A interação pela linguagem

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Transcrição:

Tema A interação pela linguagem Tópico de estudo Coerência e coesão. Entendendo a competência Competência 6 Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de signifi cados, expressão, comunicação e informação. Essa área trata da linguagem, em suas mais diversas manifestações, como elemento indispensável para a construção de sentido e para o nosso relacionamento com o mundo. De fato, é importante que nós sejamos capazes de perceber que cada situação comunicativa apresenta objetivos, características e estruturas diferentes. Por isso, um poema tem que ser lido com uma percepção distinta da que temos quando lemos um jornal e uma campanha publicitária deve apresentar recursos linguísticos diversos daqueles que encontramos em textos técnicos. Cada habilidade dessa área vai explorar os recursos expressivos da língua e os procedimentos de construção e recepção de textos. Desvendando a habilidade Habilidade 18 Identifi car os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. Ao caminhar pelas ruas de uma cidade, certamente vamos nos deparar com sinais de trânsito, anúncios publicitários, instruções de funcionamento de alguns estabelecimentos, dentre muitos outros elementos. Trata-se de símbolos (de diferentes naturezas e de diferentes estruturas) criados para nos transmitir uma mensagem de forma clara e precisa. Para que sejamos plenos cidadãos, capazes de compreender todos os referenciais que estão à nossa volta, é importante saber reconhecer a organização específi ca dos principais gêneros textuais e os recursos linguísticos utilizados para construir as mensagens de maneira compreensível. Situações-problema e conceitos básicos Observe o texto a seguir: E, subitamente, é a era do Automóvel. O monstro transformador irrompeu, bufando, por entre os descombros da cidade velha, e como nas mágicas e na natureza, aspérrima educadora, tudo transformou com aparências novas e novas aspirações. Quando os meus olhos se abriram para as agruras e também para os prazeres da vida, a cidade, toda estreita e toda do mau piso, eriçava o pedregulho contra o animal de lenda, que acabava de ser inventado em França. Só pelas ruas esguias dois pequenos e lamentáveis corredores tinham tido a ousadia d aparecer. Vivemos inteiramente presos ao Automóvel. O Automóvel ritmiza a vida vertiginosa, a ânsia das velocidades, o desvario de chegar ao fim, os nossos sentimentos de moral, de estética, de prazer, de economia, de amor. O automóvel é um instrumento de precisão fenomenal, o grande reformador das formas lentas. Sim, em tudo! A reforma começa, antes de andar, na linguagem e na ortografia. É a simplificação estupenda. Um simples mortal de há vinte anos passados seria incapaz de compreender, apesar de ter todas as letras e as palavras por

inteiro, este período: O Automóvel Club Brasil sem negócios com a Sociedade de Automóveis de Reims, na garagem Excelsior. Hoje, nós ouvimos diálogos bizarros: Foste ao A.C.B.? Iéss. Marca da fábrica? F.I.A.T. 60 H.P. Tenho que escrever ao A.C.O.T.U.K. O que em palestra diz-se ligando as letras em palavras de aspecto volapuqueano, mas que traduzido para o vulgar significa que o cavalheiro tem uma máquina da Fábrica Italiana de Automóveis de Turim, da força de 60 cavalos e que vão escrever para o Aéreo Club do Reino Unido. É ou não é prodigioso? É a língua do futuro, a língua das iniciais. Um artigo de duzentas linhas escreve-se em vinte quase estenografado. Assim como encurta tempo e distâncias no espaço, o Automóvel encurta tempo e papel na escrita. Encurta mesmo as palavras inúteis e a tagarelice. O monossílabo na carreira é a opinião do homem novo. A literatura é ócio, o discurso é o impossível. João do Rio O texto é uma crônica do início do século XX sobre o choque cultural motivado pelo ingresso do automóvel no cotidiano dos cariocas. A progressão temática de A era do automóvel se dá em duas etapas, cada qual caracterizada por um tópico textual predominante. Você conseguiria identificar qual o tópico temático predominante em cada uma dessas etapas e como se explicita a ligação entre elas? Você deve ter percebido que o assunto fundamental da primeira parte do texto é o próprio automóvel. No entanto, João do Rio cita que ele é o grande reformador das formas lentas e, logo em seguida, demonstra o impacto que ele tem no campo da comunicação, na linguagem humana, mudando o foco do texto. No texto, predominam dois modos de organização do discurso, ou seja, duas formas diferentes de organizar o texto. Você é capaz de percebê-las? Repare que o primeiro parágrafo (construído no modo narrativo) relata para os leitores uma história envolvendo os veículos. O restante do texto (construído no modo dissertativo-argumentativo) tenta convencer o leitor, por meio de exemplo, da visão do autor sobre o impacto dos automóveis no nosso meio cultural. Como consequência, particularidades semânticas e gramaticais distinguem esses dois segmentos. Em relação às formas verbais, a primeira parte do texto valoriza os verbos de ação e o passado; a segunda, verbos de estado e o presente. O domínio de conceitos: 1. A progressão temática: noções gerais de coerência e coesão Sabemos que um texto não é um conjunto de palavras dispostas aleatoriamente. Pelo contrário, já nos é clara a necessidade de se criarem nexos, ao menos semânticos, que comprovem a relevância entre as informações e conceitos apresentados. Veja, por exemplo, o trecho: O olhar perdido no retrato. Apenas rostos e um emaranhado de passados. O coração para. É nítida a unidade lógico-semântica que confere textualidade ao segmento acima. Damos o nome de coerência a esse fenômeno linguístico. Quando dizemos que um texto ou que um pensamento é incoerente, queremos sugerir que, em algum momento, ele não nos faz sentido. Talvez, falte ao receptor o conhecimento de mundo necessário para decodificar as informações passadas pelo emissor; talvez, o emissor não tenha se preocupado em tornar seu texto claro para o receptor. A coerência está, assim, ligada à nossa capacidade de recepção de um texto. Para que isso se realize, alguns fatores são fundamentais: o conhecimento de mundo partilhado entre os interlocutores (que são os envolvidos na relação comunicativa); o domínio de um mesmo tipo de registro linguístico; a clareza na interdependência entre os elementos constituintes do texto (que estabelecem uma progressão do discurso do emissor); a função comunicativa do texto. Em alguns casos, por exemplo, o emissor tem certa intenção comunicativa, mas utiliza os recursos linguísticos de maneira inadequada, prejudicando o entendimento do receptor. Imaginemos, sem qualquer tipo de contexto, as sentenças: Todo mundo foi à festa, mas eu não. Todo mundo foi à festa, mas eu não consegui dormir. O conectivo mas introduz uma noção de adversidade/oposição, que torna perfeitamente compreensível a primeira frase: afinal, é natural a oposição todo mundo eu. Na segunda frase, no entanto, ir à festa e não conseguir dormir não estabelecem uma relação opositiva que justifique a utilização do mas, trazendo um problema de coerência para o texto.

Os elementos, como o mas, que explicitam a relação semântica entre as diversas partes do texto, são chamados de elementos de coesão. Compare os segmentos abaixo para comprovar como a coesão torna o texto mais claro: O pescador agitava-se em movimentos curtos e potentes. A vela tinha que ser içada logo. O barco do pescador não cederia à insistência das ondas em adernar o barco. O pescador agitava-se em movimentos curtos e potentes, já que a vela tinha que ser içada logo, para que seu barco não cedesse à insistência das ondas em aderná-lo. Por isso, a coesão é não só recomendável como também altamente desejável em redações de vestibular. Nos próximos itens, observaremos os principais mecanismos coesivos com o objetivo de fazer com que você saiba reconhecê-los e utilizá-los melhor. Observe, agora, o trecho: Assim como milhões de brasileiros, os habitantes do sertão nordestino estão sentindo na pele os efeitos da crise econômica. Os investimentos privados são insuficientes, e a ação pública é ineficaz. Com isso, muitos brasileiros ainda ficam à margem da estabilidade econômica, precisando se submeter a verdadeiras explorações para oferecer o mínimo às suas famílias. Ainda que se anunciem projetos para resolver essa questão, o fato é que há muito que ser feito. Ele evidencia, numa perspectiva crítica, as dificuldades de grande parte do povo nordestino. O sentido do texto é viabilizado pela ligação entre os diversos elementos do texto, que cooperam numa harmoniosa progressão. A coesão de um texto, que explicita sua coerência, não é construída, necessariamente, com conectivos apenas. Caso interessante é o do texto abaixo: Circuito Fechado Ricardo Ramos Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro. A organização vocabular estabelece relações semânticas coerentes, estabelecendo uma progressão temática que evidencia a preocupação do emissor em retratar um cotidiano maquinizado, robotizado. Ainda que sem os conectivos de coesão, o texto apresenta nítida coerência. Existem muitos elementos gramaticais que expressam a coerência semântica. Observe as frases abaixo e os comentários sobre elas: Quem tem dinheiro procura o ensino particular. Onde há estrutura melhor para aprender. Há dois problemas que interferem na coerência textual. A presença do onde, que deveria ser substituído por em que ou no qual, e a utilização do ponto final, que deveria ser substituído por uma vírgula. Dessa forma, a segunda parte do enunciado não apresentaria problemas de compreensão para o receptor. O papel preponderante da escola, que seria de formar e informar, principalmente crianças e adultos, hoje não está alcançando esse objetivo. Como o período é muito longo, o emissor perdeu a relação entre os membros da sentença. Repare que o sujeito é o papel preponderante da escola, mas a informação transmitida ( hoje não está alcançando esse objetivo ) desvia-se desse termo, criando uma frase incoerente. Saúde, problema brasileiro que, por direito, todo mundo deve ter acesso. A falta de clareza no referente do relativo que (se saúde, se problema ) cria o problema da coerência da frase. O tempo nos proporciona muitos sacrifícios.

O problema aqui é de seleção vocabular: proporcionar sugere algo positivo, mas seu complemento aponta para algo negativo ( muitos sacrifícios ). O Partido X dedica-se a essa atividade mais do que nunca. Ocorre que ainda está longe do desejado, seja por falta de vontade, de vocação ou de incapacidade do partido. Entre outras razões, é por esse motivo que o dólar sobe. Fernando Rodrigues, Folha de S.Paulo, 25/09/2002 (parcialmente adaptado). O final da sequência seja por falta de vontade, de vocação ou de incapacidade, em função da falta de paralelismo, apresenta um problema de coerência, que pode ser eliminado de duas maneiras: o redator poderia escrever seja por falta de vontade, de vocação ou de capacidade ou seja por falta de vontade, de vocação ou por incapacidade. Imagine, agora, a sentença A pedra sonha. Embora seja uma associação inusitada no plano denotativo, ela pode fazer sentido, constituindo a coerência necessária, se presente num texto artístico. Perceba, então, que a coerência depende não só do conhecimento de mundo partilhado entre os interlocutores, mas também dos recursos linguísticos e do tipo de texto construído. 2. Os diferentes gêneros textuais: suas características e formas de progressão Embora já tenhamos verificado que a coesão e a coerência podem se manifestar em qualquer tipo de texto, é preciso lembrar que cada gênero possui uma estrutura própria. Por isso, é importante verificar as peculiaridades de construção, pelo menos nos três principais grupos: o narrativo, o descritivo e o dissertativo-argumentativo. É importante deixar claro que esses modos de organização do discurso podem se combinar na composição textual. Um texto narrativo pode conter passagens descritivas, assim como um texto dissertativo-argumentativo pode se valer de pequenas narrativas que ilustrem a argumentação. a) Texto Narrativo Nesse gênero textual, a coerência se estabelece, sobretudo, pela ordenação temporal, que pode ser expressa por vários elementos gramaticais. Observe o seguinte texto: O anil o anzol o azul o silêncio o tempo a agulha vertical mergulha a água a linha a espuma o tempo o silêncio A pesca (Affonso Romano de Sant Anna ) a garganta a âncora a boca o arranco o rasgão aberta a água aberta a chaga aberto o anzol aquelíneo ágil-claro estabanado a areia o sol A coerência e a progressão temática se estabelecem não por meio de conectivos, mas pela presença de vocábulos reunidos em torno de um mesmo campo semântico (o da pesca) e pela ordem em que eles foram apresentados, criando, na percepção do receptor, uma narrativa, uma história. O texto de base narrativa apresenta uma sequência, explícita ou implícita, de fatos reais ou imaginários, tendo, portanto, como elementos essenciais, as ações e as pessoas que delas participam. Por isso, assumem papel importante, na construção da coesão e da coerência, os tempos verbais e os advérbios marcadores de tempo e espaço, por permitirem a ordenação temporal referencial dos fatos enumerados. Um tipo especial de narrativa é a crônica. Produzida, essencialmente, para ser publicada em jornais e revistas, a crônica ganhou grande popularidade nas últimas décadas no Brasil, chegando a ser o gênero mais executado ou exclusivo de alguns dos mais brilhantes autores contemporâneos. Já se disse que o cronista é o espião de vida. De fato, a crônica é um comentário breve do autor sobre algum evento do cotidiano. Cabe ao cronista revelar

algo inusitado ou poético naquilo que é banal. Apresenta linguagem simples e pode assumir caráter lírico, filosófico, crítico ou humorístico. Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista: Atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e de luz ele faz o seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada: de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz do teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico. b) Texto Descritivo Rubem Braga, 200 Crônicas escolhidas. Nesse gênero textual, a coerência se estabelece, sobretudo, pela ordenação espacial, que pode ser expressa por vários elementos gramaticais. Quem descreve está atento aos detalhes, às características e circunstâncias de determinado elemento ou evento, auxiliando o receptor a compor a cena. Observe o seguinte texto: Progresso engole fábrica de linhas em SP A fachada da velha fábrica confunde a visão de quem passa pela rua de sobrados na Pompeia (zona oeste de SP). O telhado em ziguezague, a fachada de tijolo pintada de salmão. Dentro, a surpresa é ainda maior: máquinas da década de 20 ainda trabalham, com as engrenagens cobertas de poeira, enrolando os últimos fios coloridos produzidos pela Fábrica de Linhas Pavão. A fábrica parece ter perdido o fio da meada em algum ponto do novelo do tempo e enroscado em 1930, quando foi inaugurada pelo imigrante armênio Camilo Siufi. Pelo visto, jamais sairá daqueles anos o prédio foi vendido a uma imobiliária e deve ser entregue no mês que vem para cumprir seu destino de edifício. Folha de S.Paulo, 9 set. 2001. Como a intenção do emissor é apresentar as características e circunstâncias da fábrica, não há passagem temporal significativa e, por isso, percebe-se a predominância de verbos no presente e a abundância de adjetivação. Nessa modalidade, não há acontecimento. Isso faz com que uma característica marcante desse tipo de texto seja a unidade temporal. Também são característicos da descrição: as analogias (denotativas ou conotativas), as imagens, o pouco número de verbos de ação, o apelo sensorial, além da adjetivação e da adverbialização, como fica claro no trecho abaixo: Sentada na espreguiçadeira da sala, Conceição lia, com os olhos escuros intensamente absorvidos na brochura de capa berrante. Na paz daquela manhã de domingo, um silêncio doce tudo envolvia, e algum ruído que soava, logo era abafado na calma sonolenta. Rachel de Queiroz Outro texto que apresenta estrutura parecida com a de um texto descritivo é o jornalístico, que tem a função de informar, com linguagem impessoal, aquilo que acontece. Os elementos típicos de uma notícia costumam ser resumidos por uma lista de perguntas básicas: quem?, o quê?, quando?, onde?, como?, porquê?, para quê?. Ao responder a cada uma dessas perguntas, o jornalista assegura a apuração dos fatos e garante que dispõe das informações necessárias para redigir a sua matéria. c) Texto Dissertativo-Argumentativo Nesse gênero textual, a coerência se estabelece, sobretudo, pela ordenação lógica. Além de ter a preocupação de selecionar argumentos que, gradativamente, vão corroborando a tese apresentada, é preciso ter cuidado com a seleção e a adequação dos conectores específicos para expressar as diferentes articulações (causa, consequência, oposição, condição, etc.) e, como consequência disso, com os tempos verbais empregados. Embora tenhamos todos características comuns, somos diferentes. Por mais que tenhamos uma mesma educação, somos diferentes. Ainda que tenhamos as mesmas aspirações, somos diferentes. A implicação direta dessa premissa é a de que se torna impossível criar paradigmas de felicidade, como nos querem fazer acreditar os autores de autoajuda, hoje best-sellers. A opção por uma carreira não pode, por isso, levar em conta o que faz o outro feliz, mas o que faz quem escolhe feliz. A presença do conectivo embora, criando uma relação de concessão, exige verbo no modo subjuntivo. Dessa forma, o emissor se antecipa a possíveis críticas à sua argumentação. Os verbos no presente, com valor de verdade absoluta, também ajudam a reforçar a tese apresentada. Perceba, ainda, a presença de elementos referenciadores ( A implicação direta dessa premissa ) contribuindo para a progressão textual coesa e coerente. Como marcas desse gênero, temos a predominância de verbos de estado, que introduzem características ou estados, além da presença do presente com valor de verdade absoluta e do subjuntivo indicando hipótese.