do Sul, suspendeu a vigência: a) quanto a Estados, Distrito Federal e Municípios e respectivas administrações indiretas da expressão permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo, contida no inc. I, al. b ; b) do disposto na alínea c do mesmo inc. I; 3
c) quanto a Estados, Distrito Federal e Municípios e respectivas administrações indiretas da expressão permitida exclusivamente entre órgãos ou entidades da Administração Pública, contida no inc. II, al. b ; e d) do disposto no par. 1º do art. 17. (In Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, ed. Dialética, 5ª ed., 1998, p. 163). Ainda sobre a citada decisão do Pretório Excelso, elucida JORGE ULISSES JACOBY FERNANDES: O governo do Estado do Rio Grande do Sul questionou a constitucionalidade desse dispositivo e o Supremo Tribunal Federal, em caráter liminar, no julgamento da ADIn nº 927-3, decidiu suspender a eficácia da expressão exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo. Deliberando nesse sentido, a lei deve ser interpretada considerando escrita esta expressão apenas para os órgãos da Administração Pública federal, direta, indireta e fundacional, e não escrita para as demais esferas de governo, que, em conseqüência, podem continuar promovendo doação de imóvel, inclusive para particulares, respeitadas as demais exigências - interesse público justificado, avaliação prévia e autorização legislativa para a administração direta, autárquica e fundacional. Releva evidenciar que a decisão ocorreu em sede liminar, vigorando até ulterior decisão definitiva. Com a força normativa da decisão em epígrafe, os Estados poderão promover doação, inclusive a particulares, como dito, ficando a sociedade e os órgãos de controle incumbidos de avaliar a correlação entre o ato do donatário e a satisfação do interesse público, que deve ser o pano de fundo, escopo permanente do ato administrativo. (In Contratação Direta sem Licitação, ed. Brasília Jurídica, 5ª ed., 2000, pp. 241/242). 4
Nesse passo, impende destacar o equívoco perpetrado pela Assessoria Jurídica do DAER, ao entender que a decisão prolatada pelo STF na ADIN nº 927-3 havia suspendido integralmente a eficácia da norma estampada no artigo 17 da Lei nº 8.666/93, de modo que o Estado estaria impedido de realizar doações. Como visto acima, foi suspensa, para Estados, Distrito Federal, Municípios e respectivas administrações indiretas, a expressão que restringia a doação ( permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo ), passando a norma a permitir a doação sem aquelas restrições. Em conclusão, viável a doação do imóvel de propriedade do DAER ao Município de Capivari, desde que presente interesse público justificado (o que, no presente caso, parece evidenciado, pois implantada Escola Municipal no local), realizada prévia avaliação do bem e editada lei autorizando tal alienação. É o Parecer. Porto Alegre, 16 de junho de 2003. Helena Beatriz Cesarino Mendes Coelho Procuradora do Estado Ref. Expedientes nº 013407-10.00/03-9 e nº 031438-18.35/01-3 5
Processos nºs 013407-10.00/03-9 e 031438-18.35/01-3 Acolho as conclusões do PARECER nº 13.746, da Procuradoria do Domínio Público Estadual, de autoria da Procuradora do Estado Doutora HELENA BEATRIZ CESARINO MENDES COELHO. Restituam-se os expedientes ao Excelentíssimo Senhor Chefe da Casa Civil. Em 28.08.03 Helena Maria Silva Coelho, Procuradora-Geral do Estado.