FERNANDO PESSOA ORTÓNIMO



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FERNANDO PESSOA ORTÓNIMO Quando as crianças brincam E eu as oiço brincar, Qualquer coisa em minha alma Começa a se alegrar. E toda aquela infância Que não tive me vem, Numa onda de alegria Que não foi de ninguém. Se quem fui é enigma, E quem serei visão, Quem sou ao menos sinta Isto no coração. + Ó sino da minha aldeia dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma... E é tão lento o teu soar, tão como triste da vida, que já a primeira pancada tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto, quando passo, sempre errante, és para mim como um sonho, soas-me na alma distante. A cada pancada tua, vibrante no céu aberto, sinto o passado mais longe, sinto a saudade mais perto...

Pobre velha música! Não sei por que agrado, Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te, Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora. 1. Refira os sentimentos que a música desperta no sujeito poético. 2. Explique o sentido dos dois últimos versos do poema. + A Criança que fui chora na estrada, Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, Na ausência, ao menos, saberei de mim, E ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. 1. Refira o dilema vivido no presente pelo sujeito poético. 2. Explique em que consiste a esperança do sujeito poético. 3. Num texto de oitenta a cento e vinte palavras, refira-se à nostalgia de um bem perdido na poesia de Fernando Pessoa ortónimo.

Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anónima viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões pra cantar que a vida. Ah, canta, canta sem razão! O que em mim sente está pensando. Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando! Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai! 1. Ah, canta, canta sem razão! / O que em mim sente está pensando. Mostra como estes versos exprimem a antítese ceifeira / poeta. 2. Explicite a ambição paradoxal que a ceifeira desperta no sujeito poético. 3. Identifique e interprete o desejo que o poeta exprime no final do poema.

Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu. 1. Indique os motivos que levam o sujeito poético a invejar o gato. 2. Compare os poemas Ela canta, pobre ceifeira e Gato que brincas na rua quanto à sua mensagem essencial. Não sei ser triste a valer Nem ser alegre deveras. Acreditem: não sei ser. Serão as almas sinceras Assim também, sem saber? Ah, ante a ficção da alma E a mentira da emoção Com que prazer me dá calma Ver uma flor sem razão Florir sem ter coração! Mas enfim não há diferença. Se a flor flore sem querer, Sem querer a gente pensa. O que nela é florescer Em nós é ter consciência. Depois, a nós como a ela, Quando o Fado os faz passar, Surgem as patas dos deuses E a ambos nos vêm calcar. Stá bem, enquanto não vêm, Vamos florir ou pensar. 1. Indique o motivo que leva o poeta a dizer que não sabe ser. 2. Esclareça a dicotomia sinceridade / mentira a que se refere o sujeito poético.

Autopsicografia O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. 1. Explique a tese defendida na primeira estrofe do texto. 2. Identifique as várias dores referidas no poema. 3. Descodifique o sentido da última estrofe, tendo em conta o seu carácter conclusivo. 4. Interprete o título do poema. 5. Explique por palavras suas a teoria do fingimento poético apresentado neste texto. 1. Justifique o título do texto. Isto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é, Sentir, sinta quem lê! 2. Na perspectiva deste poema, identifique a missão do poeta.