RECLAMAÇÃO Nº 4.982 - SP (2010/0203994-7) RELATOR RECLAMANTE ADVOGADO RECLAMADO INTERES. : MINISTRO BENEDITO GONÇALVES : TELECOMUNICAÇÕES DE SÃO PAULO S/A TELESP : ANALI PENTEADO BURATIN E OUTRO(S) : TERCEIRA TURMA RECURSAL CÍVEL DO FORO REGIONAL II DE SANTO AMARO E IBIRAPUERA - SP : VANILDA DA SILVA NEWMANN EMENTA ADMINISTRATIVO. RECLAMAÇÃO. RESOLUÇÃO STJ 12/2009. TELEFONIA FIXA. DECISÃO DE TURMA RECURSAL QUE JULGA ILEGAL A ASSINATURA BÁSICA. AFRONTA À JURISPRUDÊNCIA DO STJ EVIDENCIADA. SÚMULA 356/STJ E RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA Nº 1.068.944/PB (ART. 543-C DO CPC). 1. Reclamação ajuizada contra decisão de Turma Recursal que afastou a cobrança de assinatura básica de telefonia fixa, por entendê-la inconstitucional e ilegal. 2. Descabido o pedido de intervenção no processo, postulado pelo advogado Márcio Adriano Caravina, na condição de amicus curiae, pois ele, diferentemente de representar alguma instituição cuja finalidade esteja diretamente ligada ao objeto discutido nestes autos, apenas possui interesse subjetivo no resultado do julgamento, o que é insuficiente para a habilitação no processo. 3. A decisão da Turma Recursal contraria flagrantemente o que dispõe o enunciado 356/STJ: "É legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa", bem como a decisão tomada em sede de recurso especial representativo dessa controvérsia (REsp 1.068.944/PB, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, DJe 9/2/2009). 4. Pedido de ingresso no feito como amicus curiae indeferido, com determinação de desentranhamento dos documentos juntados. 5. Reclamação procedente. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, julgar procedente a reclamação, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Cesar Asfor Rocha, Arnaldo Esteves Lima, Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com o Sr. Ministro Relator. Ausentes, justificadamente, os Srs. Ministros Hamilton Carvalhido e Teori Albino Zavascki. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Castro Meira. Brasília (DF), 27 de abril de 2011(Data do Julgamento) MINISTRO BENEDITO GONÇALVES Relator Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 1 de 8
RECLAMAÇÃO Nº 4.982 - SP (2010/0203994-7) RELATOR RECLAMANTE ADVOGADO RECLAMADO INTERES. : MINISTRO BENEDITO GONÇALVES : TELECOMUNICAÇÕES DE SÃO PAULO S/A TELESP : ANALI PENTEADO BURATIN E OUTRO(S) : TERCEIRA TURMA RECURSAL CÍVEL DO FORO REGIONAL II DE SANTO AMARO E IBIRAPUERA - SP : VANILDA DA SILVA NEWMANN RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO BENEDITO GONÇALVES (Relator): Trata-se de reclamação constitucional, com pedido de liminar, requerida por Telecomunicações de São Paulo S/A - Telesp contra decisão judicial proferida pelo Terceiro Colégio Recursal dos Juizados Especiais Cíveis da Capital, Município da São Paulo, nos autos do processo 987.10.002510-0, em que contende com Vanilda da Silva Neumann, segundo a qual é inconstitucional e ilegal a cobrança da tarifa de assinatura básica de telefonia fixa. Aduz, em síntese, que a referida decisão reclamada "ignorou a autoridade da orientação firmada pelo C. Superior Tribunal de Justiça, no âmbito infraconstitucional, a controvérsia envolvendo a legalidade da tarifa de assinatura através da Súmula 356 e RESP 1068944/PB (incidente de recursos repetitivos)" (fl. 2). A decisão reclamada se refere ao acórdão de fls. 50-87, que, segundo informação do sítio eletrônico do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, foi disponibilizado em 9/11/2010. Recebida a reclamação, foi deferido o pedido de liminar (fls. 104-105). Às fls. 115-280, o advogado Márcio Adriano Caravina pugna para sua admissão no feito na condição de amicus curiae ou, ao menos, pela juntada de documentos sobre o tema, "por ter sido o fomentador das ações judiciais questionando a legalidade das assinaturas telefônicas". As providências determinadas pelo art. 2º da Resolução STJ 12/2009 foram devidamente procedidas. A parte reclamada, por meio de ofício firmado pelo Juiz de Direito Presidente do Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 2 de 8
Colégio Recursal de Santo Amaro/SP, prestou informações, pelas quais esclarece que, "[e]m ação declaratória de inexigibilidade de cobrança de valor da assinatura mensal telefônica, este Colegiado Recursal deu provimento em parte ao recurso da interessada Vanilda da Silva Newmann, conforme voto vencedor de fls. 283/319 e o feito foi suspenso cumprindo-se determinações de Vossa Excelência e retirado de pauta" (fl. 363). O Ministério Público Federal, por meio de parecer da lavra da Subprocuradora-Geral da República Denise Vinci Túlio, opinou pela procedência da reclamação (fls. 405-408). É o relatório. Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 3 de 8
RECLAMAÇÃO Nº 4.982 - SP (2010/0203994-7) EMENTA ADMINISTRATIVO. RECLAMAÇÃO. RESOLUÇÃO STJ 12/2009. TELEFONIA FIXA. DECISÃO DE TURMA RECURSAL QUE JULGA ILEGAL A ASSINATURA BÁSICA. AFRONTA À JURISPRUDÊNCIA DO STJ EVIDENCIADA. SÚMULA 356/STJ E RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA Nº 1.068.944/PB (ART. 543-C DO CPC). 1. Reclamação ajuizada contra decisão de Turma Recursal que afastou a cobrança de assinatura básica de telefonia fixa, por entendê-la inconstitucional e ilegal. 2. Descabido o pedido de intervenção no processo, postulado pelo advogado Márcio Adriano Caravina, na condição de amicus curiae, pois ele, diferentemente de representar alguma instituição cuja finalidade esteja diretamente ligada ao objeto discutido nestes autos, apenas possui interesse subjetivo no resultado do julgamento, o que é insuficiente para a habilitação no processo. 3. A decisão da Turma Recursal contraria flagrantemente o que dispõe o enunciado 356/STJ: "É legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa", bem como a decisão tomada em sede de recurso especial representativo dessa controvérsia (REsp 1.068.944/PB, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, DJe 9/2/2009). 4. Pedido de ingresso no feito como amicus curiae indeferido, com determinação de desentranhamento dos documentos juntados. 5. Reclamação procedente. VOTO O SENHOR MINISTRO BENEDITO GONÇALVES (Relator): Conforme relatado, o presente feito cuida de reclamação contra decisão de Turma Recursal que entendeu ilegal a cobrança da tarifa de assinatura básica de telefonia fixa e que, por isso, teria desafiado jurisprudência sumulada do STJ a respeito do tema. Inicialmente, indefiro o pedido de intervenção do advogado Márcio Adriano Caravina, na condição de amicus curiae, pois, diferentemente de representar alguma instituição cuja finalidade esteja diretamente ligada ao objeto discutido nestes autos, apenas possui interesse subjetivo no resultado do julgamento, o que é insuficiente para a habilitação no processo. Determino, outrossim, o desentranhamento dos documentos anexados pelo citado requerente (fls. 117-280). Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 4 de 8
No que tange ao remédio processual em apreço, vale registrar que, de acordo com determinação do STF (EDcl no RE 571.572/BA, Rel. Min. Ellen Gracie, Plenário, j. 26.8.2009), cabe ao STJ conhecer de reclamação destinada a dirimir controvérsia entre acórdão prolatado por Turma Recursal Estadual e a jurisprudência desta Corte firmada em julgamento de recurso especial. E, para viabilizar o cumprimento desse mister, esta Corte Superior editou, por meio da Resolução STJ n 12/2009, as normas procedimentais a serem observadas. Esse é o caso dos autos. Com efeito, observa-se que o extenso acórdão prolatado pela Turma Recursal (fls. 50-87) reconheceu a inconstitucionalidade e a ilegalidade assinatura (tarifa) básica cobrada pelo uso do serviço de telefonia fixa. A título ilustrativo, confiram-se os seguintes trechos da decisão reclamada: Primeiro, representa uma ofensa ao princípio da igualdade. Estabelecer-se uma "taxa de assinatura" como valor mínimo do preço da prestação de serviços não facilita o acesso ou a uniformização do sistema, como defendido pela recorrente. Bem ao contrário, cria um obstáculo insuperável à sociedade brasileira. Segundo, porque viola o princípio de proteção ao consumidor. Na verdade, quando o cidadão é atingido no seu direito fundamental de igualdade, se tem o consumidor igualmente desrespeitado. Não há dúvida que a "taxa de assinatura" prejudica o consumidor. É justo e adequado que o consumidor pague o preço do serviço prestado de telefonia, de acordo com o seu uso. Representando um valor mínimo mensal, a "taxa de assinatura" penaliza o consumidor que pouco utiliza do serviço. Mais adequado que o preço seja previsto de acordo com o uso efetivo do serviço. Além de violar a Constituição Federal, a "taxa de assinatura' também viola a lei. E o que se analisa é o conjunto de leis: a) Lei de Concessões e Lei Geral de Telecomunicações e b) Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor). Na Lei de Concessões, a política tarifária foi estabelecida entre os artigos 8º e 13. Em nenhum dispositivo, há garantia de valor mínimo mensal de tarifa para enfrentamento de "custo fixo" da concessionária. Houve previsão de revisão de tarifas (Art. 9º), de fontes alternativas (art. 11) e de diferenciação de tarifas de acordo com peculiaridades (art. 13), mas não de valor mínimo. Situação parecida é encontrada na Lei Geral de Telecomunicações. A política tarifária é estabelecida entre os artigos 103 e 109. E também naquele diploma não há previsão para um valor mínimo mensal a pretexto de contrapartida do "custo fixo" da Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 5 de 8
concessionária. São possíveis: tarifas com médias ponderadas (art. 103, par. 1º), descontos de tarifa (art. 106 e 107), reajustes e revisões de tarifas (art. 108) e receitas alternativas (art. 108, 2º). Todavia, nada se autorizou a título de valor mínimo da tarifa mensal. O estabelecimento da taxa (ou tarifa) de assinatura violou princípios e regras da informação e representou prática abusiva, como será visto adiante. Acabou, por isso, desrespeitando a Lei 8.078/90. Em face dessas razões, dentre outras, a Turma Recursal decidiu por manter "a r. sentença que julgou procedente pedido formulado por consumidor, para ver declarada a ilegalidade da cobrança da chamada 'taxa de assinatura'", afastado, apenas, a imposição da devolução em dobro. Observa-se, pois, que a decisão da Turma Recursal, de fato, contraria flagrantemente o que dispõe o enunciado 356/STJ: "É legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa", bem como a decisão tomada em sede de recurso especial representativo de controvérsia, assim ementada: ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL. SERVIÇOS DE TELEFONIA. DEMANDA ENTRE USUÁRIO E CONCESSIONÁRIA. ANATEL. INTERESSE JURÍDICO. LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO. INEXISTÊNCIA. TARIFA DE ASSINATURA MENSAL. LEGITIMIDADE DA COBRANÇA. SÚMULA 356/STJ. 1. Pacificou-se a jurisprudência das Turmas da 1ª Seção do STJ no sentido de que, em demandas sobre a legitimidade da cobrança de tarifas por serviço de telefonia, movidas por usuário contra a concessionária, não se configura hipótese de litisconsórcio passivo necessário da ANATEL, que, na condição de concedente do serviço público, não ostenta interesse jurídico qualificado a justificar sua presença na relação processual. 2. Conforme assentado na Súmula 356/STJ, "é legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa". 3. Recurso especial provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08 (REsp 1.068.944/PB, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, DJe 9/2/2009). Em idêntica controvérsia, já decidiu a Primeira Seção: PROCESSUAL CIVIL E DIREITO ADMINISTRATIVO CONTROVÉRSIAS SUBMETIDAS AOS JUIZADOS ESPECIAIS ESTADUAIS RECLAMAÇÃO PARA O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA CABIMENTO EXCEPCIONAL TELEFONIA FIXA TARIFA DE ASSINATURA BÁSICA LEGALIDADE. 1. Nos termos do decidido nos autos do EDcl no RE 571.572/BA, Rel. Min. Ellen Gracie (Plenário, j. 26.8.2009), compete ao STJ conhecer de reclamação destinada a dirimir controvérsia entre acórdão prolatado por Turma Recursal Estadual e a jurisprudência desta Corte firmada em julgamento de recurso especial. Resolução Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 6 de 8
n 12/2009 do STJ. 2. A Primeira Seção do STJ firmou o entendimento de que é legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa. 3. Reclamação julgada procedente (Rcl 3.924/BA, Rel. Ministra Eliana Calmon, Primeira Seção, DJe 4/8/2010). Importa consignar, por fim, que não há impedimento de ordem processual para anular a decisão reclamada, notadamente porque, até em razão da decisão liminar deferida nestes autos, que suspendeu o tramite do processo de conhecimento, não transitou em julgado, o que afasta a incidência da Súmula 734/STF: "Não cabe reclamação quando já houver transitado em julgado o ato judicial que se alega tenha desrespeitado decisão do Supremo Tribunal". Ante o exposto, julgo procedente a reclamação a fim de cassar o acórdão reclamado, possibilitando a cobrança dos valores referentes à assinatura básica dos serviços de telefonia fixa. Condeno à Fazenda Pública do Estado de São Paulo ao ressarcimento das custas judiciais dispendidas pela reclamante. Cumpra-se o disposto no art. 5º da Resolução STJ 12/2009. É como voto. Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 7 de 8
CERTIDÃO DE JULGAMENTO PRIMEIRA SEÇÃO Número Registro: 2010/0203994-7 PROCESSO ELETRÔNICO Rcl 4.982 / SP Número Origem: 987100025100 PAUTA: 27/04/2011 JULGADO: 27/04/2011 Relator Exmo. Sr. Ministro BENEDITO GONÇALVES Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro CASTRO MEIRA Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. FLAVIO GIRON Secretária Bela. Carolina Véras RECLAMANTE ADVOGADO RECLAMADO INTERES. AUTUAÇÃO : TELECOMUNICAÇÕES DE SÃO PAULO S/A TELESP : ANALI PENTEADO BURATIN E OUTRO(S) : TERCEIRA TURMA RECURSAL CÍVEL DO FORO REGIONAL II DE SANTO AMARO E IBIRAPUERA - SP : VANILDA DA SILVA NEWMANN ASSUNTO: DIREITO ADMINISTRATIVO E OUTRAS MATÉRIAS DE DIREITO PÚBLICO - Serviços - Concessão / Permissão / Autorização - Telefonia CERTIDÃO Certifico que a egrégia PRIMEIRA SEÇÃO, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: "A Seção, por unanimidade, julgou procedente a reclamação, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator." Os Srs. Ministros Cesar Asfor Rocha, Arnaldo Esteves Lima, Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com o Sr. Ministro Relator. Ausentes, justificadamente, os Srs. Ministros Hamilton Carvalhido e Teori Albino Zavascki. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Castro Meira. Documento: 1056263 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 04/05/2011 Página 8 de 8