Processo n. 001.09.037571-9 - 5ª Vara da Fazenda Pública Decisão Concedendo Liminar O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, por intermédio da Promotoria de Justiça de defesa dos direitos da saúde, ajuizou ação civil pública contra o MUNICÍPIO DE NATAL, aduzindo, em síntese, que no monitoramente das atividades desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Saúde encontrou deficiências no controle da tuberculose nesta capital, recomendando providências objetivando solucionar o problema, tanto no tocante ao diagnóstico quanto ao tratamento da doença, porém concluiu haver omissão e deficiência no serviço municipal de saúde nesse particular, causando sequelas e óbitos às pessoas doentes. Na erudita petição inicial de fls. 02/24, acompanhada de vasta documentação que instruiu o Inquérito Civil n 008/2005, o Parquet enfatizou aspectos da patologia da tuberculose e seu tratamento, da situação do atendimento aos pacientes, da ausência de um plano municipal nessa área específica, propugnando antecipação dos efeitos da tutela com medidas judiciais a fim de debelar o problema, além do pleito meritório com o desiderato de resolver a moléstia da tuberculose no Município de Natal. Antes de despachar a tutela liminar notifiquei o Município-réu, por sua Procuradoria Geral, para se pronunciar sobre os fatos narrados na ação, porém este ficou silente e nada respondeu. A cautelar antecipada na situação sob análise será concedida, nos termos do art. 12 da Lei da Ação Civil Pública (Lei n 7.853/1989) e do art. 273 do Código de Processo Civil, quando evidenciados os requisitos da verossimilhança das alegações autorais, do fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação, havendo abuso de direito ou descaso da administração, assim como a urgência da medida judicial. Neste momento preambular não vejo necessidade de adentrar nas particularidades da petição inicial tão bem detalhada pelo Ministério Público autor, inclusive porque o Município-réu não teve o mínimo trabalho de sequer tentar justificar o contrário, deixando transcorrer o prazo para manifestação prévia sem nada esclarecer, tornando à primeira vista, plenamente aceitável a matéria fática que veio alicerçada na vasta relevante documental acostada à exordial. Apenas a título exemplificado, é inadmissível que no período de dez meses e meio (de janeiro a 16 de novembro de 2009), tenham sido internados no Hospital Giselda Trigueiro, nesta Capital, 215 (duzentos e quinze) pacientes com tuberculose pulmonar, residentes em Natal, do total de 335 (trezentos e trinta e cinco) de todos os municípios do Estado, enquanto a cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, no mesmo período teve apenas 01 (um) paciente internado com esse tipo de doença (fls. 451/453). Mediante o Ofício n 092, de 08.06.2010 e anexos (fls. 465/478), a Diretora Geral do Hospital Giselda Trigueiro, da rede pública estadual, especializado no tratamento de doenças infecto-contagiosas, demonstrou "a necessidade da estruturação da Secretaria Municipal de Saúde de Natal e dos outros municípios para realização do diagnóstico da tuberculose, disponibilizando serviços para a realização de exames essenciais como baciloscopia, PPD e radiografia de tórax, pois do contrário não avançaremos no controle da doença de forma eficaz. Atualmente cerca de 70% dos diagnósticos de tuberculose do município de Natal são realizados pelo Hospital Giselda Trigueiro, serviço de referência
de nível terciário, dificultando assim ao hospital exercer com maior eficiência a sua missão", esclarecendo "que é competência do nível primário de atenção a busca de pacientes sintomáticos respiratórios, diagnóstico de casos suspeitos e tratamento com esquema básico. Ao nível terciário compete investigação e acompanhamento de pacientes com tuberculose extra-pulmonar, tuberculose multiresistente, tuberculose associada a outras doenças, pacientes em tratamento com esquema básico que evoluam de forma desfavorável, além de outros casos de maior complexidade", oportunidade em que solicitou providências com a finalidade de melhorar o atendimento prestado aos usuários do Sistema Único de Saúde. É incompreensível que uma doença aparentemente extinta ou raramente manifestada, pela negligência, imprudência e/ou imperícia (elementos caracterizadores da culpa objetiva) da Administração pública volte a preocupar a sociedade, lembrando os malefícios provocados no passado. A pretensão do Ministério Público está absolutamente alicerçada na Constituição Federal, que elegeu a saúde como direito fundamental do cidadão e dever do Estado (União, Estados e Municípios), que tem a obrigação de prevenir, proteger e recuperá-lo das doenças, cuja execução deverá ser feita diretamente pelo poder público ou por intermédio de terceiros (CF, arts. 196 e 197), dispondo a Lei n 8.080/1990 sobre o Sistema Único de Saúde. É bom sempre lembrar que a Lei Maior do Brasil assegura o acesso universal e igualitário de todos às ações e serviços de saúde pública, na amplitude dos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e das garantias fundamentais do direito social à vida e à saúde, tudo isso reforçado pela jurisprudência uniforme dos nossos Tribunais, a seguir exemplificada: "EMENTA: PACIENTES COM ESQUIZOFRENIA PARANÓIDE E DOENÇA MANÍACO-DEPRESSIVA CRÔNICA, COM EPISÓDIOS DE TENTATIVA DE SUICÍDIO - PESSOAS DESTITUÍDAS DE RECURSOS FINANCEIROS - DIREITO À VIDA E À SAÚDE - NECESSIDADE IMPERIOSA DE SE PRESERVAR, POR RAZÕES DE CARÁTER ÉTICO-JURÍDICO, A INTEGRIDADE DESSE DIREITO ESSENCIAL - FORNECIMENTO GRATUITO DE MEDICAMENTOS INDISPENSÁVEIS EM FAVOR DE PESSOAS CARENTES - DEVER CONSTITUCIONAL DO ESTADO (CF, ARTS. 5, "CAPUT", E 196) - PRECEDENTES (STF) - ABUSO DO DIREITO DE RECORRER - IMPOSIÇÃO DE MULTA - RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO. O DIREITO À SAÚDE REPRESENTA CONSEQÜÊNCIA CONSTITUCIONAL INDISSOCIÁVEL DO DIREITO À VIDA. - O direito público subjetivo à saúde representa prerrogativa jurídica indisponível assegurada à generalidade das pessoas pela própria Constituição da República (art. 196). Traduz bem jurídico constitucionalmente tutelado, por cuja integridade deve velar, de maneira responsável, o Poder Público, a quem incumbe formular - e implementar - políticas sociais e econômicas idôneas que visem a garantir, aos cidadãos, o acesso universal e igualitário à assistência farmacêutica e médico-hospitalar. - O direito à saúde - além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas as pessoas - representa conseqüência constitucional indissociável do direito à vida. O Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional. A INTERPRETAÇÃO DA NORMA PROGRAMÁTICA NÃO PODE TRANSFORMÁ-LA EM PROMESSA CONSTITUCIONAL INCONSEQÜENTE. - O caráter programático da regra inscrita no art. 196 da Carta Política - que tem por destinatários todos os entes políticos que compõem, no plano institucional, a organização federativa do Estado brasileiro - não pode converter-se em promessa constitucional inconseqüente, sob pena de o Poder Público,
fraudando justas expectativas nele depositadas pela coletividade, substituir, de maneira ilegítima, o cumprimento de seu impostergável dever, por um gesto irresponsável de infidelidade governamental ao que determina a própria Lei Fundamental do Estado. DISTRIBUIÇÃO GRATUITA, A PESSOAS CARENTES, DE MEDICAMENTOS ESSENCIAIS À PRESERVAÇÃO DE SUA VIDA E/OU DE SUA SAÚDE: UM DEVER CONSTITUCIONAL QUE O ESTADO NÃO PODE DEIXAR DE CUMPRIR. - O reconhecimento judicial da validade jurídica de programas de distribuição gratuita de medicamentos a pessoas carentes dá efetividade a preceitos fundamentais da Constituição da República (arts. 5, "caput", e 196) e representa, na concreção do seu alcance, um gesto reverente e solidário de apreço à vida e à saúde das pessoas, especialmente daquelas que nada têm e nada possuem, a não ser a consciência de sua própria humanidade e de sua essencial dignidade. Precedentes do STF. MULTA E EXERCÍCIO ABUSIVO DO DIREITO DE RECORRER. - O abuso do direito de recorrer - por qualificar-se como prática incompatível com o postulado ético-jurídico da lealdade processual - constitui ato de litigância maliciosa repelido pelo ordenamento positivo, especialmente nos casos em que a parte interpõe recurso com intuito evidentemente protelatório, hipótese em que se legitima a imposição de multa. A multa a que se refere o art. 557, 2, do CPC possui função inibitória, pois visa a impedir o exercício abusivo do direito de recorrer e a obstar a indevida utilização do processo como instrumento de retardamento da solução jurisdicional do conflito de interesses. Precedentes." (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - RE-AgR 393175 / RS - Relator Ministro CELSO DE MELLO - Segunda Turma - DJ de 02.02.2007). "ADMINISTRATIVO - CONTROLE JUDICIAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS - POSSIBILIDADE EM CASOS EXCEPCIONAIS - DIREITO À SAÚDE - FORNECIMENTO DE MEDICAMENTOS - MANIFESTA NECESSIDADE - OBRIGAÇÃO DO PODER PÚBLICO - AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DOS PODERES - NÃO OPONIBILIDADE DA RESERVA DO POSSÍVEL AO MÍNIMO EXISTENCIAL. 1. Não podem os direitos sociais ficar condicionados à boa vontade do Administrador, sendo de fundamental importância que o Judiciário atue como órgão controlador da atividade administrativa. Seria uma distorção pensar que o princípio da separação dos poderes, originalmente concebido com o escopo de garantia dos direitos fundamentais, pudesse ser utilizado justamente como óbice à realização dos direitos sociais, igualmente fundamentais. 2. Tratando-se de direito fundamental, incluso no conceito de mínimo existencial, inexistirá empecilho jurídico para que o Judiciário estabeleça a inclusão de determinada política pública nos planos orçamentários do ente político, mormente quando não houver comprovação objetiva da incapacidade econômico-financeira da pessoa estatal. 3. In casu, não há empecilho jurídico para que a ação, que visa a assegurar o fornecimento de medicamentos, seja dirigida contra o município, tendo em vista a consolidada jurisprudência desta Corte, no sentido de que "o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) é de responsabilidade solidária da União, Estados-membros e Municípios, de modo que qualquer dessas entidades têm legitimidade ad causam para figurar no pólo passivo de demanda que objetiva a garantia do acesso à medicação para pessoas desprovidas de recursos financeiros" (REsp 771.537/RJ, Rel. Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, DJ 3.10.2005). Agravo regimental improvido." (STJ - AgRg no REsp 1136549 / RS - Relator Ministro HUMBERTO MARTINS - Segunda Turma - DJe de 21.06.2010). "EMENTA: ADMINISTRATIVO - MOLÉSTIA GRAVE - FORNECIMENTO GRATUITO DE MEDICAMENTO - DIREITO À VIDA E À SAÚDE - DEVER DO ESTADO - MATÉRIA FÁTICA DEPENDENTE DE PROVA. 1. Esta Corte tem reconhecido aos portadores de moléstias graves, sem disponibilidade financeira para custear o seu tratamento, o direito de
receber gratuitamente do Estado os medicamentos de comprovada necessidade. Precedentes. 2. O direito à percepção de tais medicamentos decorre de garantias previstas na Constituição Federal, que vela pelo direito à vida (art. 5, caput) e à saúde (art. 6), competindo à União, Estados, Distrito Federal e Municípios o seu cuidado (art. 23, II), bem como a organização da seguridade social, garantindo a "universalidade da cobertura e do atendimento" (art. 194, parágrafo único, I). 3. A Carta Magna também dispõe que "A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação" (art. 196), sendo que o "atendimento integral" é uma diretriz constitucional das ações e serviços públicos de saúde (art. 198). 4. O direito assim reconhecido não alcança a possibilidade de escolher o paciente o medicamento que mais se adéqüe ao seu tratamento. 5. In casu, oferecido pelo SUS uma segunda opção de medicamento substitutivo, pleiteia o impetrante fornecimento de medicamento de que não dispõe o SUS, sem descartar em prova circunstanciada a imprestabilidade da opção ofertada. 6. Recurso ordinário improvido." (STJ - RMS 28338 / MG - Relatora Ministra ELIANA CALMON - Segunda Turma - DJe de 17.06.2009). "EMENTA: CONSTITUCIONAL. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPETRANTE PORTADOR DE CÂNCER DE FÍGADO E ICTERÍCIA OBSTRUTIVA. NECESSIDADE DE COLOCAÇÃO PERCUTÂNEA DE STENT BILIAR. REALIZAÇÃO DE CIRURGIA E FORNECIMENTO DE TRATAMENTO PÓS- CIRÚRGICO. PESSOA SEM RECURSOS FINANCEIROS PARA ARCAR COM OS CUSTOS DECORRENTES. PONDERAÇÃO DE PRINCÍPIOS. PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA. DIREITO À VIDA E À SAÚDE QUE DEVEM SER PRESERVADOS. DEVER CONSTITUCIONAL DO PODER PÚBLICO. SEGURANÇA CONCEDIDA." (TJRN - Mandado de Segurança n 2010.004778-6 - Relatora Desembargadora JUDITE NUNES - Tribunal Pleno - DJE de 21.08.2010). "EMENTA: CONSTITUCIONAL. MANDADO DE SEGURANÇA. ASSISTÊNCIA MÉDICA DOMICILIAR DO TIPO HOME CARE. IMPETRANTE PORTADORA DA SÍNDROME LENNOX GAUSTAUT. GRAVÍSSIMO ESTADO DE SAÚDE. RECOMENDAÇÃO DE INTERNAÇÃO DOMICILIAR SOB PENA DE AGRAVAMENTO DA ENFERMIDADE. RISCO DE MORTE. GARANTIA CONSTITUCIONAL DO ACESSO UNIVERSAL AOS SERVIÇOS DE SAÚDE. DIREITO FUNDAMENTAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. DEVER DO ESTADO. SEGURANÇA CONCEDIDA. 1. A assistência à saúde, direito constitucional do cidadão, é dever do Estado, devendo sua execução ser efetivada de forma universal e integral, abrangendo os tratamentos terapêuticos e farmacêuticos, em todos os seu níveis de complexidade, inclusive o atendimento do tipo home care. 2. A internação domiciliar tem a finalidade de oferecer tratamento mais eficiente, com menos riscos de infecções, além de proporcionar ao paciente em estado grave de saúde a proximidade com a familiar, privilegiando o princípio da dignidade da pessoa humana. 3. Não se pode negar o direito líquido e certo da impetrante à assistência médico domiciliar, conforme recomendação médica, máxime quando portadora da Síndrome de Lennox Gastaut, com comprometimento cognitivo e motor severo, atrofia muscular e hipertônica generalizada. 4. Segurança concedida." (TJRN - Mandado de Segurança n 2010.000544-1 - Relator Desembargador ARMANDO DA COSTA FERREIRA - Tribunal Pleno - DJE de 02.07.2010). CONCLUSÃO Ante o exposto, defiro liminarmente a tutela antecipada requerida pelo Ministério Público Estadual, para determinar ao MUNICÍPIO DE NATAL, por intermédio da Secretaria Municipal de Saúde, que no prazo de 90 (noventa) dias: a) providencie a coleta do material e os exames laboratoriais de baciloscopia em pelo menos 50%
(cinquenta por cento) das unidades de saúde de todos os distritos sanitários da cidade, assegurando com isto o diagnóstico e o acompanhamento efetivos dos casos de tuberculose; b) realize os exames de PPD (prova tuberculínica) e radiológicos (Raio-X do tórax), quando necessário, informando quais os serviços de referência para esses exames aos pacientes suspeitos de tuberculose; c) implante o serviço de atendimento à criança no controle de tuberculose no Centro Clínico Pediátrico do Alecrim, dotando-o dos equipamentos, adequações estruturais e recursos humanos necessários. Objetivando dar efetividade à decisão, aplicando as regras do art. 11 da Lei da Ação Civil Pública e do art. 461, 4 e 5 do Código de Processo Civil, arbitro multa diária no valor de R$ 1.000,00 (mil reais) pessoalmente ao administrador ou servidor que injustificadamente deixar de cumprir alguma das medidas, além da responsabilização administrativa e penal, e de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para a pessoa jurídica de direito público (Município de Natal), a ser revertida em prol do Fundo Municipal de Saúde e destinada à solução do problema relacionado à tuberculose, notificando-se para tanto, por mandado, a Procuradoria Geral do Município e o senhor Secretário Municipal de Saúde, Thiago Barbosa Trindade. CITE-SE o demandado, na forma da lei, para que possa responder à ação no prazo legal (art. 297, c/c os arts. 188, do CPC). Se a contestação contiver preliminar ou documento novo, o autor será intimado para se manifestar em 10 (dez) dias. Cumpra-se. Publique-se. Natal (RN), 06 de setembro de 2010. Luiz Alberto Dantas Filho Juiz de Direito