Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos



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Transcrição:

AS DIMENSÕES DO LETRAMENTO Giselly Duarte Ferreira (UERJ) giselly.duartee@gmail.com.br RESUMO O objetivo deste trabalho é refletir sobre a complexidade do processo de letramento. Diante disso, acreditamos que oralidade e escrita devem ser analisadas a partir de um continuum tipológico, em cujos extremos opostos se coloquem os seus protótipos. Tentaremos enfatizar as influências mútuas de uma modalidade sobre a outra, devido às características de uma que são encontradas na outra, e, principalmente, mostrar que tais influências fazem com que os produtos dessas modalidades sejam semelhantes. Esperamos demonstrar que a natureza da linguagem oral se distingue da linguagem escrita, já que cada uma delas tem as suas particularidades. Em suma, podemos dizer que o letramento é uma espécie de nomeação de práticas sociais na área da oralidade e da escrita. Esperamos demonstrar que o ciclo das influências mútuas estabelecido nas modalidades oral e escrita como práticas sociais reflete no papel que essas modalidades desempenham na formação e no desenvolvimento do letramento. Palavras-chave: Influências mútuas. Letramento. Sistema da língua. 1. Introdução A finalidade deste trabalho é refletir sobre a complexidade do processo de letramento. Para tal, acreditamos que oralidade e escrita devem ser analisadas a partir de um continuum tipológico, em cujos extremos opostos se coloquem os seus protótipos. Para obter maior clareza na apresentação, dividimos o nosso trabalho em duas partes fundamentais: na primeira, os conceitos; na segunda, letramento não é alfabetização. Para o entendimento deste trabalho, deixamos claro três coisas fundamentais, que são: a língua será tratara como um sistema, letramento e alfabetização são conceitos diferentes e que as modalidades oral e escrita serão tratadas como práticas sociais. 2. Os conceitos A oralidade segundo Marcuschi (2001): Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016 349

seria uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob várias formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso. (2001, p. 25) A oralidade está relacionada com o nosso conhecimento inato, ou seja, desde que nascemos, querendo ou não, estamos rodeados por essa modalidade, que está presente no nosso cotidiano, e a todo momento nós estamos nos deparando com diversas situações, cada uma requer uma nova perspectiva do nosso eu, isto é, o meio é que vai determinar o tipo de linguagem que devemos nos utilizar em cada situação, por exemplo, o uso da linguagem formal ou informal vai depender do momento. (...) a oralidade seria uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob várias formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso. (MARCUSCHI, 2001, p. 25) A escrita, por sua vez, não é uma representação da fala, contudo um dos métodos de comunicação mais utilizado, independentemente de ser considerada um processo mais lento do que a oralidade. (...) a escrita seria um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especialidades materiais e se caracteriza por sua constituição gráfica, embora envolva recursos de ordem pictórica e outros (...). Pode-se manifestar pela escrita alfabética (...). No geral nunca há escritas puras, trata-se de uma modalidade de uso da língua complementar à fala. (MARCUS- CHI, 2001, p. 26) A escrita, é indispensável no nosso dia-a-dia, pois é um dos processos de comunicação mais utilizado, apesar de ser processo muito mais lento do que a oralidade. É indispensável em nossa vida, e ela não é uma representação da fala. Segundo Kato, (1987): a dependência contextual determina o grau de explicitação textual, isto é, o seu grau de autonomia. O grau de planejamento determina o nível de formalidade, que pode ir do menos tenso (casual ou informal) até o mais tenso (formal, gramaticalizado). (1986, p. 39) De fato, a oralidade é produzida de forma diferente da escrita, pois o processo de uma é diferente do da outra. Destacamos que apesar das modalidades oral e escrita serem estanques, a prática de ler e escrever corrobora para o aprendizado da leitura e da escrita. Efetivamente, temos alguns parâmetros que distinguem oralidade e escrita, porém, só esses parâmetros não bastam para diferencia-las. Há 350 Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016.

algumas particularidades da linguagem oral, por exemplo, a gesticulação, a expressão facial e corporal, a fluidez das ideias e a velocidade da produção oral, controle da comunicação, gerando a cooperação mútua entre os participantes. A escrita também tem suas particularidades que são: correção gramatical (objetividade, clareza e concisão), processo de produção lento, planejamento (que antecede a produção), tempo de produção livre, sintaxe, uso de formalismo e coloquialismo, elipse etc. Existem textos escritos que se situam, no contínuo, mais próximos ao polo da fala conversacional (bilhetes, cartas familiares, textos de humor, por exemplo), ao passo que existem textos falados que mais se aproximam do polo da escrita formal (conferências, entrevistas profissionais para altos cargos administrativos e outros), existindo, ainda, tipos mistos, além de muitos outros intermediários. (KOCH, 1997, p. 32) De acordo com Botelho, Kato afirma que (1987), o que determina as diferenças entre as modalidades (...) são as diferentes condições de produção, que refletem uma maior ou menor dependência do contexto, um maior ou menor grau de planejamento e (...) submissão às regras gramaticais. Marcuschi (2007) ressalta sobre as relações entre oralidade, letramento, fala e escrita: Numa sociedade como a nossa, a escrita, enquanto manifestação formal dos diversos tipos de letramento, é mais do que uma tecnologia. Ela se tornou um bem social indispensável para enfrentar o dia-a-dia, seja nos centros urbanos ou na zona rural. Neste sentido, pode ser vista como essencial à própria sobrevivência no mundo moderno. Não por virtudes que lhe são imanentes, mas pela forma como se impôs e a violência com que penetrou nas sociedades modernas e impregnou as culturas de um modo geral. Por isso, friso que ela se tornou indispensável, ou seja, sua prática e avaliação social a elevaram a um status mais alto, chegando a simbolizar educação, desenvolvimento e poder. (2007, p. 16-17) Segundo Marcuschi (2001),... as diferenças entre fala e escrita se dão dentro de um continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois polos. O contínuo dos gêneros textuais distingue e correlaciona os textos de cada modalidade (fala e escrita) quanto às estratégias de formulação que determinam o contínuo das características que produzem as variações das estruturas textuais-discursivas (sic), seleções lexicais, estilo, grau de formalidade etc., que se dão num contínuo de variações, surgindo daí semelhanças e diferenças ao longo de contínuos sobrepostos. (MARCUSCHI, 2001, p. 42) Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016 351

Grosso modo, podemos dizer que a fala é o processo discursivo que abrange as formas orais de comunicação. A escrita, por sua vez, é o processo discursivo que englobam as formas de constituição gráfica, isto é, a fala e escrita não se devem ser tratadas de formas dicotômicas, e sim por um continuum. Muitos outros estudiosos nos legaram subsídios com suas comparações entre as modalidades para uma análise consistente do contínuo em que se situam os diversos tipos de textos. Chafe (1982. 1985 e 1987) o faz, levando em consideração um envolvimento maior ou menor dos interlocutores. (BOTE- LHO, 2004, p. 2) Biber (1988) sugere que as diferenças e semelhanças entre fala e escrita devem ser vistas a partir de um conjunto de dimensões que formam diferentes gêneros em um continuum. São elas: produção envolvida ou voltada para a informação; estrutura narrativa ou não narrativa; referência explicita ou dependente; expressão explicita da persuasão; informação abstrata ou não abstrata e elaboração online. Normalmente, no momento em que falamos sobre o ciclo de simulações contínuas, notamos que: (...) uma análise de natureza epistemológica revela que muitos autores se equivocaram ao afirmarem, num primeiro momento, que a escrita seria a representação gráfica da fala e, num segundo momento, que elas são diferentes. De fato, constituem essas duas práticas linguísticas fenômenos característicos, porém semelhantes, se analisadas sob a noção de um contínuo tipológico. Oralidade e escrita, como práticas sociais, se entrecruzam e se completam, embora apresentem cada uma por si características particulares. (BOTELHO, 2012, p. 1) Acreditamos que a fala é adquirida espontaneamente no momento de interação entre os indivíduos, enquanto a escrita é adquirida na prática educacional. A fala e a escrita são dinâmicas e dialógicas, isto é, estão em constantes mudanças, em um processo de construção mútua contínua. 3. Letramento não é alfabetização Segundo Soares (1998), letramento é uma palavra muito recente no vocabulário das ciências linguísticas. A autora (1998, p.2), assegura que a denominação letramento é uma tradução da palavra inglesa literacy. De modo geral, ficaremos com a seguinte definição: O letramento, (...) envolve as mais diversas práticas da escrita (nas suas variadas formas) na sociedade e pode ir desde uma apropriação mínima da escrita, tal como o indivíduo que é analfabeto, mas letrado na medida em que 352 Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016.

identifica o valor do dinheiro, identifica o ônibus que deve tomar, consegue fazer cálculos complexos, sabe distinguir as mercadorias pelas marcas. (...) Letrado é o indivíduo que participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele que faz uso formal da escrita. (MARCUSCHI, 2001, p. 25) Soares (2000) diferencia alfabetização e letramento: Alfabetização é o processo pelo qual se adquire o domínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja: o domínio da tecnologia do conjunto de técnicas para exercer a arte e ciência da escrita. Ao exercício efetivo e competente da tecnologia da escrita denomina-se Letramento que implica habilidades várias, tais como: capacidade de ler ou escrever para atingir diferentes objetivos. (SOARES, 2003, p. 91) Conforme Street (1995), a alfabetização pode dar-se, como de fato se deu historicamente, à margem da instituição escolar, mas é sempre um aprendizado mediante ensino, e compreende o domínio ativo e sistemático das habilidades de ler e escrever. A leitura diária de textos, por exemplo, acaba contribuindo diretamente com o nível de letramento do indivíduo, pois a cada nova leitura possuímos uma própria linguagem, e adquirimos habilidades para a codificação e decodificação dos signos linguísticos. A prática do letramento está presente nos mais diversos contextos sociais em que se usa a língua escrita e falada como processo de comunicação e interação social, como, por exemplo, na família, escola, trabalho, sindicato, faculdade etc. Cada um desses ambientes exige do falante uma capacidade de uso da língua falada e/ou escrita para comunicar-se com o outro num processo de compreensão e interação social. (MARCUSCHI, 2007, p. 29) Notamos que comumente a sociedade tem dado prioridade a pratica da escrita, e quando o indivíduo assim o faz no início dos seus estudos, ele automaticamente está sendo alfabetizado sem a prática do letramento, já que ele tomou conhecimento de como codificar e de decodificar as palavras através código linguístico. Conforme Soares (2003) o termo letramento surgiu devido a importância de se nomear as práticas sociais de escrita e de leitura que são muito mais complexas que as práticas do ler e escrever resultantes da codificação e decodificação da modalidade escrita. Tendo visto o significado de alfabetização e letramento, podemos afirmar com clareza que é tanto possível quanto normal o fato de indivíduo não ser necessariamente alfabetizado e ser uma pessoa letrada, já que todas as pessoas possuem um certo grau de letramento. A leitura diária Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016 353

de variados textos, por exemplo, acaba contribuindo diretamente com o nível de letramento do indivíduo. (...) letrada a pessoa que consegue tanto ler quanto escrever com compreensão uma frase simples e curta sobre sua vida cotidiana. É iletrada a pessoa que não consegue ler nem escrever com compreensão uma frase simples e curta sobre sua vida cotidiana. (UNESCO, apud SOARES, 2001, p. 71) A alfabetização é um processo de aquisição da escrita que ficou ligado à escola, uma vez que, o indivíduo tenciona em aprender a ler e a escrever, e no momento em que associamos esse conceito, temos a representação espacial da sala de aula e ao mesmo tempo a figura do professor. A alfabetização, e por sua vez, é uma das práticas de letramento que faz compõe as práticas sociais. Acreditamos que a pessoa que possui quaisquer competências linguísticas, na verdade, não tem o mesmo nível de letramento que aquela que não é alfabetizada, assim, esse indivíduo se torna alfabetizado, mas não, necessariamente, letrado. Realmente, definir a palavra letramento não é uma tarefa muito fácil. Contudo, com o intuito de explicar melhor os motivos que justificam as várias definições do termo letramento, chegando, inclusive, a ocorrerem conflitos conceituais entre alguns especialistas que estudam o fenômeno, apresentaremos a seguir as duas principais dimensões do letramento: a individual e a social, explicitadas por Soares. (1998, p. 125) Desse modo, notamos uma conexão, entre alfabetização e letramento. Em suma, para que o indivíduo possa ser considerado letrado, o mesmo deve ter, no mínimo, um conhecimento de leitura e da escrita, pois as pessoas que não sabem ler e escrever não são capazes de decodificar as palavras, sendo assim são indivíduos iletrados. Acreditamos que um sujeito letrado não é aquele que adquire os códigos da escrita, contudo aquele que, depois de adquiri-los, consegue atuar normalmente com esses códigos pode ser considerado letrado. Por conseguinte, o indivíduo letrado é aquele que aprende o código escrito para se comunicar por meio da linguagem escrita. Segundo Soares (2003), ser alfabetizado é uma condição que define o grau de letramento de um indivíduo em uma sociedade. Contudo, acreditamos que o nível de letramento de um indivíduo não pode ser avaliado a partir de sua condição de alfabetizada. A prática de letramento não está inteiramente relacionada com a alfabetização, ou seja, quer o sujeito seja alfabetizado, quer não, ele pode 354 Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016.

ser letrado. Para Marcuschi (2007, p. 25) letrado é o indivíduo que participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele que faz uso formal da escrita. Conforme Soares (1998) alfabetizar e letrar são ações distintas, contudo é possível alfabetizar um indivíduo e letrá-lo ao mesmo tempo. A autora ainda afirma que, letrado é o indivíduo que faz uso daquilo que foi assimilado no seu dia a dia. Seguindo esse ponto de vista da autora, acreditamos que a prática de letramento está diretamente ligada à história de vida de cada indivíduo. Grosso modo, podemos afirmar que a oralidade está ligada as práticas sociais para fins comunicativos que envolvem gêneros textuais do domínio da proximidade comunicativa. Enquanto alfabetização é o processo de aprendizado dos códigos. Notamos que letramento é diferente de alfabetização, pois esses processos estão relacionados entre si, e além disso, é possível estar inserido em práticas de letramento sem sequer ser alfabetizado. 4. Considerações finais Concluímos que as diferenças entre oralidade e escrita fundamentam-se no processo de produção de texto. Assim, as disparidades entre a oralidade e a escrita deve ser vista analisada a partir do uso da língua, isto é, observando o contínuo de variações entre a fala e a escrita. Destacamos que as modalidades oral e escrita não devem ser estudadas de forma dicotômica, pois é nos usos da língua que o seu estudo se funda. E, como práticas sociais, não são distintas, elas são semelhantes, pois se apropriam de um único sistema linguístico, que é a língua. Desse modo, devemos considerar essas modalidades como práticas sociais, pois cada uma tem suas particularidades, que as tornam exclusivas. De modo geral, podemos afirmar que letramento e alfabetização são duas práticas distintas, porque possuem objetos de estudo diferenciados e, consequentemente, têm mecanismos de aprendizagens distintos e ainda possuem uma natureza complexa. Além disso, devemos destacar que letramento não é de modo algum o resultado da alfabetização, já que são processos diferentes. Contudo, alguns momentos diários de leitura e escrita auxiliam no processo de alfabetização e letramento. Esperamos ter demonstrado que o ciclo que as influências mútuas Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016 355

estabelecem nas modalidades oral e escrita como práticas sociais, refletem no papel que essas modalidades desempenham na formação e no desenvolvimento do letramento. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIBER, D. Variation across speech and writing. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. BOTELHO, J. M. Oralidade e escrita sob a perspectiva do letramento. Jundiaí: Paco, 2012.. Entre a oralidade e a escrita: um contínuo tipológico. Cadernos do CNLF, vol. VIII, n. 7 Produção e edição de textos. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2004. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno07-05.html>. KATO, M. A. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. 2. ed. São Paulo: Ática, 1987. KOCH, I. Interferência da oralidade na aquisição da escrita. Trabalhos em Linguística Aplicada. Departamento de Linguística Aplicada do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. Campinas: UNICAMP, 1997. MARCUSCHI, Luiz. Antônio. Análise da conversação. 5. ed. São Paulo: Ática, 2000.. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001. 356 Revista Philologus, Ano 22, N 64 Supl.: Anais do VIII SINEFIL. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr.2016.