OS ATOS ILOCUTÓRIOS DO BAH Gabrielle Perotto de Souza da Rosa Patricia de Andrade Neves Patrícia Martins Valente RESUMO: O presente trabalho pretende analisar as diferentes entonações e interpretações da interjeição usada no Rio Grande do Sul o Bah embasando-se na teoria dos Atos de Fala, de Austin e também nos estudos de Searle. Os nativos do estado utilizam-se de forma muito recorrente desta interjeição, mas ela não tem somente um significado, pode ser dada a inúmeras interpretações. E sem precisar explicar o que significa, somente emitindo a interjeição, a comunicação entre locutor e ouvinte se faz eficiente, de forma que uma simples palavra consiga resumir a emoção sentida e expressada no momento. Serão utilizados exemplos que demonstrem algumas situações em que a interjeição bah é utilizada por seus interlocutores, mas é importante afirmar que as possiblidades não são esgotadas nesse artigo. PALAVRAS-CHAVE: Atos ilocutórios. Atos de Fala. Bah. 1. Introdução A filosofia da linguagem é uma das principais áreas da filosofia contemporânea. É essa corrente que é a responsável pelos estudos dos fenômenos linguísticos e como a linguagem interage com o mundo. As teorias de Austin e Searle sobre Os Atos de fala ajudam os falantes da língua a entenderem um pouco mais sua complexidade e a perceberem o quão profundas são as reflexões sobre a faculdade da linguagem. Austin (1990) descreve os atos de falam como atos comunicativos que apresentam diversos níveis, sendo os de maior relevância: o ato locutivo, o ato ilocutivo e o ato perlocutivo. Para Koch (2010) ao proferirmos um enunciado, esse tem uma determinada força que produzirá um determinado efeito no interlocutor, inclusive efeitos que o locutor não teria imaginado. As peculiaridades da linguagem estão em todo lugar, toda cultura, toda língua. Cada uma possui detalhes que somente os conhecedores daquela língua podem perceber. E, no Rio Grande do Sul, também há uma peculiaridade interessante na língua: além de palavras corriqueiras como tchê, guri e outras características do léxico local, usa-se demasiadamente uma interjeição, conhecida por ser a redução de barbaridade: o bah. Percebe-se que os gaúchos se utilizam de sua tão usual interjeição bah com diversas entonações, e os ouvintes e também usuários da interjeição compreendem fielmente o que, Texto completo de trabalho apresentado na Sessão 4 Quarta-feira, 11 de maio de 2016, 16:30-18:00 Bloco B: Sala 217 do Eixo Temático Estudos Pragmáticos IV do 4. Encontro da Rede Sul Letras, promovido pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem no Campus da Grande Florianópolis da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) em Palhoça (SC). Estudante de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do RS - PUCRS. Mestre em linguística. Docente de língua portuguesa na rede pública estadual e municipal. gabiperotto@gmail.com. Estudante de Mestrado do Programa de Pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do RS - PUCRS. Titulação maior do autor. andradeneves.patricia@gmail.com Estudante de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do RS - PUCRS. Mestre em linguística. Docente de língua portuguesa na rede pública municipal de POA. E- mail do autor. 443
naquele momento, aquele bah quis expressar. Então, baseado nas teorias de Searle e Austin, este breve estudo pretende analisar alguns dos diversos atos ilocutivos que o bah pode expressar. 2. Atos de fala Quando dizer é fazer John Austin foi o precursor da Teoria dos Atos de Fala, que depois foi seguida por John Searle. Em Quando dizer é fazer, de Austin (1990), tem-se desenvolvida a ideia dos enunciados performativos, aqueles que ao serem enunciados executam juntamente uma ação, como é o caso de prometer, apostar, desafiar. Para um proferimento performativo ser feliz (dar certo, ser aplicável) certas sentenças devem ser verdadeiras. E uma declaração implica a verdade de outra declaração. Austin fala que o proferimento performativo explícito são verbos como eu batizo, aposto, prometo, dou. O proferimento performativo é pessoal, contém verbos na 1ª pessoa, ou impessoal (voz passiva). O modo e o tempo falham como critérios absolutos, mas a preferência é o presente na voz ativa. Austin (1990) propõe a existência de três atos que circunscrevem o enunciado: locutório, ilocutório e perlocutório. O ato locutório, ou locucionário diz respeito ao que efetivamente é dito/enunciado, com sentido, aquilo que toma corpo na língua, que usa sons, gestos, entonação. O ato ilocutório, ou ilocucionário, está no campo psicológico, isto é, diz respeito ao que se quis dizer com o que se disse ou, em outras palavras, com as intenções do falante. Finalmente, o ato perlocutório ou perlocucionário está no campo da interação e diz respeito ao efeito de sentido provocado no ouvinte/receptor. Austin (1990), em sua obra Quando dizer é fazer, fala que nem todas sentenças são declarações e que toda declaração deve ser verificável. Então, as declarações não-verificáveis são pseudo-declarações, que não descrevem nem relatam, pois não são verdadeiras nem falsas. O proferimento da sentença é a realização da ação, porque quando se profere, tem-se a intenção de cumprir. Caso não seja cumprido, não está relacionado ao proferimento, mas ao ato em si. Os casos que não dão certo são más aplicações, são violações, pois não há procedimentos inapropriados ou defeituosos. Austin (1990) afirma que atos não são verdadeiros ou falsos, mas podem ser felizes (happy) quando realizados com sucesso, ou infelizes (unhappy) quando não realizados com sucesso. Ele explica que uma promessa, por exemplo, não é verdadeira nem falsa, mas pode ser feita de má fé, isto é, uma pessoa pode prometer algo sem ter a intenção de cumprir. Se a pessoa promete algo e não cumpre, não se diz que ela fez uma promessa falsa, mas que essa pessoa não cumpre com sua palavra, que ela não é confiável ou que suas promessas são vazias. Austin, quando apresenta os Atos de Fala, quer mostrar que é possível existir uma estruturação dentro da linguagem, além de apresentar que para ele as palavras são muito mais do que apenas sentenças que poderiam ser consideradas verdadeiras ou falsas. Há algumas proposições que não podem ser consideradas verdadeiras e nem falsas, entretanto existem e têm seu significado. Ao pronunciar algumas proposições, não se está apenas descrevendo as ações; ao contrário, ao dizer algumas palavras, está se realizando as ações, ou seja, algumas ações, para que sejam executadas, precisam que algumas frases sejam pronunciadas. As reflexões de Austin contribuíram muito para os estudos da pragmática, ou seja, o uso da língua. E contribuem também para este estudo, para o que se propõe. Na próxima seção, ver-se-á o que o sucessor de Austin, Searle, tem a contribuir para os atos de fala. 444
3. Os atos de fala Searle Austin procurava entender os Atos de Fala como uma totalidade, e essa diferença só foi reparada quando Searle observou os Atos de Fala de maneira separada. Para ele, os Atos de Fala continham uma complexidade maior que a observada por Austin. Por isso, quando Searle apresentou sua teoria, ele introduziu elementos que buscaram preencher as lacunas deixadas pelo seu antecessor. O filósofo Searle vai defender que há uma série de situações que fazem com que o ato ocorra sem a necessidade do uso do verbo performativo. Assim, ele faz mais uma divisão dentro do estudo dos Atos de Fala: Searle vai identificar a existência de Atos de Fala diretos e Atos de Fala indiretos, uma grande mudança em relação à teoria de Austin. Os atos de falas indiretos que Searle propõe na sua obra são aqueles que possuem uma força ilocucionária, obtida de maneira indireta por um meio de outro ato. Ou seja, dentro de uma mesma frase, dentro de um mesmo ato de fala, pode-se obter duas ou mais interpretações, pois nos atos de fala indiretos existe oculto um conjunto de interpretações que podem ser obtidos pelo conteúdo de uma mesma frase. Entretanto, dependendo do contexto em que a frase é dita, a mesma fala pode ter variadas interpretações ou apenas uma. Searle (1981) fala que há diferença entre dizer algo, querer dizer algo e dizer algo sem querer dizer. Falar é uma forma de comportamento regida por regras. Tanto regras gramaticais, de estrutura da língua, regras semânticas, para dizer algo com sentido; como regras sociais - se aquilo que é dito é adequado para o local e momento ou não. Searle (1981) afirma que O que dizemos significa mais do que realmente dizemos. Poucas vezes algo é dito sem a intenção de que o ouvinte entenda e realize a ação que não foi dita explicitamente, mas nas entrelinhas. A esposa, para o marido, se queixa que está sem roupas para o inverno. A intenção dela não é somente se queixar, mas que o marido compre roupas novas para ela. O chefe comenta com o funcionário que está precisando de um copo de café. Ele espera que o funcionário vá buscar um copo de café para ele. Nesses casos, Searle (1981) denomina de "secundários" os atos de perguntar, constatar, etc. e de "primário" o ato de pedir. No entanto, do ponto de vista da interpretação, pode-se dizer que o valor de pergunta e constatação é "literal", e o valor de pedido, "derivado". Por este viés, Searle está afirmando que existem atos concretos de fala, em que a pessoa fala o que realmente quis dizer, mas também existem os proferimento em que o locutor não teve aquela intenção, ou tinha outra intenção por trás de seu discurso. É baseado nessa teoria que, a seguir, segue-se a análise da interjeição bah, propósito deste trabalho. 4. O bah no comercial da cerveja Polar Antes da análise, será realizada uma rápida descrição do comercial: dois amigos estão em um bar, bebendo a cerveja Polar (que se orgulha de ser produzida no Sul, e utiliza-se desta característica em suas propagandas televisivas). Na conversa, o primeiro bah é pronunciado com entonação estendida e em conjunto entre os dois amigos, enquanto se olham e esfregam as mãos. Seguindo, um dos amigos pega a garrafa de cerveja para lhes servir, e derrama a cerveja fora do copo do outro. O segundo pronuncia um bah de reprovação, também gesticulando com as mãos. O primeiro faz uma cara de arrependimento e eles brindam com um bah em alto e bom som, e de duração mais curta que o primeiro. Assim que eles brindam, entra no bar uma mulher vestindo shorts e blusa decotada comum em comerciais de cerveja, os amigos se entreolham e ecoam em uníssono um bah de satisfação e surpresa. Mas ao passar por eles, ela vai em direção de seu 445
namorado, um homem grande e forte, e os amigos pronunciam um bah com duração estendida, em concordância, expressando decepção, melhor transcrito como beh. A interpretação dada a essas interjeições utilizadas podem ser inúmeras, porém, o interlocutor as reconhece e as entende, sem precisar de explicação. Mas quais são os atos ilocutórios do bah do comercial? O primeiro, através da expressão facial, agregado ao movimento das mãos e ao bah estendido, mostra uma expressão de satisfação, resultado de ver a cerveja à sua frente, como se dissessem: espetacular. O segundo bah, como já dito, mostra reprovação de um amigo pela atitude do outro, fazendo com esse bah uma repreensão, como se dissesse: Como tu fazes uma coisa dessas?. O terceiro, agora no momento de saborear a tão aguardada cerveja, expressa alegria imensa: Que maravilha, não tem coisa melhor. No quarto, eles cobiçam a mulher que está entrando no bar e, com uma interjeição expressando extrema satisfação, é como se aquela imagem completasse o momento em que eles estão vivendo de beber a melhor cerveja. Por fim, na quinta vez que a expressão aparece, eles demonstram sua total decepção ao ver que a moça não está disponível, e que o bah utilizado é como se dissessem: sem chance. No livro Dicionário de Porto-Alegrês, o professor Luís Augusto Fisher traz uma definição de bah: Bá Muitas vezes escrito bah, significa tanto aprovação quanto desaprovação; já se disse que é uma redução de barbaridade (...). Muito usado como fala de aprovação enfática a algo feito ou dito: Mas bá quer dizer tu tens toda a razão, pode crer, é isso aí. (FISCHER, p.40) No verbete retirado do dicionário, acima, o autor afirma ser a palavra em questão utilizada para aprovação ou desaprovação, então ela depende exclusivamente do contexto, do uso, para ser compreendida. Com o atual uso constante da escrita através de mensagens de texto nos telefones celulares, o bah necessita muito mais do contexto do que quando é utilizado na fala, pois nesse formato não se pode ver a expressão do locutor, nem a entonação que ele utiliza ao pronunciar a palavra. Muitas vezes, a compreensão do bah também se dá pelas palavras que contextualizam a expressão. Se o bah é utilizado como resposta a algum pedido, significa que a pessoa que o pronuncia já está dizendo que não poderá realizar o pedido, principalmente se ela utilizar um olha só acompanhando o bah, que provavelmente terá uma entonação mais curta. Se o bah for de duração estendida e vier acompanhado de tu nem sabe, significa que o locutor que contar algo curioso ao interlocutor, quase como uma fofoca. Enfim, há diversas formas de pronunciar esta palavra tão rica de significados, e sua compreensão é dada através do contexto e relação entre os interlocutores. E as teorias de Searle e Austin sobre os atos ilocutórios ajudam a compreender esses fenômenos dados à pragmática. Considerações Finais A repercussão da interjeição bah por todo o Rio Grande do Sul é interessante e compreensível quando se pensa em sua múltipla utilidade e interpretação. E esse fenômeno, que envolve além da pronúncia a sua compreensão por parte dos interlocutores, foi pensada pelos filósofos da linguagem há algum tempo atrás. Com as teorias desenvolvidas por Austin e Searle, a Teoria dos Atos de Fala ajuda a compreender como uma interjeição pode ser pronunciada de forma tão variada e ser interpretada por seus interlocutores de forma tão ampla e ainda assim ser eficaz. Embasada nessa teoria, analisou-se brevemente os diversos atos ilocutórios que compreendem a pronúncia do bah, utilizando-se de exemplos práticos do dia a dia e de um vídeo 446
de uma propaganda comercial local. Também, utilizando-se da definição do verbete no dicionário de Porto Alegrês, pode-se constatar que a palavra é dada a significados dicotômicos, de aprovação ou reprovação, mas nem por isso é menos compreendida entre os seus usuários. Para finalizar o estudo, conclui-se que é necessária a inserção do contexto na utilização da interjeição, assim como o conjunto que acompanha sua pronúncia contribui bastante para sua compreensão: gestos e entonações são primordiais para desvendar suas múltiplas interpretações. Referências AUSTIN, J. L., Quando Dizer é Fazer. Trad. Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. Comercial Polar disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=now5rfwbbd0 acesso em 21/06/2015. FISCHER. L. A. Dicionário de Porto-Alegrês. 10 ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000. KOCH, Ingedore Villaça. A Inter ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 2010. 447