UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOÍAS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE MORRINHOS LICENCIATURA PLENA EM LETRAS ANA FLÁVIA DE OLIVEIRA LILLIANE RODRIGUES DA SILVA



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Transcrição:

1 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOÍAS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE MORRINHOS LICENCIATURA PLENA EM LETRAS ANA FLÁVIA DE OLIVEIRA LILLIANE RODRIGUES DA SILVA MONOGRAFIA A LEITURA INFANTO-JUVENIL NA FORMAÇÃO DO LEITOR E CIDADÃO CRÍTICO Morrinhos 2008

2 Oliveira, Ana Flávia de. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS - UEG Biblioteca Professor Sebastião França Ficha Catalográfica na Fonte A leitura infanto-juvenil na formação do leitor e cidadão crítico. Ana Flávia de Oliveira, Lilliane Rodrigues da Silva. Morrinhos, 2008. 49 f. Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Estadual de Goiás UEG, Unidade de Morrinhos como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado no Curso de Licenciatura Plena em Letras. Orientador: Professor Doutor Ewerton de Freitas Ignácio. 1. Literatura infanto juvenil. 2. Crítica. 3. Trabalho de Conclusão de Curso. 4. TCC. I. Silva, Lilliane Rodrigues da. CDU: 82-93:37.02 CUTTER: O48l

3 ANA FLÁVIA DE OLIVEIRA LILLIANE RODRIGUES DA SILVA A LEITURA INFANTO-JUVENIL NA FORMAÇÃO DO LEITOR E CIDADÃO CRÍTICO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Letras, da Universidade Estadual de Goiás Unidade de Morrinhos, como requisito parcial à obtenção de grau de Licenciatura Plena em Português e inglês e respectivas literaturas, sob a orientação do Professor Doutor Ewerton de Freitas Ignácio. Morrinhos 2008

4 FOLHA DE APROVAÇÃO MONOGRAFIA SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DO PROGRAMA DE GRADUAÇÃO EM LETRAS PORTUGUÊS E INGLÊS E SUAS RESPECTIVAS LITERATURAS. DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UNIDADE DE MORRINHOS, COMO PARTE DAS EXIGÊNCIAS NECESSÁRIAS PARA OBTENÇÃO DE TÍTULO DE GRADUAÇÃO. Aprovada em de de 2008. Nota obtida. ---------------------------------------------------------------------------------- Orientador: Professor Doutor Ewerton de Freitas Ignácio ---------------------------------------------------------------------------------- Professor Mestre Ronaldo Elias Borges ------------------------------------------------------------------------------ Professora Especialista Célia Aparecida Ribeiro Rodrigues

5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...10 CAPÍTULO I: A LITERATURA INFANTO-JUVENIL...14 1.1 A literatura Infanto-Juvenil no contexto escolar...20 1.2 Da escrita e legitimidade da literatura infantil...22 1.3 Opiniões de autores sobre a literatura Infanto-Juvenil...22 CAPÍTULO II: PERCURSO HISTÓRICO DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA...25 CAPÍTULO III: DIDÁTICA DA LEITURA DA LITERATURA INFANTO- JUVENIL...31 CONSIDERAÇÕES FINAIS...38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...40 ANEXOS...41

6 Na verdade, acho que as crianças deviam aprender a ler nos livros de Hegel e em longos tratados de metafísica. Só elas tem a visão adequada à densidade do texto, o gosto pela abstração e tempo disponível para lidar com o infinito. E na velhice, com a sabedoria acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores à medida que nossos olhos se cansavam, estaríamos então prontos para enfrentar o conceito básico de que vovô vê a uva, e viva o vovô. Toda essa inquietação, nossa perplexidade e nossa busca terminariam na resolução deste enigma primordial... Nosso último livro seria a cartilha. E a nossa última aventura intelectual, a contemplação enternecida da letra A. Ah o A, com suas grandes pernas abertas. (Luís Fernando Veríssimo)

7 AGRADECIMENTOS Agradecemos primeiramente a Deus, que em sua infinita bondade e sabedoria, guiou os nossos passos e permitiu que chagássemos até aqui, pois nos proporcionou a chance de demonstrar a nossa capacidade para a realização deste trabalho que, apesar de árduo, hoje nos proporciona orgulho. Mais uma vez, agradecemos a nosso professor e amigo Ewerton de Freitas, que nos orientou para que aqui pudéssemos estar. Agradecemos, ainda, a todos que, direta ou indiretamente, nos ajudaram para a concretização deste sonho. A todos, muito obrigado!

8 DEDICATÓRIA Dedicamos este trabalho àquelas pessoas que, mesmo de longe, estiveram torcendo por nós, avôs, pais, marido, tios, filhos e irmãos que suportaram nossa ausência para que alcançássemos mais um passo na estrada da vida estudantil, agora com muito orgulho concretizada e com um patamar a mais: a graduação. São eles nossos exemplos de força e amor. Nosso eterno amor a todos vocês que, mesmo distantes, mandaram suas energias para que nosso trabalho fosse revitalizado pela força do amor. A vocês, nossa vitória.

9 RESUMO O presente trabalho tem por finalidade demonstrar as faces da leitura, incluindo em nossa pesquisa aspectos formadores de um indivíduo, que por meio da leitura, torne-se critico e também consciente em relação ao poder da leitura e da escrita, usando assim seu poder de formação. Palavras-chave: Leitura, Literatura Infanto-Juvenil, Crítica.

10 ABSTRACT This paper aims to demonstrate the diversity of literature including in our research aspects of an individual trainer that through reading becomes critical and also aware of the power of reading and writing, using as their power training. Key words: Reading, Child and Young Literature, Criticism.

11 INTRODUÇÃO Apresentamos o seguinte trabalho não com o intuito de revelar a verdade sobre a Literatura Infanto-Juvenil, mas, sim, para descrever quão grande é o fascínio causado por meio da leitura, mesmo que seja momentâneo, e lembrar que a Literatura Infanto-Juvenil pode e deve influenciar na formação do cidadão, seja de forma crítica, social e até mesmo emocional. Em face de uma realidade não muito fomentada na leitura, em que pais mal cursaram o 4º ano primário, famílias para as quais a leitura não é o principal anseio, mas sim o alimento de cada dia, faz com que a tarefa torne-se concreta e desafiante, que torna-se cada vez mais urgente uma nova reflexão sobre a Educação e o Ensino, pois é nessa área que os novos princípios ordenadores da sociedade serão definidos, equacionados e transmitidos a todos, para que uma nova civilização se construa. Desde os anos 70 e 80, as experiências, debates e propostas para reformas educacionais vêm se multiplicando de maneira significativa, principalmente no âmbito da Língua e da Literatura. E com especial cunho polêmico na área da Literatura Infanto-Juvenil. Tal predominância pode até parecer absurda aos distraídos que ainda não descobriram que a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível de consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância. Ou ainda não descobriram que o caminho essencial para se chegar a esse nível é a palavra, ou melhor, é a Literatura. É ao livro, à palavra escrita, que atribuímos a maior responsabilidade na formação da consciência de mundo das crianças e dos jovens. Apesar de todos os prognósticos pessimistas acerca do futuro do livro (ou melhor, da Literatura), nesta nossa era de imagem e comunicação instantânea, a verdade é que a palavra literária escrita está mais viva do que nunca. E, segundo Paulo Freire em seu livro A importância do ato de ler, parece já fora de qualquer dúvida que nenhuma outra forma de ler o mundo é tão rica e eficaz quanto a que a Literatura nos permite. A Literatura Infanto-Juvenil, nosso principal objeto de estudo, é muito complexa quando partimos para sua conceituação, acreditamos que ela interfere de modo agradável e diferente em torno de cada indivíduo e que sua leitura, no processo de ensino-aprendizagem, constitui-se de uma fonte para a abertura da formação de uma nova mentalidade. Constatamos

12 sua complexidade ao seguirmos seu percurso histórico, e depararmos com o fato de que, em suas origens elas surgiram destinadas ao público adulto, e com o tempo, através de um misterioso processo, se transformaram em literatura para pequenos. Vulgarmente, a expressão Literatura Infanto- Juvenil remete de imediato à idéia de belos livros coloridos destinados à distração e ao prazer das crianças em lê-los, folheá-los, ou ouvir o enredo contado por alguém. Ou, a uma literatura minimizada, adaptada, livre de dificuldades de linguagem, de digressões ou reflexões que estariam acima da compreensão infantil. Mas, em essência, sua natureza é a mesma que se destina aos adultos, a diferença está na singularidade determinada pela natureza de seu leitor/receptor: a criança. Drummond, diante dessa constatação, sugere questionamentos na tentativa de descobrir o que existiria originalmente em tais obras, para que este processo de transformação tenha operado, visto que certas obras passavam a interessar às crianças e outras não. Então, antes de se conceituarem em Literatura Infantil, os chamados clássicos eram obras da Literatura Popular (de gente grande), que tinha a intenção de passar determinados valores e padrões a serem respeitados pela comunidade ou incorporados pelo indivíduo em seu comportamento, o que dá ao gênero Literatura Infantil existência duvidosa como Drummond sugere, lembramos também que tal citação será mais uma vez remetida ao presente trabalho de forma a justificar o porquê de sua presença neste trabalho acadêmico. Todas essas indagações nos levam, por sua vez, a uma nova indagação: Qual seria a identidade existente entre a Literatura Popular e a Literatura Infanto- Juvenil para que tal transformação se tivesse dado no processo de construção dos valores de uma sociedade (ou ainda se dê) por meio da formação de leitores. Para tentarmos encontrar os caminhos que levam a esta identidade, dividiremos este estudo em capítulos. No primeiro trataremos sobre as diversas pontes estabelecidas pela Literatura Popular e Infanto Juvenil, relacionando o leitor com o mundo que o cerca e o real motivo da criação de uma literatura Infanto-Juvenil. No segundo, trabalharemos a Trajetória da literatura Infanto-Juvenil ao longo das décadas e a atuação da Literatura Popular e Infanto Juvenil na construção dos valores de uma sociedade, incluindo seu aspecto lúdico-imaginário, diante da realidade da globalização, sendo a literatura uma forma de desenvolvimento da criticidade do leitor. E no terceiro capítulo falaremos, sobre a didática da leitura da Literatura Infanto-Juvenil.

13 Chegamos a estes tópicos de estudo, uma vez que, segundo o estudioso René Húbert, a identidade da Linguagem infantil e Linguagem de gente grande podem estar na mentalidade primária de apreender o eu interior ou da realidade exterior (seja o outro, seja o mundo). O sentimento do eu (pessoa) predomina sobre a percepção do outro (seres ou coisas do mundo exterior). Fica claro que esta relação homem do povo (mente iletrada) e a criança (mente imatura) se estabelecem basicamente através da sensibilidade, dos sentidos e das emoções. O conhecimento da realidade tanto para um quanto para o outro, se dá através do sensível, do emotivo, da intuição, e não através do racional ou da inteligência intelectiva, como acontece com a mente adulta e culta (alicerçada em fórmulas, teses e resultados). Em ambos predomina o pensamento mágico, com sua lógica própria. Daí que o popular e o infantil se sintam atraídos pelas mesmas realidades. Dessa forma, toda leitura que, consciente ou inconscientemente, se faça em sintonia com a essencialidade do texto lido, resultará na formação de determinada consciência de mundo no espírito do leitor; resultará na representação de determinada realidade ou valores que tomam corpo em sua mente. Dessa forma, deduz-se que o poder de propagação de idéias, padrões ou valores que são inerentes ao fenômeno literário. É, portanto, uma relação que se estabelece entre o eu e o outro (tudo que não seja o próprio eu), que nasce a consciência, e desta resulta o conhecimento. Como nos afirma o pedagogo e psicólogo francês René Hubert, 1957: a consciência se descobre como relação entre um objeto e um sujeito claramente distintos um ao outro, opostos um ao outro e, ao mesmo tempo, unidos um ao outro. Nosso trabalho também apresentará alguns anexos com o intuito unicamente de exemplificação e constatação da real opinião que alguns autores tem sobre a literatura Infanto- Juvenil. Seguiram, como anexos, os seguintes textos: A história da Leitura no Mundo Ocidental por Roger Chartier e Guglielmo Cavallo que reforça os princípios históricos do nosso tema. Já no texto A liberdade infinita da literatura juvenil de André Forasteri, temos a discussão do que realmente seria um livro juvenil, e finalizando, temos uma entrevista de opinião com Alberto Manguel, autor da obra Uma história da leitura, na presente entrevista temos o diálogo do escritor respondendo sobre leitura.

14 I CAPÍTULO LITERATURA INFANTO-JUVENIL O presente trabalho e as considerações nele tecidas estão embasadas no livro de Regina Zilberman e Marisa Lajolo, intitulado Literatura infantil brasileira: história e histórias (1985), obra de que partimos e a qual nos remetemos neste trecho do trabalho. A história da Literatura começa a se delinear no início do século XVIII, quando a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias, pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta. Antes disso, a criança acompanhava a vida social do adulto, participando também da sua literatura. As primeiras obras publicadas visando o público infantil apareceram no mercado na primeira metade do século XVIII. Antes disto, apenas durante o classicismo francês, no século XVII, foram escritas histórias que vieram a ser englobadas como literatura também apropriada à infância: as Fábulas, de La Fontaine, editadas entre 1668 e 1694, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon, lançadas postumamente, em 1717, e os Contos da Mamãe Gansa, cujo titulo original era Histórias ou narrativas do tempo passado com moralidades, que Charles Perrault publicou em 1697. A literatura Infanto-Juvenil é um ramo da literatura dedicado especialmente às crianças e jovens adolescentes. Isto inclui histórias fictícias infantis e juvenis, biografias, novelas, poemas, obras folclóricas ou culturais ou simplesmente obras que contenham e expliquem fatos da vida real (ex: artes, ciências, matemática e outros). Zilberman (1985), vem mostrar, em seu texto, que a nossa cultura está ainda muito impregnada do domínio do século passado, quando as crianças eram afastadas de todos os objetos culturais. Os livros não eram produzidos para as crianças, eram como se a infância não existisse. As crianças eram consideradas como adultos, compartilhando o mesmo espaço destes. Surge então a necessidade de mudar esse conceito de infância, para que a criança pudesse ter seu espaço, ser tratada como criança e a afetividade se fizesse mais presente em sua vida. Devido à necessidade dessa mudança, foram escritos os primeiros textos para crianças no fim do século XVII e meados do século XVIII. O encontro da literatura com a escola não aconteceu por acaso, professores e pedagogos escreveram seus textos com uma

15 intenção educativa e por isso não foi aceita como arte. Essa literatura tinha como objetivo manter o domínio sobre a criança. As fábulas são um exemplo de domínio desses valores moralizantes destinadas a ilustrar um preconceito, e sua conclusão oferece sempre uma lição e um julgamento, acentuando os compromissos da literatura infantil com a pedagogia e com a doutrinação que vem desde o início histórico da produção infantil. A produção de literatura Infanto-Juvenil no Brasil é relativamente recente, tendo surgido em meados da Proclamação da República, período de grande turbulência política, econômica e social. O fortalecimento do novo governo requeria a imagem de um Brasil em modernização, no qual se defendia a substituição da mão-de-obra escrava e uma política econômica que favorecesse a produção cafeeira. O fortalecimento da venda da produção literária teve maior destaque, pois, houve o favorecimento das camadas médias, consolidando o mercado de consumo. Dessa forma, o consumo de bens, como livros de literatura, refletia o ideal de escolarização e cultura com os quais essas camadas desejavam se identificar, cujo representante era a alta burguesia. Assim, entre o fim do século XIX e início do século XX, atrelado ao processo de urbanização, há o surgimento da literatura Infanto-Juvenil como bem de consumo das massas urbanas. Foi nesse momento que se percebeu a carência, no mercado, de material adequado às crianças brasileiras, pois grande parte das obras Infanto-Juvenis em circulação provinha de traduções e adaptações de obras estrangeiras que circulavam geralmente em edições portuguesas, mantendo grande diferença entre sua produção literária e a realidade das crianças brasileiras. Em conseqüência, intelectuais, jornalistas e professores iniciaram esforços para produzir livros infanto-juvenis para os estudantes, obras que se encarregavam de traduzir os valores nacionais de modernização e patriotismo. Assim, antes da instituição da Literatura infantil, a criança tinha acesso a uma literatura diferente. A criança da nobreza era orientada por preceptores e lia geralmente os grandes clássicos, enquanto que as crianças das classes desprivilegiadas liam ou ouviam as histórias de cavalaria, de aventuras. As lendas e contos folclóricos formavam uma literatura de cordel, de grande interesse das classes populares. Sobre o surgimento da literatura infantil, com a ascensão da burguesia, comenta Regina Zilberman (1994):

16 Antes da constituição deste modelo familiar burguês, inexistia uma consideração especial para com a infância. Essa faixa etária não era percebida como um tempo diferente, nem o mundo da criança como um espaço separado. Pequenos e grandes compartilhavam dos mesmos eventos, porém nenhum laço amoroso especial os aproximava. A nova valorização da infância gerou maior união familiar, mas igualmente os meios de controle do desenvolvimento intelectual da criança e manipulação de suas emoções. Literatura Infantil e escola inventada a primeira e reformada a segunda, são convocadas para cumprir esta missão (1994, p. 15). Nos livros que fazem referência à história da literatura, encontramos, que além da literatura considerada universal, podemos citar alguns autores que vão trazendo para o mundo literário algumas propostas diversificadas são eles: Andersen, Carlo Collodi, Amicis, Lewis Caroll, J. M. Barrie, Mark Twain, Charles Dickens, Ferenc Molnar. No Brasil, não foi diferente, a literatura Infanto-Juvenil teve início com obras pedagógicas e, adaptações de produções portuguesas, demonstrando a dependência também literária em relação às colônias. Essa fase inicial da literatura infantil brasileira é representada em especial por Carlos Jansen (Contos seletos das mil e uma noites, Robinson Crusoé, As viagens de Gulliver a terras desconhecidas), Figueiredo Pimentel (Contos da carochinha), Coelho Neto e Olavo Bilac (Contos Pátrios) e Tales de Andrade (Saudade). Estas obras, dentre outras, se identificariam com a intenção do novo governo de legitimar a imagem de um país em modernização e configuravam um instrumento que traduzia seus ideais nascentes de unidade, identidade e modernidade em decorrência da consolidação do Brasil enquanto país independente. Foram estas as condições, dentre outras, que permitiram o surgimento de uma literatura nacionalista, que exaltava a pátria e criava a identidade do cidadão brasileiro. Essa literatura esteve presente nas práticas escolares, já que fazia parte de um projeto ideológico e educativo que vislumbrava, na literatura Infanto- Juvenil, uma oportunidade de inserção dos ideais de modernização. Tal sentimento nacionalista pode ser verificado no seguinte excerto: A esta Terra, onde o engenho divino Esgotou seu poder criador, Brasileiros, cantemos um hino, Hino feito de glória e amor. Terra ideal, de extensões infinitas, Cheia de ouro e de amor, Terra ideal,

17 Que, amorosa e cativa, palpitas, Ás carícias de um sol tropical. Pátria amada, onde a luz tanto brilha, Esplendores são tantos os teus Que és a maior maravilha Das que existem criadas por Deus. ( Hino à Pátria Francisca Júlia-1912) Por meio desse trecho, podemos verificar uma literatura nacionalista que exalta a pátria brasileira, constituindo um grande instrumento para a valorização do sentimento nacional. O incentivo ao civismo contribuiu, por um lado, para a constituição e desenvolvimento da literatura infanto-juvenil como gênero, garantindo sua perpetuação. Por outro lado, também contribuiu para mantê-la dentro de um conservadorismo contraditório, no qual permaneceu por muito tempo. Devido ao aumento das classes populares na escola e, conseqüentemente, ao aumento do uso do livro infanto-juvenil com função didática, houve, na década de 20, uma grande produção de obras de literatura infanto-juvenil. Mas, como essa produção de obras de literatura tinha por finalidade somente didática do livro o Estado controlava sua produção, o que significa que os textos se prendiam, quase que exclusivamente, aos conteúdos escolares, ou seja, o livro oferecido pelo Estado era uma forma de repressão às pessoas que detinham um gênero contestador. Quase toda obra literária infantil possui algumas características em comum, embora exceções existam: Ausência de temas adultos ou não apropriados a crianças. Isto inclui guerras, crimes hediondos e drogas, por exemplo; São textos relativamente curtos não possuem mais do que 80 a 100 páginas; Presença de estímulos visuais (cores, imagens, fotos, etc.) Escrito em uma linguagem simples, apresentando um fato ou uma historia de maneira clara;

18 São de caráter didático, ensinando ao jovem leitor regras da sociedade ou comportamentos sociais; No caso de obras fictícias (novela, histórias): Possuem mais diálogos e diferentes acontecimentos, com poucas descrições; Crianças são os principais personagens da história; Normalmente possuem um final feliz. A literatura juvenil é um ramo da literatura dedicada a leitores entre dez e quinze anos de idade. Fatos comuns a obras literárias juvenis em geral incluem: Geralmente, apresentam temas de interesse ao jovem adolescente, controversos, como sexo, violência, drogas, relacionamentos amorosos, etc; Personagens, especialmente protagonistas, da mesma faixa etária dos leitores; Podem possuir imagens e fotos, mas não necessariamente; são basicamente constituídas de texto; Obras literárias juvenis geralmente apresentam um número maior de páginas, podendo alcançar 200 a 300 páginas em vários casos; Ela denota a forma de expressão das experiências humanas objetivando um público muito específico e difícil de agradar. O público-alvo da literatura infanto-juvenil são leitores em formação, crianças, pré-adolescentes e jovens em idade escolar. Como sabemos, as crianças e jovens são extremamente críticos e verdadeiros. Dentro de sua espontaneidade, eles não titubeiam ao elogiar ou criticar um novo livro. A literatura infanto-juvenil é um dos maiores instrumentos de conscientização desse grupo ainda imaturo, mas evidentemente esperto, para perceber os problemas do mundo moderno. Ela mexe com suas emoções e sentimentos, e atua diretamente na formação de conceitos. Um bom livro pode interagir diretamente na assimilação do conhecimento e na construção da afetividade, elementos essenciais para a formação e desenvolvimento do ser humano e sua promoção social. Sobre isso, Fanny Abramovich (1994) afirma: Querer saber de todo o modo o processo que acontece do nascimento, até a morte, faz parte da curiosidade natural da criança, pois se trata da vida em geral e da sua própria em particular... Saber sobre seu corpo, sua sexualidade, seus problemas de crescimento, sua relação (fácil ou dificultosa) com os outros faz parte do seu

19 perguntar sobre si mesma e do precisar encontrar respostas... Querer discutir relações familiares fáceis/ difíceis/ conflituadas/ dispersivas/ gregárias/ simpáticas etc., e até a nova estruturação das famílias nestas décadas quando há tantos casamentos desfeitos e refeitos faz parte do repertorio indagativo e questionador de toda pessoa... Querer saber mais sobre aflições, tristezas, dificuldades, conflitos duvidas, sofrências, descobertas, que outros enfrentam, para poder compreender melhor as suas próprias... Querer se enfronhar mais nas questões do poder, no jogo das manipulações políticas, nas discussões sobre o mundo circundante, faz parte da curiosidade de qualquer um que veja o noticiário da TV ou escute o do rádio ou leia jornal... (1994, p.98) Dentre os grandes autores, estão Ruth Rocha, Ziraldo, Monteiro Lobato, Maria Clara Machado, e muitos outros. 1.1 A literatura Infantil no contexto escolar A literatura Infantil na escola é um dos grandes avanços pedagógicos, em que o público-alvo é a criança em formação, possibilitando a reflexão, compreensão, refletindo assim, de forma decisiva na estruturação da própria identidade, em que a criança possa ser capaz de interagir no contexto social, relatando o seu surgimento e a finalidade com que foi introduzida no âmbito escolar. Mas, além de haver literatura infanto-juvenil na escola, é preciso que o professor saiba como trabalhar tais textos. A leitura é um meio de propagação de ideologias, responsável pela mudança social de cada um. Abramovich (1994) assevera: Ao ler uma história a criança também desenvolve todo um potencial crítico. A partir daí ela pode pensar, duvidar, se perguntar, questionar... Pode se sentir inquietada, cutucada, querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de opinião... E isso não sendo feito uma vez ao ano... Mas fazendo parte da rotina escolar, sendo sistematizado, sempre presente o que não significa trabalhar em cima dum esquema rígido e apenas repetitivo. (1994, p.143). Com a inserção da literatura no âmbito escolar temos um instrumento que irá auxiliar na inoculação de normas e valores.

20 No momento em que nossos pequenos leitores ouvem uma história e compartilham com o grupo sua opinião e/ou compreensão do que foi lido, estarão explorando não somente dados da história, mas também suas concepções, vivências, cultura e diferentes maneiras de pensar. É fundamental que a leitura não seja associada e reduzida a tarefas. O que acontece, na maioria das escolas, entretanto, são atividades de leitura para nota, cobranças, ou seja, a leitura limita-se ao objetivo de ler para receber um conceito em troca, sem aprofundar os conhecimentos que o mundo dos livros propõe e sem relacioná-la com a vida dos alunos ou a outras disciplinas. Os professores precisam motivar os alunos para que possam, através da literatura infantil, construir seu processo de leitura e escrita. O mundo das letras já é apresentado aos alunos no seu cotidiano: por mais que seus familiares não leiam jornais, revistas, precisam ler placas, indicações e decodificar símbolos no seu dia-a-dia. Nesse contexto, é tarefa dos professores darem continuidade a esse processo com leituras que sejam uma extensão do mundo infantil, ou seja, ver a leitura como parte da vida e não como algo estanque ou somente restrito à sala de aula. 1.2 Da escrita e legitimidade da literatura Infanto-Juvenil A literatura, em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola. A literatura para a juventude é uma comunicação histórica (quer dizer localizada no tempo e no espaço) entre um locutor ou um escritor adulto (emissor) e um destinatário criança (receptor) que, por definição, de algum modo, no decurso do período considerado, não dispõe senão de forma parcial da experiência do real das estruturas lingüísticas, intelectuais, afetivas e outras que caracterizam a idade adulta. Outros criticam certas posições dogmáticas que fazem o livro, tanto a imagem como o texto, estar dependente da apreciação do adulto, considerando que a questão da apreciação tem variado conforme as épocas e os modos culturais. Regra geral mantém-se ainda, e infelizmente, a atitude dirigista e dogmática dos adultos que encerram para crianças como um terreno onde é aceitável decretar funções e modos de utilização.

21 1.3 Opiniões de autores sobre a literatura Infanto-Juvenil Ruth Rocha afirma: Escrevo pra dizer o que penso. Quero reclamar de governos autoritários. Quero mostrar a existência de desigualdade entre o homem e a mulher. Não fujo muito de temas que, supostamente, não pertencem ao universo infantil. Acho que todo mundo é capaz de aprender. (1980, p.23). Assim, Zilberman se pronuncia: Dessa maneira, o escritor, invariavelmente um adulto, transmite a seu leitor um projeto para a realidade histórica, buscando a adesão afetiva ou intelectual daquele. Em vista desse aspecto, a literatura para crianças pode ser vaga, dando vazão à representação de um ambiente perfeito e, por decorrência, distante. Porém, pela mesma razão, poucos gêneros deixam tão evidentes a natureza utópica da arte literária que, de vários, modos, expõe, em geral, um projeto para a realidade, em vez de apenas documentá-la fotograficamente. (1985, p.19). Diante das citações anteriores, temos pontos que se diferenciam e ao mesmo tempo se unem. Tratam da relação existente entre a forma que a literatura em si é utilizada pra disseminação de idéias. Apesar de uma forma bem sutil, e as autoras se divergirem, ainda temos uma ligação intrínseca do que seja literatura para ambas desde uma forma de demonstrar o que se pensa, até a retratação da realidade por meio da leitura. Podemos dizer, de forma indireta, que existem autores que questionam a existência de uma literatura dedicada exclusivamente à fase denominada de infância e adolescência que em nosso trabalho é caracterizada como literatura Infanto-Juvenil. Um exemplo de autor que faz esse tipo de questionamento é Carlos Drummond de Andrade (1964): O gênero literatura infantil tem, a meu ver, existência duvidosa. Haverá musica infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças, que não seja lido com interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de matéria de escândalo? Observados alguns cuidados de linguagem e decência, a distinção preconceituosa se desfaz. Será a criança um ser à parte, estranho ao homem, e reclamando uma literatura também à parte? Ou será literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância? Vêm-me à lembrança as miniaturas de árvores, com

22 que se diverte o sadismo botânico dos japoneses: não são organismos naturais e plenos; são anões vegetais. A redução do homem que a literatura infantil implica dá produtos semelhantes. Há uma tristeza cômica no espetáculo desses cavalheiros amáveis e dessas senhoras não menos gentis, que, em visita a amigos, se detêm a conversar com as crianças de colo, estas inocentes e sérias, dizendo-lhes toda sorte de frases em linguagem infantil, que vem a ser a mesma linguagem de gente grande, apenas deformada no final das palavras e educadora na pronúncia... Essas pessoas fazem oralmente, e sem o saber, literatura infantil. (1964, p.591). A citação acima pode vir a ser uma faca de dois gumes em relação ao presente trabalho, mas, o objetivo é justamente o questionamento, pois sem questionamento a Literatura Infanto-Juvenil não teria sentido, Drummond vai de encontro ao tema proposto no trabalho devido à sua criticidade, caso o autor não lesse, e não tivesse um bom relacionamento social, provavelmente ele não questionaria a existência da Literatura Infantil, o que queremos mostrar, ou melhor, defender é que o poder de crítica só é capaz de ser aguçado por meio da leitura, pois de nada adiantaria demonstrar apenas o lado que é a favor da existência da Literatura Infantil se sabemos que ela foi uma fonte de leitura para aqueles que hoje questionam a sua existência.

23 II CAPÍTULO TRAJETÓRIA DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL AO LONGO DAS DÉCADAS Monteiro Lobato (1882 1948) foi o grande divisor de águas na área da Literatura Infanto-Juvenil, rompendo com convenções estereotipadas e inovando através de uma linguagem coloquial e popular. Sua obra insere o leitor em um projeto de exercício de consciência crítica, perpetuando sua produção. Esta constituiu uma nova literatura que permitiu o desenvolvimento da criticidade do leitor, discutindo temas políticos, sociais e econômicos do período. Assim, Lobato principiou, através de sua obra, a conquista do verdadeiro espaço para a Literatura Infanto-Juvenil Brasileira. Em sua obra Lobato inventou personagens tais como Dona Benta, figura que serviu para recontar histórias estrangeiras como as de Dom Quixote e Peter Pan. Também criou algumas aventuras didáticas ; nas quais utilizou aventuras vividas por personagens de sua obra para perpassar a aprendizagem, como em História do mundo para crianças (1933) Emília no país da gramática (1934), Histórias das invenções (1935), Geografia de Dona Benta (1937), dentre outras. Nas narrativas, Lobato se utilizou de um local imaginário, o Sítio do Pica-pau Amarelo, como espaço em que aconteceriam as aventuras de seus personagens. Nesse sentido, é no cenário bucólico do Sítio que aconteceriam as aventuras infantis, sendo que este local se tornará uma escola paralela por se tratar do espaço em que as aventuras se traduzirão em momentos de aprendizagem, conhecimento e muito mais. A obra lobatiana mostra que o autor acreditava na criança como agente transformador da sociedade, pois tratam de questões sociais como política e ciência, refletindo acerca dos problemas sociais de sua época. É o que se observa em A chave do tamanho, obra na qual o autor discute as conseqüências da guerra. Lobato introduz o folclore em sua obra, como em O Saci, em que buscam no folclore alguns elementos para dar origem a novas criações. Não há dúvida de que o grande valor da invenção literária de Lobato e o amplo sucesso obtido junto aos pequenos leitores, não se deveram apenas à sua prodigiosa imaginação ao inventar personagens e tramas cheias de pitoresco e de humor sadio,

24 concretizadas em uma linguagem original e viva. Como em toda grande obra, o seu mérito maior está na perfeita adequação entre sua matéria literária, as idéias e os valores que lhe servem de húmus e as imposições da época em que ela foi escrita. (COELHO, 1984, p. 192) São também do mesmo período obras como Histórias da Velha Totônia (1936), de José Lins Rego, As aventuras do avião vermelho (1936), de Érico Veríssimo, Histórias para crianças (1934), de Viriato Correia, dentre outros. Algumas obras aludiam ao folclore e às histórias populares, outras ressaltavam o nacionalismo. No período de 1920 a 1945 houve um crescimento significativo da produção literária para o público infantil, relacionado ao aumento do mercado consumidor e que contribuiu para estimular as editoras a investirem na produção para esse mercado em formação. A literatura Infanto-Juvenil cresceu no âmbito escolar, em harmonia com a expansão da rede escolar e com a nova política educativa, ainda que impregnada da intencionalidade pedagógica com que vinha se desenvolvendo anteriormente. O panorama dos anos 30/40 mostra que, além dos livros de Lobato e das obras clássicas traduzidas ou adaptadas, apenas alguns escritores, entre os que escreveram na época, atingiram a desejável literariedade. No geral, predomina o imediatismo das informações úteis e da formação cívica. (COELHO, 1984, p.198) Em resposta ao mercado que estava se firmando e expandindo, no período de 40 a 60 houve uma produção intensa e fabricação em série de livros. Entretanto, apesar do volume considerável de obras, a quantidade não significou uma real qualidade na produção. São desse período obras como A mina de ouro e O cachorrinho Samba na Bahia (1940), de Maria Dupré; posteriormente a mesma autora lançou Éramos seis, um grande sucesso de vendas. Com as políticas de incentivo à produção nacional de livros e a sofisticação das mídias houve, na década de 70, uma maior divulgação e oferta de livros, gerando a diversificação das produções literárias. A literatura infantil, que se tinha principalmente ao ambiente escolar, passou a ter maior divulgação. Estas alterações do período afetam a literatura tanto como instituição quanto como texto.

25 O desenvolvimento cultural dos anos 60 e 70 só aprofundou a relação de dependência entre literatura Infanto-Juvenil e a destinação escolar dos livros. Nos dizeres de Zilberman (1986): Se, desde o seu nascimento, a destinação escolar dos livros fazia com que a literatura para crianças se apoiasse, para legitimar sua existência e arregimentar seus leitores, nas instituições vizinhas da escola (quando não da própria), o já apontado desenvolvimento de uma infra-estrutura cultural nos anos 60 e 70 só vai aprofundar esta relação de dependência. Com muito mais desenvoltura que a não Infanto- Juvenil, a literatura para crianças, fiel a sua origem, presta-se bem à mediação institucional. (1986, p.174) Na década de 80, a literatura infantil passa a assumir um caráter mais reflexivo por conta do período político pelo qual o país passava. Alguns autores utilizaram-se de reformulações de contos de fadas e personagens fortes para transpor barreiras sociais, como Pedro Bandeira em O mistério da Feiurinha (2001). Outros produziram livros mais populares, destinados ao consumo das massas, como o conto do horror, o conto policial, a ficção científica, etc. Nesse sentido, houve uma abertura à criatividade proporcionando o surgimento de obras inovadoras e cativantes, como O barulho fantasma (1984) de Sônia Junqueira e a obra de Tatiana Belinky A operação do tio Onofre (1985). Autores como Ana Maria Machado, Clarice Lispector, Ruth Rocha, Lygia Bojunga Nunes, Ziraldo, dentre outros, utilizam-se da literatura Infanto-Juvenil para protestar contra a ditadura vigente através de relações implícitas presentes na produção. A obra Infanto- Juvenil passa a viabilizar valores que instigam o leitor à reflexão. Os textos passam a defender a importância da mobilização social na defesa do interesse coletivo, instigando o leitor a refletir sobre sua liberdade em plena ditadura. É o que se verifica no seguinte trecho da obra O que os olhos não vêem de Ruth Rocha: (...) E o povo foi desprezado, Pouco a pouco, lentamente. Enquanto que o próprio rei Vivia muito contente; Pois o que os olhos não vêem, Nosso coração não sente.

26 E o povo foi percebendo Que estava sendo esquecido; Que trabalhava bastante, Mas que nunca era atendido; Que por mais que se esforçasse Não era reconhecido. Cada pessoa do povo Foi chegando à convicção, Que eles mesmos é que tinham Que encontrar a solução Pra terminar a tragédia. Pois quem monta na garupa Não pega nunca na rédea! Eles então se juntaram, Discutiram, pelejaram, E chegaram à uma conclusão Que, se a voz de um era fraca, Juntando as vozes de todos Mais parecia um trovão. (...) (Ruth Rocha O que os olhos não vêem ) Esta literatura retoma o projeto lobatiano, proporcionando à criança uma literatura de qualidade, que desenvolve sua criticidade, estimula sua criatividade e imaginação e desperta indagações e questionamentos sobre a vida, compreendendo a criança leitora nos diversos aspectos que abrangem a sua formação. Na década de 90, a produção de livros ofereceu à criança uma gama imensa de produções nas mais variadas formas, gêneros, autores, temas e projetos gráficos o mercado editorial consolida as produções para esse público. A história da literatura infanto-juvenil, ainda que apresentada neste capítulo de forma esquemática sugere que a produção voltada para a criança e o adolescente, se amplia e diversifica ao longo do tempo. Conceitos sobre o que seria este gênero literatura infanto-juvenil mudaram também durante esses dois séculos. Houve momentos em que esta agregava valores

27 nacionalistas, morais; em outros momentos, ele era constituído de valores críticos, sociais e políticos; como também houve momentos em que a literatura significava preocupação com literariedade.

28 III CAPÍTULO A DIDÁTICA DA LEITURA DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL No que diz respeito a esse aspecto, qual seja a didática da literatura Infanto- Juvenil, observa-se que há textos que tratam sobre os modos de trabalhar a Literatura Infanto- Juvenil envolvendo o leitor, na escola ou fora dela. Entendemos que se encaixam neste foco os seguintes autores: Ruth Rocha (1983); Yêda Maria da Costa Lima Varlotta (1987); Inês Aparecida Silva Mobrice (1990); Marly Amarilha de Oliveira (1991); Núbio Delanne Ferraz Mafra (2000) e Marcelo Moreira Ganzarolli (2005). Como fazer o leitor infanto-juvenil gostar da literatura? Quais as práticas que fomentam o gosto pela literatura no leitor? Como trabalhar a Literatura Infanto-Juvenil especificamente no âmbito escolar? Estas são algumas questões que os textos tentaram responder. Ter o livre arbítrio para decidir o que se quer ler é uma forma propícia para o estímulo do leitor principalmente quando este é um jovem adolescente. Rocha (1983) na entrevista intitulada: Para não vacinar a criança contra leitura propõe alguns encaminhamentos na leitura de suas obras, bem como alguns procedimentos para estimular a fruição da leitura, retratando específicamente o ambiente escolar. A literatura deve ser seletiva, deve ser uma coisa muito dirigida, deve-se procurar aquela melhor literatura. A fruição, o gosto é que deve ser livre, deve ser espontâneo, porque é sempre novo, porque a criança é sempre nova. (p. 10). Nesse sentido, entendemos que a Literatura a ser trabalhada na escola deva ser bem selecionada pelos professores, deve ser uma literatura de qualidade. E qualidade não está relacionada ao movimento ao qual o autor pertence ou à época na qual a obra foi produzida, mas sim ao significado que aquela leitura proporciona ao leitor. Para Rocha, o gosto deve ser orientar a escolha do leitor, de forma não imposta pelo adulto. A criança ou o jovem deve ter a liberdade de escolher entre os diversos livros e autores que lhe são oferecidos. É acerca desse significado que Varlotta (1987) fala em seu artigo Literatura Infantil nas séries iniciais: desafio à reflexão ou possibilidade de trabalho :

29 Acredito que se for dada à criança a oportunidade de ler textos com significado (...) enquanto está aprendendo a ler, ela aprenderá a buscar, por detrás do significante, o significado, como fazemos nós, os leitores adultos. E, lendo guiada pelo significado, poderá encontrar as várias possibilidades de leitura que um texto oferece. (p. 35) Assim como Rocha Varlotta, destaca a importância de o adulto selecionar e oferecer textos de qualidade para que a criança e o jovem possam ir construindo o seu caminho como leitor. A didática apontada é a oferta de uma literatura que oferece múltiplos significados, e múltiplas leituras, permitindo que a criança e o jovem usem sua leitura de mundo. Como esta pode ser uma tática favorável temos também aqueles que dizem que nesse contexto a literatura Infanto-Juvenil adquire uma conotação negativa, pois se torna um instrumento de repressão, como coloca Oliveira (1991) em Aventuras e tribulações na literatura na escola : Ao se utilizar da literatura como estratégia improvisada na prática pedagógica, o professor não só descaracteriza a própria função da leitura na escola, como também expõe o vazio de toda a sua atuação (p. 43). Há também práticas que ensinam os adultos, os professores, a seduzir o leitor para a Literatura Infanto-Juvenil. Em um dos artigos presentes na seção resenha, denominado Encantamentos e delicias: a criança em contato com a literatura infantil, Mobrice (1990) analisa uma obra de Fanny Abramovich que sugere alguns procedimentos para cativar os leitores de literatura Infanto-Juvenil: Fanny inicia seu livro falando sobre o primeiro contato da criança com o texto, que se dá pela audição de histórias. Aqui já pode ser despertado o gosto da criança pela leitura. Ouvir histórias é o inicio da aprendizagem para ser um leitor, e ser um leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo (ABRAMOVICH, 1989, p. 16 apud MOBRICE 1990, p.45). Através de uma história, a criança pode ficar sabendo de História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo, e muito menos achar que tem cara de aula... (Abramovich, 1989, p. 17) para tanto, faz-se necessário saber como contar uma história e como aproveitar o texto ao máximo, de modo a estimular a criação dando asas à imaginação. (MOBRICE, 1990 p. 45).

30 Mafra, em seu relato No ser e no ler, desconforto: literatura infanto-juvenil e adolescente leitor discute o papel do professor na escola como mediador da leitura. O estudioso entende que:... na escola básica, a literatura precisa ser trabalhada através da mediação de um leitor mais experiente, no caso o professor. (...) O prazer experimentado pelo leitor pode ser transformado em fruição desde que o professor respeite e até mesmo trabalhe a história de leituras deste jovem, assumindo-se como mediador desse processo. (2000, p. 79). Em seu texto Leitura, Literatura Infantil e Biblioteca Escolar: alquimia para a constituição do sujeito leitor, Ganzarolli procura discutir a funcionalidade e as contribuições da biblioteca como espaço para a leitura, produção de sentidos e aproximação com objetos de valor cultural, contribuindo para o gosto pela leitura: A biblioteca como um espaço de leitura dentro da escola põe à disposição do aluno um acervo cultural composto por revistas, dicionários, manuais, livros, filmes, jornais, mapas, etc., podendo explorá-lo, desvendando e questionando suas incertezas, fazendo as apropriações da leitura e produzindo os seus sentidos, tendo a possibilidade de agir com maior autonomia e discernimento sobre o mundo que o cerca. (p. 41) Dessa forma, Ganzarolli mostra a preocupação em relação a esse espaço de leitura a biblioteca e a forma como vem sendo utilizada pelos profissionais da educação no sentido de incentivar o gosto pela leitura, e, em última instância pela Literatura Infanto- Juvenil. Assim, percebemos que os artigos anteriormente citados, tratam em geral sobre as práticas relacionadas ao âmbito escolar, numa preocupação em relação à atitude dos profissionais da educação em relação à utilização da Literatura Infanto-Juvenil na sala de aula. Tratam dos modos, caminhos, estratégias para se educar o leitor para uma linguagem tão singular como o da literatura. Os artigos destacam aspectos importantes e necessários quando se tem a literatura como objeto de leitura: selecionar bons textos com múltiplos significados; saber contar história.

31 Essa preocupação se explicita na maioria dos autores deste foco, tanto nas sugestões do que fazer no espaço escolar quanto nas críticas às atitudes dos professores. Um estudo feito na Boston University School of Medicine, dos EUA, demonstrou que a leitura em voz alta para crianças em idade pré-escolar melhora o desenvolvimento da linguagem e aumenta a bagagem lingüística. As histórias trabalham a parte cognitiva e emocional da criança, pois passam mensagens subliminares que pregam atitudes positivas, além de mostrarem noção de tempo e espaço, desenvolvendo o lado matemático, explicou a professora de literatura Patrícia Lane, do programa "Vivendo EU Conto" e especializada em educação infantil, de Salvador. A pesquisa americana foi feita pelo pediatra Barry Zuckerman e publicada nos Archives of Disease in Childhood (Arquivos de Doenças Infantis) para comprovar que ler para os pequenos realmente é um ato benéfico para a comunicação da criança. Isso acontece porque o ser humano aprende a falar por imitação dos sons. Quando uma mãe lê uma história para seu filho, essa criança vai assimilar os sons das palavras que estão sendo lidas e, como essas palavras são diferentes daquelas normalmente utilizadas pelos adultos, a criança aumenta a quantidade de combinações lingüísticas na mente. As histórias aumentam o repertório das crianças, além de resgatar fatos da vida, o que vai desenvolver melhor a capacidade de raciocínio, comentou Camila Quino, psicóloga da Associação viva e deixe viver, associação especializada em atendimentos infantis (07/2007). Veremos agora alguns autores que escreveram tanto sobre o ato de ler, quanto o processo de relação entre professor e leitura. Marisa Lajolo em seu livro A formação do professor e a literatura infantojuvenil, relaciona a questão da literatura e seus usos educacionais com a formação deste professor de língua materna. Enumera os conteúdos considerados fundamentais para a formação deste profissional e analisa a construção histórica dos conceitos de criança e jovem. Tanto a criança à qual se destina a literatura infantil é uma construção, quanto o jovem ao qual se destina a literatura juvenil é outra construção, igualmente social. E, como construção social resultante, tanto o infantil de uma quanto o juvenil de outra são conceitos móveis: o que é literatura infantil, para um determinado contexto, pode ser juvenil para outro e vice-versa, infinitamente... (LAJOLO, 1988, p.34).

32 Muitas vezes, sentimos curiosidade de saber que idéias e sentimentos a experiência da leitura provoca no leitor, Davi Arrigucci Junior em sua obra Leitura: entre o fascínio e o pensamento faz considerações sobre a leitura como caminho da sabedoria, fonte de felicidade, forma de despertar o espírito para a reflexão, espaço de liberdade e reflexão. (...) a experiência da leitura é a nossa aventura, a história romanesca em que penetramos pelo simples ato de abrir um livro. Algo do encanto da descoberta infantil permanece sempre nessa experiência. (...) os livros que cativam nossa atenção para o mundo das letras são também formas de despertar nosso espírito para a reflexão. Guardam em si todo o fascínio, mas também as chispa que faz disparar o pensamento (...). (JUNIOR, 1994). Partimos do pressuposto de que a leitura é uma necessidade básica de todo indivíduo que integra uma comunidade letrada, e que como tantas outras ações humanas não são tão fáceis de ser praticada. Entretanto, constituímos necessidades, que perpassam a leitura a partir de um rótulo de alimento no supermercado até as leituras que trazem a tona uma época, um povo, seus hábitos, valores e costumes da leitura, precisa ser uma prática com a qual os sujeitos estejam, ou pelo menos, procurem estar familiarizados, para o seu próprio bem e para que possa conhecer e respeitar o trabalho do outro. Assim, o desenvolvimento da competência de leitura dos estudantes não se dará, entretanto, por meio da decodificação de códigos ou da memorização mecânica para posterior reprodução. Mas sim, por meio de uma proposta centrada na leitura como atividade principal que como, tantas outras, precisa ser estimulada pela escola, fato de ser ela um espaço privilegiado para a aquisição de conhecimentos, e que para boa parte dos estudantes é o único local em que entram em contato com os conhecimentos sistematizados. No estudo sobre a formação do leitor crítico, é pertinente considerar que formar um leitor com esta característica é também desenvolver uma prática de leitura que desperte e cultive o desejo de ler, ou seja, uma prática pedagógica eficiente que dê suporte ao aluno para realizar o esforço intelectual da leitura não só textos simples, mas também, aqueles nos quais precisará utilizar e pôr a prova todas as suas estratégias de leitura. Para Eco (2000, p. 31) um texto é um universo aberto onde o intérprete pode descobrir uma infinidade de conexões. Ou seja, um texto é um conjunto de significados amplos e abertos e permite ao leitor mergulhar nele e relacioná-lo com outras diferentes situações com as quais tem contato no seu dia a dia e/ou com conteúdo das mais diversas áreas de conhecimento, proporcionando ao leitor