SOBRE A CURIOSIDADE E A DESCOBERTA



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Transcrição:

SOBRE A CURIOSIDADE E A DESCOBERTA Quando falamos de Educação Infantil, remetemo-nos a um livro que ficou conhecido na década de 1980, muito esclarecedor sobre o que seja uma atitude verdadeiramente educativa e estimuladora da investigação na infância: A Paixão de Conhecer o Mundo, de Madalena Freire. Do nosso ponto de vista, todo educador da infância deveria ler esse livro e pensar muito sobre cada tópico relatado, sobre cada criação realizada pelas crianças e pela professora, sobre casa palavra utilizada... Por isso, iniciamos esta aula já indicando uma tarefa para casa. Busquem essa leitura, pois vale à pena! A partir dela, você saberá o que chamamos de atitude de pesquisa ou de investigação durante o ato de aprender/ensinar e de ensinar/aprender. Gostaria de escrever este relatório sem dividi-lo em áreas, sem falar exclusivamente de atividades e de seus objetivos em si, mas tentar passar para vocês o pulsar vivo de nossas descobertas diárias, de nossas dúvidas... (FREIRE, 1992, p. 53). Dividir a criança em áreas e, consequentemente, o conhecimento em atividades para desenvolver essas áreas empobrece nossa ação educativa e descaracteriza o trabalho a ser desenvolvido em uma escola de Educação Infantil. O principal objetivo de uma escola de Educação Infantil é permitir a vida de forma inteira, não compartimentada em aspectos do desenvolvimento. A vida, inteira, significa explorar, investigar, experimentar, relacionar-se, fazer de conta, mexer nos objetos, fazê-los funcionar, ter dúvidas, perguntar-se, buscar respostas, errar, acertar e tudo o que uma criança possa fazer para conhecer o mundo. A professora, apesar de saber sobre o desenvolvimento infantil, sobre crianças e sobre o conhecimento que estão a explorar, precisa ser, antes de tudo, questionadora e, com isso, auxiliar as crianças a perguntar-se sobre a experiência e descobrirem, não de forma artificial, mas sim esperando o que ela mesma, com a sua experiência de vida, pode fazer de combinações entre o vivido e o que vive naquele momento, seja em favor de um resultado próximo ao esperado ou não. Não se trata de um trabalho sem direção, mas sim de permitir o crescimento da curiosidade das crianças diante da natureza, das outras pessoas, das regras de convivência e dos objetos culturais existentes naquele espaço. A atitude de pesquisa inicia-se na vida das crianças muito cedo; se deixarmos que elas 1 / 7

exercitem a sua curiosidade, que experimentem o mundo, brinquem com as palavras e com os objetos, estaremos favorecendo a utilização da curiosidade e possibilitando o exercício da descoberta. No sistema de ensino italiano, em Reggio Emilia (ISTITUZIONE, 2011), encontramos uma forma fantástica de lidar com a curiosidade sem impedi-la, mas também sem desperdiçá-la. Lá encontramos um pensamento sobre a descoberta, que tentamos traduzir assim: A investigação representa uma das dimensões essenciais da vida das crianças e dos adultos. Ela acontece no cotidiano e deve ser compartilhada. É preciso ter uma atitude ética diante da busca das crianças. Quanto menos artificial o trabalho desenvolvido para a educação da infância, mais eficiente será o resultado de aprender e desenvolver-se ou desenvolver-se e aprender. As histórias devem estar relacionadas ao que a professora identifica de interesse das crianças; as brincadeiras devem acontecer a partir dos elementos lúdicos percebidos pela professora na convivência cotidiana das crianças; as experimentações devem responder às perguntas que as crianças trazem, tais como: Onde está a torneirinha do rio? Quem fez o frango? Como é que a galinha faz o ovo? E tantas outras que surgem na convivência cotidiana das crianças com o mundo. Permitir uma convivência autêntica com as pessoas, com o meio natural e cultural dará às crianças a oportunidade de questionarem sobre a vida, de simbolizá-la, de reproduzi-la e de recriá-la e, assim, fazer-se como pessoa e aprendiz. Uma de nós, a Laura, em sua caminhada de educadora, desenvolveu uma forma de agir na relação ensinar/aprender e aprender/ensinar, a qual denomina atualmente de Projeto de Aprender. Ao contrário do que muita escola pensa, um projeto de aprender não deve, na Educação Infantil, ser planejado pela escola, pela coordenação pedagógica ou pelo professor, sem a observação do interesse e da vivência das crianças. Um projeto de aprender nasce do interesse investigador das crianças, e é exatamente por isso que cada turma de crianças, embora tenha a mesma idade, pode desenvolver projetos 2 / 7

diferentes, na mesma escola ou em escolas diferentes. O máximo que temos experimentado pensar junto com os professores, antes do início das aulas, é um eixo temático que dará a direção ao estudo naquele ano de trabalho educativo e à coordenação das aprendizagens junto às crianças; esse eixo tem se caracterizado por ser uma inspiração para todos nós que estamos construindo o cotidiano da escola. Na Escola Terra Firme, em Curitiba, por exemplo, desde 2000, o Eixo Temático de cada ano é construído coletivamente e envolve todo o corpo docente da escola, a coordenação e, por vezes, o pessoal administrativo. Todos os níveis de ensino/aprendizagem estão representados e, por isso, o eixo é abrangente e possibilita que os projetos da Educação Infantil façam parte também desse marco motivador da ação educativa da escola. Essa forma de situar os projetos de aprender na escola permite um processo de integração vertical entre todos os níveis de ensino, do maternal ao 9º ano. O Eixo Temático de cada ano é organizado em uma reunião, que tem a duração mínima de quatro horas e nasce a partir do que os professores vivenciaram com seus alunos no ano anterior e do que podem projetar para o ano que se inicia. Colocaremos aqui alguns Eixos Temáticos que nasceram dessas reuniões. Em 2002, o tema que serviu de eixo para os projetos de aprender foi Brasil, Mostra sua Cara! A criançada da Educação Infantil mostrou-se lindamente como parte dessa terra, ligadas aos espaços mais significativos, brincando, explorando e ouvindo histórias de brasileiros interessantes, como Ziraldo, Maurício de Souza, Monteiro Lobato, Helena Kolody, Poty Lazzarotto e outros. Cada história era relacionada com a turma, com as crianças, os seus interesses, as suas dúvidas e os seus saberes. Em 2005, o Eixo Temático construído foi: Criando e Construindo Saberes vivendo prazeres. Um dos projetos de aprender que nasceram desse eixo na Educação Infantil foi Era Uma Vez Três... A professora Adriana relata em nossa reunião de projetos: De repente, encontramos Era uma vez três... e, em vez de um artista, encontramos logo dois: Ana Maria Machado e Alfredo Volpi. Através do livro e das obras desses artistas, encontramos formas de criar e construir com prazer. A partir de olhares diferentes para as obras e para a 3 / 7

literatura, pudemos concretizar muitas coisas que a história desse livro e as obras nos contavam, fazendo arte, criando e recriando, como também aprendendo a ler e escrever, a calcular, relacionar espaços e cores, sem deixar de ser criança, sem deixar de brincar. Em 2012, o Eixo Temático foi: As Falas da Nossa Terra com a intenção de trabalhar a capacidade de contar cada vez mais e melhor o que fazemos, na nossa Escola Terra Firme, e também com a intenção de aprender com falas de tudo que nos cerca e que não é escola: a família, o bairro, a cidade, o país, o mundo, a galáxia... A Educação Infantil expressou-se muito, de diversas formas para aprender a contar mais e melhor o que está desenvolvendo no cotidiano escolar: muita arte, muita planta, muita brincadeira e muita relação. As perguntas surgem, a curiosidade se aguça, as experiências realizam-se, e as crianças aprendem a ouvir e a falar, a contar, a expressar-se com o corpo, a cooperar, a fazer de conta, a enfrentar a realidade, a pedir ajuda, a dar ajuda e assim por diante. Investigar, curiosar, não deve ser visto como algo ruim, que vai tirar do lugar, que vai estragar, que vai machucar, sujar, e sim como uma ação que possibilita aprender a se frustrar, em alguns momentos, a encontrar diferentes formas de lidar com determinado objeto, conhecer, simbolizar. A DESCOBERTA DE SI Nos projetos de aprender, as crianças aprendem sobre elas. Ao mesmo tempo, são pesquisadoras e sujeitos de pesquisa. Podem aprender suas possibilidades corporais, sua força externa e interna, sua velocidade, seus interesses, sua descendência, sua capacidade de relacionar-se, de conquistar o que desejam, seus gostos, suas preferências, suas facilidades e dificuldades e muito mais. É na lida do dia a dia que as crianças aprendem sobre si. E a mediação dos professores deve estar atenta para isso; quando se diz para uma criança que ela é chorona, ela pode descobrir apenas essa qualidade em sua forma de lidar com a frustração, por exemplo; porém, se dizemos a ela que, naquele momento, ela não encontrou outra forma de lidar com a situação, senão chorar, mas que ela pode descobrir outras formas, deixa-se um caminho aberto para a aprendizagem. 4 / 7

As crianças podem descobrir em si o choro, o riso, a raiva, a tranquilidade, a tristeza e a alegria, a capacidade de conquistar e de repartir e outras coisas. A ação educativa é que vai auxiliá-la nessas descobertas. É preciso lembrar que a principal tarefa da criança na escola de Educação Infantil é, antes de tudo, descobrir-se; e isso auxiliará a todos os educadores dessa faixa etária. As experiências corporais podem auxiliar, e muito, nessa descoberta de si. Uma de nós, Heloisa, realiza trabalhos corporais (utilizando-se da Psicomotricidade Relacional) com crianças de Educação Infantil em uma escola de Curitiba. Nessas vivências, as crianças mostram um crescimento dessas descobertas durante o ano. Por exemplo, em uma turma de Maternal (crianças de 2 a 3 anos), houve uma queixa da professora sobre determinada criança, que só sabia morder as outras; ela queria que a psicomotricista relacional tentasse ajudar. A Psicomotricidade Relacional acontece num espaço simbólico, no qual as crianças podem viver angústias, medos, frustrações, alegrias, vitórias, descobertas, etc. Essas sessões envolvem música e materiais universais, para que as crianças explorem o mundo e suas próprias possibilidades. Pois bem, durante algumas sessões, a psicomotricista relacional utilizou de suas possibilidades corporais e das possibilidades corporais das crianças e, depois de mais ou menos um mês, aquela criança que só mordia havia descoberto outras formas de chamar a atenção das pessoas adultas para si própria, pois era isso que ela queria quando mordia as outras crianças. A DESCOBERTA DO OUTRO A forma de relação que um educador da infância mantém com seus alunos é o principal conteúdo dessa aprendizagem. As relações vividas deixam marcas muito mais eficientes do que as falas sobre as relações. Se uma professora, por exemplo, pede para as crianças não gritarem, mas o faz gritando, o que as crianças aprendem, nesse momento, é o oposto do que ela gostaria de ensinar. A vivência que ela proporciona não é a da gentileza, da delicadeza, do respeito, e sim da imposição pela força; nesse caso, a força da voz. Se os educadores da infância trazem os saberes na ponta da língua, acreditando que é assim que seus alunos aprenderão sobre si e sobre o mundo, enganam-se; quando o professor é quem descobre e sabe, ao aluno resta ouvir, assistir, ficar passivo. 5 / 7

A principal ferramenta para que a criança descubra a si mesma, descubra ao outro e ao mundo é a pergunta. Se o educador da infância souber demais, as crianças aprendem que o outro é quem sabe, quem descobre, quem tem o poder e a inteligência e, por isso, a elas cabe somente reproduzir, sem exercitar a capacidade de criar e de autoria. Por outro lado, se ele pergunta e ouve as respostas que as crianças dão, ou se observa a conversa e as brincadeiras entre elas, registra suas perguntas e respostas e, de certa forma, auxilia na investigação, o outro passa a ser compreendido como alguém incompleto, também como parceiro de descoberta, como co-ordenador de ações e pensamentos, como o que Pichon-Rivière (1988), um psicólogo social, chamou de co-pensador. Como, pois, você se relaciona com seus alunos? Já pensou nisso? A DESCOBERTA DO MUNDO Se possibilitarmos às crianças descobrirem a si mesmas, se utilizarmos a pergunta como ferramenta principal da ação educativa; então, possibilitaremos a elas a verdadeira capacidade de descobrir o mundo. Não apenas para mostrar aos outros, mas para acrescentar-se como pessoa. É importante, no entanto, que elas estejam em segurança, para não sofrerem experiências tão traumáticas que as inibam em sua capacidade de lidar com as novas situações. Lembrem-se de que a experiência é que, de fato, ensina; porém, crianças muito pequenas precisam viver experiências de crianças pequenas, sem serem colocadas em risco diante de situações para as quais não têm força, tamanho e conhecimento anterior suficientes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 6 / 7

FREIRE, M. A paixão de conhecer o mundo. São Paulo: Paz e Terra, 1992. ISTITUZIONE del Ayuntamiento de Reggio Emilia. Reglamento nidos y escuelas de la infância del Ayuntamiento de Reggio Emilia. Reggio Emilia, IT: Reggio Children srl, 2011. PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 1988. 7 / 7