Protocolo Clínico e de Regulação para Epistaxe



Documentos relacionados
Tratamento da Epistaxe

Fique atento ao abuso de antibióticos na pediatria

O que é Hemofilia? O que são os fatores de coagulação? A hemofilia tem cura?

Tratamento cirúrgico da rinite alérgica Surgical treatment for allergic rhinitis

CIRURGIA DO NARIZ (RINOPLASTIA)

PROGRAMA DE ANTICOAGULA- ÇÃO ORAL COMO FUNCIONA

Ossos próprios do nariz Lâmina perpendicular do etmóide Extensões dos ossos maxilar e frontal

Estes artigos estão publicados no sítio do Consultório de Pediatria do Dr. Paulo Coutinho.

VIDEO OCULOGRAFIA DIGITAL

Sessão Cardiovascular

Resposta: Dilatação dos brônquios na tomografia (bronquiectasia) e nível hidro-aéreo na radiografia do tórax (abscesso).

Tratamento do câncer no SUS

Abordagem da reestenosee. Renato Sanchez Antonio

NOVEMBRO DOURADO VIVA ESTA IDEIA! VENHA PARTICIPAR!

ANESTESIA E MEDIDAS PARA OTIMIZAÇÃO DO CAMPO CIRÚRGICO

O que é câncer de estômago?

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE MEDICINA PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL. Caio Abner Leite

Capacitação em Serviço: Dengue em 15 minutos

Fraturas Proximal do Fêmur: Fraturas do Colo do Fêmur Fraturas Transtrocanterianas do Fêmur

VIVER BEM OS RINS DO SEU FABRÍCIO AGENOR DOENÇAS RENAIS

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Departamento de Cirurgia Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço

Pós operatório em Transplantes

hipertensão arterial

Projeto Qualidade de Vida: Cuide-se, se Informe e Viva Melhor.

A. Patologias vasculares B. Choque C. Hemostasia. 2 Letícia C. L. Moura

TROMBOCITOPENIA NA GRAVIDEZ

SEPTOPLASTIA NASAL - Introdução História Embriologia Anatomia cirúrgica Fisiopatologia Diagnóstico Indicação Técnicas cirúrgicas

UNILAB no Outubro Rosa Essa luta também é nossa. CUIDAR DA SAÚDE É UM GESTO DE AMOR À VIDA. cosbem COORDENAÇÃO DE SAÚDE E BEM-ESTAR

ODONTOLOGIA/CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL

05/05/2014 NOTA TÉCNICA

Câncer de Próstata. Fernando Magioni Enfermeiro do Trabalho

Élsio Paiva Nº 11 Rui Gomes Nº 20 Tiago Santos Nº21. Disciplina : Área de Projecto Professora : Sandra Vitória Escola Básica e Secundária de Fajões

Intestino Delgado. Bárbara Andrade Silva Allyson Cândido de Abreu

CANCER DE COLO DE UTERO FERNANDO CAMILO MAGIONI ENFERMEIRO DO TRABALHO

Prezados Associados,

Dr. Adriano Czapkowski. Ano 2 - Edição 13 - Setembro/2010

1 - Estrutura e Finalidades da disciplina

Planificação anual de Saúde- 10ºano

Nariz e Laringe. Anatomia Aplicada à Medicina IV MOR 044 Prof. Sérvulo Luiz Borges

Fraturas do Terço Médio da Face

TEXTO BÁSICO PARA SUBSIDIAR TRABALHOS EDUCATIVOS NA SEMANA DE COMBATE À DENGUE 1

Memória Descritiva. Curso: Tripulante de Ambulância de Transporte (TAT) Fundamentação: Objetivos: Tipo/Nível da Ação:

Identificar como funciona o sistema de gestão da rede (espaços de pactuação colegiado de gestão, PPI, CIR, CIB, entre outros);

DIAGNÓSTICO MÉDICO DADOS EPIDEMIOLÓGICOS FATORES DE RISCO FATORES DE RISCO 01/05/2015

2. HIPERTENSÃO ARTERIAL

NEURALGIA DO TRIGÊMEO

ORIENTAÇÃO PARA ELABORAÇÃO E MONTAGEM DE PROJETO


Não risque as peças, utilize os estiletes marcadores para apontar as estruturas. ESQUELETO AXIAL

CLASSIFICAÇÃO DAS CEFALEIAS (IHS 2004)

RELATÓRIO PARA A. SOCIEDADE informações sobre recomendações de incorporação de medicamentos e outras tecnologias no SUS

RESPOSTA RÁPIDA 435/2014

DIVISÂO DE ENSINO E PESQUISA. Especialização em Cirurgia e Traumatologia Buco- Maxilo- Facial na Modalidade de Residência.

O que é O que é. colesterol?

-Os Papiloma Vírus Humanos (HPV) são vírus da família Papovaviridae.

Perguntas e respostas sobre imunodeficiências primárias

RESPOSTA RÁPIDA 154/2014 Alfapoetina na IRC

Corpo de Bombeiros. São Paulo

Bursite do Olécrano ou Bursite do Cotovelo

O QUE É? A LEUCEMIA MIELOBLÁSTICA AGUDA

ALTERAÇÕES A INCLUIR NAS SECÇÕES RELEVANTES DO RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DOS MEDICAMENTOS QUE CONTENHAM NIMESULIDA (FORMULAÇÕES SISTÉMICAS)

EXERCÍCIOS ON LINE DE CIÊNCIAS 8 AN0

HELMA PINCHEMEL COTRIM FACULDADE DE MEDICINA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA PRÓ-REITORIA DE ENSINO DEPARTAMENTO DE MEDICINA E ENFERMAGEM SELEÇÃO DE MONITOR NÍVEL I EDITAL Nº 02/2014/DEM

Figura 1 Principais áreas de atuação

Qual é a função dos pulmões?

INTRODUÇÃO 2 AUTORIZADOR WEB 4. Pesquisar Beneficiário Elegibilidade Beneficiário Nova Guia Consulta Eletiva Nova Guia SP/SADT...

MÁ-OCLUSÃO. Ortodontista: Qualquer desvio de posição do dente em relação ao normal

Doença de Von Willebrand

Glaucoma. O que é glaucoma? Como acontece?

RINOPLASTIA Cirurgia Plástica no Nariz

ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO DAS DOENÇAS CORONÁRIA E CAROTÍDEA CONCOMITANTE

DEPRESSÃO - Segundo a Classificação Internacional das Doenças (CID) 10ª revisão

MEDIDAS DE PROMOÇÃO E PREVENÇÃO DE CÁRIE EM ESCOLARES ADOLESCENTES DO CASTELO BRANCO

azul NOVEMBRO azul Saúde também é coisa de homem. Doenças Cardiovasculares (DCV)

TEMA: Seretide, para Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).

BIOLOGIA IACI BELO Identifique, na figura, as partes indicadas pelos números: 10:

FACULDADE DE MEDICINA/UFC-SOBRAL MÓDULO SISTEMA NERVOSO NEUROANATOMIA FUNCIONAL. AVC Isquêmico. Acd. Gabrielle Holanda. w w w. s c n s. c o m.

ORIENTAÇÕES SOBRE O SERVIÇO DE FISIOTERAPIA SUMÁRIO

Humberto Brito R3 CCP

TROMBOSE VENOSA PROFUNDA (TVP) E TROMBOEMBOLISMO PULMONAR (TEP)

1. RESUMO EXECUTIVO. Data: 19/03/2014 NOTA TÉCNICA 48/2014. Medicamento Material Procedimento Cobertura

PARECER CREMEC Nº 07/ /02/2011

TRAUMATISMO RAQUIMEDULAR TRM. Prof. Fernando Ramos Gonçalves-Msc

Você conhece a Medicina de Família e Comunidade?

CANCER DE MAMA FERNANDO CAMILO MAGIONI ENFERMEIRO DO TRABALHO

Cardiologia Hemodinâmica

Azul. Novembro. cosbem. Mergulhe nessa onda! A cor da coragem é azul. Mês de Conscientização, Preveção e Combate ao Câncer De Próstata.

AMERICAN THORACIC SOCIETY(ATS)

Pâncreas. Pancreatite aguda. Escolha uma das opções abaixo para ler mais detalhes.

Retinopatia Diabética

APARELHO DE AMPLIFICAÇÃO SONORA INDIVIDUAL: ESTUDO DOS FATORES DE ATRASO E DE ADIAMENTO DA ADAPTAÇÃO

Diretrizes Assistenciais TRAUMA RAQUIMEDULAR

RIO GRANDE DO NORTE SECRETARIA DO ESTADO DA SAÚDE PÚBLICA

COAGULOPATIAS NO PACIENTE ONCOLÓGICO. Dra Carmen Helena Vasconcellos Hospital Veterinário Botafogo - RJ

I CURSO DE CONDUTAS MÉDICAS NAS INTERCORRÊNCIAS EM PACIENTES INTERNADOS

EPISTAXE 1. DEFINIÇÕES

Transcrição:

Protocolo Clínico e de Regulação para Epistaxe Fabiana C. P. Valera 1, Edwin Tamashiro 1, Miguel A. Hyppolito 2, Wilma T. Anselmo-Lima 2 INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA A epistaxe é definida como o sangramento ativo pelas fossas nasais, e é a emergência mais frequente da região nasal 1. Estima-se que 60% da população já sofreram ou sofrerão ao menos 1 episódio de epistaxe durante a vida 2. Todavia, apenas 6% necessitam de intervenção médica 3. Em alguns casos, no entanto, a gravidade é tal que os pacientes necessitam de intervenção emergencial, sob risco de morte. As epistaxes brandas são altamente prevalentes em crianças e adolescentes, ao passo que epistaxes mais graves, que necessitam de intervenção são mais frequentes em pessoas com idade acima de 50 anos 4. CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS As epistaxes são classificadas em anterior e posterior, baseadas tanto na anatomia da vascularização nasal como nos sintomas. As epistaxes anteriores perfazem 90 a 95% 3, e são de intensidade mais branda. Esse sangramento, em geral ocorre na porção anterior do septo nasal, na área de Little, onde está a anastomose entre vasos terminais das artérias esfenopalatina (ramo da maxilar), etmoidal anterior (ramo da carótida interna) e artéria labial superior (ramo da artéria facial) denominado de plexo vascular de Kiesselbach 5. Esta região mais anterior do septo nasal, além de ser altamente 1

vascularizada, é também vulnerável devido ressecamento de mucosa e traumas digitais 1. Os sangramentos decorrentes da região anterior do septo habitualmente são autolimitados; e quando não cessados espontaneamente, medidas simples de controle local são suficientes para interrupção do sangramento 3. O sangramento se exterioriza apenas pela fossa nasal, e é geralmente de volume mais limitado. A epistaxe posterior tem maior importância clínica, devido ao maior volume de sangramento e à maior dificuldade de localização e de controle da hemorragia. Este sangramento é localizado na parede nasal lateral ou na região posterior do septo nasal. O sangramento posterior é mais volumoso, e pode ser visualizado pela exteriorização de sangue tanto pela fossa nasal (no geral bilateral) e posteriormente, pela faringe. A artéria esfenopalatina é a principal fonte de sangramento na epistaxe posterior. Esta artéria emerge na parede lateral no nariz, entre conchas média e inferior, e emite 2 ramos principais, um para a parede lateral do nariz e outro para a região septal posterior. A grande maioria dos sangramentos nasais de maior volume é originada nessa região. As artérias etmoidais anterior e posterior (ramos da artéria oftálmica) também são responsáveis por sangramentos de maior volume, mas a freqüência é pequena, e decorrente de traumas da face ou da base do crânio e das iatrogenias, especialmente, durante cirurgias nasais 1. Várias são as causas relacionadas às epistaxes, sejam locais ou sistêmicas 6-8. Dentre as causas locais de sangramento mais brandos, estão o trauma digital, a baixa umidade do ar, a alteração de fluxo nasal (em geral 2

decorrente dos desvios septais) e o uso incorreto de medicamentos nasais, em especial os corticóides tópicos. Causas locais, mas de sangramentos mais intensos, são os traumas nasais e de face, as rinossinusites agudas e os tumores nasais. Além das causas locais, causas sistêmicas, em especial as com alterações hematológicas, podem ser citadas. Neste caso, as epistaxes são graves, profusas, e de difícil controle. São exemplos: doença de Von Willebrand, hemofilia, doenças hematológicas, pacientes em tratamento quimioterápico e hipertensão arterial sistêmica. O uso de medicamentos como aspirina, antiinflamatórios não esteroidais e anticoagulantes, assim como a ingestão crônica de álcool, alteram a função plaquetária e estão associados a sangramentos nasais sem alterações em contagem de plaquetas. ABORDAGEM DA EPISTAXE NA ATENÇÃO BÁSICA A epistaxe é uma emergência. Assim, diante de um paciente com história de sangramento nasal recente ou com sangramento ativo no momento, a primeira medida é a avaliação da permeabilidade de vias aéreas e da estabilidade hemodinâmica. Em seguida, o médico deve avaliar o local e a quantidade de sangramento. A história é essencial para o diagnóstico etiológico: pacientes com epistaxes recorrentes unilaterais e obstrução nasal crônica ipsilateral são candidatos à realização da endoscopia nasal, sob suspeita de tumores nasais, por exemplo. Na história, além da quantidade, lateralidade e tempo de sangramento, são importantes os antecedentes pessoais, incluindo histórias de hipertensão arterial sistêmica, uso de medicamentos e coagulopatias. Os 3

antecedentes familiares de epistaxes sugerem a presença de coagulopatias e podem determinar a avaliação hematológica. A avaliação clínica do paciente inclui rinoscopia anterior e oroscopia, na tentativa de identificação da área sangrante. Em casos de sangramento ativo, a lavagem com soro fisiológico pode auxiliar na visualização do local de sangramento 3. Os sangramentos septais e anteriores podem ser controlados com o uso de gelo no dorso nasal e de algodões com vasoconstrictor (ex: oximetazolina, nafazolina) sobre o local sangrante, associado ao emprego da digitopressão. Os sangramentos mais intensos septais e anteriores podem ainda ser cauterizados, seja quimicamente (com nitrato de prata ou ácido tricloroacético) ou eletricamente. Estes procedimentos são em geral realizados em serviços de urgência de Atenção Secundária ou Terciária. O sangramento pode persistir mesmo após estas medidas mais simples, em especial nos casos de epistaxe posterior. Diante desta situação, há a necessidade de tamponamento nasal (seja anterior apenas ou ântero-posterior) ou de intervenção cirúrgica, com ligadura das artérias nasais. Estes procedimentos são realizados por especialistas, e geralmente demandam atendimento em uma instituição de Atenção Terciária. A associação de coagulopatias, uso de medicamentos que interferem na função plaquetária, ou de outras doenças sistêmicas que interfiram no curso da epistaxe também demandam a avaliação num Serviço de Atenção Terciária. Esses pacientes, assim como aqueles que apresentam sangramento mais intenso, necessitam internação em serviços terciários para melhor avaliação 4

dos fatores causais e das condições locais, assim como melhor controle das condições hemodinâmicas. Fluxograma de avaliação de paciente com epistaxe: 5

BIBLIOGRAFIA 1. Douglas R, Wormald PJ. Update on epistaxis. Curr Opin Otolaryngol Head Neck Surg 2007; 15: 180-183. 2. Middleton PM. Epistaxis. Emerg Med Austalas 2004; 16: 428. 3. Viehweg TL, Roberson JB, Hudson JW. Epistaxis: diagnosis and treatment. J Oral Maxillofac Surg 2006; 64: 511-518. 4. Gifford TO, Orlandi RR. Epistaxis. Otolaryngol Clin N Am 2008; 41: 525-536. 5. Chiu T, Dunn JS. An anatomical study of the arteries of the anterior nasal septum. Otolaryngol Head Neck Surg 2006; 134: 33-36. 6. Massick D, Tobin EJ. Epistaxis. In: Cummings CW, Haughey BH, Thomas JR, et al, editors. Cummings otolaryngology: head and neck surgery. Philadelphia: Mosby, 2005. p. 942-961. 7. Tan LK, Calhoun KH. Epistaxis. Med Clin North Am 1999; 83: 43-56. 8. Wormald PJ. Epistaxis. In: Bailey BJ, Calhoun KH, Derkay C et al, editors. Head and Neck Surgery Otolaryngology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2006. p. 505-514. 6