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Transcrição:

Apelação Cível em Mandado de Segurança n.º 2013.035539-0, de Lages Relator: Desembargador Ricardo Roesler APELAÇÃO CÍVEL EM MANDADO DE SEGURANÇA. VESTIBULAR. INDEFERIMENTO DE MATRÍCULA EM CURSO SUPERIOR. CANDIDATO CONVOCADO EM SEGUNDA CHAMADA. PEDIDO FORMULADO APÓS O PERÍODO DE INSCRIÇÃO. RESPONSABILIDADE DO CANDIDATO EM VERIFICAR O RESPECTIVO CALENDÁRIO ESCOLAR. PREVISÃO EXPRESSA NO EDITAL. INTERNAÇÃO PARA REALIZAÇÃO DE CIRURGIA. FATO IRRELEVANTE. POSSIBILIDADE DE PROCEDER A MATRÍCULA POR MEIO DE PROCURAÇÃO. AUSÊNCIA, AINDA, DE HISTÓRICO ESCOLAR DO ENSINO FUNDAMENTAL. DOCUMENTO IMPRESCINDÍVEL AO ALUNO ORIUNDO DE ESCOLA PÚBLICA. IMPETRANTE QUE CONCORREU ÀS VAGAS EM AÇÃO AFIRMATIVA. RECURSO DESPROVIDO. SENTENÇA MANTIDA. Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível em Mandado de Segurança n.º 2013.035539-0, da comarca de Lages (Vara da Fazenda Ac. Trabalho e Reg. Públicos), em que é apelante Youriki Carvalho Casagrande, e apelado Diretor Geral do Centro de Ciências Agroveterinárias - CAV da UDESC: A Quarta Câmara de Direito Público decidiu, por votação unânime, negar provimento ao recurso de apelação. Custas legais. Participaram do julgamento, realizado nesta data, os Exmos. Srs. Desembargadores Saul Steil e Rodrigo Cunha. Florianópolis, 22 de maio de 2014. RELATÓRIO Ricardo Roesler RELATOR E PRESIDENTE Youriki Carvalho Casagrande impetrou mandado de segurança contra suposto ato coator praticado pela Direção da Secretaria da Universidade do Estado

de Santa Catarina (Udesc) - Centro Agroveterinário de Lages argumentando, em síntese, ter sido aprovado no vestibular promovido pela impetrada, em segunda chamada, sem que a data da matrícula estivesse prevista no edital. Deduziu ter sido vítima de acidente de trânsito, permanecendo internado no período de 05 a 08 de fevereiro de 2013 e, em 13 de fevereiro, ao tentar efetuar sua matrícula, teve seu pedido indeferido, pois este estaria intempestivo, uma vez que a data limite para o ato teria se dado em 08 de fevereiro. Requereu o deferimento de liminar para que fosse determinada sua matrícula no curso de Agronomia, com a posterior confirmação desta e concessão da segurança em definitivo (fls. 02-08). Juntou documentos (fls. 09-21). A liminar foi deferida às fls. 22-23. Notificada, a autoridade coatora prestou informações, arguindo, preliminarmente, a carência da ação por ausência de direito líquido e certo, consoante as disposições do edital de vestibular, no sentido de que a inscrição dos candidatos aprovados em segunda chamada são de responsabilidade destes, cujas datas são lançadas no sítio eletrônico da instituição. No mérito, afirmou inexistir ilegalidade no ato praticado, pois pautado nos termos do edital, pleiteando a denegação da segurança (fls. 30-40). Trouxe documentos (fls. 41-54). Ao proferir sentença, o Magistrado singular denegou a segurança e revogou a liminar (fls. 58-60). Insatisfeito com a prestação jurisdicional, o impetrante interpôs recurso de apelação, oportunidade em que reeditou os termos da inicial, postulando a reforma da decisão de primeiro grau e a consequente concessão da segurança (fls. 62-72). Contrarrazões às fls. 75-82. O recurso foi recebido em efeito devolutivo e suspensivo (fl. 84). Lavrou parecer pela douta Procuradoria-Geral de Justiça a Exma. Sra. Eliana Volcato Nunes, que opinou pelo desprovimento do apelo (fls. 85-87). É o relatório.

VOTO Trato de apelação cível em mandado de segurança interposto por Youriki Carvalho Casagrande contra ato do Diretor Geral do Centro de Ciências Agroveterinárias - CAV da Udesc em face da sentença que denegou a ordem pleiteada na inicial. O apelante pretende a concessão da segurança, para que lhe seja assegurado o direito à matrícula no curso de Agronomia, no qual foi aprovado, em segunda chamada, após a realização de vestibular, sob o argumento de que não foi informado sobre a data para realização do ato e, quando este ocorreu, estava internado em virtude de acidente automobilístico. Da análise dos autos, em especial o Edital 2013/1 (fls. 41-52), verifico que, de fato, não houve prévia fixação das datas para realização da inscrição dos candidatos aprovados nas chamadas subsequentes, sendo, contudo, explícito que era de responsabilidade destes o acompanhamento das convocações. Transcrevo os correspondentes itens do edital: [...] 11.10.5. A convocação das chamadas remanescentes somente será publicada no endereço eletrônico, no site www.vestibular.udesc.br. 11.10.5.1 Será de inteira responsabilidade do candidato verificar no site www.vestibular.udesc.br o cronograma das chamadas subsequentes. [...] 11.14.2. As chamadas subsequentes serão realizadas exclusivamente pelo site www.vestibular.udesc.br, sendo de inteira responsabilidade do candidato classificado acompanhar o andamento das referidas chamadas. 11.14.3. Se o candidato classificado convocado em chamadas subsequentes publicadas no site deixar de comparecer à matrícula, por qualquer motivo ou não apresentar a documentação exigida, nas datas estabelecidas no calendário de chamadas subsequentes desta Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC, perderá o direito à vaga, sendo substituído pelo próximo candidato da lista de espera, observando o Programa de Ações Afirmativas. Assim, não subsistem os argumentos lançados pelo apelante, de que não teve ciência das datas para realização da inscrição no curso pretendido, pois o edital do certame é claro ao determinar que cabia ao candidato acompanhar a publicação das convocações. Outrossim, não há que se falar em desconhecimento dos itens do edital, tendo em vista o elencado no item 3.2 do mesmo, que dá conta de que o candidato, ao proceder suas inscrição, concordava com os seus termos. Aliás, destaco que o fato de o apelante estar acamado ao tempo da matrícula (07 e 08 de fevereiro de 2013) é irrelevante para o deslinde do feito. Isso porque, de acordo com o item n. 11.11 do edital de vestibular, sua inscrição poderia ter sido realizada por procurador, a quem incumbiria a apresentação da documentação necessária. De outro lado, a alegada ocorrência de caso fortuito ou força maior pelo apelante, não restou demonstrada nos autos. Ora, segundo este relatou, o acidente automobilístico em que se envolveu teria ocorrido em 22 de dezembro de 2012,

permanecendo hospitalizado até o dia 27 daquele mês, sendo que a cirurgia se deu em 07 de fevereiro de 2013, sem comprovação de que esta tenha se dado de forma emergencial, a configurar a sua impossibilidade de realizar a matrícula. Com efeito, verificada a intempestividade do pedido de matrícula, sem que fosse demonstrada a ocorrência de caso fortuito ou força maior, entendo que a discussão acerca da apresentação do histórico escolar do ensino fundamental seria descipienda. De qualquer sorte, e a fim de evitar eventual alegação de omissão, consigno que o apelante foi classificado pelo programa de ações afirmativas, nos termos do item 1.1, I, do edital, segundo o qual 20% das vagas ofertadas foram reservadas aos candidatos que tenham cursado integralmente o ensino fundamental e médio em instituições públicas de ensino. Para tanto, deveria apresentar, no ato da matrícula, de acordo com o item 11.8 do edital, a documentação pertinente, o que, conforme certidão de fl. 54, não foi cumprido. As afirmações do apelante, no sentido de que os documentos por si apresentados sequer foram examinados quando tentou realizar sua inscrição, não devem prosperar. A uma porque a prova do alegado competiria a este, já no momento da impetração do mandado de segurança, por ser inviável a dilação probatória na espécie, e a duas porque o histórico escolar do ensino fundamental colacionado aos autos foi confeccionado em data posterior à tentativa de inscrição, conforme se vê do rodapé do documento de fl. 20. Ressalto que, quando a Lei n. 12.016/2009 fala, em seu art. 1º, em direito líquido e certo, está exigindo que este se apresente de forma robusta e ausente de dúvidas, já no momento da impetração, o que não garante, mesmo que demonstrado, a concessão da segurança. Colho dos ensinamentos do Juiz Hélio do Valle Pereira: "Não se deve confundir comprovação do direito (direito líquido e certo) com a procedência do pedido. Criem-se duas situações. Na primeira, o impetrante consegue provar, por documentos, a situação fática; do ponto de vista processual, há liquidez e certeza. Só que o juiz dá solução jurídica desfavorável ao particular. Nada há de surpreendente: o juiz investiga simultaneamente fato e direito; comprovados os fatos, isso não garante o êxito da demanda. É que o ordenamento jurídico pode oferecer caminho diferente do alvitrado pelo acionante. Muitos juízes dão pela carência de ação por falta de direto líquido e certo, ou simplesmente denegam a segurança por falta de direito líquido e certo. Essas palavras podem causar embaraço. O julgamento é de mérito: há ausência do direito subjetivo material. Enfim, direito líquido e certo não se confunde com a questão de direito substantivo debatida, somente com o aspecto probatório. A solução técnica preferível seria julgar improcedente o pedido, ficando claro que está sendo aplicado o art. 269, inc. I, do CPC." (O Novo Mandado de Segurança - Florianópolis : Conceito Editorial, 2010, p. 32-33). Ademais, anoto que, embora o lapso temporal transcorrido desde o deferimento da liminar (18 de fevereiro de 2013) até o momento, sendo que aquela

continua válida em razão do efeito suspensivo atribuído ao reclamo interposto, não há que se falar em direito adquirido, pois, como é sabido, as decisões liminares são precárias e não fazem coisa julgada, podendo ser modificadas a qualquer tempo. Acrescento, ainda, que a medida em casos como o presente, é concedida à luz do princípio da razoabilidade, tendo em vista que, o seu indeferimento naquele momento implicaria em grave prejuízo ao impetrante, caso demonstrado o seu direito líquido e certo. Contudo, com a apresentação de outros elementos de convicção junto às informações da impetrada, restou evidente a inexistência deste, motivo pelo qual a segurança deve ser denegada, com a improcedência dos pedidos iniciais. Assim, inexistente direito líquido e certo a ser amparado via mandado de segurança, a decisão de primeiro grau deve ser mantida. Tecidas essas considerações, conheço do recurso de apelação para negar-lhe provimento. É como voto.