RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO



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Transcrição:

RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO RESPONSABILIDADE CIVIL LATO SENSU Responsabilidade Civil é o dever jurídico derivado ou secundário de ressarcir ou reparar dano causado pela conduta culposa do agente a outrem. Há uma diferença entre a responsabilidade civil e a responsabilidade penal. 1ª NOTA IMPORTANTE: DISTINÇÃO ENTRE RESPONSABILIDADE CIVIL E PENAL É possível de ser questionada em prova a distinção ontológica 1 entre o tipo de responsabilidade dito civil de outro tipo de responsabilidade tido como penal. Para responder a questão deve-se atentar que, ontologicamente, não há qualquer distinção entre os termos, pois ambos decorrem de ato ilícito. A distinção que existe entre a responsabilidade civil e a responsabilidade penal está na graduação da lesão ao bem jurídico tutelado. Quando a hipótese for de responsabilidade penal a lesão é mais grave, por isso que a responsabilidade penal enseja uma sanção preventiva ou repressiva. A lesão na responsabilidade civil é menos grave, por isso que a sanção, nessa hipótese, não é preventiva ou repressiva, mas sim reparatória ou ressarcitória 2. 2a NOTA IMPORTANTE: DISTINÇÃO ENTRE OBRIGAÇÃO E RESPONSABILIDADE 1 Parte da filosofia que trata do ser enquanto ser, i. e., do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres 2 Há distinção técnica entre ressarcir, reparar e indenizar 1

OBRIGAÇÃO é o dever jurídico originário ou primário. É a conduta que a ordem jurídica impõe em primeiro plano, por isso que existe a obrigação em nível jurídico primário ou originário que, uma vez violada, dá ensejo a um dever jurídico derivado ou secundário, que é a RESPONSABILIDADE. Obrigação é originária ou primária, enquanto responsabilidade é derivada ou secundária porque decorre da violação da obrigação. Quando houver uma obrigação violada, seja ela contratual ou não, isso dará ensejo a uma espécie qualquer de responsabilidade 3. 3a NOTA IMPORTANTE: DISTINÇÃO ENTRE RESSARCIMENTO, REPARAÇÃO E INDENIZAÇÃO Segundo JESSÉ TORRES, o conceito de ressarcimento ou reparação é distinto do conceito de indenização. Ressarcimento e reparação decorrem de atos ilícitos e são dirigidos a um dano. Assim, se houver ato ilícito, este gerará um dano que ensejará o ressarcimento ou a reparação. A distinção entre ressarcimento e reparação é que o primeiro é utilizado para dano material, enquanto a reparação é para dano moral. Assim, ATO ILÍCITO gera DANO e conseqüentemente REPARAÇÃO (dano moral) ou RESSARCIMENTO (dano material). Se a hipótese for de ato lícito, este não gera dano, mas sim prejuízo, que é indenizado. Portanto, só se pode falar em indenização quando a hipótese for de ATO LÍCITO, que gerará PERDA, PREJUÍZO, o que dará ensejo à INDENIZAÇÃO. Exemplos: Um carro bate no outro causando danos. A hipótese será de ato ilícito, culposo que gera danos materiais e enseja o 3 No direito civil há hipóteses de obrigações em que não há responsabilidade dívida de jogo. 2

ressarcimento. Essa hipótese diverge da de imóvel desapropriado por ente público, a hipótese será de ato lícito, que gera prejuízo e dá ensejo à indenização. É isso que distingue a responsabilidade civil do Estado da intervenção do Estado na propriedade. A responsabilidade civil decorre de um ato ilícito, que ensejará o ressarcimento do dano. De outro lado, a intervenção do Estado na propriedade decorre de um ato lícito, daí porque, nessa hipótese, será caso de indenização do prejuízo. Pressupostos da Responsabilidade Civil Lato Sensu Há um pressuposto de índole objetiva, que é o dano. Há um pressuposto de índole subjetiva, que é o agente. E também há pressuposto de índole causal, que é o nexo de causalidade. * Pressuposto Objetivo: Dano RESPONSABILIDADE CIVIL * Pressuposto Subjetivo: Conduta do Agente * Pressuposto Causal: nexo de causalidade Assim, só se estabelece a responsabilidade civil a partir do momento em que há uma conduta do agente, que pode ser culposa ou dolosa, omissiva ou comissiva, com a ocorrência de dano, que pode ser de qualquer origem material ou moral havendo ligação entre uma coisa e outra nexo de causalidade entre a conduta e o dano. Qualquer responsabilidade civil, de qualquer espécie, inclusive a objetiva, pressupõe a conduta culposa ou dolosa do agente. O que pode ser dispensada, na responsabilidade objetiva 3

é a prova da culpa, mas é imprescindível que haja uma conduta e que ela gere um dano. Espécies de Responsabilidade Civil A responsabilidade civil subdivide-se, basicamente, em duas espécies: extracontratual, também chamada de aquiliana, e responsabilidade civil contratual, conforme a fonte dela seja a lei ou o contrato. Se a fonte da responsabilidade for a lei, ela será extracontratual ou aquiliana. Se a fonte da responsabilidade for o contrato, ela será contratual. * Extracontratual ou aquiliana a fonte é a lei RESPONSABILIDADE CIVIL Contratual a fonte é o contrato A responsabilidade extracontratual pode ser objetiva ou subjetiva, conforme haja ou não necessidade da prova da culpa ou dolo. Se a prova da culpa ou do dolo for imprescindível, a responsabilidade será subjetiva. De outro lado, se a prova for dispensável, a responsabilidade será objetiva. A base da responsabilidade extracontratual está no art. 159 do Código Civil em Vigor. A r t. 1 5 9 d o C C V. A q u e l e q u e, p o r a ç ã o o u o m i s s ã o v o l u n t á r i a, n e g l i g ê n c i a, o u i m p r u d ê n c i a v i o l a r d i r e i t o, o u c a u s a r p r e j u í z o a o u t r e m, f i c a o b r i g a d o a re p a r a r o d a n o. A responsabilidade contratual é subdividida em obrigação de fazer e obrigação de dar, conforme for o objeto do contrato. Seu fundamento básico está no artigo 1056 do Código Civil. 4

A r t. 1 0 5 6 d o C C V. N ã o c u m p r i n d o a o b r i g a ç ã o o u d e i x a n d o d e c u m p r i - l a p e l o m o d o e n o t e m p o d e v i d o s, r e s p o n d e o d e v e d o r p o r p e r d a s e d a n o s. O contrato pode ser com ou sem instrumento. O transporte pela van, por exemplo, é um contrato de transporte sem instrumento físico. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO A responsabilidade civil do estado pode ser conceituada da seguinte forma: Dever jurídico secundário ou derivado imposto às pessoas jurídicas de direito público e pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos de ressarcir ou reparar os danos que os agentes públicos, no exercício de suas funções, ou a pretexto de exercê-las houverem causado a terceiros. 1ª NOTA IMPORTANTE: MELHOR DENOMINAÇÃO Há autores que se referem à Responsabilidade Civil do Estado (Celso Antônio Bandeira de Mello), outros mencionam Responsabilidade Civil da Administração Pública (Hely Lopes Meirelles) e, ainda há outros que se referem à Responsabilidade Civil do Poder Público (Alexandre de Moraes). A denominação Responsabilidade Civil da Administração Pública não é a mais adequada porque nem sempre o dano decorre de um ato da Administração Pública em estrito senso, pois é possível a responsabilidade civil por ato jurisdicional, por ato legislativo. Também a denominação Responsabilidade Civil do Poder Público é equivocada porque nem sempre os atos que dão ensejo à responsabilidade civil são atos de império, ou seja, são atos decorrentes da prática de um poder público pelo Estado. O Estado pode praticar atos de gestão, que são atos praticados pelo Estado 5

sem estar na condição de poder público e esses atos podem causar danos que deverão ser ressarcidos pelo Estado. A expressão mais adequada é a Responsabilidade Civil do Estado porque é ampla, não gerando dúvidas. 2ª NOTA IMPORTANTE: RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL A responsabilidade civil do Estado sempre será extracontratual. Não existe responsabilidade civil contratual do Estado. A responsabilidade do Estado ou será objetiva ou será subjetiva. A violação de normas de contratos administrativos não dá ensejo à responsabilidade civil do Estado, pois é caso de INADIMPLEMENTO DO CONTRATO ADMINISTRATIVO PELO ESTADO, sujeito às regras pertinentes. a Constituição. A única fonte de responsabilidade civil do Estado é A responsabilidade civil do Estado é sempre extracontratual, sendo, em regra, OBJETIVA e, excepcionalmente SUBJETIVA. 3ª NOTA IMPORTANTE: ART. 37, 6º, DA CR 88 do Estado. O art. 37, 6º fundamenta a responsabilidade civil A r t. 3 7, 6 º (CR 8 8 ). A s p e s s o a s j u r í d i c a s d e d i r e i t o p ú b l i c o e a s d e d i r e i t o p r i v a d o p r e s t a d o r e s d e s e r v i ç o s p ú b l i c o s r e s p o n d e r ã o p e l o s d a n o s q u e s e u s a g e n t e s, n e s s a q u a l i d a d e, c a u s a r e m a t e r c e i r o s, / a s s e g u r a d o o d i r e i t o d e r e g r e s s o c o n t r a o r e s p o n s á v e l n o s c a s o s d e d o l o o u c u l p a. Deve ser separada a primeira parte do dispositivo, que vai de seu início até a expressão terceiros, da segunda parte do artigo, que se inicia na expressão assegurado até culpa. A parte inicial versa sobre a RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. A parte final já não versa sobre a 6

responsabilidade civil do estado, mas sim da RESPONSABILIDADE CIVIL DO AGENTE PÚBLICO que causou o dano e que poderá ser eventualmente responsabilizado individualmente por ação regressiva. A pessoa jurídica pode ressarcir-se contra a pessoa física que causou o dano. Na parte inicial do dispositivo não há referência à culpa, por isso é, em regra, objetiva. Na parte final, há expressa menção à culpa, por isso tem natureza subjetiva. Teorias sobre a Responsabilidade Civil do Estado Historicamente, são 05 as teorias sobre a responsabilidade civil do Estado: 1) Teoria da Irresponsabilidade Civil do Estado por essa teoria, o Estado nunca responderia pelos danos causados a terceiros por seus agentes. Essa teoria era fundamentada na intangibilidade da soberania, ou seja, a soberania do Estado era intangível, o que fazia com que o Estado nunca fosse responsabilizado por qualquer dano causado a terceiro por seus agentes. Essa teoria já foi superada há muito tempo em razão da Teoria da Imputação, também chamada Teoria do Órgão, segundo a qual os atos que os agentes públicos praticam são atos do Estado e não do agente. O agente não é o representante do Estado, mas sim seu presentante. 2) Teoria da Responsabilidade Subjetiva por Culpa do Agente e 3) Teoria da Responsabilidade Subjetiva por Culpa do Serviço As teorias subjetivas exigem a prova da culpa ou dolo para a responsabilização do Estado. A diferença entre culpa do agente e culpa do serviço reside no fato de que na primeira (culpa do agente) é imprescindível que o agente causador do dano seja individualizado. O Estado responderia pelos danos causados pelo agente desde que este fosse certo, determinado. O fato gerador dessa responsabilidade é a falta do agente, ou seja, a culpa do agente. Na hipótese de culpa do serviço, o Estado será responsável mesmo que não individualizado o 7

agente, mas é obrigatória a prova da falta do serviço. Falta do serviço é gênero que compreende três espécies: inexistência do serviço; retardamento do serviço; mau funcionamento do serviço. 4) Teoria da Responsabilidade Objetiva por Risco Administrativo as teorias objetivas não exigem a prova do dolo ou culpa. Quando a hipótese for de risco administrativo, o nexo causal pode ser excluído por fato exclusivo da vítima; fato exclusivo de terceiro; ou caso fortuito e força maior. Não se exige que se prove a culpa ou o dolo do agente público, mas o Estado poderá deixar de responder se o nexo causal tiver sido excluído nessas hipóteses. 5) Teoria da Responsabilidade Objetiva por Risco Integral por essa teoria, o Estado responde em qualquer caso, mesmo que tenha havido fato exclusivo da vítima, fato exclusivo de terceiro, caso fortuito ou força maior. Não há exclusão do nexo causal. A responsabilidade civil do Estado evoluiu desde a irresponsabilidade até o risco integral. Pela teoria da irresponsabilidade, o Estado nunca respondia porque se entendia que a soberania era intangível. Essa teoria foi superada pelo reconhecimento de que os atos praticados pelos agentes públicos são, na verdade, atos do Estado, evoluindo-se, assim, para as teorias subjetivas que exigiam a prova da ocorrência do dolo ou culpa. Quando a hipótese fosse de culpa do agente, era imprescindível a individualização do agente. Sendo a hipótese de culpa do serviço, necessária se fazia a prova da falta do serviço, ou seja, que o serviço não existia, foi prestado com retardo ou que não funcionou adequadamente. Porque a prova da culpa, às vezes, era muito difícil, evoluiu-se para as Teorias Objetivas, que prescindem da prova do dolo da culpa. Distinguiu-se o risco administrativo do risco integral, conforme a possibilidade ou não de exclusão do nexo causal. Se o nexo causal pode ser excluído por fato exclusivo da 8

vítima, fato exclusivo de terceiro, caso fortuito ou força maior, a hipótese é de risco administrativo. Se não há possibilidade de exclusão do nexo causal, a hipótese será de risco integral. É importante saber quais as teorias seguidas no Brasil. No Brasil, a melhor corrente é a do Prof. Celso Antônio Bandeira de Mello e do Prof. Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, que distinguem as hipóteses de conduta omissiva e conduta comissiva. Para eles, se a hipótese for de conduta comissiva, que é a maioria dos casos, o Brasil acolhe, pelo art. 37, 6º, da CR 88 a RESPONSABILIDADE OBJETIVA POR RISCO ADMINISTRATIVO. Em regra, quando o dano decorre de uma ação e não de uma omissão, a hipótese é de responsabilidade objetiva por risco administrativo, não sendo necessária a prova do dolo ou culpa, mas o Estado pode se eximir se comprovar que o dano decorreu de fato exclusivo da vítima, de fato de terceiro ou de caso fortuito e força maior. Se a hipótese for de omissão (ex. surfista de trem), o Estado responde com base na Teoria Subjetiva da Falta de Serviço, devendo ficar comprovado que o dano decorreu da inexistência do serviço, de seu mau funcionamento ou de seu retardo. O Estado só responderá se ficar provada a falta do serviço, com base no art. 159 do Código Civil. Atualmente, no Brasil prevalece o entendimento de que a responsabilidade objetiva por risco integral não é mais admitida porque viola alguns princípios constitucionais como o da ampla defesa e o do contraditório. OBSERVAÇÃO: Verificar dano ambiental e dano nuclear casos de responsabilidade tarifada. Na hipótese de omissão, há uma parcela da doutrina, representada pelos Profs.Guilherme Couto e Castro e Sergio Cavalieiri que defendem que, no caso de omissão específica, deve o Estado ser responsabilizado objetivamente. 9

Esses autores estabelecem uma distinção entre a omissão genérica e omissão específica. Se o dano decorrer de uma omissão do dever imediato de agir do Estado, será hipótese de omissão específica e a responsabilidade do Estado será objetiva (ex. dever de guarda das crianças em escolas públicas). Contudo, se a omissão decorrer de um dever de agir genérico do Estado, ela será genérica e a responsabilidade será subjetiva (ex. sinalização das estradas). Citação do livro de Sérgio Cavalieri (Programa de Responsabilidade Civil, pág. 169): Quando o dano resulta da omissão específica do Estado, ou, em outras palavras, quando a inércia administrativa é a causa direta e imediata do não impedimento do evento, o Estado responde objetivamente, como nos casos de morte de detento em penitenciária e acidente com aluno de colégio público durante o período de aula. 4 Alguns autores ainda defendem que nas hipóteses de danos causados por estrada de ferro, a responsabilidade é por risco integral, contudo, tal tipo de responsabilidade fere o princípio da ampla defesa e do contraditório. Ação de Ressarcimento ou de Reparação A reparação ou ressarcimento pode ocorrer na via administrativa como também pela via judicial. sobre o tema: Quanto à via judicial, há três questões importantes Que é o legitimado passivo da ação, o Estado e/ou o agente público se é possível o litisconsórcio passivo entre Estado e agente; 4 Sergio Cavalieri Filho Programa de Responsabilidade Civil 10

Se é possível a denunciação da lide do agente público pelo Estado; Se há prazo prescricional para a propositura da ação. Legitimidade Passiva Há duas correntes sobre o tema. Hely Lopes Meirelles defende que a ação de reparação ou ressarcimento somente pode ser proposta em face do Estado porque os tipos das responsabilidades são distintos. O Estado será acionado por responsabilidade objetiva e o agente pela subjetiva. Oswaldo Aranha Bandeira de Mello e Celso Antônio Bandeira de Mello entendem que pode haver litisconsórcio passivo facultativo, podendo a ação ser proposta em face do Estado e do agente, sob o argumento de que apesar de os tipos de responsabilidade serem diferentes, tal não impede a formação do litisconsórcio, mas deve o autor demonstrar a culpa, o que não precisaria fazer se a ação fosse proposta só em face do Estado. No TJRJ prevalece a corrente de que a ação só pode ser proposta em face do Estado, não sendo admitido o litisconsórcio passivo facultativo. Denunciação da Lide Também há duas correntes sobre o tema. Maria Sylvia Di Pietro, Diógenes Gasparini e Yussef Said Cahali sustentam ser obrigatória a denunciação da lide do agente pelo Estado por força do disposto no art. 70, III, do CPC. A r t. 7 0, I I I ( C P C ). A d e n u n c i a ç ã o d a l i d e é o b r i g a t ó r i a :... III à q u e l e q u e e s t i v e r o b r i g a d o, p e l a l e i o u p e l o c o n t r a t o, a i n d e n i z a r, e m a ç ã o r e g r e s s i v a, o p r e j u í z o d o q u e p e r d e r a d e m a n d a. 11

Celso Antônio Bandeira de Mello, Lucia Valle Figueiredo e José dos Santos Carvalho Filho defendem que não pode ser admitida a denunciação da lide do agente pelo Estado, sendo inaplicável o artigo 70, III, do CPC porque não deve haver uma confusão de títulos da responsabilidade civil (objetiva e subjetiva). No TJRJ é pacífico de que não cabe a denunciação da lide do agente pelo Estado nas ações de ressarcimento e reparação. Há, ainda, um grupo de autores que entendem que a hipótese não é de denunciação da lide e sim chamamento do terceiro ao processo (Alexandre Câmara), havendo solidariedade entre o agente e o Estado. Prescrição O prazo de prescrição depende do caso. Se o responsável for pessoa jurídica de direito público (União, Estados, Municípios e autarquias), o prazo é de 05 anos, com base no art. 178, VI, do Código Civil em Vigor e no Dec. 20.910/32. Se o responsável for pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviço público (empresas públicas, sociedades de economia mista, delegatárias), a prescrição é vintenária 20 anos art. 177 do Código Civil em Vigor. REGIMES ESPECÍFICOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade Civil do Estado por Atos Administrativos Na hipótese em que a responsabilidade do Estado decorre de ato administrativo, há três hipóteses fáticas que são específicas, tendo regime próprio: (i) responsabilidade tarifada; 12

(ii) responsabilidade em decorrência de obra pública; (iii) responsabilidade pela guarda de coisas e pessoas. Responsabilidade Tarifada A responsabilidade tarifada ocorre sempre quando há disposição legal que limita o ressarcimento ou reparação em caso de sinistro, sendo inerente às atividades perigosas. Algumas leis limitam o montante de ressarcimento ou reparação para as atividades perigosas como, por exemplo, a energia nuclear (art.9º da lei 6453/77) e navegação área (Convenção de Varsóvia). No que tange a eventuais desastres atômicos energia nuclear o artigo 9º da Lei 6453/77 dispõe que danos decorrentes de acidentes nucleares só podem ser ressarcidos até um determinado valor, sendo caso, portanto, de responsabilidade tarifada. O único autor que trata dessa matéria Paulo Afonso L. Machado afirma - que esse artigo não foi recepcionado pelo art. 37, 6º, da CR 88 que, de forma alguma, estabelece limites à responsabilidade do Estado. A segunda hipótese de responsabilidade tarifada no Brasil diz respeito à navegação aérea. O Brasil ratificou a Convenção de Varsóvia que limita a responsabilidade civil em determinados casos, especialmente no que se refere ao extravio de bagagem. Atualmente, há três correntes sobre o tema. Há uma primeira corrente que defende que a limitação ainda existe, pois só poderia ser afastada se o Brasil tivesse denunciado, formalmente, a Convenção. Uma segunda corrente defende que a limitação foi revogada pelo artigo 6º, VI, do CDC, que afirma que, em nenhuma hipótese, os danos ao consumidor podem ser limitados. Por fim, uma terceira corrente, que é a corrente seguida pelo STJ, defende que a limitação é aplicada aos danos materiais, sendo ilimitada a reparação dos danos morais. Contudo, tanto o STJ 13

quanto o TJRJ admitem que, em casos extremos, o ressarcimento dos danos patrimoniais não seja limitado. Responsabilidade Decorrente de Obra Pública Segundo Cretella Jr., deve-se distinguir o dano oriundo da obra pública do dano decorrente de culpa do empreiteiro. Na hipótese de dano oriundo da obra, o dano decorre da simples existência da obra pública. A existência da obra causa o dano, independentemente de ser ela regular ou não (ex. obra que prejudica o comércio tapumes fechando a entrada da loja). Quando for essa a situação, a responsabilidade do Estado é direta, devendo a ação ser proposta somente em face do Estado. Quanto o dano decorrer de culpa do empreiteiro, ele, na realidade, está vinculado a uma irregularidade na execução da obra e não da simples existência dela. Nesse caso, a responsabilidade do Estado é subsidiária, somente respondendo se constatada a insolvência do empreiteiro. A ação deve ser proposta em face do empreiteiro, tão somente 5. Responsabilidade por Guarda de Pessoas e Coisas Perigosas A responsabilidade do Estado, nesse caso, deve ser verificada na medida da situação de risco por ele criada. O Estado responde na medida da situação de risco por ele criada. Um detento preso em Bangu foge da prisão e rouba uma casa - a causa do dano não foi a fuga do bandido, mas sim o roubo, entretanto, deve ser verificado se o Estado conferiu uma condição para que tal fato ocorresse. É por conta disso que o Estado só responde na medida do risco por ele criado, ou seja, se no processo houver prova de que o Estado deu condição para a ocorrência do dano, ele será responsabilizado. 5 Sergio Cavalieri não concorda com essa tese, afirmando não haver motivos e nem fundamento jurídico para essa distinção. Segundo ele, se a obra é do Estado e sempre deriva de um ato administrativo de quem ordena a sua execução, não faz sentido deixar de responsabiliza-lo simplesmente porque a mesma está sendo executada por um particular.... Tenha-se em vista que o executor da obra é um agente do Estado e, 14

Contudo, se não houver qualquer liame entre o dano verificado e a situação de risco criada pelo Estado, este não será responsabilizado. Ex. se o bandido fugiu do presídio há dez dias atrás e roubou uma residência ontem, não há qualquer ligação entre a fuga e o dano, daí porque o Estado não será responsabilizado. O Estado responderá se, logo após a fuga, o bandido vier a causar um dano a terceiro. Responsabilidade Civil do Estado por Ato Jurisdicional Os dispositivos legais pertinentes são o art. 5º, LXXV, da CR 88 e o art. 630 do CPP. O Estado só responde por danos causados por ato jurisdicional se os danos decorrerem de: (i) erro judiciário e; (ii) prisão por tempo superior ao fixado em sentença penal condenatória. O Estado não responde por atos jurisdicionais, salvo somente nessas duas hipóteses. Erro Judiciário É o erro manifesto, crasso. Não se trata de uma aferição equivocada da prova, o erro deve ser manifesto, evidente (ex. prender a pessoa errada). Há uma parcela da doutrina que entende que a responsabilidade civil do Estado por erro judiciário é restrita à esfera penal. Contudo, tal posição não é a que prevalece, pois a CR 88 não restringe a responsabilidade somente para essa hipótese. Prisão por tempo superior ao fixado na sentença condenatória como tal, a Administração responde pelo dano que ele vier a causar, admitindo-se a responsabilidade solidária do executor da obra no caso de ter agido com culpa, o que, sem dúvida, torna a posição da vítima mais garantida (Programa de Responsabilidade Civil pág. 174/175). 15

Um dia de prisão a mais já dá ensejo à responsabilização do Estado. No que tange à prisão provisória, há uma posição minoritária da doutrina (Celso Antônio Bandeira de Mello) que entende que o Estado pode ser responsabilizado se o preso vier a ser absolvido. Mas o TJRJ não adota esse entendimento. NOTA IMPORTANTE: O fato de o Estado não responder por danos causados por atos jurisdicionais que não decorram de erro judiciário ou prisão por tempo superior não impede que haja a responsabilização pessoal da autoridade judiciária art. 130 do CPC se comprovado o dolo ou a culpa gravíssima deste. Responsabilidade Civil do Estado por Atos Legislativos O Estado responde em duas hipóteses: (i) por regras abstratas e genéricas desde que inconstitucionais; (ii) por regras individuais e concretas, ainda que constitucionais. Ex. Decreto expropriatório. O Estado responde por esse fato porque a regra jurídica é individual e concreta caso tenha causado danos a terceiros. Lei inconstitucional que cause danos a terceiros. O Estado também responde nessa hipótese. NOTA IMPORTANTE: Uma coisa é a responsabilidade civil por norma jurídica inconstitucional. Outra coisa é responsabilidade civil por ato praticado com fundamento em norma jurídica inconstitucional. No primeiro caso, a hipótese é de responsabilidade por ato legislativo, enquanto no segundo a responsabilidade decorre de ato administrativo. Se a norma por si só causou o dano, a responsabilidade é por ato 16

legislativo. Se o dano for causado por conta de um ato praticado com base na norma, a hipótese será de responsabilidade por ato administrativo. 17