Autor: Francisco Cubal

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AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. VIEIRA DE CARVALHO DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA E CIÊNCIAS EXPERIMENTAIS MATEMÁTICA PLANIFICAÇÃO ANUAL 9.

Transcrição:

Autor: Francisco Cubal

O senso comum traduz o modo como percepcionamos o mundo a partir das informações apreendidas pelos sentidos, permitindo criar representações ligadas a um determinado significado fixado na e pela linguagem, sem qualquer ligação sistemática. É o modo mais elementar de conhecer o mundo. É um conhecimento acrítico, pois identifica a realidade percepcionada ou percebida (isto é, o modo como ela aparece na nossa mente) com a realidade fora da mente. É subjectivo, pois depende das sensações. Apesar deste carácter subjectivo e pouco rigoroso, o senso comum permite resolver os problemas do nosso dia-a-dia. É com base neste conhecimento que nos prevenimos com um guarda-chuva quando vemos o céu carregado de nuvens, por exemplo. É: - Assistemático ; ametódico; acrítico - Pré-reflexivo; pré-racional; pré-elaborado - Impreciso/erróneo; pouco rigoroso; prático; conformista; perceptivo e elementar; - Superficial do real; não fundamentado; imediato; particular; espontâneo; pragmático; subjectivo e pessoal; sensível.

Ao contrário do senso comum, o conhecimento científico: Resulta de um esforço intelectual para romper com as evidências do senso comum; Implica o uso de procedimentos metodológicos que têm de ser definidos em função do objecto a investigar; Usa uma linguagem unívoca e técnica (de preferência a linguagem matemática); É uma construção racional, envolvendo um conjunto de operações lógico-matemáticas e experimentais, repetíveis conduzindo sempre aos mesmos resultados teóricos, independentemente do investigador; Estabelece relações causais entre os fenómenos, formula leis e integra-as em teorias; Conjuga a capacidade intuitiva, criadora e organizadora (lógica) do pensamento com o respeito pelos factos; Progride tanto por acumulação e alargamento do conhecimento como por revisões e correcções.

A ciência é um conhecimento sistematizado e metódico que, para além da experiência, utiliza raciocínios, provas e demonstrações que nos permitem obter conclusões gerais/universais. Há diferentes tipos de ciência em função das diversas áreas da realidade e dos diferentes aspectos que procuramos conhecer. No entanto, existem aspectos comuns às diversas ciências que permitem caracterizar o conhecimento científico. A ciência é: -> Construção Racional porque estabelece relações causais entre os fenómenos, formula leis e integra-as em teorias. -> Análise Metódica e objectiva dos fenómenos porque define um objecto específico de investigação; usa um método rigoroso adequado; conjuga a capacidade intuitiva, criadora e organizadora (lógica) do pensamento com o respeito pelos factos; combina invenção, lógica e experimentação. -> Explicação Operativa porque é um conjunto de operações lógico-matemáticas e experimentais repetíveis e conduzindo sempre aos mesmos resultados teóricos. -> Aproximação Sucessiva porque uma teoria científica não é a verdade; as teorias são criações racionais humanas falíveis (a verdade científica nunca é definitiva); o conhecimento científico progride que por acumulação e alargamento do conhecimento quer por revisões e correcções; construção dinâmica com retroacções constantes, numa tentativa interminável para fazer desaparecer as fronteiras da incerteza. -> Explicação precisa, rigorosa e prática porque usa um método científico; usa uma linguagem unívoca e técnica, de preferência matemática, definindo com rigor os conceitos; tem aplicação prática. A ciência perscruta os factos.

Os passos fundamentais deste método são: 1º Observação científica -Imparcial -Metódica -Instrumental 2º Formulação de uma hipótese Explicação provisória: -> análise e interpretação da observação; -> relação entre os dados da observação e a causa que os provocou. 3º Experimentação Confronto da hipótese com os factos; implica a utilização de instrumentos e o recurso a técnicas 4º Generalização Considera a lei que foi verificada nos dados observados válida para todos os casos (validade universal)

Os momentos fundamentais deste método são: Facto-problema / teoria Factos ainda não explicados e que exigem investigação 1º Formulação de uma hipótese Deve ser comparável com os dados a explicar, verificável ou refutável 2º Dedução de consequências da hipótese 3º Verificação das consequências preditivas da hipótese As consequências deduzidas da hipótese são confrontadas com os factos, para validar ou refutar a hipótese 4º Lei / teoria Resulta da validação da hipótese

A indução deriva uma proposição universal de proposições particulares. Com base em observações de um certo número de casos, a ciência formula leis gerais. A partir da análise dos fundamentos lógicos do procedimento indutivo, Popper conclui que, por maior que seja o número de observações particulares, não há justificação racional para a sua generalização a todos os casos. Em vez de verificação, Popper propõe a falsificabilidade. Os cientistas devem procurar refutar ou falsificar as teorias. As teorias que resistirem às tentativas de falsificação são consideradas teorias corroboradas e são aceites provisoriamente. As teorias científicas são conjecturas

A ciência evolui por substituição de paradigmas. Mas o que são paradigmas? Paradigma é um conjunto de conceitos fundamentados e de procedimentos padronizados aceite pela comunidade científica. Portanto, no início existe um determinado paradigma dominante. A ciência normal investiga para solucionar problemas dentro do âmbito do paradigma dominante. Não dá relevo aos fenómenos que não se ajustam ao paradigma dominante. No entanto Existe a detecção de anomalias e encontra-se numa situação de risco, mas também sintoma de prosperidade. Nesta fase de crise e polémica confrontam-se diferentes explicações para a resolução. É a denominada ciência extraordinária que é, por comparação, a ciência anormal. Ocorre então uma revolução científica, que é o momento de ruptura em que se alteram os paradigmas. Existe uma incomensurabilidade dos paradigmas que é uma impossibilidade de comparar os paradigmas, pois cada um configura a realidade de um ponto de vista radicalmente novo, incompatível com o ponto de vista anteriormente vigente. Outro paradigma passa a ser o dominante.

O cientismo resultante das descobertas dos séculos XVIII e XIX identifica a ciência com a verdade e considera-a capaz de resolver todo o tipo de problemas. No entanto a ciência e as suas aplicações tecnológicas (tecnociência) não só trazem inúmeros benefícios e não só conseguem mudar o modo como vivemos a nível planetário como também nos trazem algumas desvantagens. A qualidade de vida do ser humano melhorou desde o reconhecimento do optimismo deste cientismo, sem dúvida, mas o facto do ser humano sonhar em ser um ser vivo superior e dominante (e já o é, desde há muito tempo, pelo domínio da técnica, por exemplo, domínio do fogo para vários fins) tem-no levado a usar a ciência até aos limites e com destino ao limite, isto é, por exemplo, a guerra entre os seres humanos de todo o mundo é a implicação directa do demasiado acesso à cultura e à informação científica por parte de países cujas próprias religiões e cultura (por exemplo) apoiam a guerra. Até o próprio problema que a Terra está a passar no que toca à poluição pode ser interpretado como a causa directa do egoísmo que todos os países do mundo têm em querer ser mais dominantes sobre todos os outros. É óbvio que graças à ciência descobriram-se novas maneiras de contornar este problema, nomeadamente na obtenção de novas formas de energia e novas fontes de energia, no entanto, continua visível nos líderes políticos, nos cientistas, nas organizações não governamentais e em todos os povos a não preocupação pelo facto de a poluição provocar o desequilíbrio nos ecossistemas. Isto pode ser interpretado como consequência directa da evolução da ciência. Creio que compete a todos os seres humanos 0 uso da boa ética e da boa racionalidade, não só aos cientistas, para que os cientistas possam continuar a investigar aquilo que é necessário para ajudar o mundo de maneira mais correcta e precisa, pois o uso da tecnociência pelos seres humanos pode ser benéfico para todos os seres vivos racionais e irracionais da Terra e, até, por exemplo, para um melhor e verdadeiro entendimento do universo.