HABEAS CORPUS Nº 297.551 - MG (2014/0152418-0) RELATOR IMPETRADO PACIENTE : MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ : ANA PAULA DO VALE FOSSALI PARANHOS : PABLO HENRIQUE DE OLIVEIRA SILVA FERREIRA : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS : D H R EMENTA HABEAS CORPUS. ART. 217-A C/C ARTS. 226, II, E 14, II, TODOS DO CÓDIGO PENAL. DENÚNCIA POR DELITO CONSUMADO. CONDENAÇÃO EM PRIMEIRO GRAU PELO ART. 61 DA LCP. CONDENAÇÃO EM SEGUNDO GRAU PELA FORMA TENTADA DO ART. 217-A. ALEGADA AUSÊNCIA DE CORRELAÇÃO ENTRE DENÚNCIA E CONDENAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. ORDEM DENEGADA. 1. O delito consumado e a tentativa não são duas diferentes modalidades de delito, mas somente distintas manifestações de um único delito. 2. Como o réu não se defende da capitulação da denúncia, mas do fato descrito na exordial acusatória, não há a nulidade prevista no art. 384 do CPP, visto que o magistrado limitou-se a dar definição jurídica diversa (crime tentado) da que constou na denúncia (crime consumado), aplicando pena menos grave. 3. Ordem denegada. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Sexta Turma, por unanimidade, denegar a ordem, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Nefi Cordeiro, Ericson Maranho (Desembargador convocado do TJ/SP), Maria Thereza de Assis Moura e Sebastião Reis Júnior (Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator. Brasília, 05 de março de 2015 Ministro Rogerio Schietti Cruz Relator Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 1 de 6
HABEAS CORPUS Nº 297.551 - MG (2014/0152418-0) RELATOR : MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ : ANA PAULA DO VALE FOSSALI PARANHOS : PABLO HENRIQUE DE OLIVEIRA SILVA FERREIRA IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS PACIENTE : D H R RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ: D. H. R. estaria sofrendo constrangimento ilegal no seu direito a locomoção, em decorrência de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, que deu provimento ao recurso do Ministério Público, para condená-lo pela prática do delito previsto no art. 217-A, c/c os arts. 226, II, e 14, II, todos do Código Penal. Informa a impetrante que este habeas corpus foi a única solução encontrada para combater o aresto condenatório, uma vez que os recursos especial e extraordinário interpostos foram inadmitidos pelos Tribunais Superiores. Aduz que o Tribunal mineiro, ao arrepio do requerimento da acusação, que sempre sustentou a ocorrência de crime consumado, condenou o paciente pela prática tentada de estupro de vulnerável. Assevera que houve, por parte do Tribunal a quo a aplicação de norma de extensão não articulada pela acusação, uma vez que tanto o pedido de condenação em primeira instância como as razões de apelação do Ministério Público foram alicerçados no fato consumado relativo à conjunção carnal narrada na denúncia, não tendo sido exercida a faculdade disposta no art. 384 do CPP. Sustenta que, em desarmonia com os preceitos processuais, em especial os princípios do contraditório e da ampla defesa e a correlação entre a sentença e acusação, o TJMG reconheceu a figura da tentativa, mesmo tendo o laudo pericial comprovado a inexistência de conjunção carnal. Pleiteia, assim, a concessão do pedido de liminar para expedir salvo-conduto em favor do paciente e para declarar a nulidade do acórdão condenatório. Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 2 de 6
Indeferida a liminar, foram os autos enviados ao Ministério Público Federal, que, em parecer da Subprocuradora-Geral da República Julieta Fajardo Albuquerque, oficiou pelo não conhecimento do writ (fls. 433-437). Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 3 de 6
HABEAS CORPUS Nº 297.551 - MG (2014/0152418-0) EMENTA HABEAS CORPUS. ART. 217-A C/C ARTS. 226, II, E 14, II, TODOS DO CÓDIGO PENAL. DENÚNCIA POR DELITO CONSUMADO. CONDENAÇÃO EM PRIMEIRO GRAU PELO ART. 61 DA LCP. CONDENAÇÃO EM SEGUNDO GRAU PELA FORMA TENTADA DO ART. 217-A. ALEGADA AUSÊNCIA DE CORRELAÇÃO ENTRE DENÚNCIA E CONDENAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. ORDEM DENEGADA. 1. O delito consumado e a tentativa não são duas diferentes modalidades de delito, mas somente distintas manifestações de um único delito. 2. Como o réu não se defende da capitulação da denúncia, mas do fato descrito na exordial acusatória, não há a nulidade prevista no art. 384 do CPP, visto que o magistrado limitou-se a dar definição jurídica diversa (crime tentado) da que constou na denúncia (crime consumado), aplicando pena menos grave. 3. Ordem denegada. VOTO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ (RELATOR): A defesa aduz que o Tribunal mineiro aplicou norma de extensão não articulada pela acusação, visto que tanto o pedido de condenação em primeira instância, como as razões de apelação do Ministério Público foram alicerçados no fato consumado relativo à conjunção carnal narrada na denúncia, não tendo sido exercida a faculdade disposta no art. 384 do CPP. Inicialmente, vale ressaltar que tentativa não é uma figura autônoma, pois a vontade contrária ao direito existente na tentativa é igual à do delito consumado. Assinala Jescheck: Posto que o dolo é igual por natureza em todas as fases da ação (preparação, execução e consumação), a delimitação da tentativa frente à ação preparatória se busca no âmbito objetivo. A razão jurídica da punibilidade da tentativa não está na vontade do autor, mas no perigo próximo da realização do resultado típico. Assim, a tentativa deve ser punida pela elevada probabilidade só afirmada, por principio, com o inicio da execução e unicamente quando a ação da tentativa for idônea, a teoria objetiva leva a restrição da punibilidade da tentativa frente à ação preparatória e ao afastamento da punibilidade da tentativa absolutamente inidônea. Além disso, na ausência de resultado injusto, a teoria Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 4 de 6
objetiva implica necessariamente atenuação penal. (JESCHECK, Hans-Heinrich. Tratado de Derecho Penal: Parte General. 1993, p. 464-465. tradução livre.) Nelson Hungria (seguido por Magalhães Noronha: "não existe dolo de tentativa") nos ensina que o delito pleno e a tentativa não são duas diferentes modalidades de delito, mas somente uma diferente manifestação de um único delito. Confira-se o seguinte excerto: [...] tentativa é crime em si mesma, mas não constitui crime sui generis, com pena autônoma: é violação incompleta da mesma norma de que o crime consumado representa violação plena, e a sanção dessa norma, embora minorada, lhe é extensiva. Subjetivamente, não se distingue do crime consumado (isto é, não há um elemento psíquico distinto da tentativa, em cotejo com o crime consumado) e, objetivamente, corresponde a um fragmento da conduta típica do crime (faltando-lhe o evento condicionante ou característico da consumação). No crime consumado, o evento corresponde à vontade do agente; na tentativa, fica ele aquém da vontade (precisamente o inverso do que ocorre no crime preterdoloso, em que o evento excede à vontade). (Comentários ao Código Penal, Forense, 3. ed., v. I, t. 2, p. 75) Como o réu não se defende da capitulação da denúncia, mas do fato descrito na exordial acusatória, não há a nulidade prevista no art. 384 do CPP, visto que o magistrado limitou-se a dar definição jurídica diversa (crime tentado) da que constou na denúncia (crime consumado), inclusive aplicando pena menos grave. Nesse sentido: [...] Tentativa não é figura autônoma, uma vez que seu elemento subjetivo é o mesmo do crime consumado. Na realidade, o tribunal a quo não deu nova definição jurídica ao fato delituoso, que continuou capitulado no art. 213 c/c art. 224, b, do CP. Assim, não se pode falar em emendatio libelli. [...] (REsp 38.756/AC, Rel. Ministro Adhemar Maciel, DJ 25/4/1994) Logo, não havendo a nulidade apontada, forçosa a manutenção da prisão cautelar do paciente. À vista do exposto, denego a ordem. Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 5 de 6
CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEXTA TURMA Número Registro: 2014/0152418-0 PROCESSO ELETRÔNICO HC 297.551 / MG MATÉRIA CRIMINAL Números Origem: 0024102866571 10024102866571 24102866571 2866571252010 EM MESA JULGADO: 05/03/2015 SEGREDO DE JUSTIÇA Relator Exmo. Sr. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR Subprocuradora-Geral da República Exma. Sra. Dra. RAQUEL ELIAS FERREIRA DODGE Secretário Bel. ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA IMPETRADO PACIENTE AUTUAÇÃO : ANA PAULA DO VALE FOSSALI PARANHOS : PABLO HENRIQUE DE OLIVEIRA SILVA FERREIRA : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS : D H R ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes contra a Dignidade Sexual - Estupro de vulnerável CERTIDÃO Certifico que a egrégia SEXTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: A Sexta Turma, por unanimidade, denegou a ordem, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Nefi Cordeiro, Ericson Maranho (Desembargador convocado do TJ/SP), Maria Thereza de Assis Moura e Sebastião Reis Júnior (Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator. Documento: 1388862 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 12/03/2015 Página 6 de 6