ARTE NA EDUCAÇÃO ESPECIAL



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Transcrição:

ARTE NA EDUCAÇÃO ESPECIAL Ione Rossi Ribeiro Professora de Artes da APAE de Tupaciguara, graduada em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduada em Educação Especial pelas Faculdades de Educação e Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. O curso de Educação Artística da Universidade Federal de Uberlândia, com habilitação em Artes Plásticas, proporciona ao aluno universitário opções diversas no seu currículo, podendo optar por fazer bacharelado bidimensional ou tridimensional, e/ou licenciatura bidimensional ou tridimensional, após ter concluído o núcleo comum de disciplinas oferecidas nos quatro primeiros semestres do curso. A opção em fazer licenciatura, e tornar professora, ou seja, arte educadora, foi sendo despertada por influências familiares e de alguns professores do curso de artes. Comecei a trabalhar na APAE de Tupaciguara em fevereiro de 2001, como professora e articuladora regional de Artes da Delegacia Regional das APAEs do Triângulo Mineiro I, que abrange 14 cidades desta região (Araguari, Araporã, Cachoeira Dourada, Campina Verde, Canápolis, Capinópolis, Ipiaçu, Centralina, Monte Alegre, Ituiutaba, Santa Vitória, Prata, Tupaciguara, Uberlândia). Foi o início de minha carreira como professora, sem considerar os estágios temporários, e também o primeiro contato, como educadora, com alunos com necessidades educativas especiais. Antes o contato com essas pessoas era mínimo, restringindo-se a um primo de primeiro grau com paralisia cerebral e pessoas da comunidade de Tupaciguara, mas sem nenhum vínculo pessoal ou profissional. Em contato com as outras APAEs, na promoção de eventos, como festivais, concursos, cursos e reuniões, percebi que o problema, na formação dos profissionais atuantes na área de artes era maior do que eu pensava, pois não encontrava professores habilitados e não havia uma sistematização dos trabalhos pedagógicos voltados para o desenvolvimento integral dos alunos. Refiro-me ao desenvolvimento global não só de alunos com deficiência, mas do indivíduo, em sua essência pessoal e social, considerando cada ser único e com potencialidades diferenciadas. A preocupação maior das APAEs e de seus professores era de mostrar trabalhos e apresentações dizendo estar incluindo aqueles alunos por meio da arte. Geralmente o trabalho de artes, tanto nas escolas da rede regular de ensino como nas escolas especiais, está desarticulado de conceituações teóricas sobre a própria arte e

também sobre o ensino, no que se refere ao processo de desenvolvimento que envolve as características intelectuais da pessoa com necessidades educativas especiais. Neste caso, a arte é vista simplesmente assumindo um papel de atividade prazerosa, infantilizada e muitas vezes confundida por ser inclusiva somente expondo o sujeito a certos tipos de atividades que todos realizam. Verifica-se, mesmo existindo diferentes influências teóricas e tendências pedagógicas na educação, que ainda há correntes que acreditam que toda manifestação e produção artística são conseqüência do espontâneo, do sentimento, emoção, fazendo parte de cada um e colocando arte como mero instrumento de externalização. O resultado dessa discussão envolvendo a especificidade do ensino de arte dentro das APAEs, nos leva a refletir sobre a prática do ensino de arte e a maneira como ela é aplicada. Esta reflexão é importante considerando a história do ensino de arte, que hoje busca um espaço, e uma valorização maior dentro das escolas (seja escola da rede regular de ensino, ou escola especial). A Sociedade Pestalozzi, sob a orientação de Helena Antipoff, é pioneira no trabalho com arte para e com pessoas com necessidades educativas especiais, servindo de referência para as outras entidades e se estendendo as APAEs, e programas como Arte sem Barreiras, que promovem festivais e congressos de Educação em Arte para difundir e ampliar conhecimentos e experiências sobre a arte na educação especial. Dentro das escolas especializadas das APAEs, que têm por finalidade atender educandos com deficiência, foram implantadas algumas estratégias de ações para que o trabalho acontecesse voltado para a formação escolar dos alunos. Mesmo que as APAEs tenham vindo de uma matriz segregadora, existem esforços dentro delas para que a Educação Especial não seja pensada e desenvolvida à parte do contexto educacional.... tendo, como referência apenas o cap. V da LDB. A Educação Especial é uma modalidade escolar que deve estar inserida nos níveis de ensino para estar constituída no sistema de ensino como um todo.(federação Nacional das APAEs, 2001: 18) Com base em fundamentos legais surge a proposta para a implantação de um conjunto de estratégias de ações pedagógicas e escolares que recebeu o nome de APAE Educadora, conjunto este elaborado pelas próprias APAEs, e para elas. A finalidade da

APAE Educadora é criar e oportunizar o atendimento ao aluno deficiente para que ele possa superar as dificuldades relacionadas a aspectos específicos de seu desenvolvimento e, principalmente, enfatizando o aspecto educacional como parte fundamental para sua evolução. Existem quatro áreas de abrangência nos serviços ofertados pelas APAEs, sendo elas: saúde, educação, trabalho e assistência social. De acordo com a Apae Educadora, o ensino de arte entra como componente curricular na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e Educação Profissional, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) Lei 9.394, de 20/12/96, artigo 26, parágrafo 2º: O ensino de arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos (BRASIL, 1997: 32). Dentro da proposta do Movimento Apaeano, a arte tem duas grandes linhas de ação: a primeira orientada pela APAE Educadora, integrando a proposta pedagógica das escolas especializadas da APAE, como componente curricular, e a segunda se alinham com o desenvolvimento de projetos especiais nas diversas linguagens artísticas. A primeira linha de ação tem objetivos, conteúdos e metodologias orientadas pelo Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental e Médio. Já a segunda objetiva vivências para realização de mostras, festivais, concursos visando o reconhecimento social da família e comunidade onde vive (FEDERAÇÃO NACIONAL DAS APAES, 2001: 19). Para dizer que existe o ensino de arte dentro da escola é preciso antes saber o que significa arte e o que ensinar, não se ensina arte sem ter experiência e sensibilidade artística, um depende do outro, o conceito e a realização. O professor, nesse contexto vai além da valorização da expressão individual de cada um, ele é o incentivador do conhecimento de mundo e do eu, é a ponte entre o saber e o construir. E para isso ele tem que ter noções e conceitos formados metodologicamente e não provenientes do senso comum e de frases feitas.

Ser professor de artes não implica somente em ter habilidade, exige uma formação teórica, metodológica e didática. Não pode estar ligada apenas ao simples fazer manual. O professor de artes deve pesquisar, estudar e exercitar sua expressão artística, pois só assim poderá estar selecionando propostas significativas para seus alunos, deixando de propor exercícios de repetição mecânica com modelos prontos caracterizados pela pedagogia tradicional. O conceito de arte deve ser ampliado e sua atuação preocupada com questões que envolvem a expressão pessoal de valores, sentimentos, relações, cognição e significações, visto que envolvem subjetividade. Ela vai ser um veículo para a interação dos alunos edificando uma relação de autoconfiança, com propostas pedagógicas e de produção. Não pode ficar somente do âmbito do fazer irrefletido, sendo que a arte tem conceitos a serem aprendidos e utilizados por qualquer ser humano, os tornando mais sensíveis e criativos. No entanto, a arte deve considerar a pessoa com necessidades educativas especiais enquanto humano, histórico, social, cultural e também simbólico. O aluno com necessidades educativas especiais aprende, mas é necessário que o professor saiba o que propor e em que situações deve elaborar as atividades, dentro de suas especificidades, habilidades e dificuldades. A educação em arte tem uma história cheia de preconceitos, que a deixa sendo considerada como lazer e diversão, somente ficando distanciada das conceituações teóricas e metodológicas. Descrição resumida de como funciona o Projeto COR e AÇÃO feito pelo Setor de Artes da APAE de Tupaciguara. Observação: Os alunos são incluídos nos grupos de acordo com o interesse e habilidade nas áreas que contemplam as linguagens artísticas. Número de alunos envolvidos: em média de 36 alunos no total, nas quatro oficinas oferecidas pelo projeto: Coral (12 alunos), Musicalização (10 alunos), Teatro (8 alunos), Artes Visuais (6 alunos). Série ou ciclo dos alunos envolvidos: Alunos do Ensino Fundamental (Ciclo de Formação Básica 1 e 2), Educação de Jovens e Adultos, e Educação Profissional (Oficinas de Culinária, Horticultura e Artesanato).

Faixa etária dos alunos: Alunos entre 12 e 24 anos. Coral (12 a 16anos), Musicalização (16 a 24 anos), Teatro (12 a 16 anos), Artes Visuais (12 a 24 anos). Deficiência que apresentam: Alunos com deficiência mental e visual. Tempo de desenvolvimento do Projeto: início no segundo semestre de 2002, continuando nos anos de 2003 e 2004. Recursos utilizados para desenvolver o Projeto: Coral: aparelho de som com CD, repertório musical diverso (popular, rock, romântica, pop), músicas e exercícios de corpo e voz, teclado, violão, e outros. Referência Bibliográfica: CHAN, Telma. Divertimentos de Corpo e Voz. http://www.musicainfantil.com.br. Musicalização: instrumentos de percussão (surdo, tambor, tamborim, pandeiro, chocalho, músicas regionais e folclóricas). Referência Bibliográfica: FOELKER, Rita. Educação Emocional e Intuitiva. Jundiaí: Opinião, 2000. Teatro: figurinos e cenários de acordo com as peças a serem apresentadas, livros com histórias semelhantes a de vida cotidiana dos alunos, onde eles possam criar e desenvolver a dramatização junto com a professora, a partir de suas vivências. Referência Bibliográfica: BOAL, Augusto. 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização, 1980. Artes Visuais: tintas diversas, pincéis, materiais alternativos provenientes de sucata e de uso cotidiano, entre outros que vão sendo procurados de acordo a necessidade dos trabalhos e técnicas aplicadas. Referência Bibliográfica: DERDYK, Edith. Formas de Pensar o Desenho. São Paulo: Scipione, 1989. // FISCHER, Ernest. A Necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. Existem dois pontos fundamentais neste projeto: o professor arte-educador e o aluno com necessidades educativas especiais. As duas se unem para que seja feita a observação e reflexão de como o professor deve ser para buscar um pleno desenvolvimento de seu aluno. O projeto então acontece quando é preciso sair do convencional e realmente buscar parcerias com voluntários e fazer algo pelos alunos, tomando como ponto de partida a proposta feita pela APAE Educadora.

É importante falar a respeito da diversidade dos alunos que participam das oficinas, e que não estarão sendo separados por suas deficiências, mas pela sua faixa etária, pois precisamos começar a ter uma postura inclusiva até mesmo trabalhando a diversidade existente dentro da própria instituição APAE, que é uma escola especial.... postura inclusiva não é aquela que desconsidera as diferenças, ou faz de conta que todos somos iguais, mas, ao contrário, aquela que pressupões que é a partir das diferenças que poderemos construir um universo mais rico de aprendizagem e de produção da vida sóciocultural (Martins, 2002:38). A melhor maneira de se trabalhar com as diversas deficiências é estar sempre considerando a sua idade cronológica, valorizar a sua produção e sua criatividade durante as aulas, usar as experiências corporais e musicais explorando as e introduzindo novos conceitos dentro das atividades. Planejamento geral para todas as oficinas: Buscar através da aprendizagem os conteúdos pedagógicos proporcionando um conhecimento global de mundo dando oportunidade ao aluno para que ele crie, invente e possa transformar a realidade; Valorizar a produção dos alunos enquanto pessoas que criam, desenvolvendo a sensibilidade, a percepção e imaginação através dos recursos da ARTE. Coral: Exercícios de psicomotricidade, ritmo, harmonia, afinação, pulsação, etc; Expandir o repertório musical dos alunos através de suas vivências e também proporcionando um aprimoramento no gosto pessoal; Preparação de várias músicas para serem apresentadas. Musicalização: Percepção e identificação dos elementos da linguagem musical em atividades de produção, explicitando-os por meio da voz, do corpo, de materiais sonoros e de instrumentos disponíveis. Teatro:

Buscar o desenvolvimento da percepção sensória do próprio corpo despertando a consciência de si mesmo e do outro; Deixar fluir o mundo da fantasia e do faz de conta corporizando os elementos da vida cotidiana. Artes visuais: Transmitir noções de composição, domínio técnico e valorizar a originalidade dentro da produção. Experimentação, utilização e pesquisa de materiais e técnicas artísticas (pincéis, lápis, giz de cera, papéis, tintas, argila, goivas). Criação e construção de formas plásticas fazendo desenhos, pinturas, colagens etc. Avaliação: Avaliar se o aluno: Consegue reconhecer alguns elementos da linguagem visual, bem como o que ele produziu e os materiais que utilizou para sua confecção; Cria e interpreta e consegue se manifestar corporalmente diante de músicas apresentadas, bem como usar sua imaginação e sua emoção, controlando suas frustrações e buscando conquistas; Desenvolveu sua capacidade de atenção, concentração, observação e se enfrenta as situações de jogos articulando fala e expressão corporal; Como se organiza em grupo, ampliando a sua capacidade de ouvir e ver seus colegas, com respeito e solidariedade; Seu empenho em ajudar a construir o espaço cênico em todos os aspectos, cenário, figurino, maquiagem, iluminação, etc; Contato: ionerossi@hotmail.com