Mentira - o avesso da Verdade?



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Transcrição:

Mentira - o avesso da Verdade? Christian Ingo Lenz Dunker A educação formal e informal nos ensina que não devemos mentir. A mentira deve ser evitada e a sinceridade prezada acima de tudo. Se exigirmos uma justificativa para isto provavelmente encontraremos algo como : devemos agir como se o que orienta a nossa ação pudesse orientar a de todas as outras pessoas. Se não queremos que os outros mintam não devemos mentir. Não devemos fazer aos outros o que não queremos para nós. Se todos mentissem seria impossível conviver em sociedade. Do ponto de vista ético a justificativa parece convincente mas o que não encontramos nela é uma explicação para o fato de que "de fato" as pessoas mentem. Por quê? Ora, mente-se porque há um ganho nisto, um interesse que aumenta na proporção direta em que não suspeitamos do mentiroso. Quanto maior a confiança no mentiroso, e a segurança de que ele fala a verdade, maior os benefícios da mentira. Assim o mentiroso torna-se sinônimo de uma pessoa interessada em usar o outro, que faz do outro um instrumento para realizar um objetivo. É natural que encontremos a partir disso uma associação com o mal, e da verdade com o bem. Examinemos mais de perto esta associação. A cobra que oferece a maçã para Eva ou Mefistófeles que propõe ao Dr.Fausto a servir-lhe de criado em troca de sua alma; estariam eles mentindo? Do ponto de vista objetivo nenhum dos personagens faz uma afirmação falsa, isto é, não dizem que algo é branco quando de fato é azul. Ambos no entanto nos deixam a sensação de que uma mentira ocorreu. Ao acreditar nas palavras diabólicas Eva e o Dr. Fausto puseram algo a mais nessas palavras, isto é, as palavras pareciam significar algo diferente do que objetivamente nós poderíamos supor. Ora, este "algo a mais" se liga ao próprio desejo que faz escutar naquelas palavras um convite, uma promessa que posteriormente se verá traída. A sensação de mentira vem da quebra da palavra empenhada, de ruptura do pacto que nos faz crer que as palavras significam 35

realmente o que elas significam. Portanto, quando incluímos o desejo as relações entre verdade e mentira distanciam-se da franca oposição que encontramos no plano ético. Um exemplo notável da alteração da relação entre mentira e verdade é o humor. Por exemplo, no diálogo onde um judeu pergunta ao seu concorrente comercial : "Para onde vais"?. E o segundo judeu respondeu : "Para Cracóvia". Ao que o primeiro retruca: "Dizeis que vais para Cracóvia apenas que eu pense que vais para Leinberg, mas como eu sei que vais, de fato, para Cracóvia, pára de mentir"?. A piada se apóia na suposição de que entre concorrentes não se deve esperar outra coisa a não ser mentira. Mas se essa suposição for plenamente partilhada é a partir da mentira que se obterá a verdade procurada. A obra de Freud está repleta de considerações sobre o humor, inclusive sobre a história sobre os dois judeus. A piada ou brincadeira verbal contém esse elemento, o desejo inconsciente, a partir do qual nos propomos rever a oposição entre verdade e mentira. Uma característica essencial do desejo é sua ligação com a linguagem. Suponhamos que alguém ao final de uma fala anuncie: "Eu estou mentindo". Nesse momento ele diz a verdade. Mas como se pode dizer a verdade quando se diz : "Eu minto". Se eu minto não posso dizer ao mesmo tempo a verdade, mas é verdade que eu minto e posso dizê-lo com adesão e crença ao valor de minhas palavras, convido para um pacto ou um acordo sobre minhas intenções. Mas como a palavra mentirosa pode ser a essência de um acordo? E se eu não posso acreditar que quando eu digo que minto eu esteja de fato mentindo como acreditar que alguma palavra possa ser de fato verdadeira? Do ponto de vista da psicanálise o problema todo é saber quem fala quando afirmar: "Eu minto". Parece haver dois "eus", o que mente e o que diz a verdade. Um deles representa consciência e o outro o inconsciente. Mas isso significaria que o inconsciente seria apenas um efeito do fato de que somos seres que falam e da forma como conciliamos nosso desejo nos jogos intersubjetivos. Essa é a conclusão a que chega Lacan ao pensar a psicanálise. Animais não possuem consciente (no sentido psicanalítico), não porque possuam eu, alma, razão ou afetos, simplesmente porque animais não falam. Interessante, animais não mentem; eles podem fingir ou enganar, mas 36

não propriamente mentir. Da mesma forma podemos dizer que as cartas não mentem jamais. Cartas não falam, nós é que falamos por elas. A descoberta da possibilidade de mentir e de que o outro possa fazê-lo é uma importante conquista subjetiva para a criança. Aliás não seria necessário ensinar que a mentira é algo a ser evitado se não houvesse uma disposição a mentir. De fato nada poderia ser mais terrível do que viver num mundo onde não se pudesse mentir (ou onde só se pudesse mentir). Nesse mundo não haveria humor. Seria um mundo apenas feito de cartas. Para a criança a descoberta da mentira é condição para sua individualização. Ela sabe a partir de então que pode ficar a sós com alguma coisa. Por outro lado sabe que o desejo do outro não é tudo e que lhe é possível alguma autonomia. A criação de amigos imaginários (como o Haroldo do Calvin) é uma situação preliminar para a aquisição da possibilidade da mentira. Nem sempre esta possibilidade se oferece facilmente. Um sintoma bastante comum associado à impossibilidade de mentir é a fantasia de que os adultos lêem pensamentos. Em casos mais graves isso pode levar à interrupção da fala e ao mutismo. Vemos aqui mais uma vez como a mentira é condição do diálogo. No caso da dimensão amorosa a presença da mentira pode se revelar na obsessão pelo "amor verdadeiro". A cada decepção se re-interpreta os acontecimentos de modo a constatar: "Se acabou é porque não era um amor verdadeiro". Logo, a fala "Eu te amo", era uma fala mentirosa, logo, trata-se de encontrar a situação onde esta fala pudesse ser imune ao tempo, onde pudéssemos ter certeza da sua eternização. Pois não há tal fala, o que nos leva à idéia de que nesses termos toda fala de amor é uma fala potencialmente mentirosa. Uma variante desse tema é a utilização de certos "experimentos mentais" para verificar a veracidade da fala amorosa. O mais simples pode consistir em destacar pétalas de uma flor alternando : Bem me quer/mal me quer. Remete-se a um elemento exterior (a sorte) a solução do problema, como se soubéssemos que ao nível da mera confiança na palavra a situação leva ao impasse. O que a possibilidade da mentira intui nos dois casos é a procura de uma fala que não possa ser vertida em mentira. Uma fala que garanta que de nenhuma forma, passado mais ou menos tempo nos encontraremos com um : "...mas eu estava mentindo.". 37

O caso do filme "O Matador", onde um casal se mata durante o ato sexual, é o limite extremo a que se pode chegar na busca da erradicação da mentira. A morte interrompe a possibilidade de modificar posteriormente o estatuto da fala amorosa. Sugestivamente é uma cena onde as palavras parecem faltar e nos encontramos diante do puro ato. É absolutamente impossível ter certeza sobre a certeza do outro. É além de tudo difícil pensar numa fala que não possa ser reinterpretada como mentirosa. A certeza nos dá uma espécie de verdade solitária. A mentira, por outro lado, nos permite partilhar um pouco dessa certeza. Um pouco, porque a condição da presença da verdade da fala é que ela seja semidita. Isso não implica em apregoar a verdade relativa, a verdade de cada um, e coisas do gênero, mas que devemos considerar de saída a hipótese da mentira se queremos pensar a verdade para além do nível em que o "céu é azul" e a "planta verde". Quando falamos em sujeitos desejantes, e esse é o caso da psicanálise, trata-se sempre de mostrar como naquilo que aparece como ilusão, fingimento, erro ou mentira esconde-se o que procuramos: a verdade do desejo. Trata-se de um diálogo onde a verdade, como dizia Lacan, tem estrutura de ficção. O movimento surrealista francês captou bem isso ao propor como ética um "diálogo onde se diz o que se quer e se escuta o que não se quer". Ao afirmar que isso não representa uma oposição ética, e não simplesmente técnica, queremos dizer que me primeiro lugar a procura da verdade se relaciona com a felicidade e infelicidade (simplificadamente) e em segundo lugar que a aposta numa verdade destituída de encobrimento, de mentira, uma espécie de verdade total, nos distanciaria da condição de sujeito desejantes. Estamos no centro do problema acerca das relações entre ética e linguagem. Isto é, por um lado precisamos saber por exemplo quando um "Não" que dizer "Não mesmo" e quando ele que dizer "Sim". Por outro lado vimos que seria muito difícil formular regras universais que nos permitam aferir a veracidade ou mentira das falas. Recentemente realizou-se nos EUA um congresso que reuniu sádicos, masoquistas e representantes de outras sexualidades alternativas onde se discutiu exatamente este problema. Sádicos são pessoas que somente obtém prazer ao perceber dor física ou psíquica no parceiro. Nessas condições inúmeros acidentes podem ocorrer 38

durante o transcurso sexual. Na maioria das vezes, não é machucar realmente o parceiro, apenas infringir dor ou submissão de modo a obter com o consentimento deste, prazer. Assim, muitas vezes quando o parceiro diz "Não, isto é apenas um modo de obter o efeito de submissão. Isto é, o Não" é mentiroso, ele quer dizer "Sim". Diante deste problema a solução encontrada no referido congresso foi estabelecer uma palavra de segurança (Safe- Word). Uma palavra previamente combinada, digamos "Abacaxi", que interromperia a cena evitando o acidente. O problema é que se "Abacaxi" quer dizer "Não"e "Não" quer dizer "Sim" o que impediria que "Abacaxi" não fosse usado também como uma palavra mentirosa? A solução, segundo pensamos, passa longe da mera fixação consensual do significado das palavras. Trata-se, de outro modo, de compreender a relação dialética entre verdade e mentira. Vejamos como isso pode ser exemplificado na seguinte situação. Suponhamos que numa determinada cidade apareça o boato de que faltará gás de cozinha. Um sujeito bem informado sabe que o boato é mentiroso; os estoques do governo estão em ordem, o sistema de distribuição funciona normalmente, etc. Do ponto de vista objetivo não faltará gás de cozinha. Mas o que o ponto de vista objetivo desconhece é justamente a relação dialética entre verdade e mentira (por isso aliás ele é sempre tão pouco humorado). Ocorre que apesar dos estoques reguladores e etc, o boato inicia uma corrida desenfreada pela aquisição do produto. Pessoas compram duas ou três vezes mais botijões temendo uma catástrofe no fornecimento. E, por causa do boato, realmente acaba faltando gás de cozinha, o que deixa nosso impassível sujeito em maus lençóis. O que este sujeito não leva em conta é que a fala mentirosa (o boato) não é constitutiva da realidade. É como se o que projetamos a partir de uma situação, o que antecipamos acerca do seu desenrolar, mesmo que seja, "mentiroso" fosse uma das forças que determinarão a situação seguinte. Todos sabemos que não faltará gás, mas não podemos saber que o outro sabe disso e por isso agimos apesar das condições objetivas. Agimos contando com a mentira. Assim como quando o governo anuncia taxativamente : "gasolina não subirá de preço" ou 39

"Determinado banco não corre o risco de falir", para interpretarmos, como no caso da piada dos dois judeus, o contrário ou no melhor dos casos o contrário do contrário. No humor, no amor, na sexualidade e até em determinados processos sociais vimos a importância em considerar a mentira a partir da verdade que ela contém. Podemos concluir que se a psicanálise é algo além de uma técnica para remoção de sintomas é porque nela está em jogo algo da dialética entre verdade e mentira. 40