PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA DO TRABALHO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 1ª REGIÃO 4ª Turma PROCESSO nº 0010792-36.2014.5.01.0077 (RO) RECORRENTE: POSTO DE GASOLINA SHOW DE BOLA LTDA RECORRIDO: LEONARDO DE LIMA SALES RELATOR: DESEMBARGADOR LUIZ ALFREDO MAFRA LINO EMENTA Correta a r. sentença ao reconhecer o vínculo empregatício, quando comprovado o labor do autor nos moldes do art. 3º da CLT. RELATÓRIO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de Recurso Ordinário, em que figuram as partes: POSTO DE GASOLINA SHOW DE BOLA LTDA,Recorrente e LEONARDO DE LIMA SALES, Recorrido. Inconformada com a r. Sentença, proferida pela MMª 77ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, da lavra da Exma Juíza Drª. Diane Rocha Trocoli Ahlert, que julgou procedente em parte o pedido, complementada pela decisão proferida em sede embargos declaratórios (id. 96cdf31), recorre ordinariamente a reclamada. A reclamada, nas razões de Id. ad96161, sustenta, em síntese, que em hipótese alguma embargou de declaração com simples propósito protelatório, devendo ser afastadas as multas que lhe foram aplicadas em sede de embargos declaratórios. Diz ainda que que o autor nunca lhe prestou serviços, tendo alegado na inicial sua contratação por outra empresa; que ficou demonstrado que a data de dispensa do recorrido foi anterior ao início formal do funcionamento da recorrente ; que não houve sucessão de empresas; que deve ser afastado o vínculo empregatício reconhecido. Preparo efetuado. Contrarrazões apresentadas. A remessa dos autos à d. Procuradoria foi dispensada, ante o disposto no art. 85, II, do Regimento Interno deste Tribunal.
FUNDAMENTAÇÃO ADMISSIBILIDADE admissibilidade. Conheço do recurso, por preenchidos os pressupostos de MÉRITO DA LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ A reclamada opôs embargos declaratórios alegando, em síntese, que " a sentença embargada nunca poderia fixar como parâmetro de cálculos o valor do salário apontado na peça de ingresso, qual seja, a quantia de R$ 860,00, quando muito deveria fixar para este fim o valor do salário mínimo vigente à época, uma vez que o embargado não comprovou, nem mesmo aproximadamente, o montante da sua fortuita remuneração. "( id. 787dff8). O Juízo de origem, na sentença proferida acerca desses embargos declaratórios, concluiu que a ré pretendia a modificação do julgado por meio da via imprópria, não havendo qualquer omissão ou contradição a ser sanada, condenando a reclamada a pagar à parte autora multa de 1% sobre o valor da causa, na forma do art. 538 do CPC, além de indenização à parte autora, arbitrada em 20% sobre o valor da causa, nos termos do art. 18, 2º do CPC, III, por configurada a litigância de má-fé da Embargante, na forma do art. 17, VII. Merece reforma o julgado nesse aspecto. Com efeito, a reclamada, desde sua contestação (id. a5c6ecf - Pág. 7), já havia rebatido o salário informado pelo autor, pretendendo a aplicação, caso mantido o vínculo, do salário salário mínimo nacional na época. O Juízo de origem, contudo, não apreciou essa alegação da ré, fixando o salário do autor no valor por ele alegado como recebido, ou seja, R$860,00, sem tecer a base de sua decisão a esse respeito. Assim, não há dúvidas de que a r. sentença de origem foi omissa no particular, pois todas as pretensões resistidas e deferidas devem ser fundamentadas e nesse caso tal não ocorreu. Dou provimento ao recurso, para elidir a multa de 1% sobre o valor da causa, na forma do art. 538 do CPC, além de excluir da condenação o pagamento de indenização à parte autora, arbitrada em 20% sobre o valor da causa, nos termos do art. 18, 2º do CPC, III, por configurada a litigância de má-fé da Embargante, na forma do art. 17, VII.
DO VÍNCULO EMPREGATÍCIO O autor afirma na inicial que foi admitido aos serviços da Reclamada em 04/10/2012, quando esta ainda utilizava a denominação POSTO CIDADE BANGU LTDA, sendo imotivadamente dispensado em 01/04/2013. Em defesa (id. 6029bbd), a ré nega totalmente a prestação de serviços do autor, afirmando que anteriormente funcionava no local outro posto revendedor de combustíveis, sem nenhuma relação com a ré, tampouco com seus sócios, e que somente foi autorizada pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) a funcionar no local em 17/07/2013 (id.e73075e), data posterior à data de dispensa indica pelo reclamante. Nega ainda a existência de sucessão. Não merece provimento o recurso. A única testemunha ouvida declarou que " trabalhou com o Reclamante, por cerca de 5 meses, na loja de conveniência de um posto, situado na Rua Francisco Real, 1933 - Bangu - RJ; que começou a trabalhar em novembro de 2012 e o Reclamante já trabalhava lá há 1 mês; que trabalhou na loja de conveniência por 1 ano, tendo saído no final de 2013; que não teve a CTPS assinada; que o Reclamante trabalhou na loja de conveniência por 5 ou 6 meses; que inicialmente a loja e o posto de gasolina pertenciam ao sr. César e o gerente da loja era o sr. Fábio; que o posto de gasolina só mudou de nome; que não sabe se houve mudança na propriedade do posto; que o dono de tudo era o sr. César; que foi despedido por Eduardo, o gerente da loja de conveniência." Cotejando-se o contrato social da ré (id. 9Defa4a), vemos que nele figuram como sócios JORGE MARCELO SUZANO DA CUNHA e JOCIMAR NASCIMENTO VASCONCELOS, que a sede da ré seria na Rua Francisco Real, 1933 - Bangu - RJ. Entretanto, o referido contrato social está datado de 20/05/2011 e que foi arquivado na JUCERJA em 07/06/2011, o que comprova que a atuação da ré no referido endereço já ocorria antes mesmo de 17/07/2013, data que alegou ter recebido autorização da ANP para iniciar sua atuação no local. Logo, cai por terra a alegação da ré de que somente começou a atuar no local indicado pelo autor após sua demissão pelo outro posto que o contratou. Quanto ao endereço de funcionamento, ou seja, Rua Francisco Real, 1933 - Bangu - RJ, é o mesmo em que trabalhou o autor e sua testemunha. Assim, em que pese a ré tentar desvencilhar-se da prestação de serviços do autor, fato é que ela sempre funcionou como posto de gasolina no mesmo endereço, desde 2011, durante todo o pacto laboral, em que pese utilizar-se de outro nome fantasia para tentar confundir seus empregados.
O Juízo de origem declarou que houve sucessão de empregadores. Porém, data venia, o que os fatos e provas nos revelam que na verdade a própria reclamada sempre foi a empregadora do autor, pois o pacto laboral perdurou de 04/10/2012 e 01/04/2013 e a ré atuou no endereço da prestação de serviços desde 2011, permanecendo lá, ao menos, até a data de propositura da presente ação. Assim, não houve sucessão, mas sim, prestação de serviços diretamente do autor para a ré, apesar desta se apresentar, na época do pacto laboral, sob o nome fantasia de POSTO CIDADE BANGU LTDA. Inocorrente a sucessão, inaplicável o preconizado na OJ 411 da SDI-1 do C. TST. Por fim, em relação ao salário fixado pelo Juízo de origem, em que pese a ré ter se insurgido contra seu valor na contestação e nos embargos declaratórios que opôs, não renovou esse seu inconformismo por ocasião das presentes razões recursais, motivo pelo qual mantém-se o valor fixado pelo Juízo de 1º grau, por não recorrido. Nego provimento. CONCLUSÃO Conheço do Recurso e, no mérito, dou-lhe parcial provimento, para elidir a multa de 1% sobre o valor da causa, na forma do art. 538 do CPC, além de excluir da condenação o pagamento de indenização à parte autora, arbitrada em 20% sobre o valor da causa, nos termos do art. 18, 2º do CPC, III, por configurada a litigância de má-fé da Embargante, na forma do art. 17, VII. Mantém-se o valor arbitrado à condenação, por adequado. A C O R D A M os Desembargadores da Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região, por unanimidade, conhecer do Recurso e, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para elidir a multa de 1% sobre o valor da causa, na forma do art. 538 do CPC, além de excluir da condenação o pagamento de indenização à parte autora, arbitrada em 20% sobre o valor da causa, nos termos do art. 18, 2º do CPC, III, por configurada a litigância de má-fé da Embargante, na forma do art. 17, VII. Mantém-se o valor arbitrado à condenação, por adequado. (assinado digitalmente) LUIZ ALFREDO MAFRA LINO Relator C7
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