O TRIÂNGULO PSEUDO-RETÂNGULO E A HIPÉRBOLE EQUILÁTERA SERGIO ALVES IME-USP salves@ime.usp.br Sejam A e A dois pontos distintos de um fixado plano euclidiano E. Se E indica a circunferência de diâmetro AA, um resultado clássico da geometria afirma que P {A, A } se, e somente se, m( APA ) = 90. Alternativamente, tem-se que = {A, A } {P E m( PAA ) + m( PA A) = 90}. Problema: Qual figura é o conjunto {A, A } {P E m( PAA ) m( PA A) = 90}? Definição. Um triângulo PAA tal que m( PAA ) m( PA A) = 90 é chamado triângulo pseudo-retângulo em P. Uma de suas principais propriedades é motivada por uma conhecida relação métrica válida para triângulos retângulos: Sendo PAA um triângulo retângulo com ângulo reto no vértice P e sendo Q a projeção ortogonal de P sobre a reta AA, tem-se (PQ) = (AQ)(A Q). Embora esta relação esteja presente na totalidade dos livros didáticos, não se destaca o fato que, neste caso, o ponto Q está entre os pontos A e A (escreve-se A Q A). Vejamos como esta relação se apresenta para um triângulo pseudo-retângulo. Atividade 1. Seja PAA um triângulo satisfazendo m( PAA ) m( PA A) = 90. (a) Sendo Q a projeção ortogonal de P sobre a reta AA, explique porque A Q A, Q A A, Q = A e Q = A são situações que não podem ocorrer. Conclua que A A Q. (b) Mostre que PQA A QP e conclua que (PQ) = (AQ)(A Q). 1
Atividade. Seja PAA um triângulo tal que a projeção ortogonal Q do vértice P sobre a reta AA satisfaz A A Q e (PQ) = (AQ)(A Q). Mostre que PQA A QP e conclua que m( PAA ) m( PA A) = 90. Em resumo, até aqui você provou o seguinte fato: Dado um triângulo PAA, seja Q a projeção ortogonal de P sobre a reta AA. Nessas condições, tem-se m( PAA ) m( PA A) = 90 se, e somente se, A A Q e (PQ) = (AQ)(A Q). De modo inteiramente análogo prova-se que m( PA A) m( PAA ) = 90 se, e somente se, tem-se Q A A e (PQ) = (AQ)(A Q). Segue assim nosso primeiro resultado. Lema 1. Sendo Q a projeção ortogonal de P sobre a reta AA tem-se que PAA é um triângulo pseudo-retângulo em P se, e somente se, Q não pertence ao segmento AA e (PQ) = (AQ)(A Q). Atividade 3. (opcional) Mostre que as propriedades abaixo também caracterizam o fato de um triângulo PAA ser pseudo-retângulo em P: (a) As bissetrizes dos ângulos interno e externo de vértice P formam, com a reta AA, ângulos agudos de medida 45. (b) A reta tangente em P à circunferência circunscrita ao triângulo PAA é perpendicular à reta AA. Retornando ao nosso problema considere um sistema ortogonal de coordenadas cartesianas de modo que o eixo Ox contenha os pontos A e A e o eixo Oy seja a mediatriz do segmento AA. Sendo a > 0 tal que AA = a, suponha A = (a, 0) e A = ( a, 0). Atividade 4. Seja P = (x, y) um ponto arbitrário não pertencente à reta AA. (a) Quais as coordenadas da projeção ortogonal Q de P sobre a reta AA? (b) Verifique que m( PAA ) m( PA A) = 90 se, e somente se, x > a e x y = a. (c) Verifique que m( PA A) m( PAA ) = 90 se, e somente se, x < a e x y = a.
A igualdade x y = a (ou, equivalentemente, x y a a = 1) nada mais é do que a equação reduzida de uma hipérbole equilátera com vértices A e A. A condição x > a nos diz que P = (x, y) descreve o ramo dessa hipérbole que contém A excluído o próprio ponto A. Por outro lado, a condição x < a nos diz que o ponto P descreve o ramo que contém A excluído o próprio ponto A. Você talvez não reconheça de imediato a igualdade x y = a como a equação reduzida de uma hipérbole equilátera. Um procedimento mais familiar é considerar a hipérbole equilátera como o gráfico da função f(x) = k onde k é um número real não x nulo. Na próxima atividade pretende-se verificar a equivalência entre as duas formas. Atividade 5. Considere um sistema ortogonal de coordenadas cartesianas de modo que os novos eixos coordenados OX e OY sejam obtidos a partir dos antigos eixos Ox e Oy por uma rotação de ângulo em torno da origem O. Sejam (x, y) e (X, Y) as coordenadas de um mesmo ponto arbitrário P do plano em relação ao antigo e ao novo sistema ortogonal, respectivamente. (a) Mostre que x = Xcos Ysen e y = Xsen + Ycos. (Sugestão: Na figura abaixo temse m( ROT) = = m( SPT), x = OQ, y = PQ, X = OT e Y = PT.) (b) Faça = 45 no item (a). Note que, neste caso, os novos eixos coordenados OX e OY são as assíntotas da hipérbole equilátera. Verifique que x = (X + Y), y = mostre que a igualdade x y = a é transformada na equação XY = a. ( X + Y) e Atividade 6. (opcional) Sejam F e F dois pontos distintos de um fixado plano euclidiano E e seja a um número real positivo de modo que a < FF. A hipérbole de focos F e F e semieixo transverso a é o conjunto formado pelos pontos P E tais que PF PF = a. Considere um sistema ortogonal de coordenadas cartesianas de modo que o eixo Ox contenha os pontos F e F e o eixo Oy seja a mediatriz do segmento FF. Sendo c > 0 tal que FF = c, suponha F = (c, 0) e F = ( c, 0). 3
(a) Mostre que P = (x, y) pertence à hipérbole se, e somente se, x y a c a = 1. Sendo b = c a, a igualdade x y a b = 1 é chamada a equação reduzida da hipérbole. Os pontos A = (a, 0) e A = ( a, 0) pertencem à hipérbole e são chamados vértices da hipérbole. (b) Na equação x 0 = lim x [ b a y a b = 1 explicite y = f(x) com y 0 e mostre que lim x + [b a x f(x)] = x f(x)]. Para y = f(x) com y 0 mostre que lim x + [f(x) + b a x] = 0 = lim x [f(x) b a x]. As retas de equação y = ± b a x são denominadas assíntotas da hipérbole. No caso em que estas assíntotas são perpendiculares, ou seja, quando a = b, a hipérbole se chama equilátera. Os resultados desenvolvidos até aqui estabelecem a prova do principal teorema deste trabalho e respondem ao nosso problema. Teorema 1. Sejam A e A dois pontos distintos de um fixado plano euclidiano E. Nessas condições, a reunião {A, A } {P E m( PAA ) m( PA A) = 90} coincide com a hipérbole equilátera de vértices A e A. O resultado demonstrado no Teorema 1 justifica uma construção muito simples que permite obter, com régua e compasso, os pontos de uma hipérbole equilátera de vértices A e A. Vejamos como. Atividade 7. (a) Assinale, na sua folha, dois pontos distintos A e A e desenhe a circunferência de diâmetro AA. (b) Trace a reta t tangente a em A e o diâmetro BB de perpendicular ao segmento AA. 4
(c) Escolha um ponto arbitrário R da semicircunferência BB de que contém A e trace a reta simétrica da reta AR em relação à reta tangente t. Indique por u tal reta. (d) Sendo P o ponto em que a reta A R intersecta u, mostre que P pertence ao ramo da hipérbole equilátera de vértices A e A que contém A. (Sugestão: Basta provar que m( PAA ) m( PA A) = 90.) Note que se R = B ou R = B as retas A R e u são retas paralelas e, neste caso, o ponto P não existe. (e) Permutando-se os papéis de A e A, obtêm-se o ramo da hipérbole equilátera de vértices A e A que contém A. Finalizamos este trabalho com a proposta de uma atividade investigativa que deve ser desenvolvida preferencialmente com o auxílio de um programa de geometria dinâmica como, por exemplo, o GeoGebra. Tais programas permitem o traçado imediato de uma hipérbole equilátera considerando-a, por exemplo, como a curva cuja equação, num sistema ortogonal de coordenadas cartesianas, é dada por xy = k onde k é um número real não nulo. Atividade 8. (a) Trace a hipérbole equilátera H de equação xy = 1 e assinale três pontos não colineares A, B, C pertencentes a H. Construa o ortocentro H do triângulo ABC (lembrese que H é o encontro das retas suportes de duas alturas quaisquer do triângulo). O que você observa? Essa observação permanece válida para outras escolhas de pontos não colineares A, B, C pertencentes a H? (b) Repita a construção efetuada no item anterior para a hipérbole equilátera de equação xy = 3. Sua conjectura continua valendo? O resultado esperado na atividade 8 é uma notável propriedade da hipérbole equilátera descoberta pelos matemáticos franceses Brianchon e Poncelet (veja []). Eis o seu enunciado. Teorema. O ortocentro de um triângulo inscrito numa hipérbole equilátera também pertence a essa hipérbole. A próxima atividade apresenta uma prova bem simples desta propriedade. Atividade 9. Considere um sistema ortogonal de coordenadas cartesianas de modo que a hipérbole equilátera dada tenha equação xy = k, k um número real não nulo. Assim, um ponto P = (x, y) pertence à hipérbole se, e somente se, y = k/x. (a) Sejam A = (a, k/a), B = (b, k/b) e C = (c, k/c) três pontos não colineares pertencentes à hipérbole. Explique porque nenhuma das retas AB, BC, AC é, neste sistema de coordenadas, uma reta vertical ou horizontal. (b) Escreva a equação da reta u que passa por A e é perpendicular à reta BC. (c) Escreva a equação da reta v que passa por B e é perpendicular à reta AC. (d) A intersecção das retas u e v é o ortocentro H = (x1, y1) do triângulo ABC. Determine as coordenadas x1 e y1 e verifique que x1y1 = k. 5
Uma pergunta natural que surge a partir do teorema acima é saber se essa propriedade notável caracteriza a hipérbole equilátera. Surpreendentemente a resposta é afirmativa. No capítulo 3 da referência [1] encontram-se várias demonstrações (baseadas nas propriedades projetivas das cônicas) do seguinte fato não trivial: o ortocentro de um triângulo inscrito numa cônica não degenerada C também pertence a essa cônica se, e somente se, C é uma hipérbole equilátera. Referências bibliográficas [1] Akopyan A.V. e A.A. Zaslavsky, Geometry of Conics, Mathematical World (AMS), Vol 6, 008. [] Brianchon C.J. e J.V. Poncelet, Géométrie des courbes. Recherches sur la détermination d une hyperbole équilatère, au moyen de quatre conditions données, Annales de Mathématiques pures et appliquées, tome 11, 180-181. 6