Quando o objetivo é ler e apreciar poesia

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Transcrição:

Prática Pedagógica Quando o objetivo é ler e apreciar poesia Um leitor deve reconhecer a complexidade e a beleza dos textos e saber argumentar sobre eles Wellington Soares Beatriz Santomauro NOVA ESCOLA Emoção estética é o sentimento que uma obra de arte causa. Ela diz algo que seu observador muitas vezes não consegue expressar com palavras e traz como reação um misto de dúvida e encantamento. Em tempos de redes sociais e textos sintéticos, um grande desafio dos professores é explorar em sala de aula essa

emoção tão presente nas poesias. As docentes Aira Martins e Maria de Fátima Cruvinel encararam a proposta e buscaram causar essas sensações para capturar os alunos e torná-los leitores do gênero. Para isso, apresentaram obras de diversos autores e mergulharam em textos dos brasileiros Vinicius de Moraes (1913-1980) e Roseana Murray (leia nesta página e na seguinte trechos de poemas trabalhados e comentários feitos pelos alunos). Forma e conteúdo no texto de Moraes *Antologia Poética (Vinicius de Moraes, 328 págs., Ed. Companhia das Letras, 11/3707-3500, 24 reais) No Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, o foco de Aira Martins foi o estudo de Vinicius de Moraes. Ela notou que os alunos do 7º ano já conheciam músicas e textos infantis do autor, mas não outras facetas de sua obra. Como ponto de partida para o trabalho, ela pediu que a turma coletasse informações sobre o poeta e socializasse o material selecionado, como dados biográficos, poemas e letras de músicas. Em seguida, distribuiu cópias de alguns textos e leu o Poema Enjoadinho, em que Moraes comenta os prazeres e sofrimentos de ter filhos. "Por

tratar do comportamento das crianças, a relação entre o poema e a vida de cada aluno era bastante forte. Eles comentavam o que faziam igual ao personagem e o que era exagero do autor." Para as atividades seguintes, a professora elegeu outros textos. A Bomba Atômica e A Rosa de Hiroshima falam de política e guerra. Já Soneto de Fidelidade, que relata um relacionamento, tem um verso conhecido das crianças. "Elas reconheceram o trecho?que seja infinito enquanto dure?, mas ficaram surpresas por não saber que ele fazia parte de um poema", conta a professora. Ao abordar textos tão diferentes, mostrou que a variedade também é possível quando se trata de um mesmo autor. As leituras eram seguidas de discussões. "Muitas vezes os estudantes retomavam a pesquisa inicial e relacionavam os textos com a vida do poeta, o que despertou um interesse por conhecer ainda mais o que ele escrevia e de que forma", diz. Impressões dos textos de Roseana Já no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás (Cepae-UFG), onde Maria de Fátima leciona, todos leem anualmente pelo menos um livro de poesia desde os anos iniciais do Ensino Fundamental. Por

isso, os estudantes do 6º ano já tinham familiaridade com o gênero. "Porém, eles estavam acostumados a textos direcionados a crianças menores e alguns tinham visões equivocadas, como a de que a poesia trata só de amor ou de relacionamentos", conta. Ela, então, procurou ampliar o repertório da turma apresentando textos de autores e temas variados, procedimento defendido por Jamesson Buarque, docente da UFG. "É preciso mostrar a poesia no máximo de sua amplitude. A cada poema, o aluno aprende a ler 1 milhão de outros com recursos estéticos, tema e forma semelhantes", explica. Alguns dos textos que Maria de Fátima apresentou definiam poesia, como Ressalva, de Mário Quintana (1906-1994). Já O Verbo Ser, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), e Beijos, de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), tratam de temas comuns ao dia a dia dos alunos. "Eu queria levá-los a observar que a poesia fala de tudo, da vida", conta. Em seguida, eles se aprofundaram no estudo do livro Poemas para Ler na Escola (Roseana Murray, 144 págs., Ed. Objetiva, 21/2199-7824, 28,90 reais), que tem linguagem mais elaborada e aborda assuntos variados, como a natureza e objetos do cotidiano. "A autora traz uma visão muito sensível, e a turma passou a notar esse olhar poético lançado sobre o mundo." Primeiro, a professora justificou a escolha da obra e explicou quem era Roseana, falando da vida e do trabalho da autora. Maria de Fátima leu os primeiros poemas em voz alta para mostrar a postura, a entonação e o ritmo aos alunos. Nas aulas seguintes, eles foram convidados a ler os textos que mais chamavam sua atenção, por causa do título, da forma ou do tema. A educadora explicou que ninguém deveria se preocupar em seguir uma ordem de páginas, como acontece normalmente em uma prosa.

Organizados em duplas ou trios, eles selecionaram um poema para ler e dissecar. Depois, teriam de lê-lo para os colegas, explicando o porquê da escolha e qual interpretação davam a ele. No fim de cada fala, o restante da turma fazia comentários e retrucava sobre as afirmações apresentadas pela equipe. A professora mediava as participações e pedia que fizessem relações com outras obras que conheciam. "Muitos comentavam a ligação que faziam com a própria vida, lembrando de algo visto ou pelo qual já passaram. Percebi que a descoberta da identidade, por exemplo, foi recorrente por ser algo comum aos jovens da idade deles e à obra de Roseana", conta Maria de Fátima. "O docente tem de tornar visíveis características pouco evidentes ou que não conseguem ser explicadas por quem desconhece o gênero", destaca Claudio Bazzoni, assessor pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Ele diz que o professor deve destacar o percurso de criação de um texto, ou seja, o processo pelo qual o escritor passou para elaborá-lo. "Muitas vezes, parece que a poesia é simplesmente fruto de um dom e se ignora o trabalho do autor", explica. "A exploração dos versos e a observação de rimas e aliterações aumentam o repertório dos alunos, que aprendem como são aplicadas as ferramentas classicamente usadas no gênero."

Os leitores devem observar os artifícios usados pelo poeta para despertar as sensações, e o educador precisa atuar como mediador da conversa, mostrando que embora a poesia cause muitas sensações, nem todas são válidas: é preciso que o texto contenha elementos que as expliquem. Para isso, questione: "Como vocês interpretam esse trecho?" e "De que forma justificam suas afirmações com base no texto?". "Diversas possibilidades de interpretação não significam que qualquer afirmação vale", diz Buarque. Nesse equilíbrio entre propostas - discussões com foco na forma e no conteúdo, leitura feita pelo professor e também em momentos em que a turma analisa textos com autonomia -, pouco a pouco os alunos de Aira e Maria de Fátima estão se tornando leitores de textos poéticos. 1 Seleção das obras Determine quais autores e poesias vão fazer parte das aulas. Para isso, estabeleça critérios, considerando a qualidade da obra e a atratividade para os estudantes. 2 Apresentação do material Mostre aos estudantes os autores e os textos que você escolheu para ser abordados nas próximas aulas. Justifique sua escolha e identifique os conhecimentos que eles já têm sobre os escritores. 3 Leitura pelo professor Leia os textos em voz alta agindo como um modelo de leitor para os alunos. Discuta sobre os significados e as sensações que os poemas trazem à turma. 4 Análise do aluno Indique que os estudantes façam uma leitura individual e analisem a história e a forma dos textos. Discuta sobre as possibilidades de interpretação. Endereço da página: https://novaescola.org.br/conteudo/2216/quando-o-objetivo-e-ler-e-apreciar-poesia Publicado em NOVA ESCOLA Edição 262, 01 de Maio de 2013