PSICOMOTRICIDADE e LUDICIDADE Prof. Ms. Fabio Mucio Stinghen PSICOMOTRICIDADE Jogando Aprendendo com a ludicidade O comportamento criativo surge desde o momento da criação e modificação dos jogos (criar suas regras, seus espaços e materiais), até a consecução do jogo, propriamente dita. O jogo é uma das ações mais realizadas na realidade humana, sendo que do jogo que nasce a cultura. O jogo pode dar-se fora da cultura, pois existe antes da cultura humana e é uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempos e espaços, segundo regras livremente concebidas, mais absolutamente obrigatórios, com um fim em si mesmo acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência diferente de sua vida cotidiana. Na definição da palavra: - Brinquedo é o objeto destinado a divertir uma criança, o suporte da brincadeira; - Brincadeira é a ação de brincar, ao comportamento espontâneo que resulta de uma atividade não estruturada; - Jogo é a ação de jogar; uma brincadeira que envolve regras; - Atividade lúdica é a forma mais ampla de todos os conceitos anteriores. 1
Diferentemente da brincadeira, o jogo é uma atividade voluntária, na qual acontece em determinados limites, tempo e espaço. Segundo as regras são livremente exercidas por meios de voluntários, acompanhado de uma tensão, alegria, e de uma consciência. O jogo sempre tem regras e quando as crianças brincam entre si, as regras que estabelecem, às vezes, são mais atraentes do que a atividade do jogo mental ou físico em questão. HUIZINGA (1980) enxerga o jogo como elemento da cultura humana. Aliás, levando esta visão até o seu extremo, ele propõe que o jogo é anterior à cultura, visto que esta pressupõe a existência da sociedade humana, enquanto que os jogos são praticados mesmo por animais. A existência do jogo não está ligada a qualquer grau determinado de civilização ou a qualquer concepção do universo. A educação pelo jogo é um fato. Vimos como a psicanálise criou técnicas para análise de crianças, através do jogo. Teóricos do desenvolvimento motor afirmam o potencial psicomotor dos jogos para a descoberta e combinação de novas habilidades motoras. Existe, pois, o jogo didático, o jogo como estratégia para o professor atingir objetivos curriculares. A educação pelo jogo acaba por não levar em consideração que certas habilidades, ensinadas nesse jogo, podem, devido a condições ambientais e sociais extremamente específicas, não possuir o menor valor ou significado para os educandos; são como que práticas impostas, sem utilidade na formação educacional e humanista destes; chegam a ser práticas que, sem a presença de um instrutor ou de um professor, dificilmente, ou mesmo nunca realizar-se-ão. No sentido de ampliar a educação pelo jogo, o trabalho da educação psicomotora com as crianças deve prever a formação de base indispensável em seu desenvolvimento motor, afetivo e psicológico, dando oportunidade para que, por meio de jogos, de atividades lúdicas, se conscientize sobre seu corpo. 2
Através da Educação Física, a criança desenvolve suas aptidões perceptivas como meio de ajustamento do comportamento psicomotor. Para que a criança desenvolva o controle mental de sua expressão motora, a disciplina deverá realizar atividades considerando seus níveis de maturação biológica. A Educação Física, na sua parte recreativa, proporciona a aprendizagem das crianças em várias atividades esportivas que ajudam na conservação da saúde física, mental e no equilíbrio socioafetivo. PIAGET (1971, p. 117) distingue três tipos de estruturas que caracterizam o jogo infantil e fundamenta a classificação por ele proposta: Jogos de Exercício Sensório-motor - Caracterizam a etapa que vai do nascimento até o aparecimento da linguagem, apesar de reaparecerem durante toda a infância O jogo surge primeiro, sob a forma de exercícios simples cuja finalidade é o próprio prazer do funcionamento. Esses exercícios caracterizam-se pela repetição de gestos e de movimentos simples e têm valor exploratório. Dentro desta categoria podemos destacar os seguintes jogos: sonoro, visual, tátil, olfativo, gustativo, motor e de manipulação. Os jogos seriam chamados também de jogos de exercício ou funcionais, o modelo é dado quando bebês (período sensório-motor), tendo como intenção atingir um objetivo. Após consegui-lo, segue realizando a atividade pelo prazer que esta lhe proporciona. 3
Jogos simbólicos, de imitação ou ficcionais, em que a criança passa a assumir papéis e usar símbolos, dando outra função aos objetos em sua volta. Caracterizam a fase que vai desde o aparecimento da linguagem até aproximadamente os 6/7 anos. O símbolo implica a representação de um objeto ausente [...] o sujeito reproduz e prolonga o real. A tendência lúdica predominante se manifesta na transformação de objetos quanto ao desempenho de papéis. A função do jogo simbólico consiste em assimilar a realidade. É através do faz-deconta que a criança realiza sonhos e fantasias, revela conflitos interiores, medos e angústias, aliviando tensões e frustrações. O jogo simbólico é também um meio de auto-expressão: ao reproduzir os diferentes papéis (de pai, mãe, professor, aluno etc.), a criança imita situações da vida real. Nele, aquele que brinca dá novos significados aos objetos, às pessoas, às ações, aos fatos etc., inspirandose em semelhanças mais ou menos fiéis às representadas. Dentro dessa classificação também aparecem os jogos receptivos, em que o adulto interage e estimula a criança, por meio da fala, a perceber as diferenças existentes entre o pensar e o agir. Por volta do terceiro ou quarto ano de vida, devem-se explorar os jogos construtivos, que favorecem explorar intensamente a sensibilidade e as linguagens naturalistas da criança. 4
Jogos de Regras - Começam a se manifestar entre os quatro e sete anos e se desenvolvem entre os sete e os doze anos, geralmente coincide com o estágio operatório-concreto e vai até o início da adolescência. É atividade puramente social, desempenhando importante papel nas suas relações interpessoais. Aos sete anos a criança deixa o jogo egocêntrico, substituindo-o por uma atividade mais socializada onde as regras têm uma aplicação efetiva e na qual as relações de cooperação entre os jogadores são fundamentais. A regra supõe, necessariamente, relações sociais ou interindividuais [...] a regra é o elemento novo que resulta da organização coletiva das atividades lúdicas. No adulto, o jogo de regras subsiste e se desenvolve durante toda a vida por ser a atividade lúdica do ser socializado. Há dois casos de regras: - regras transmitidas - nos jogos que se tornam institucionais, diferentes realidades sociais, se impõem por pressão de sucessivas gerações ; - regras espontâneas - vêm da socialização dos jogos de exercício simples ou dos jogos simbólicos. São jogos de regras de natureza contratual e momentânea. 5
Os jogos de regras são combinações sensorio motoras (corridas, jogos de bola) ou intelectuais (cartas, xadrez) com competição dos indivíduos e regulamentados por um código transmitido de geração a geração, ou por acordos momentâneos. PIAGET (1977) também contribuiu na distinção de quatro estágios sucessivos, do ponto de vista da prática das regras: - Um primeiro estágio, puramente motor e individual [...] em função de seus próprios desejos e de seus hábitos motores. As regras são motoras e não coletivas. - Um segundo estágio, egocêntrico [...] entre dois e cinco anos. [...] as crianças mesmo quando juntas, jogam ainda cada uma para si (todas podem ganhar ao mesmo tempo) e sem cuidar da codificação das regras. - Um terceiro estágio, cooperação nascente [...] aparece por volta dos sete ou oito anos [...] o aparecimento da necessidade do controle mútuo e da unificação das regras. - Finalmente, aos onze-doze anos aparece um quarto estágio é o da codificação das regras [...] as partidas daqui em diante são regulamentadas com minúcia, até nos pormenores dos procedimentos [...] o código das regras a seguir é agora conhecido por toda sociedade. 6
Os jogos não devem ser classificados pela faixa etária da criança, mas sim pelo que eles objetivam desenvolver, devendo-se observar o contexto em que serão desenvolvidos e como estarão integrados e interligados no restante dos conteúdos, e deve ser continuamente explorado em outras atividades. Quando participamos de determinado jogo, fazemos parte de uma mini sociedade, que pode nos formar em direções variadas (ORLICK, 1989). O jogo é um meio básico para promover o desenvolvimento físico-motor. O equipamento utilizado e os espaços pensados para o jogo são fundamentais na motivação de diferentes tipos de jogos motores (FRIEDMANN, 1996, p. 67). BIBLIOGRAFIA BROUGÉRE, Gilles. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1994. DOLTO, F. As etapas decisivas da infância. São Paulo: MarHns Fontes, 1999. FEIX, Eneida. Reflexões sobre o lúdico. (In: RODRIGUES, Rejane Penna organizadora). (Brincalhão: Uma Brinquedoteca IHnerante). Petrópolis: Vozes, 2000. FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender o resgate do jogo infan:l. São Paulo: Moderna. 1996 HUIZINGA, J. Homo Luddens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo, PerspecHva, 1980. KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O jogo a criança e a educação. Tese de livre docência. USP, SP, 1992. LEIF, J. O jogo pelo jogo: a a;vidade lúdica na educação de crianças e adolescentes. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978. MARCELLINO, Nelson C. Pedagogia da animação. São Paulo: Papirus, 1990. NEGRINE, Airton. Aprendizagem e desenvolvimento infan:l. Porto Alegre: Propil, 1994. OLIVEIRA, Paulo de Salles. Brinquedo e indústria cultural. Petrópolis: Vozes, 1986. ORLICK, Terry. Vencendo a compe:ção. Tradução: Fernando J. G. MarHns. São Paulo: Círculo do Livro, 1989. Tradução de: Winning through cooperahon. PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança:. imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1971. PIAGET, Jean. O julgamento moral na criança. Tradução: Elzon Lenardon. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977. Tradução de: Le jugement moral chez L enfant. ROCHA, Maria S. P. de M. L. da. Não brinco mais: a (des)construção do brincar no cohdiano educacional. Ijuí: Unijuí, 2000. SANTIN, Silvino. Visão lúdica do corpo. In: DANTAS, Estélio H.M. (Org.) Pensando o corpo e o movimento. Rio de Janeiro: Shape Ed., 1994. SANTOS, Santa M.P. dos. Brincando e infância: um guia para pais e educadores. Rio de Janeiro: Vozes, 1999. TAFFAREL, C. N. Z. Cria;vidade nas aulas de Educação Física. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1985. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: MarHns Fontes, 1984. WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 7