A PROVISÃO DA FAMÍLIA E A POBREZA: O CASO DE BELO HORIZONTE. Zuleica Lopes Cavalcanti de Oliveira



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Transcrição:

A PROVISÃO DA FAMÍLIA E A POBREZA: O CASO DE BELO HORIZONTE Zuleica Lopes Cavalcanti de Oliveira 1

Objetivo O processo de reorganização do capitalismo em escala mundial provocou profundas transformações na família urbana brasileira. Estas transformações, propiciadas por uma rápida difusão dos valores, em uma cultura globalizada, seguiu as tendências encontradas nos países da Europa e dos Estados Unidos da América a partir da segunda metade do século XX. Em linhas gerais, estas tendências apontaram para mudanças significativas na esfera do privado, nos costumes, na sexualidade e nas relações de gênero, com impactos evidentes sobre a estrutura familiar (Giddens, 2000). Uma destas mudanças esta relacionada ao aumento no número de separações e de divórcios. Ao longo das últimas décadas se assistiu, no país, à passagem do estigma da prática do divórcio para a sua aceitação. Esta passagem é expressão, em grande medida, da introdução do princípio igualitário nas relações matrimoniais, refletindo, por sua vez, a transferência para a vida privada da idéia de igualdade de oportunidades, de maior autonomia e de liberdade pessoal (Torres, 1996). Assim, se vislumbra na base do aumento do número de divórcios, uma modificação mais abrangente nas práticas sociais que se contrapõe aos papéis sexuais hierarquizados no interior da família e que eram dominantes durante as décadas anteriores. A prática dos casais se unirem mais de uma vez tem sido utilizada por camadas expressivas da população brasileira, sobretudo no espaço urbano e metropolitano (Oliveira, 2001). Um outro aspecto da transformação verificada no espaço privado da família refere-se ao adiamento da formação dos casais. O padrão de aumento da idade média ao casar traduz, em última instância, o fato do casamento já não se constituir na única alternativa de vida para as mulheres. O acesso feminino à escolaridade foi decisivo para a modificação deste quadro, permitindo à mulher o questionamento de seu lugar de subordinação na família bem como à sua integração no espaço público do trabalho. A possibilidade aberta às mulheres de exercício de uma carreira profissional, bem como a busca por uma maior liberdade individual no plano da vida privada, ou mesmo as dificuldades de natureza econômica tem levado os homens e, sobretudo, as mulheres a postergarem o casamento. A formação de uniões sem vínculos legais tem também se constituído em um traço característico das mudanças que têm se processado na família em período recente. A importância crescente das uniões sem vínculos legais, assim como o seu reconhecimento social é evidente no Brasil. Esta tendência denota a menor influência da legitimação jurídica sobre as novas configurações familiares. Um outro aspecto que retrata a transformação ocorrida na família brasileira diz respeito à mudança levada a efeito nos padrões da reprodução biológica. Ressalte-se, que a redução nos níveis de fecundidade das mulheres brasileiras se consolidou, de fato, durante os anos setenta, apresentando durante os anos seguintes uma tendência constante de redução. Mas foi, sem dúvida, o declínio do modelo de família, assentado na ética do provedor, que se constituiu em um dos fatos mais marcantes da transformação experimentada pela família urbana brasileira. Este padrão de família que se estruturou a partir do século XIX e que foi característico dos anos cinqüenta é o fundamento do patriarcalismo (Castells, 1999). 2

Em um trabalho anterior (Oliveira,2005) pude, no entanto, constatar que o papel de provedor principal da família continua sendo desempenhando pelo homem referência no contexto urbano do país. Entretanto, foram, também, detectados indícios de mudança dignos de nota neste padrão. Estes indícios revelaram a importância do papel econômico assumido pelas mulheres cônjuges na família urbana brasileira. Elas têm se transformado, de modo significativo, em co-provedoras, ou mesmo em provedoras principais em famílias que são lideradas pela figura masculina. A proposta deste trabalho é a de examinar a importância da contribuição da mulher cônjuge para a provisão familiar em famílias que vivem em situação de pobreza na cidade de Belo Horizonte. O aspecto que pretendo analisar refere-se ao efeito da pobreza sobre o padrão de provisão familiar. Pretende-se avaliar em que medida as famílias pobres apresentam um perfil de provisão familiar distinto daquele encontrado para as demais famílias belohorizontinas. O material empírico que serviu de base para esta análise está referido aos micro-dados do Censo Demográfico de 2000. SITUANDO O CONTEXTO DE ANÁLISE: A CIDADE DE BELO HORIZONTE O Estado de Minas Gerais experimentou um processo de urbanização expressivo na época do Brasil Colônia, muito embora, tenha tido, por motivos políticos, apenas uma localidade com status de cidade, Mariana, durante este período (Pádua,2000). Assim, já havia em Minas Gerais, como resultado deste processo, cerca de 400 núcleos urbanos em inícios do século XIX. Além da expressão do processo de urbanização mineiro, chama atenção o seu caráter diversificado (Pádua, 2000). Este processo surgiu em função da atividade mineradora, ainda durante o século XVIII, se ampliando, posteriormente, em conseqüência da agricultura e da manufatura. Deste modo, não se pode considerar que a urbanização mineira resultou apenas da atividade mineradora. Ela resultou de um elenco diverso e complexo de fatores. A existência de uma burocracia militar e civil neste estado, bem como de uma plutocracia que demandava serviços religiosos, artísticos e comerciais, entre outros, foram os principais fatores que concorreram para o desenvolvimento da urbanização no Estado de Minas Gerais. O processo de urbanização deste estado acabou possibilitando uma alta qualidade de vida urbana para a população mineira, mesmo antes do século XIX (Pádua, 2000). Os relatos históricos apontam não só para o desenvolvimento dos serviços e equipamentos urbanos como também para a existência de atividades artísticas e profissionais importantes, como a música, a pintura, a escultura, e os serviços médicos e de advocacia. As atividades artísticoculturais que se desenvolveram em Minas Gerais chegaram a assumir, de fato, o caráter de um sistema cultural, dada a sua relevância. É neste contexto estadual que surgiu a cidade de Belo Horizonte, que foi planejada e influenciada pelos cânones urbanísticos da época. Belo Horizonte foi inaugurada em 1897 com a proposta de ser a sede do poder republicano que havia sido implantado no país há pouco tempo (Barros, 2001). A criação de Belo Horizonte esteve, assim, associada, simbolicamente a um novo tempo, o da modernidade. É preciso, contudo, mencionar que o ideal de modernidade trazido pela República e que teve, como espaço de realização a cidade 3

de Belo Horizonte compreendeu traços de conservadorismo e de autoritarismo. O povo do Arraial do Curral D el Rei, que deu origem a Belo Horizonte, e os seus costumes, eram vistos como obstáculos para a construção de uma cidade moderna. O traçado regular de Belo Horizonte, a uniformidade de sua malha urbana vieram a se contrapor à desorganização da ocupação espontânea que ocorreu no Arraial do Curral D el Rei (Barros,2001). A construção da cidade de Belo Horizonte terminou, somente, na década de 20. Durante os anos vinte o processo de crescimento de Belo Horizonte que tinha sido contínuo até então foi sustado devido a problemas ocasionados pela Segunda Guerra Mundial. Mas a partir da década de trinta a cidade de Belo Horizonte voltou a crescer, passando por um processo de transformação que se refletiu na construção dos seus primeiros prédios e no aparecimento dos carros que vão ocupando, gradativamente, os lugares antes destinados aos bondes. Belo Horizonte caminhou em direção de seu processo de metropolização já durante a década de sessenta. Assim, durante os anos setenta esta cidade já tinha consolidado a sua posição de metrópole no cenário urbano do país. Atualmente, a cidade de Belo Horizonte se constitui no centro da terceira Região Metropolitana brasileira, perdendo apenas para o Rio de Janeiro e São Paulo em termos da concentração populacional e das atividades econômicas. Portanto, ela convive, com menor intensidade, com os problemas de são característicos das grandes metrópoles brasileiras, crescimento das áreas de favelas, aumento da criminalidade, presença do tráfico de drogas, entre outros. Mas, Belo Horizonte guarda, ainda, um certo conservadorismo, quando comparada com as metrópoles nacionais. A influência da religião, sobretudo, da religião católica tem contribuído, em grande medida, para a constituição de um modelo de família no qual a influencia da cultura patriarcal é, ainda, mais acentuada. SITUANDO O PROBLEMA O modelo de família baseado na ética do provedor pressupõe um conjunto de práticas e de valores. Este modelo se baseia na dicotomia dos papéis sexuais familiares. Vale lembrar, que a conceituação de papel compreende não apenas o posicionamento do indivíduo no grupo familiar e na sociedade em geral, como também se refere aos modelos culturais e aos sistemas de valores. Os papéis sexuais familiares estão associados a valores e a normas, bem como a funções que são atribuídas separadamente ao homem e a mulher (Zelditch, 1968). Estes papéis são marcadamente diferentes e as funções a eles associadas são valorizadas, socialmente, de forma desigual. As funções mais valorizadas são, em geral, aquelas desenvolvidas pelo homem. Deste modo, os papéis sexuais familiares estão relacionados às representações de masculinidade e de feminilidade, que expressam uma dada posição de status social. Portanto, os papéis sexuais expressam as relações de poder que caracterizam o lugar dos homens e das mulheres no grupo familiar. O desempenho das atividades de natureza instrumental de provisão e de intermediação com o espaço público é uma atribuição masculina. Estas atividades refletem o comprometimento do homem com o emprego remunerado, e com a provisão da família. Já o exercício das atividades expressivas e afetivas, que estão voltadas para o espaço privado da família é considerado como uma atribuição das mulheres. Estas atividades se relacionam ao cuidado dos filhos e do marido, bem como ao trabalho doméstico (Zelditch, 1968). A realização deste modelo familiar impôs educar as mulheres para o desempenho das tarefas domésticas. 4

A nova domesticidade visou transformar as mulheres em esposas afetuosas e mães racionais (Lasch,1977). A função de provedor que é essencial para a sobrevivência da família garante o papel de liderança ou de chefia da família para o homem, legitimando, por sua vez, a dominação masculina sobre os demais membros do grupo familiar. Assim, o modelo de família, constituído pelo homem e provedor e pela mulher cônjuge dependente economicamente reflete a assimetria sexual. Este modelo centraliza no homem, o chefe da família e provedor, todo o poder. A mulher cônjuge, aquela a quem é atribuído o papel de esposa, mãe e de responsável pelo trabalho doméstico, ocupa uma posição subordinada nesta relação assimétrica. A posição subordinada da mulher na família guarda estreita relação com a sua exclusão do espaço público do trabalho e com a conseqüente dependência econômica ao homem que é chefe de família e provedor. A mulher cônjuge ou a esposa é, por definição e por status, não provedor. Ser esposa ou cônjuge significa, portanto, não ser provedor. Assim, a relação homem e chefe e mulher e cônjuge é marcada pela diferenciação dos papéis e pelo fato de que a função de provedor, que tem prestígio social, é a principal atribuição do chefe de família. É este modelo de família, assentado na ética do provedor, que viabiliza a divisão sexual do trabalho ao articular o emprego remunerado exercido pelo homem no espaço público do trabalho com o trabalho doméstico realizado pela mulher no espaço privado da família. Este arranjo familiar que variou de intensidade nos diversos contextos sociais e ao longo do tempo se fortaleceu em razão da marginalização imposta à mulher no espaço público do trabalho, sobretudo nos empregos de maior prestígio e remuneração. A ideologia das esferas separadas leva a considerar o espaço privado da família como o lugar natural da mulher e o emprego remunerado e o mercado como o espaço masculino por excelência. O declínio deste modelo de família ocasionado, em grande medida, pela incorporação da mulher cônjuge no espaço público do trabalho, denota, em última instância, a estruturação de novos habitus de gênero que apontam no sentido do deslocamento dos homens e das mulheres de seus papéis tradicionais, tanto no plano da cultura como da subjetividade no espaço urbano do país (Oliveira, 2001). O conceito de habitus é, aqui entendido no sentido dado por Bourdieu (1990) e pelos desdobramentos feitos pela teoria feminista (Almeida, 1997), enquanto produto das relações sociais de gênero. Trabalhos anteriores (Oliveira, 2001; Oliveira, 2005) mostraram que a transformação do status anterior da mulher, de esposa e de mãe, para o status de trabalhadora no espaço público comprometeram, de forma definitiva, as bases patriarcais da organização familiar urbana brasileira, com reflexos evidentes sobre a provisão da família. Ou seja, é cada vez mais importante a participação feminina no orçamento das famílias urbanas brasileiras. Mas será que esta tendência tem também se manifestado, de modo expressivo, na cidade de Belo- Horizonte? Será que as famílias pobres apresentam um padrão particular de provisão familiar? Os dados examinados forneceram elementos para a uma maior compreensão destas questões. 5

A ANÁLISE DOS DADOS: De início, cabe explicitar os procedimentos metodológicos que foram adotados nesta análise. Primeiramente, foi utilizada uma tipologia de provisão da família que foi operacionalizada segundo três categorias distintas de participação dos membros da família no orçamento doméstico (1). A primeira delas refere-se à categoria de dependente que compreende a situação dos integrantes do grupo familiar que estão economicamente subordinados ao provedor principal ou aos provedores da família. Nesta categoria estão situados os membros da família que contribuem com até 40,0% da renda familiar. A segunda categoria, a de co-provedor, compreende o intervalo de contribuição de mais de 40,0% até 60,0% da renda familiar, englobando aqueles que contribuem significativamente para a renda da família. Por fim, a terceira categoria contempla aquele que pode ser considerado como o provedor principal da família, já que cabe a ele a contribuição de mais de 60,0% da renda familiar. Cumpre destacar, que as categorias de participação na renda familiar foram construídas de forma relacional, tomando como base a categoria de provedor. Apesar da arbitrariedade que preside, em geral, a construção de categorias, classificações ou tipologias, julga-se que este recurso metodológico atende aos propósitos da nossa análise na medida em que as categorias de participação na renda familiar que foram previamente definidas refletem, ao meu juízo, situações bastante diferenciadas quanto ao grau de comprometimento dos membros da família com o orçamento doméstico. Outro ponto que cabe mencionar diz respeito às categorias de condição na família e sexo que foram construídas para efeito desta análise. Foram consideradas as categorias, de pessoa de referência na família apenas para o sexo masculino, a de cônjuge apenas para o sexo feminino e a de filhos. Esta construção visou a reproduzir o tipo de família nuclear constituída pelo homem que é a pessoa de referência na família, a mulher cônjuge e os filhos. Portanto, o universo de análise está referido às famílias com liderança doméstica masculina, considerada segundo distintos níveis de rendimento familiar per capita, até ½ salário mínimo, de ½ a 2 salários mínimos e mais de 2 salários mínimos. Uma distinção foi, contudo, feita no interior destas famílias. Em um primeiro momento, se examinou o padrão da provisão familiar em famílias com liderança doméstica masculina, considerando todo o conjunto das mulheres cônjuges. Em seguida, se partiu para o exame da provisão familiar em famílias com liderança doméstica masculina nas quais a mulher cônjuge é ocupada. É preciso lembrar que a categoria pessoa de referência na família veio a substituir, especialmente, nas estatísticas públicas a categoria de chefe de família. Esta substituição se fez necessária em razão do estabelecimento do princípio de igualdade entre os cônjuges, na família, que foi introduzido pela Constituição Federal de 1988. A substituição da categoria de chefe de família pela categoria pessoa de referência na família objetivou superar o pressuposto implícito sobre a hierarquia de gênero no interior da família que está contido na primeira, respondendo às novas exigências legais que não aceitam mais a existência do papel de um chefe de família. O princípio da igualdade entre os cônjuges foi reafirmado pelo novo Código Civil, em vigor desde 2003, que pretendeu adaptar as leis brasileiras, no campo da família, às novas práticas sociais vigentes. 6

Assim, a introdução da categoria pessoa de referência na família representou um avanço significativo em termos de linguagem por referir-se igualitariamente tanto ao homem como a mulher, que podem, pelo menos idealmente, assumir o papel de destaque no interior da família (Oliveira, 2001). Este destaque, embora não definido de forma clara, está implicitamente referido à função de provedor. No entanto, o intento da superação do pressuposto de uma hierarquia de gênero no interior da família não foi, de fato, assegurado. A matriz cultural dominante que esta assentada em valores patriarcais, continua associando a categoria pessoa da referência ao papel de chefe de família, que permanece sendo, por sua vez, identificado com a figura masculina. Portanto, a categoria de pessoa de referencia, que foi criada para substituir a categoria de chefe, com a finalidade de eliminar, pelo menos no nível da linguagem, as desigualdades intra-familiares de gênero, continua sendo entendida como sinônimo da chefia familiar masculina. E, mais do que isto, esta categoria continua sendo considerada como expressão da provisão única masculina. Ressalte-se que se optou pela utilização da categoria pessoa de referência na família ao longo desta análise porque ela assume, pelo menos em termos de propósito, uma maior neutralidade, além também do fato de que a categoria de chefe de família não tem mais respaldo legal. Por fim, cabe mencionar que se adotou como procedimento de análise a comparação entre a cidade de Belo Horizonte e as metrópoles nacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo com vistas a se avaliar até que ponto o padrão de provisão familiar belo-horizontino se aproxima do existente nas maiores metrópoles brasileiras. A análise dos dados revelou tendências que merecem ser destacadas. O homem referência continua desempenhando o papel de provedor principal em Belo Horizonte (tabela 1). Cerca de 84,4% dos homens que são referências em suas famílias são também provedores principais. Este padrão foi também identificado nas metrópoles de São Paulo e, sobretudo, no Rio de Janeiro. Assim, as situações de referência, na família, e de provedor continuam associadas à figura masculina nestas cidades. Tabela 1 Categorias de Participação na Renda Familiar segundo a condição na família Sexo e o Rendimento familiar per capita nas metrópoles de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo PARTICIPAÇÃO NA RENDA FAMILIAR Condição na Família Dependente Co-provedor Provedor Principal BH RJ SP BH RJ SP BH RJ SP TOTAL 100,0 100,0 100,0 100 100 100,0 100,0 100,0 100,0 Homem referência 10,0 8,9 10,9 50,3 51,3 50,2 84,4 87,0 83,0 Mulher cônjuge 43,3 43,6 43,7 32,9 32,7 30,8 8,1 7,6 7,8 Filhos 46,7 47,5 45,4 16,8 16 19,0 7,5 5,4 9,2 Fonte: microdados do Censo Demográfico 2000 7

No entanto, o exame de outros dados leva à necessidade de se relativizar esta afirmação. A co-provisão aparece de forma expressiva em Belo Horizonte, e nas metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo, indicando que são as mulheres cônjuges que assumiram a condição de co-provedoras em suas famílias. A proporção das mulheres cônjuges nesta condição se situou em torno de 32,0% aproximadamente (tabela 1). Este dado parece, portanto, sugerir que os papéis sexuais familiares, homem provedor e mulher cônjuge, dependente economicamente, não se realizam mais com a mesma força de antes. Ou seja, ser esposa ou cônjuge não significa necessariamente não participar da provisão da família. Ser esposa ou cônjuge não significa necessariamente assumir a posição subordinada na relação assimétrica que caracteriza o modelo de família assentado na ética do provedor. Sen (2000) chama atenção para o fato de que a transformação da mulher cônjuge em co-provedora a torna uma agente de mudança que tem um papel crucial para a mudança social em geral: Contudo, a presença da mulher cônjuge na condição de dependência econômica nas famílias belo-horizontinas é muito importante, da ordem de 43,0% aproximadamente. Esta tendência é similar às encontradas para as metrópoles do Rio de Janeiro, e de São Paulo. Grande parte das mulheres cônjuges permanece em uma situação de dependência a seus cônjuges, em razão quase sempre das dificuldades encontradas para conciliar casa e trabalho, sobretudo, em determinadas fases do seu ciclo de vida, nos quais o cuidado com os filhos requer maior comprometimento. Estas restrições pesam, ainda, mais para o conjunto das mulheres cônjuges que são menos escolarizadas e qualificadas, encontrando, assim, mais dificuldades de inserção no mercado de trabalho. A escolaridade é fundamental para explicar a inserção das mulheres cônjuges na atividade econômica porque ela expressa mais do que simplesmente um determinado número de anos de estudos. A escolaridade permite à mulher um acesso a um conjunto de informações e de valores que possibilitam o questionamento de sua posição de subordinação na família. Um outro dado que permite também relativizar a rigidez dos papéis sexuais, na família belohorizontina, é encontrado na proporção de homens que são referência, de suas famílias e que estão situados na condição de dependência econômica (10,0%). As metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo apresentam, também, a mesma tendência. Este fato reflete, em alguma medida, os problemas de desemprego e de precarização do trabalho que vêm atingindo a população masculina. Mas, o dado que cabe destacar é o de que as famílias pobres apresentam um padrão particular de provisão familiar. Fica evidente o impacto da pobreza sobre o tipo de provisão da família (tabela 2). O padrão dominante da provisão única masculina se enfraquece, de modo expressivo, nas famílias que vivem em situação de pobreza. O homem referência alcançou uma proporção de 76,4% na categoria de provedor principal nas famílias belohorizontinas com até ½ salário mínimo. Vale mencionar, que no Rio de Janeiro e em São Paulo estas proporções atingiram os valores de 79,2% e de 72,5 %. Assim, nas famílias pobres o modelo de família baseado na ética do provedor experimentou um declínio mais acentuado do que nos demais tipos de família. Cerca de 18,0% das mulheres cônjuges que vivem em situação de pobreza em Belo-Horizonte são provedoras principais de suas famílias, 15,0% são provedoras principais no Rio de Janeiro e 20,0% são 8

provedoras principais em São Paulo. Ressalte-se, que o universo de analise é o das famílias com liderança doméstica masculina. A participação das mulheres cônjuges na categoria de co-provedora é, também, digna de nota entre aquelas que vivem em situação de pobreza, cerca 37,0% em Belo Horizonte, valor este superior ao encontrado para as co-provedoras, no Rio de Janeiro (34,4%) e, em São Paulo (35,5%). É preciso, porém, examinar o contraponto desta tendência que pode ser buscado na proporção das mulheres cônjuges que permanecem sendo dependentes economicamente de suas famílias. O seu número é, ainda, elevado, nas famílias pobres de Belo Horizonte, nas quais esta proporção alcança o valor de 38,3%. Nas metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo a proporção de cônjuges que estão na condição de dependentes econômicas não se distancia, de modo significativo, da encontrada para a metrópole de Belo Horizonte (tabela 2). Tabela 2 Categorias de Participação na Renda Familiar segundo a condição na família Sexo e o rendimento familiar per capita nas metrópoles de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo Condição na Família / PARTICIPAÇÃO NA RENDA FAMILIAR Rendimento Familiar Dependente Co-Provedor Provedor Principal até 1/2 s.m BH RJ SP BH RJ SP BH RJ SP homem referencia 17,3 18,3 22,7 46,4 48,7 44,7 76,4 79,2 72,5 mulher cônjuge 38,3 38,8 36,8 37,6 34,4 35,5 18,2 15,7 20,1 filhos 44,4 42,9 40,5 16,0 16,9 19,8 5,4 5,1 7,4 de 1/2 a 2 s.m. homem referencia 9,2 7,0 8,1 49,5 50,3 49,0 85,4 88,5 85,7 mulher cônjuge 44,2 44,5 44,5 32,3 33,7 33,5 6,3 6,4 6,9 filhos 46,6 48,5 47,4 18,2 16,0 17,5 8,3 5,1 7,4 mais de 2 s.m. homem referencia 8,5 7,7 10,1 51,5 52,4 51,2 85,7 87,5 82,3 mulher cônjuge 43,8 44,1 44,8 32,9 31,7 28,9 7,0 6,6 6,3 filhos 47,7 48,2 45,1 15,6 15,9 19,9 7,3 5,9 11,4 Fonte: microdados do Censo Demográfico 2000 O padrão de provisão familiar das famílias que não estão em situação de pobreza também aponta, embora com menor intensidade, no sentido da dissociação do papel de referência na família e da função de provedor. As mulheres cônjuges têm assumido, de modo significativo, a função de co-provedoras na cidade de Belo Horizonte, apesar do homem continuar desempenhando a função de provedor principal. Ou seja, em torno de 33,0% das mulheres cônjuges são co-provedoras nas famílias com mais de 2 salários mínimos. Estas tendências foram, também, encontradas nas metrópoles nacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo, com variações que não são, em geral, expressivas. 9

Estes achados permitem supor que o modelo de família assentado na ética do provedor tem perdido o vigor que tinha no passado. Uma série de mudanças contribuiu para este fato. Mas, sem dúvida, a mais importante refere-se à presença das mulheres cônjuges no espaço público do trabalho, impulsionadas tanto pelas novas condições sociais e econômicas, mas, principalmente, pelas transformações culturais que ocorreram na condição feminina. É preciso mencionar, que o conjunto das mulheres cônjuges ocupadas é maior em Belo Horizonte (44,6%) do que nas metrópoles do Rio de Janeiro (38,1%) e de São Paulo (38,4%). O exame da tabela 3 ilustra, claramente, a importância da participação feminina na atividade econômica para a provisão da família. As funções de co-provedora e de provedora principal, em famílias com liderança doméstica masculina, adquirem maior relevância quando se analisa a contribuição para a provisão familiar das mulheres cônjuges, ocupadas, em Belo Horizonte. As proporções encontradas foram, da ordem de 42,2% e de 19,3% respectivamente. As mulheres cônjuges belo-horizontinas participam da provisão compartilhada em proporções praticamente similares a das mulheres cônjuges do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Esta indicação pode sugerir que o padrão da provisão compartilhada está disseminado nas grandes cidades brasileiras, como aponta também outro estudo realizado anteriormente (Oliveira, 2001). No caso da provisão principal, as mulheres cônjuges mineiras encontram-se menos representadas do que as mulheres cônjuges cariocas ou paulistas, muito embora seja, também, expressiva a sua presença nesta categoria de participação na renda familiar, situando-se em torno de 19,0%. De qualquer modo, não se pode esquecer que é importante a participação das mulheres cônjuges mineiras na categoria de dependência econômica (35,1%), superando, inclusive, a das mulheres cônjuges ocupadas nas metrópoles nacionais (tabela 3). Tabela 3 Participação na Renda Familiar Condição na Família Dependente Co-provedor Provedor Principal BH RJ SP BH RJ SP BH RJ SP Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 homem referencia 12,3 50,6 77,6 mulher cônjuge ocupada 35,1 42,2 19,3 Filhos 52,6 7,2 3,1 Fonte: microdados do Censo Demográfico 2000 Mas, o impacto do trabalho extra-doméstico das mulheres cônjuges na provisão da família torna-se muito mais visível nas famílias que vivem em situação de pobreza (tabela 4). A presença das mulheres cônjuges ocupadas na categoria de dependência econômica alcançou o valor de 12,8% nas famílias pobres. A diminuição da dependência econômica das mulheres cônjuges ocupadas foi, ainda, mais aguda nas metrópoles nacionais, sobretudo em São Paulo onde menos de 7,0% das mulheres cônjuges eram dependentes economicamente de suas famílias. Cabe, contudo, constatar que o homem referência perdeu a função de provedor nas famílias pobres de forma bastante significativa, sobretudo no Rio de Janeiro 10

(17,4%) e em São Paulo (10,0%). Em Belo Horizonte a provisão principal masculina se situou em um patamar mais elevado, da ordem de 23,7%. Mas, de qualquer modo, o homem referência não ocupa mais o lugar de provedor nas famílias pobres de Belo Horizonte. Tabela 4 Categorias de Participação na Renda Familiar segundo a Condição na Família, Sexo e o Rendimento Familiar Per capitã nas metrópoles de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo Participação na Renda Familiar Condição na Família/Rendimento Familiar per capita Dependente Co-provedor Provedor Principal BH RJ SP BH RJ SP BH RJ SP Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 até 1/2 s.m. homem referencia 34,2 37,2 42,5 45,4 46,8 42,7 23,7 17,4 10,0 mulher cônjuge ocupada 12,8 9,8 6,7 78,6 48,0 48,0 74,5 81,3 88,6 filhos 52,9 53,0 50,8 6,1 5,2 9,3 1,8 1,3 1,4 de 1/2 a 2 s.m. homem referencia 12,9 13,5 16,2 49,8 50,3 49,0 78,3 73,5 65,7 mulher cônjuge ocupada 35,0 32,1 29,3 41,8 43,8 44,6 17,5 23,5 30,0 filhos 52,0 54,4 54,4 8,4 5,9 6,5 4,2 3,0 4,3 mais de 2 s.m. homem referencia 9,3 9,8 11,5 51,8 52,6 51,8 84,0 83,1 80,8 mulher cônjuge ocupada 37,7 36,7 36,7 42,0 41,8 40,0 13,4 14,7 14,9 filhos 53,0 53,5 51,7 6,2 5,6 8,2 2,5 2,2 4,3 Fonte: microdados do Censo Demográfico 2000 A mulher cônjuge, ocupada, passou, também a exercer a função de co-provedor, por excelência, principalmente em Belo Horizonte (78,6%) nas famílias que vivem em situação de pobreza e que são lideradas pelo homem referência. O modelo de família constituído pelo homem referência e pela mulher cônjuge, entendido enquanto expressão de relações assimétricas entre os papéis sexuais se mostrou, também, abalado nas famílias não pobres quando se toma como base as mulheres cônjuges que ingressaram na atividade econômica. A grande diferença reside, no entanto, no fato de que nas famílias que não se situam na condição de pobreza o homem referência continua exercendo a função de provedor principal, sobretudo nas famílias com níveis de rendimento familiar per capita de mais de 2 salários mínimos. Neste caso a proporção dos homens referência que são provedores principais foi mais elevada em Belo Horizonte. Porém, mesmo nas famílias não pobres as mulheres cônjuges ocupadas passaram a exercer as funções de co-provedoras e, em menor grau, de provedoras principais de suas famílias. O que cabe registrar é que estas mulheres absorveram parte ou o principal encargo econômico de suas famílias, sem, contudo, adquirirem o status de co-provedor ou mesmo de pessoa de referência de suas famílias. O homem continua liderando a sua família, muito embora a função de provedor, que é a principal atribuição da pessoa de referência na família esteja 11

ficando cada vez mais, enfraquecida, o que é verdadeiro tanto para as metrópoles nacionais como para Belo Horizonte. A função de provedor continua sendo associada, no plano simbólico, ao papel de pessoa de referência na família. E como este papel é de atribuição masculina, a função de provedor continua também expressando a figura masculina. Esta associação faz com que as categorias de co-provisão e de provisão principal feminina, nas famílias lideradas pelo homem referência não tenham ainda, visibilidade social. Além disto, a presença expressiva da mulher cônjuge, na situação de dependentes economicamente, de suas famílias tem contribuído, em grande medida, para a manutenção na matriz cultural dominante, da associação existente entre a função de provedor, o papel de pessoa de referência na família e a figura masculina. CONCLUÍNDO O elenco de dados examinados no presente trabalho permitiu constatar a existência de um padrão particular de provisão familiar nas famílias pobres. Este padrão refletiu a inversão dos papéis sexuais neste tipo de família, no que diz respeito à provisão familiar. Ou seja, as mulheres cônjuges ocupadas substituíram o homem referência na função de provedor principal. Deste modo, o homem referência perdeu a sua função instrumental de provedor principal nas famílias pobres. Esta função viabilizada por intermédio de sua ligação com o espaço público do trabalho ficou comprometida a partir das transformações que ocorreram neste espaço a partir da segunda metade do século XX. Os homens que vivenciam uma situação de pobreza tiveram as suas oportunidades de inserção na atividade econômica cada vez mais reduzidas em um cenário no qual os seus postos de trabalho foram se restringindo, e a ameaça do desemprego e do trabalho precário se tornaram, cada vez mais concretas. A perda da função de provedor representou para os homens referência a perda de sua liderança econômica nas famílias pobres. A função de provedor é a que legitima, em última instância, a dominação que ele exerce sobre os demais membros do grupo familiar. É interessante perceber que para este segmento da população masculina a condição de provedor é vista como um direito, como uma prerrogativa (Oliveira, 2004). Deste modo, é de se esperar que o homem referência que passa a ocupar uma posição de subordinação econômica com relação as suas mulheres responda a esta situação por intermédio do aumento da violência doméstica, como os dados sobre este tema parecem estar indicando. Já a transformação da mulher cônjuge em provedora principal nas famílias pobres parece ter sido propiciada, em grande medida, pelas oportunidades de trabalho oferecidas pelo emprego doméstico. Este tipo de emprego parece ter se valorizado em razão de sua inclusão no rol das ocupações que dão acesso aos direitos trabalhistas, assegurando, por sua vez, níveis mais satisfatórios de rendimento para as mulheres, se comparadas aos oferecidos para os homens em ocupações similares, quanto à qualificação e aos salários. Em vista disto, as mulheres cônjuges ocupadas que vivem em situação de pobreza e que se inserem, em sua maioria, no emprego doméstico puderam ocupar o lugar que era antes destinado a seus maridos, o de provedor e, em menor proporção, de co-provedor. 12

Esta mudança tem um efeito sobre a condição das mulheres pobres. O fato dela se transformar em provedora pode resultar em maior poder e, por conseguinte, em uma alteração nas relações de gênero no interior do grupo familiar. No entanto, como a cultura patriarcal é mais forte neste segmento da população o prestígio social e a liderança que estão associados à função de provedor continuam, em termos simbólicos, relacionadas ao homem desta camada social. Portanto, mesmo desempenhando a função de provedoras principais as mulheres cônjuges ocupadas não têm o reconhecimento social que está relacionado ao exercício desta função nas famílias que vivem em situação de pobreza. As evidências colhidas neste trabalho indicam, também, a necessidade de se repensar a categoria da pessoa de referência na família, que é utilizada pelas estatísticas públicas. É preciso dar visibilidade social às funções de co-provedor e de provedor principal que as mulheres cônjuges, sobretudo às ocupadas passaram a desempenhar. A construção das informações estatísticas continua se assentando na associação entre a categoria da pessoa de referência na família e a função de provedor. Assim, a figura da co-provedora e da provedora principal nas famílias com liderança doméstica masculina permanecem ocultas para os órgãos oficiais, produtores de estatísticas. O não reconhecimento das mudanças processadas nos papéis familiares de gênero por parte das estatísticas públicas pode ser observado a partir do Censo Demográfico de 2000 no qual se considerou como pessoa de referência apenas um membro da família que devido aos condicionantes de natureza cultural continuou refletindo à figura masculina. E não se buscou identificar, também, a separação que está ocorrendo entre o papel de pessoa de referência na família e a função de provisão familiar que dá sustentação a este papel. As estatísticas censitárias, assim como outras estatísticas públicas, não foram desenhadas para dar visibilidade à questão da dissociação entre o papel de pessoa de referência na família e a função de provedor. Em conseqüência disto, a categoria de provedor principal e de co-provedor não são destacadas, como são, por exemplo, as categorias de cônjuge ou do chefe de família. Esta visibilidade só pode ser obtida de forma indireta, a partir do reprocessamento das informações sobre a condição na família e a participação dos integrantes do grupo familiar no rendimento da família. A busca pelo reconhecimento social da categoria de provedora principal e de co-provedora, principalmente nas famílias pobres, se faz necessária, na medida em que a sua presença se tornou expressiva, conforme indicaram os dados examinados neste trabalho. Este reconhecimento viria a reforçar a auto-estima feminina, contribuindo, por sua vez, de modo efetivo, para a trajetória de construção da cidadania das mulheres. Além disso, ao assegurar o reconhecimento social destas categorias, as estatísticas públicas, estariam servindo de instrumento para o combate de noções, como a de renda complementar, que são utilizadas, em última instância, para legitimar o diferencial de salário, existente entre os homens e as mulheres, no mercado de trabalho. Mas a forma de construção das estatísticas públicas continua reproduzindo o modelo de família assentado na ética do provedor porque a concepção da produção estatística, em todos os momentos de seu processo de elaboração, está sendo informada pela noção da neutralidade relativa de gênero. Ou seja, o indivíduo, que é retratado por intermédio das 13

estatísticas públicas é concebido como um indivíduo sem gênero, refletindo, na verdade, uma identidade, que é sempre masculina (Oliveira,2001). Portanto, o desenho das estatísticas permanece associando o masculino com a esfera pública e o feminino com a esfera privada, deixando de atribuir à mulher o espaço que lhe cabe, conquistado ao longo do tempo. É como se a mulher atuasse apenas no âmbito da família e o homem na esfera pública, exatamente como nas sociedades patriarcais. O formato das estatísticas se mostra, desta forma, insuficiente para captar a atual identidade social tanto do homem, que está deixando de se constituir no provedor principal das famílias pobres, quanto da mulher das famílias pobres que passou a desempenhar esta função, ou de mulheres de outros segmentos sociais que compartilham da provisão com o seu cônjuge. Assim, o formato atual das estatísticas públicas não permite captar adequadamente a matriz de desigualdade de gênero, conforme ela se apresenta nos dias de hoje. 14

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