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Transcrição:

Fernando Pessoa Ortónimo O Modernismo e os ismos da vanguarda Modernismo- movimento estilistico em que a literatura surge associada ás artes plásticas e por elas influenciada. Nova visão da vida, que se traduz, na literatura, por uma diferente concepção da linguagem e por uma diferente abordagem dos problemas que a humanidade se vê obrigada a enfrentar. Decadentismo- corrente literária que exprime o cansaço, o tédio, a busca de novas sensações Paulismo- o significado de paul liga-se à água estagnada, onde se misturam e confundem imensas matérias e sugestões. A estagnação remete para a agonia da água, paralisada e impedida de seguir o seu curso. Interseccionismo- entrecruzamento de planos, intersecção de sensações ou percepções. Futurismo- propõe cortar como passado, exprimindo em arte o dinamismo da vida moderna. O vocabulário onomatopaico pretende exaltar a modernidade. Sensacionismo- considera a sensação como base de toda a arte. Segundo Fernando Pessoa, são três os principios do Sensacionalismo: - o objecto é uma sensação nossa; - a arte é uma conversão duma sensação em objecto; - a arte é a conversão duma sensação numa outra sensação; Fernando Pessoa O ciclo pessoano corresponde ao encontro de novos horizontes poéticos, comunicados numa linguagem nova. É preciso compreender que o poeta não só assimilou o passado ético do seu povo como reflectiu em si as grandes inquietações humanas daquela época. A sua poesia tornou-se uma espécie de gigantesco painel de registo sismográfico das comoções históricas existentes em torno e em razão da 1ª Guerra Mundial (1914) Pessoa evolui do saudosismo para o paulismo e daí para o interseccionismo e sensacionalismo, graças ao culto exacerbado ao vago, ao subtil e ao complexo e a influência simultânea do cubismo e do futurismo. O poeta atinge-as por meio de uma consciente intelectualização daquilo que no saudosimo era apenas uma nota instintiva e emotiva. 1

Fernando Pessoa parte sempre de verdades apenas aparentemente axiomáticas, e aparentemente porque, primeiro, resultam de um longo e acurado trabalho de reflexão analitica em torno daquilo que é motivo dos seus poemas; segundo, porque contêm sempre uma profunda verdade dialética que lhes destrói facilmente a fina crosta de verdade dogmática. Caracteristicas temáticas Identidade perdida; Consciência do asurdo da existência; Tensão sinceridade/fingimento, consciência/inconsciência e sonho/realidade; Oposição sentir/pensar, pensamento/vontade, esperança/desilusão; Anti-sentimentalismo: intelectualização da emoção; Inquietação metafisica, dor de viver; Auto-análise; Caracteristicas Estilisticas Musicalidade: aliterações, transportes, ritmo, rimas, tom nasal (que conotam o prolongamento do sofrimento e da dor) Verso geralmente curto Predominio da quadra e da quintilha Adejectivação expressiva Linguagem simples mas muito expressiva (significados escondidos) Pontuação emotiva Uso de simbolos Fiel à tradição poética lusitana e não longe, muitas vezes, da quadra popular Figuras de Estilo Hipérbato separação das palavras que pertencem ao mesmo segmento por outras palavras não pertencentes a este lugar. 2

Perífrase utilizar uma expressão composta por vários elementos em vez do emprego de um só termo. Ex.: E os que lêem o que escreve (Autopsicografia) Metáfora Ex.: Gira, a entreter a razão Esse comboio de corda (Autopsicografia) Aliteração repetição dos fonemas iniciais consonânticos de várias palavras dispostas de modo consecutivo. Ex.: O vento vago voltou (No entardecer da terra) Antítese oposição de duas palavras, expressões ou ideias antagónicas, no intuito de reforçar a mensagem. Ex.: Que a morna brisa aquece (...) Jaz morto, e arrefece (O menino da sua mãe) Adjectivação Ex.: pobre, feliz, anónima, alegre (Ela canta, pobre ceifeira) Comparação Ex.: É como que um terraço (Isto) Apóstrofe Ex.: Ó céu! Ó campo! Ó canção (Ela canta, pobre ceifeira) Personificação Ex.: E o vento livido volve (No entardecer da terra) Pleonasmo repetição do mesmo significado por dois significantes diferentes na mesma expressão. Ex.: Entrai por mim a dentro (Ela canta, pobre ceifeira) Hipálage transferência de uma impressão causada por um ser para outro ser, ao qual logicamente não pertence, mas que se encontra realcionado com o primeiro. Ex.: No plaino abandonado (O menino da sua mãe) Gradação apresentação de vários elementos segundo uma ordenação, que pode ser ascendente ou descendente. Ex.: Jaz morto, e arrefece (...) Jaz morto, e apodrece (O menino da sua mãe) 3

Sinestesia mistura de dados sensoriais que pertencem a sentidos diferentes. Oxímoro consiste em relacionar dois termos metafóricos perfeitamente antonímicos. Ex.: Não o sei e sei-o bem Quiasmo repetição simétrica do mesmo tipo de construção simples. As Temáticas O fingimento artistico Autopsicografia O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim na calha de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. Estamos perante uma descrição da própria alma, apresentada em três estrofes. Na primeira estrofe : pensamento implícito no conjunto do poema. Sendo um fingidor, o poeta não finge a dor que não sentiu. Finge aquela de que teve experiência directa. Afasta a possibilidade de se interpretar o conceito de 4

fingimento como completa simulação de uma dor que não se teve. Pessoa não considerava a poesia a passagem imediata da experiência à arte, opunha-se a toda a espontaneidade. Exigia a criação de uma dor fingida sobre a dor experimental. O poeta deve procurar representar materializando-a, essa dor, não nas linhas espontâneas em que ela se lhe desenhou na sensibilidade, mas no contorno imaginado que lhe dá, voltando-se para si mesmo e vendo-se a si próprio como tendo tido certa dor. A dor real, ou seja, a dor dos sentidos, transforma-se na dor imaginária (dor em imagens). O poeta finge a dor em imagens e fálo tão perfeitamente que o fingimento se lhe apresenta mais real que a dor fingida. A dor fingida transforma-se em nova dor (imaginária), cuja potencialidade de comunicação absorve todas as virtualidades da dor inicial. Na segunda estrofe, os leitores de um poema não terão acesso a qualquer das dores: a dor real ficou com o poeta; a dor imaginária não é já sentida pelo leitor como dor, porque o não é (a dor é do mundo dos sentidos e a poesia dor imaginada ou representada é da esfera do espirito). Os leitores só têm acesso á representação de uma dor intelectualizada, que não lhes pertence ( Mas só a que eles não têm ) Na terceira estrofe, se a poesia é uma representação mental, o coração não passa de um entretenimento da razão, girando, mecânicamente, nas calhas (símbolos de fixidez e impossibilidade de mudança de rumo). A dialética do ser e do parecer, da consciência e da inconsciência, a teoria do fingimento. Predominam as formas verbais no presente, tmpo que conota uma ideia de permanência e que aqui aparece utilizado para sugerir uma afirmação de algo que assume foros de uma verdade axiomática Três advérbios de significado semelhante que é necessário referir pela importância que assumem na caracterização das três dores: Finge tão completamente (o poeta)... que deveras sente (o poeta) Na dor lida sentem bem (os leitores) Na primeira quadra, há três palavras da familia do verbo fingir e repete-se a palavra dor nos 3º e 4º versos. 5

Na segunda quadra, as formas verbais lêem, escreve, sentem, teve (=sentiu) e não têm (=não sentiu), conglobam os três tipos de dor : a dor verdadeira que o poeta teve; a dor que ele escreve e aquelas que os leitores lêem e não têm. Na terceira estrofe, as formas verbais gira e entreter sugerem a feição lúdica da poesia. Ao coração cabe girar em calhas e entreter, fornecer emoções, à razão fica reservado o papel mais importante de toda a elaboração que foi apresentada nas duas primeiras quadras. A nivel semântico, a linguagem é seleccionada e simples, o que não quer dizer que a sua compreensão seja fácil. Tal fica a dever-se a vários factores: - Aproveitamento de todas as capacidades expressivas das palavras e repetição intencional de algumas. - Utilização de simbolos, como por exemplo as calhas que implicam a dependência do sentir em relação ao pensar. - Metáforas com saliência para a que é constituida pelo primeiro verso do poema e para o conjunto que constitui a imagem final: o coração apresentado como um comboio de corda que gira nas calhas de roda a entreter a razão. - Perífrase do 1º verso da 2ª quadra: Os que lêem o que escreve em vez de os leitores. Isto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, 6

Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Três quintilhas de hexassílabos. Há várias vezes recurso à aliteração: - Em s : Eu simplesmente sinto/com a imaginação/não uso o coração - Em f : O que me falha ou finda - Em l : Livre do meu enleio Utiliza muitas vezes o tranporte Aspecto fónico: na primeira quintilha, o poeta recorre a sons fechados e, sobretudo, á nasalação, havendo rimas em in e em ão, enquanto na segunda, há já uima alternância entre a e in, para, na terceira, praticamente, desaparecerem os sons nasais. Pode corresponder á passagem de uma situação de arrastamento, ou tensão, para um estádio de clarividência ou convicção. Mais uma vez se expõe uma aparente antitese: sentimento (coração)- pensamento (razão) e ganha contornos nitidos a dialética imcompleta de Pessoa. A antitese so seria dialecticamente válida se conduzisse a uma coisa linda conseguida e não pressentida. Quem pode comtemplar essa coisa coberta pelo terraço? Só o poeta, porque é capaz de se libertar do enleio do mundo e escrever em meio do que não está ao pé, isto é, usando a imaginação/razão em busca do que é e apenas seguro do que não é Pressentimento do que não é e a sugestão de que aquilo que não é é que, verdadeiramente, é. A tarefa do poeta é, portanto, essa viagem imaginária, esse pressentir do ser, da coisa linda e não sentir ( Sentir? Sinta quem lê! ) Primeira estrofe- o poeta apresenta a sua tese: não usa o coração, sente com a imaginação e não mente. Segunda estrofe- necessidade de usar a imaginação: o poeta pretende ultrapassar o que lhe falha ou finda e comtemplar outra coisa. Terceira estrofe- por isso se liberta do que está ao pé, que é a verdade para aqueles que dizem que finge ou mente e tudo o que escreve, em busca daquilo que é verdadeiro e belo a coisa linda Quase inesperadamente, o poeta diz: Sentir? Sinta quem lê!. Poderá parecer que há uma ruptura e estaremos perante uma quarta parte do poema. Mas não. Trata-se de uma fechamento de um circulo. De um voltar ao principio: só quem sente (quem lê e não escreve) é que pode dizer que o popeta finge ou mente tudo o que escreve. No último verso há uma frese do tipo interrogativo e outra do tipo exclamativo. À laia de remate ou devolução irónica de um remoque, vêm imprimir-lhe uma certa dinâmica. A nivel semântico: - Não uso o coração (o inesperado de o poeta não usar o coração, como se fosse um utensilio dispensável ou substituivel. 7

- Tudo o que sonho (...) é (...) um terraço, uma divisão, uma separação imaginária. - Essa coisa é que é linda, linda aplicado a uma coisa que está sob um terraço imaginário, e que, portanto só existe metaforicamente. - A recuperação para a poesia de palavras prosaicas como coisa utilizada em versos consecutivos, para designar algo que está muito para além do Universo sensivel. - A palavra sério no penúltimo que aparece como um vestigio da formação anglo-saxónica do autor (tradução directa de sure que normalmente significa certo ou seguro A felicidade e originalidade do simbolo terraço, quakquer coisa que nos divide de algo que está sob os nossos pés e nunca conseguimos agarrar com as mãos. È semanticamente importante o poeta dizer que escreve... em meio do que não está ao pé, imagem paradoxal, deliberadamente perturbadora e expressiva da imaterialidade dos dominios em que se movimenta. A comparação que engloba os três primeiros versos da 2ª estrofe, aquele momento em que descreve o universo em que se move, para, logo de seguida, ficarmos a saber o que procura. A dor de Pensar Ela canta, pobre ceifeira Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anônima viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões pra cantar que a vida. Ah, canta, canta sem razão! O que em mim sente 'stá pensando. Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando! 8

Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai! Seis quadras, com versos octossilabos e rima cruzada. Na primeira estrofe é toante a rima de ceifeira com cheia e na quinta estrofe, é forçada a rima do eu com céu Aliteração: - Em l : No ar limpo como um limiar - Em v : E há curvas no enredo suave - Em s :... no enredo suave/do som 1ª parte três estrofes iniciais em que, de um modo geral, se descreve o canto da ceifeira; primordialmente interessado em descrever a exterioridade; 2ª parte as restantes estrofes, em que se apresentam os efeitos da audição desse canto na subjectividade do poeta. Procura traduzir as suas próprias emoções desencadeadas na sua interioridade pelo canto da ceifeira, apesar da sua inconsciência. É mesmo perceptivel ao nivel da pontuação e da frase, na primeira parte, o ponto final e a frase declarativa, enquanto na segunda parte todas as frases são exclamativas, com uma só excepção. Desdo o início há referências antitéticas: pobre e de uma anónima viuvez, a sua voz é alegre. E canta como se tivesse/mais razões para cantar que a vida, mas não as tem, logo o seu canto é inconsciente. A voz prende o poeta que por um lado se alegra de a ver feliz e, por outro, se entristece porque sabe que se a ceifeira tomasse consciencia da sua situação não encontraria motivos para cantar. Divisão em dois momentos: - Primeiro momento: o poeta apela (num apelo impossivel) para que a ceifeira continue a cantar, mesmo sem razão, para que o canto derramando entre no seu coração. - Segundo momento: verificada a impossibilidade de ser inconscientemente alegre, como a ceifeira, sem perder a lucidez, porque a ciência pesa, pede ao ceu, ao campo e á canção que entrem por ele dentro, disponham da sua alma como sombra e o levem. A nivel semântico: - Adjectivação - Antítese - Metáfora (palavras com sentido imaginário e não objectivo) 9

- Apóstrofe - Pleonasmo Há ainda as conotações de morte na parte final do poema. Se o céu, o campo e a canção transformarem a alma do poeta em sombra,e, depois o levarem, entendese que isso implica morte. Ó sino da minha aldeia Sino é simbolo da passagem do tempo (dolorosa); pouca expectativa em relação ao futuro; inconformismo, solidaão, ansiedade, nostalgia da infância; musicalidade- aliteração. 10

No Entardecer da Terra 1º momento em que o poeta descreve o que vê; 2º momento em que faz a passagem para o seu interior; análise do seu interior: frustração em relação ao passado, incapacidade de viver de acordo com o momento- só posteriormente se apercebe que esse momento não foi verdadeiramente vivido., tristeza, angústia, solidão. Nostalgia de um bem perdido A infância representa o eu ainda não desdobrado em eu reflexivo. É a inconsciência, o sonho, a felicidade longinqua, uma idade perdida. O menino da sua mãe No plaino abandonado Que a morta brisa aquece, De balas traspassado - Duas, de lado a lado -, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: "O menino da sua mãe". Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. 11

Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe. Inicialmente enuncia que naquele terreno se encontra o corpo do menino da sua mãe que vai arrefecendo apesar da morna brisa. Reforça-se o sentimento que o narrador sente ao observar o absurdo da guerra. Primeiro verso: hipálage, para transportar a ideia de abandono do menino para o plaino.. Predominam frases declarativas para mostar a profundeza do tema, pois retarata o desabar dos sonhos. A segunda parte do poema inicia-se com duas frases exclamativas para reforçar a efemeridade da vida do menino. A repetição do nome jovem relaciona-se com a expressividade das frases exclamativas que pretendem demosntrar a emoção da juventude do menino quando este morreu. Ligação entre objectos-possuidor: a cigarreira, há uma hipálage no 2º verso da 4ª quintilha, para demostrar a brevidade da vida do menino que nem teve tempo para utilizar a cigarreira. A segunda parte do poema surge uma outra hipálage no 3º verso da 5ª quintilha que se relaciona com a anterior devido á reduzida duração da vida do menino, o lenço que nem teve tempo de usar. Terceira parte do poema: discurso parentético (Malhas que o império tece) onde se pretende fazer uma acusação revoltosa ao império em questão. Surge, finalmente, a mãe que simboliza esperança, saudade, carinho e amor, que se encontra em casa ambiente oposto ao plaino. Penúltimo verso: finaliza-se a gradação iniciada no último verso da primeira estrofe (Jaz morto, e arrefece (...) Jaz morto, e apodrece), pretende traduzir a passagem do tempo durante o poema, em que o leitor sabe o que se passa mas a mãe e a ama não. 12