A Acção e os Valores

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Transcrição:

Módulo II A Acção Humana e os Valores Vimos no módulo anterior que a Filosofia se apresenta como reflexão crítica sobre o homem enquanto inserido num complexo tecido de relações com o mundo (natural e sócio-cultural), tendo em vista a compreensão racional da totalidade (ponto de vista teórico) e a orientação esclarecida da acção humana no mundo (dimensão prática do filosofar). NOTA: em conformidade com o programa da disciplina de Introdução à Filosofia, é esta dimensão prática do filosofar que se apresenta como tema para o 10º ano, ficando a dimensão teórica para o 11º ano Do Programa: A Acção e os Valores A Acção Humana: Análise e Compreensão do Agir Os Valores: Análise e Compreensão da Experiência Valorativa A Rede Conceptual da Acção Determinismo e Liberdade na Acção Humana Valores e Valoração: A Questão dos Critérios Valorativos Valores e Cultura A Diversidade e o Diálogo de Culturas 28

1.A Acção Humana Análise e Compreensão do Agir Conceitos específicos nucleares: acontecimentos vs. acções; fins, intenções, projectos; motivos e desejos; deliberação e decisão; determinismo e liberdade; condicionantes físico-biológicas e condicionantes históricoo-culturais; a acção como campo de possibilidades; a liberdade do agente. 1.1.A Rede Conceptual da Acção a) Mesmo se, na nossa vida de todos os dias, se misturam acontecimentos e actos de diversos tipos, nem sempre sendo fácil decidir se se trata de uns ou de outros, a verdade é que existe uma diferença entre o que simplesmente me acontece () o que faço sem me dar conta e sem querer () o que faço sem me dar conta mas segundo uma rotina adquirida voluntariamente () e o que faço apercebendo-me e querendo (). Parece que a palavra acção é uma palavra que apenas convém à última destas possibilidades (F. Savater, ver Texto nº 1 - Plataforma). Apenas é adequado falar de acção a propósito de actos que são intencionais. A acção é pois um movimento intencional, um comportamento dirigido e controlado pelo agente (H. G. Frankfurt). As acções são movimentos intencionais e voluntários pelos quais o agente pretende atingir uma finalidade ou realizar um determinado projecto. Não mera resposta automática a estímulos ambientais, a acção é mediada por factores como intenções e finalidades, razões e motivos, escolhas e decisões, raciocínios e valores. Uma acção é uma intervenção consciente e voluntária de um ser humano (o agente) no normal decurso das coisas, que sem a sua interferência seguiriam um caminho distinto (J. Mosterin- Ver Texto nº 2 (na Plataforma) ou Texto Complementar 1 (no Manual, p. 51)). b) Parece haver assim uma distinção entre acontecimentos e acções. Como nota P. Ricoeur: "não é no mesmo jogo de linguagem 1 que se fala de acontecimentos que se produzem na natureza ou de acções realizadas por homens" (ver Texto nº 3 - Plataforma). 1 Jogo de linguagem Falar considerado como parte de uma actividade ou de uma forma de vida (Wittgenstein Manual, p. 66. 29

No jogo de linguagem (rede conceptual 2 ) em que se fala dos acontecimentos naturais usam-se noções como causa, lei, facto, explicação; no jogo de linguagem (rede conceptual) em que se fala das acções humanas usam-se outras noções, como projecto, intenção, motivo, razão de agir, agente. Pelo que diz respeito aos acontecimentos naturais, tudo se explica em termos de relação causa efeito. Pelo que diz respeito às acções humanas, estas devem ser compreendidas em termos das relações intenção acção e motivo projecto. No primeiro caso estamos na ordem da causalidade que rege os fenómenos naturais; no segundo caso estamos na ordem da motivação que orienta as acções humanas. Se, com efeito, os fenómenos naturais acontecem segundo uma causalidade determinística, as acções humanas acontecem segundo uma causalidade livre, quer dizer, segundo uma "determinação da vontade de um ser racional por princípios da razão (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes). A acção é então acção humana (e não simplesmente acção do homem) na medida em que é determinada por uma vontade racional, que se determina a si mesma livremente, quer dizer, em razão de motivos (princípios objectivos) e não de um constrangimento externo (causa) ou interno, subjectivo (móbil). Os actos do homem são comuns ao homem e aos animais e chamam-se paixões ; os actos humanos só merecem este título porque são voluntários e a vontade é um apetite racional específico do homem, devendo tais actos proceder de um princípio interior implicado no conhecimento do fim a atingir (Tomás de Aquino, Texto 4 - Plataforma). "A vontade é concebida como a faculdade de se determinar a si mesmo a agir em conformidade com a representação de certas leis. E uma tal faculdade só se pode encontrar em seres racionais" (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes). A acção humana é assim a acção livre, quer dizer, determinada unicamente pelo querer, pela vontade racional. c) As noções da rede conceptual da acção Está já adquirido que a esfera da causalidade (acontecimentos) e a esfera da motivação, da intenção (acção) se situam em planos diferentes. 2 Rede conceptual Conjunto de noções e conceitos implicados ou associados a outro conceito. Sistema de relações entre conceitos solidários entre si. 30

Responder à pergunta porquê? é, para o primeiro caso, indicar a causa que produz o efeito, no segundo caso é analisar as intenções e os motivos que impelem a agir. É por isso que Kant escreve: "Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis" (Kant, I., Fundamentação da Metafísica dos Costumes). Mesmo se, de um ponto de vista externo, uma acção pode parecer um acontecimento entre outros (um comportamento determinado por uma causa), interpretamos os comportamentos humanos como acções na medida em que os associamos a um agente ao qual atribuímos uma intenção interior Enquanto a noção de causa () implica () uma heterogeneidade lógica entre a causa e o efeito, há uma conexão interna necessária () e lógica entre motivo e acção (Ricœur, ver Texto 5 - Plataforma). A esfera da causalidade e a esfera da intenção situam-se em planos diferentes. E mesmo se, a uma observação externa, a acção pode parecer um acontecimento, é impossível não relacionar a acção com a intenção interior do agente e com a carga significante (o sentido) que este nela põe. O termo intenção tem, por um lado, uma dimensão subjectiva (o impulso interior que leva a agir tendo em vista um objectivo que a pessoa tem em mente), e, por outro lado, uma dimensão objectiva (uma característica da própria acção, a de ser intencional). Se, por um lado tenho a intenção de, por outro lado, a acção é intencional quando a ela está associado um motivo (uma razão). A acção compreende-se, não enquanto determinada por uma causa, mas enquanto inserida num esquema intencional que remete para o motivo que leva o agente a fazer aquilo que faz.. Convém, entretanto, distinguir entre motivo e intenção. Intenção e motivo são noções conexas; o motivo é o motivo de uma intenção (ver Ricœur, Texto 6 Plataforma e Manual (texto complementar 2), p. 51-52). Mas o termo motivo tanto pode ser entendido como causa (havendo então lugar para um acontecimento, não para uma acção) como pode ser identificado com uma intenção. Como escreve J. O. Urmson, o movimento psicanalítico () afirma que uma investigação cuidadosa e sistemática do comportamento pode relevar motivos ocultos e subjacentes, que de outra maneira permaneceriam ocultos e passariam despercebidos. 31

O motivo apresenta-se, assim, com uma dupla faceta: -uma faceta racional, voluntária, consciente a razão de uma acção (esfera da intencionalidade); -uma faceta não racional, involuntária o desejo de ( que escapa à esfera da intencionalidade e se aproxima da esfera da causalidade). Perspectivado assim o motivo que impulsiona a agir, o comportamento humano encontra-se assim por uma relação tensional entre a esfera do determinismo causal da natureza (desejo=causa) e a esfera da causalidade livre (intencionalidade accão voluntária, movida por razões de agir). É a actividade da razão que torna possível a passagem do determinismo causal à causalidade livre. A pulsão surge do corpo, mas invade a mente e agarra-se a uma representação (). () a consciência do objecto do desejo altera ao mesmo tempo a natureza do desejo (). Do ponto de vista da consciência é a representação que predomina. () a pulsão é força, contudo, mediante a representação, ela fazse sentido. () Enquanto referido à motivação, o desejo inverte a sua força em sentido; () a motivação pertence ao campo do sentido teleologicamente orientado (Isabel RENAUD) Transita-se do plano da causalidade natural para o da causalidade livre, do desejo para a razão de agir, quando a razão penetra o desejo, quando o desejo se deixa disciplinar pela razão. Quando a razão se constitui como reguladora da acção, esta é determinada, já não por causas, mas por razões de agir. E as razões de agir têm duas componentes: uma cognitiva (correspondente à crença de que uma certa acção é útil ou necessária para atingir uma certa finalidade); outra volitiva (a intenção ou a vontade de realizar essa acção para alcançar essa finalidade). c) O Ciclo do Agir Intencional Quando a razão disciplina e orienta o desejo, a acção é dirigida e controlada pela vontade do agente. A acção humana é então acção livre, quer dizer, determinada unicamente pelo querer, pela vontade racional. 32

O acto voluntário (racional) pode esquematizar-se assim: COCE- PÇÃO Definição da meta a atingir e dos meios a usar. DELIBE- RAÇÃO Análise racional dos motivos que levam a agir (ou a não agir). DECISÃO Acto pelo qual nos determinamos a agir (ou não agir), neste sentido (ou naquele), em função da relevância dos motivos considerados. EXECU- ÇÃO Passagem da intenção ao acto. A concepção é o primeiro momento deste processo, o da construção do projecto que o agente se propõe realizar: trata-se de estabelecer objectivos a atingir e analisar os meios disponíveis. A deliberação é a fase em que a vontade, em íntima () união com a inteligência, concebe as diferentes alternativas () e as razões a favor ou contra e () as discute e pondera (M. MORAIS, Deliberação, in Logos 1, Lisboa, Ed. Verbo). () a boa deliberação é a que visa atingir um bem. () A deliberação em sentido absoluto é a que regula a conduta do homem relativamente ao fim supremo e absoluto da vida humana; em sentido relativo é a que conduz a um resultado correcto relativamente a um determinado fim (Aristóteles). A decisão é o momento da escolha e resolução em que o conflito de motivos que impelem à acção se resolve pelo triunfo de um deles, consistindo num juízo prático definitivo de valor e preferência, que enuncia uma ordem e decide o movimento a executar (M. MORAIS, Decisão, in Logos 1, Lisboa, Ed. Verbo). Este é o momento de decidir entre motivos e/ou valores eventualmente incompatíveis (justiça/misericórdia, interesse privado/interesse público, etc.). Como é também o momento de adequar princípios ( ) já previamente tematizados, objectivos, universais a situações particulares feitas de circunstâncias sempre diferentes que constituem o contexto actual no qual a acção é chamada a intervir (M. Renaud). Notar-se-á, entretanto, o carácter algo artificial da distinção entre os primeiros três momentos deste esquema. Eles não são, com efeito, momentos descontínuos e sucessivos, mas antes faces ou aspectos de um mesmo processo global que coloca a acção propriamente dita na dependência de razões de agir. Motivos, razões de agir, Intenção Agente produtor Acção 33

Note-se que os elementos deste último esquemas são interdependentes (constituindo, de facto, uma rede). Por um lado, motivos, razões de agir, intenções remetem sempre para um agente (idêntico, identificável e reidentificável) que é o sujeito a que a acção é imputável e que portanto por ela é responsável (capaz de responder por ela), porque é portador da liberdade (do poder de fazer ou não fazer, de fazer o contrário do que de facto faz ou fez) (Ricœur, ver Texto 5 Plataforma e Manual (texto complementar 2), p. 51-52). 34