Filosofia da Mente. Sara Bizarro
|
|
|
- Benedita Cunha Palmeira
- 8 Há anos
- Visualizações:
Transcrição
1 Filosofia da Mente Sara Bizarro Filosofia da Mente 1. Mente-Corpo 1.1. Dualismo 1.2. Fisicalismo 1.3. Behaviorismo 1.4. Funcionalismo 1.5. Epifenomenalismo 2. Consciência O problema fácil e o problema difícil 2.2. Qualia 2.3. Subjectividade e Objectividade 3. Intencionalidade 3.1. Atitudes Proposicionais 3.2. Internalismo e Externalismo 4. Outras questões Identidade Pessoal 4.2. Outras Mentes Bibliografia Leituras Iniciais Leituras Fundamentais 1
2 1. Mente-Corpo A filosofia da mente contemporânea faz parte de uma área interdisciplinar em fase de grande desenvolvimento: a ciência cognitiva. A participação da filosofia da mente para a ciência cognitva consiste essencialmente em discusses acerca dos conceitos usados nas várias ciências que fazem parte dessa area interdisciplinar. Questões acerca do que é o mental, a consciência, a memória, a atenção, entre outras, estão no centro desta disciplina. Neste capítulo vou tratar de três questões típicas da filosofia da mente contemporânea: o problema mente-corpo, a consciência e a intencionalidade. No último capítulo vou referir dois outros temas da filosofia da mente, o problema das outras mentes e o tema da identidade pessoal. O problema mente-corpo é o problema de saber se o mental pode ou não ser reduzido ao físico ou ao material. Há duas posições essenciais acerca do problema mente corpo que podem depois ser desenvolvidas de formas diferentes: dualismo e monismo. Nas posições dualistas assumem-se dois tipos de substâncias ou propriedades, nas posições monistas assume-se que só há um tipo de substância ou propriedades. A maior parte da discussão contemporânea acerca do problema mente-corpo consiste na discussão de posições possíveis dentro de uma posição monista e fisicalista, no entanto, para compreender os termos usados nestas discussões é importante ter uma ideia da origem moderna do problema mente-corpo no dualismo de Descartes Dualismo O problema mente-corpo foi formulado e discutido por Descartes. Embora exista uma distinção tradicional antiga ente mente e corpo, ou alma e corpo, Descartes foi o primeiro a desenvolver uma posição dualista em termos modernos. Nesta secção vou apresentar resumidamente a posição de Descartes e os problemas e argumentos com ela relacionados. Descartes, nas Meditações sobre a Filosofia Primeira (Meditações Metafísicas), 2
3 desenvolve aquilo a que chama o método da dúvida que consiste num desafio céptico segundo o qual pomos em dúvida tudo em que acreditamos, considerando hipóteses como a de tudo o que experienciamos ser um sonho ou de existir um génio maligno que nos esteja a enganar sobre as nossas experiências e percepções. Este tipo de dúvida, diz Descartes, pode ser dirigida a todo o nosso conhecimento e experiência, mas não pode ser dirigida ao facto de existirmos como entidades que pensam, isto porque, ao formularmos a dúvida, estamos já a exercer um tipo de pensamento. Este argumento é normalmente conhecido como cogito cogito ergo sum, je pense donc je suis, penso, logo existo. Note-se que este tipo de argumento apenas garante a nossa existência como entidade que pensa e não a existência do nosso corpo. Por essa razão Descartes separava a res cogita, a mente, sem extensão, do corpo, que tem extensão e existe no mundo físico. Supondo que o argumento de Descartes é válido e temos razões para defender o dualismo, existem vários problemas que surgem numa posição desse tipo, um deles é o problema mente-corpo, que nesta versão se torna no problema da causalidade mental. Se o mental é composto de uma substância sem extensão e o mundo físico consiste em substâncias com extensão, então põe-se a questão de saber como é que o mental pode causar acontecimentos no mundo físico, mais especificamente, como é que decisões mentais podem ter impacto no nosso corpo e vice-versa. Se o leitor decidir agora que lhe apetece um copo de água, esse evento mental pode levá-lo a levantar-se e ir buscar um copo de água. Numa posição dualista em que o mental é completamente imaterial, como a de Descartes, põe-se a questão de saber como é que isto funciona. Descartes estava ciente deste problema e sugeriu por exemplo a hipótese de no cérebro existir uma zona, a glândula pineal, que seria o ponto em que a alma interage com o corpo. A escolha da glândula pineal vinha de experiências executadas na morgue em que Descartes abriu vários cérebros e observou que existiam dois hemisférios, mas visto que a nossa experiência do mental nos parece unificada, seria a glândula pineal a zona através do qual o mental imaterial interagia com o cérebro. 3
4 Note-se que Descartes considerava que outras partes do cérebro seriam responsáveis por certas funções mais animalescas que nós consideramos mentais, como dores, desejos, emoções. O exemplo acima dado de alguém que tem sede e vai buscar um copo de água, poderia ser considerado como algo que o cérebro faz sem intervenção do mental propriamente dito ou do pensamento, no entanto podemos considerar outros exemplos, sendo o mais comum as decisões ao nível moral, em que decisões do foro do pensamento levam a acções que têm de ser fisicamente executadas pelo corpo. Depois do argumento do cogito, Descartes segue para o argumento da prova da existência de Deus (que não vou desenvolver aqui). Uma vez aceite a existência de Deus, outra proposta de Descartes para o problema da causalidade mental, ou o problema da interacção das substâncias mentais com as substâncias físicas, é a de dizer que existe uma harmonia pré-estabelecida por Deus em que os eventos mentais e os eventos do mundo são, por assim dizer, paralelos: Mente > > Mundo O argumento da harmonia pré-estabelecida, pressupondo a existência de Deus, não vai aqui ser discutido, é apenas referido para mostrar que Descartes estava de facto 4
5 ciente que o seu dualismo tinha de responder ao problema da causalidade mental e indicar que as respostas por ele propostas não foram muito satisfatórias. É de notar, no entanto, que existem discussões acerca da genuinidade da fé em Deus de Descartes e a ideia de que as provas de existência de Deus foram introduzidas nas Meditações e no Discurso do Método apenas para satisfazer a igreja. De facto, os argumentos que aqui apresentei como proposta de solução do problema mente-corpo seriam melhor compreendidos como reduções ao absurdo contra o dualismo, do que argumentos a favor, mas deixo essa questão em aberto à curiosidade do leitor. O dualismo, pelo menos de substâncias, foi abandonado de uma forma geral na filosofia contemporânea. No entanto, do ponto de vista materialista ou fisicalista, surgem outras dificuldades em relação à redução do mental ao físico ou a estados físicos do cérebro, como vamos ver nas próximas secções Fisicalismo O fisicalismo é a tese segundo a qual todas as entidades são físicas ou ontologicamente dependentes de entidades físicas. Os fisicalistas podem discordar sobre o tipo de entidades que existem, dentro do fisicalismo pode haver discussões acerca da existência de factos, propriedades ou relações, mas o pressuposto principal do fisicalista é o de que tudo o que existe é físico. O fisicalismo é por vezes questionado em filosofia da mente por causa da natureza irredutível da consciência. O problema da consciência vai ser tratado na próxima secção, nesta secção vou apenas tratar de variantes do fisicalismo que aparecem na filosofia da mente contemporânea. O fisicalismo, por vezes também chamado materialismo acerca do mental é uma posição anti-dualista que defende só existirem no mundo entidades físicas. O fisicalismo e o materialismo estão por vezes ligados ao naturalismo, a ideia de que tudo pode ser explicado de forma objectiva através das ciências naturais, mas nem sempre. O fisicalismo pode ser reducionista, seguindo a ideia de que todas as leis das ciências podem ser reduzidas a leis fundamentais. Neste tipo de fisicalismo as entidades mentais e as regras ou leis que regem o seu comportamento, poderiam ser reduzidas a entidades físicas e a leis fundamentais das ciências físicas. Perante a impossibilidade desse tipo de 5
6 redução, uma posição possível e defendida na filosofia da mente contemporânea é o eliminativismo, a ideia de que visto que redução da psicologia à física não é possível, devemos eliminar as entidades e os conceitos mentais como sendo inúteis e arcaicos. Outro tipo de posição fisicalista reducionista é o behaviorismo em que se defende que a única forma de analisar entidades mentais é olhando para comportamentos observáveis e excluindo quaisquer referências a estados subjectivos. Mais à frente voltaremos à análise destas posições. O fisicalismo não é necessariamente reducionista, dois exemplos de fisicalismo não reducionista que vão ser tratados nas próximas secções são o do funcionalismo e do epifenomenalismo. O funcionalismo assume que só existem entidades físicas mas defende que as propriedades mentais advém de certas organização complexa de entidades físicas e que as propriedades mentais podem ter suportes físicos diferentes. O epifenomenalismo defende que as propriedades mentais surgem de determinadas propriedades físicas, que não podem ser reduzidas a propriedades físicas, mas que não têm eficácia causal no mundo físico. Antes de desenvolver com mais detalhe estas posições, há mais uma forma de discutir as possíveis versões do fisicalismo e da identidade do físico e do mental, que deve aqui ser referida. Na filosofia contemporânea fala-se muitas vezes de teorias da identidade token-token e teorias da identidade type-type. Um tipo de identidade a procurar é para cada token, cada caso de um evento mental, procurarmos um correspondente no cérebro. A identidade type-type procura para cada tipo de actividade mental, um tipo de actividade cerebral, ter um desejo por exemplo ou uma crença, teria de ser correspondente com um determinado tipo de actividade neuronal. Diz-se então qaue embora a identidade de tipos seja uma teoria mais difícil de provar, a identidade de tokens é fácil de aceitar e é a única necessária para se ter uma posição anti-dualista. 6
7 1.3. Behaviorismo O behaviorismo é a ideia de que a psicologia é uma ciência que estuda comportamentos. Segundo o behaviorismo, tudo o que os organismos fazem pode ser considerado como um comportamento e pode ser estudado usando métodos científicos sem recorrer a entidades de existência duvidosa como o mental ou métodos falíveis como a introspecção. O behaviorismo está ligado ao movimento Gestalt e tem influências dos estudos de Ivan Pavlov, que estudou o comportamento condicionado, John B. Watson e B. F. Skinner. O behaviorismo, em geral, assume duas ideias principais: 1) a psicologia é a ciência do comportamento e não da mente; 2) o comportamento pode ser explicado sem referência a estados internos privados. Há vários tipos de behaviorismo: o behaviorsmo metodológico, o behaviorismo psicológico e o behaviorismo lógico ou analítico. O behaviorismo metodológico é a ideia de que a psicologia enquanto ciência deve apenas estudar comportamentos e não recorrer a entidades mentais como crenças e desejos nas suas explicações. Neste sentido, o behaviorismo metodológico pretende eliminar da psicologia qualquer referencia a entidades mentais que estejam para além do comportamento expresso das pessoas e dos animais. O behaviorismo psicológico é a prática de explicar o comportamento humano e animal através do estudo de estímulos e respostas. O behaviorismo lógico ou analítico é a tese de que o significado de termos e conceitos mentais é uma disposição para determinados comportamentos. Atribuir crenças ou desejos, nesta teoria, não é atribuir determinados estados mentais, mas sim dizer que há uma certa tendência para a pessoa que tem a crença ou o desejo agir de determinada forma, em determinadas cincustâncias. O behaviorismo analítico pode ser atribuído a Gilbert Ryle, Wittgenstein, U.T. Place e talvez também ao método heterofenomenológico proposto por Daniel Dennet. O behaviorismo não dá conta da ideia de que duas pessoas possam exibir o mesmo comportamento, mas terem estados mentais internos completamente diferentes. O behaviorismo é um tipo de eliminativismo diferente do eliminativismo materialista referido acima, mas com a mesma ideia de eliminar os conceitos mentais. 7
8 1.4. Funcionalismo O funcionalismo é a ideia de que os estados mentais são conceptualmente redutíveis a estados funcionais. O funcionalismo teve na sua origem na ideia de estados computacionais que consistem em determinados inputs que são manipulados de formas específicas e produzem outputs específicos. Se considerarmos que os estados mentais podem ser assim definidos, então pode compreender-se que um estado mental, embora tenha necessariamente um qualquer suporte físico, é independente do tipo de suporte onde é implementado. A ideia era de que tal como o mesmo programa ou software pode ser implementado em sistemas operativos ou hardware diferente, da mesma forma um estado mental pode ser entendido como podendo ser implementado em suportes diferentes. No modelo computacionalista os estados mentais eram vistos apenas como manipulação de informação e eram definidos nesse sentido. O funcionalismo era atraente por permitir uma posição fisicalista sobre os estados mentais que não era reducionista nem eliminativista. A metáfora do computador permitiu pensar em estados mentais completamente materiais mas conceptualmente independentes do suporte material específico onde são implementados. Há muitas objecções ao funcionalismo computacionalista, mas a mais conhecida é a do Quarto Chinês, proposta por Searle. John Searle propôs a experiência de pensamento conhecida como o argumento do Quarto Chinês 1. A experiência consiste numa situação na qual imaginamos um sujeito que apenas fala inglês fechado num quarto com um manual sofisticado que relaciona certos caracteres chineses com outros caracteres chineses. O indivíduo pratica a manipulação destes símbolos, seguindo regras propostas num grande manual. Passado algum tempo ele é capaz de responder a mensagens enviadas pelos seus guardas chineses com tal eficácia que eles não conseguem descobrir se ele é ou não Chinês. A pergunta crucial nesta situação é a seguinte: o indivíduo fechado naquele quarto sabe ou não falar Chinês? A resposta óbvia parece ser: não. Ele apenas manipula símbolos encontrados num manual e não tem qualquer ideia do que está a dizer, logo, compreender uma língua não pode ser apenas uma simples manipulação de 1 Searle, J. (1980) Minds, brains and programs, The Behavioral and Brain Sciences, III, 3. 8
9 símbolos. O Quarto Chinês de Searle foi tradicionalmente considerado como um argumento contra o funcionalismo computacional, como não dizemos que o indivíduo fala Chinês existe uma diferença essencial nos estados mentais de um indivíduo que apenas manipula símbolos e num indivíduo que fala uma língua. O funcionalismo não é necessariamente computacional Epifenomenalismo O epifenomenalismo é a ideia de que os fenómenos mentais não têm quaisquer efeitos causais, segundo as posições epifenomenalistas, os fenómenos mentais são causados por fenómenos físicos, mas não têm efeitos causais. O epifenomenalismo é uma espécie de fisicalismo que defende então que tudo o que se passa a nível físico no cérebro acontece sem nenhuma influência dos estados mentais que nós temos, de facto, o que nós experienciamos como mental refere-se apenas a alguns estados que emergem de estados do cérebro, mas não influenciam, por sua vez, nada do que decorre no cérebro. A nossa sensação de que temos controlo sobre os nossos movimentos e acção é, segundo uma posição epifenomenalista, completamente ilusória. A motivação para as posições do tipo epifenomenalista advém do estudo da neurociência que não precisa de referir conceitos, estados ou eventos mentais, nas suas explicações. Um dos primeiros defensores do epifenomenalismo foi T. H. Huxley (1874) que comparava a consciência a um apito de uma locomotiva que acompanha o funcionamento da mesma, mas não tem qualquer efeito no mecanismo que o acompanha. O epifenomelalismo é uma forma de fisicalismo que em vez de tentar eliminar os estados mentais, defende que eles são apenas emanações de estados físicos do cérebro sem terem sobre estes quaisquer eficácia. O epifenomenalismo também está relacionado com a intuição de que vou falar mais à frente de que poderiam existir seres exactamente como nós em termos físicos, mas sem qualquer consciência os zombies apresentados por David Charlmes. 9
10 2. Consciência A consciência é um dos temas principais da filosofia da mente contemporânea. Em certo sentido, o conceito de consciência parece ser um pouco paradoxal, por um lado, é a experiência mais directa que temos, mas por outro é muito difícil dizer exactamente o que é a consciência. Uma forma comum de explicar o que se quer dizer com consciência na filosofia da mente contemporânea é que é a nossa experiência mental interior. Uma forma popularizada por Thomas Nagel de explicar o que é a consciência é dizer: a consciência é o que é para alguém ser esse alguém. Na verdade, na filosofia da mente e na ciência cognitiva, não há acordo sobre o significado de consciência. Por vezes a consciência aparece como a experiência fenomenal, no sentido de Nagel, também chamada de qualia, mas outras vezes pode incluir funções do cérebro como o processamento de informação, atenção, memória ou aprendizagem. Uma ideia comum na filosofia da mente contemporânea é dizer que estas últimas funções executadas pelo cérebro, podem ser feitas por vezes de forma consciente, mas não são necessária mente problemáticas. É neste contexto que suger o problema fácil e o problema difícil da consciência, o problema fácil seria estudar o funcionamente da memória ou da aprendizagem conscientes, o problema difícil seria estudar a consciência fenomenal ou dar uma explicação científica do que são os qualia. Qualquer teoria científica da consciência terá de explicar duas coisas: 1. Explicar a existência ela própria da consciência. 2. O carácter específico da experiência da consciência. Exemplos de questões relacionadas com o 1 são: Porque existe a consciência? Como surgiu? A consciência é física ou apenas acompanha os sistemas físicos? Até onde se estende a consciência? Os ratos têm consciência? Questões relacionadas com o 2 são: Porque é que a nossa experiência é de uma forma e não de outra? Porque vejo vermelho em vez de azul ou em vez de ouvir um som? Uma teoria da consciência teria de explicar as condições segundo as quais os processos físicos dão origem à consciência, e explicar que tipo de experiência é a experiência da consciência. 10
11 2.1. O problema fácil e o problema difícil A análise de que tipos de fenómenos fazem parte da consciência, é problemática. Como disse acima, há um acordo mais ou menos geral em distinguir entre qualia e outras funções da consciência. Os ditos qualia podem de facto acompanhar muitas outras funções da consciência. Exemplos de estados associados à palavra consciente : estar acordado, estar alerta, estar atento, introspecção, comportamento voluntário ou estar consciente de algo. Em comparação, a qualidade fenomenológica da consciência, ou os qualia, podem ser definidos como: a qualidade subjectiva da experiência. Esta qualidade subjectiva da nossa experiência pode revelar-se em todas as nossas experiências sensoriais, por exemplo, em experiências visuais a diferença entre ver bem ou ser miope, em experiências auditivas a diferença entre ouvir música ou ouvir uma pessoa a falat, em experiências tácteis a diferença entre tocar em veludo, em metal e em água, em experiências olfactivas o cheiro do lixo, do pão acabado de fazer ou de roupas com mofo, em experiências do paladar o doce, o amargo e o salgado, em geral experiências de calor, frio, muito frio, dor, comichões, etc. Todos estes tipos de sensações exprimem a qualidade subjectiva e fenomenal da nossa experiência. Para lá das experiências subjectivas sensoriais temos também qualia que acompanham a imaginação, o pensamento, sonhos, cansaço, emoções e mesmo o nosso sentimento de sermos nós prórios. A ideia de que existe um problema fácil e um problema difícil está ligada à ideia de que existem processos mentais ou psicológicos, que podem ser estudados, mas também existe uma certa qualidade subjectiva que acompanha esses estados mentais, mas que não pode ser explicada. David Chalmers, por exemplo, identifica esta diferença como a diferença entre a parte psicológica do mental e a sua parte fenomenológica: Mental Psicológico Fenomenal 11
12 O mental num sentido psicológico é aquilo que explica o comportamento quer seja consciente quer seja inconsciente e pode ser estudado pela ciência. O mental num sentido fenomenológico é a experiência consciente com uma qualitativa. Esta separação entre o psicológico e o sentido fenomenológico do mental, assim como a ideia de que podem existir estados mentais inconscientes. Para Descartes, por exemplo, era um dado que a mente era transparente para si própria, um estado mental era um estado consciente. William James, por exemplo, achava que a melhor ferramenta da psicologia era a instrospecção. Com Freud o insconsciente passou a ser identificado como causa de muitos comportamentos e passou-se a considerar que existem crenças e desejos inconscientes. O Behaviorismo, por sua vez, baniu a introspecção e passou a dizer que a psicologia só tratava de comportamentos observáveis e que o mental podia ser definido como a disposição para ter determinados comportamentos. Este desenvolvimento do estudo do mental foi afastando a ideia de que o mental ou o psicológico se define por estados internos com uma característica essencialmente fenoménica e é por essa razão que na filosofia da mente contemporânea se distingue entre o mental psicológico e o mental fenomenal. A ideia então defendida é que a consciência num sentido psicológica não causa nenhum problema especial e o seu estudo científico pode ser levado a cabo pela ciência cognitiva através da utilização de vários métodos. Exemplos de estados mentais no sentido psicológico que podem ser estudados pela ciência: estados que podem ser acedidos por introspecção, estados que podem ser relatados, atenção, memória, controlo voluntário sobre a acção, raciocínio, respostas emocionais, etc. Estas noções são essencialmente funcionais, têm aspectos fenomenológicos, mas podem ser estudadas sem se apelar a esses aspectos. Este tipo de actividades são consciência, mas não consciência fenomenal. A consciência não fenomenal pode ser definida de várias formas, Rosenthal por exemplo define-a como pensamentos de segunda ordem sobre actividade mental de primeira ordem, Armstrong (1968) chama a consciência psicológica de self scanning mechanism, ou mecanismo auto-examinador. Este tipo de consciência não se refere à experiência fenomenal da consciência. 12
13 2.2. Qualia A ideia de que há um problema específico da subjectividade da consciência para o seu estudo científico foi expressa de uma forma singular por Thomas Nagel no seu artigo What's it Like to Be a Bat. Nesse artigo Thomas Nagel sublinha como a subjectividade da nossa experiência torna difícil, senão mesmo impossível, um estudo científico da consciência. Neste artigo, Nagel usa como exemplo a ideia de que nós podemos saber ao detalhe como funciona o sistema de orientação de um morcego, no entanto não sabemos como é para um morcego ser um morcego. Isto não significa que nós não tenhamos qualquer ideia do que é para outra pessoa ser essa pessoa, Nagel sublinha que quando melhor conhecemos uma pessoa melhor ideia temos do que é para essa pessoa ser essa pessoa. No entanto, o nosso conhecimento do que é para os outros ser eles próprios não é o tipo de conhecimento que possa ser alvo de um estudo científico, esse é o argumento principal do artigo de Thomas Nagel. Outro exemplo do problema dos qualia está no artigo de Jackson, Something about Mary. A ideia aqui é imaginar-mos uma pessoa, a Mary, que vive fechada num quarto onde tudo o que existe é a preto e branco. A Mary sabe que existem cores fora do quarto e, fascinada com o assunto das cores, estuda tudo o que há para saber sobre cores do ponto de vista físico-químico. Mary dedica-se durante tanto tempo e com tanto empenho ao estudo das cores que por fim passa a ser uma das maiores peritas sobre o assunto. A questão que se põe é a seguinte, se um dia Mary sai do quarto a preto e branco e entra no mundo exterior colorido, ao ver uma cor será que há alguma informação nova que ela está a receber ou não? A nossa intuição é a de que há algo de novo aqui. Este exemplo é semelhante ao problema de Molyneaux, Molyneaux pergunta a Locke se um homem que nasceu cego e aprendeu a reconhecer os cubos e os círculos pelo tacto, quando de reprente passa a ver, será que os consegue reconhecer visualmente também? No caso de Molyneaux a questão era a de saber se a informação adquirida através de um dos sentido é transmitida para outro, aqui a questão é de saber se um conhecimento científico físico-químico acerca de eventos sensoriais é completo ou se há uma experiência subjectiva que fica necessariamente de fora. 13
14 Um terceiro exemplo é a o conceito de zombie introduzido por David Chalmers. Um zombie é uma criatura que é igual a um ser humano, tanto fisicamente como em termos de comportamento, mas que não é consciente. Os zombies neste sentido, não são os mortos vidos que aparecem nos filmes ou dos quais se fala no vudu. Os zombies filosóficos são apenas seres idênticos em comportamento aos seres humanos normais, falam, andam etc, mas que não têm a experiência subjectiva da consciência. Um zombie pode ser fisicamente inexistente, mas a ideia é que é logicamente possível imaginar um ser desse estilo. O facto de podermos imaginar um zombie leva Chalmers e outros a defenderem que é pelo menos possível uma visão da consciência em que esta é separada do mundo físico. O impacto da experiência de pensamento dos zombies é muito discutido na literatura, mas é uma experiência que indica haver um sentido intuitivo claro em que o físico e o mental podem ser vistos separadamente, mesmo que apenas como uma possibilidade lógica. Os três exemplos acerca dos qualia que aqui referi são representativos dos principais problemas que se deparam a um estudo científico da consciência fenoménica: primeiro saber se e como é possível fazer uma investigação cientifica objectiva de um fenómeno que é essencialmente subjectivo; segundo saber se descrições a um nível físico-químico serão suficientes para explicar estados mentais fenoménicos e por fim saber se há a possibilidade de a consciência não ser um resultado necessário da nossa constituição física, o que abre a porta a outras propostas não fisicalistas sobre a consciência Subjectividade e Objectividade Searle responde primeira objecção apresentada na secção anterior, a de ser difícil ou mesmo quase impossível fazer um estudo objectivo sobre um fenómeno essencialmente subjectivo. Searle sublinha que o facto da consciência ser um fenómeno subjectivo não impede que seja compreendida. Há uma diferença essência entre subjectividade ontológica e subjectividade epistémica e entre conhecimento subjectivo e objectivo. Um individuo pode ter um conhecimento subjectivo sobre si próprio e sobre o mundo, ou pode tentar ter um conhecimento objectivo sobre o mundo e sobre si próprio. Os métodos para adquirir conhecimentos objectivos sobre a nossa experiência subjectiva, 14
15 podem ser ainda rudimentares, imagens do cérebro e outras formas de observação objectivas de experiências subjectivas podem ainda melhorar, mas isso não significa que seja impossível atingir qualquer conhecimento objectivo sobre uma experiência subjectiva. Objectividade e Subjectividade Epistémica Sujeito Objectividade Epistémica Subjectividade Epistémica Mundo Si próprio Mundo Si próprio Quando ao segundo exemplo da dificuldade das ciências fundamentais darem conta da explicação de estados objectivos fenoménicos, isso não é uma característica especial da consciência, as explicações do comportamento animal ao nível da biologia não se resumem a descrições físico-químicas dos organismos, mas isso não implica que haja explicações biológicas, por exemplo, que sejam satisfatórias e relativamente objectivas. Nós não sabemos realmente o que é ser um morcego, mas isso não impede que tenhamos o melhor e mais completo modo científico de estudar a vida dos morcegos. Será que a biologia é incompleta porque nós não conseguimos saber como é ser um morcego exactamente do ponto de vista desse morcego? Nem nenhum outro animal? No caso dos seres humanos há a vantagem aliás da comunicação verbal voluntária das nossas experiências internas que pode ser testada, por isso há mais condições de se atingir um conhecimento objectivo sobre a experiência subjectiva dos outros do que nas outras espécies. Quanto à possibilidade lógica de existirem zombies, a implicação para uma 15
16 ciência da consciência será talvez ténue, também existe a possibilidade lógica de existirem anjos, embora isso não tenha consequências para o estudo científico dos organismos que de facto existem (Chalmers fala disto ver referência). 3. Intencionalidade A intencionalidade é a característica dos estados mentais de serem estados com conteúdo, de serem estados acerca de algo. Diz-se que essa característica é exclusiva dos estados mentais e que é ela que os distingue dos estados físicos. O facto de a intencionalidade ser algo que está, por assim dizer, dirigido para o mundo leva a questionar a ideia de que o estudo interno do cérebro possa ser suficiente para explicar o mental. Se um estado mental é quase sempre intencional, então é um estado com um conteúdo externo e como tal não pode nunca ser reduzido a um estado interno do cérebro Atitudes Proposicionais Em Filosofia da Mente fala-se de atitudes proposicionais para indicar um estado mental relacional que liga uma pessoa a uma proposição. Por exemplo, se uma pessoa acredita que está a chover, diz-se que tem uma atitude proposicional em relação à proposição Está a chover. As atitudes proposicionais podem exprimir um significado verdadeiro ou falso. Por serem uma atitude isso significa que podem haver atitudes diferentes em relação à mesma proposição: pode desejar-se que esteja a chover, acreditarse que está a chover, etc. Os estados mentais intencionais são muitas o conteúdo de atitudes proposicionais, se eu acredito que está a chover, a parte de eu acreditar pode ser um estado interno do cérebro, mas a parte de estar a chover dirige-se a um fenómeno que decorre ou não no mundo exterior, nesse sentido o estado mental acredito que está a chover não pode ser compreendido olhando apenas para o conteúdo cerebral interno sem apelo ao mundo exterior. 16
17 3.2. Internalismo e Externalismo O debate ente internalismo e externalismo acerca do mental é a discussão acerca de incluirmos ou não na nossa discrição de estados mentais elementos que têm um conteúdo que está para além daquilo que se encontra na cabeça ou no cérebro. Uma das experiências de pensamento principais nesta área é a experiência de Putnam da Terra Gémea. Hilary Putnam (1926-) nos artigos "Meaning and Reference" e "The Meaning of 'Meaning' 2 apresenta a famosa experiência de pensamento da terra gémea. Esta experiência consiste essencialmente na seguinte situação: imaginem-se dois planetas semelhantes em todos os aspectos fenoménicos, ou seja, imaginem-se dois planetas que são totalmente indiscerníveis do ponto de vista da percepção qualquer homem que neles habite dois planetas que são réplicas um do outro. O primeiro planeta é a nossa Terra e o segundo a Terra Gémea. Suponha-se depois que estes dois planetas diferem apenas num pormenor micro físico na Terra a água tem a estrutura química H2O, mas na Terra Gémea a estrutura do líquido que é perceptualmente indiscernível da água da Terra é dada numa fórmula química muito complicada, a qual pode ser abreviada por XYZ. Ambos os líquidos têm comportamentos e utilizações semelhantes nas duas Terras: onde na Terra chove água, na Terra Gémea chove XYZ; onde na Terra se bebe água, na Terra Gémea bebe-se XYZ; onde nos lagos da Terra há água, nos lagos da Terra Gémea há XYZ, etc. Em seguida introduz-se um personagem, que podemos chamar "Oscar1", que é habitante da Terra, e outro personagem, que podemos chamar "Oscar2", que é habitante da Terra Gémea. Estes personagens são idênticos, molécula a molécula, são réplicas físicas exactas um do outro. Ambos falam português e usam a palavra água da mesma forma, mas referem-se a líquidos de natureza diferente. A pergunta que se põe é a de saber se a palavra "água" tem o mesmo significado na Terra e na Terra Gémea. Segundo Putnam, as intuições comuns indicam que a palavra "água" tem, num caso e noutro, significados diferentes. Quando usada por Oscar1, a palavra "água" está a referir-se a H2O e quando usada por Oscar2 "água" está a referir-se a XYZ. Se assim for, 2 Putnam, H. (1973). "Meaning and Reference, Journal of Philosophy 70, ; Putnam, H. (1974) The meaning of meaning, in Putnam, H. (1975) Philosophical Papers, vol. II, Language, Mind and Reality, Cambridge: Cambridge University Press. 17
18 visto que uma diferença de referência implica uma diferença de significado, Putnam conclui que "os significados não estão na cabeça". Ou seja, Oscar1 e Oscar2 são idênticos e os seus estados neuronais são idênticos, no entanto eles usam a palavra "água" com significados diferentes. Como tal, o estado psicológico interno e neuronal dos indivíduos não é suficiente para determinar o significado das palavras que eles utilizam. A experiência de pensamento da Terra Gémea seria um exemplo a favor de considerar que os conteúdos de estados mentais podem ir muito além do que está estritamente na cabeça. Na verdade, se as intuições de Putnam forem seguidas, podemos pensar que existe um certo tipo de essencialismo psicológico na forma como usamos a nossa linguagem, como construímos os nossos conceitos e os estados mentais que os representam. Seguindo a ideia de que existe um essencialismo psicológico, quando olhamos para um tipo natural, tendemos a postular que ele terá uma essência a ser descoberta pela ciência. Neste caso, o conteúdo do nossos estados mentais acerca de objectos desse tipo estaria ligado a algo muito mais vasto e elaborado do que seria de pensar. Outra forma de interpretar a intencionalidade é proposta por Daniel Dennett (1942- ). Segundo Dennett a intencionalidade não é uma característica intrínseca de agentes, mas é apenas uma forma de olhar e interpretar agentes, Dennett apelida isso de postura intencional 3. Dennett considera que há três formas de olhar para um objecto: a postura física, quando pensamos tratar-se de um objecto natural, a postura de design quando se trata de um artefacto que foi construído para ter uma função específica e por fim a postura intencional, quando interpretamos um objecto como tendo uma mente com desejos e objectivos que tenta realizar. Escolhemos a postura intencional quando o agente representa um certo tipo de padrão comportamental, por vezes temos uma postura intencional a coisas como carros e outros artefactos e muitas vezes com outros animais etc. A posição de Dennett é que é apenas uma postura e nada mais do que isso. No livro Darwin s Dangerous Idea 4 e em Kinds of Minds 5, Dennett diz que a intencionalidade é o resultado do processo de evolução. Nesse sentido, a intencionalidade é um caso da postura do design, embora este artefacto tenha sido desenhado através de 3 Dennett, D.C. (1987) The Intentional Stance, Cambridge, Mass.: MIT Press. 4 Dennett, D.C. (1995) Darwin s Dangerous Idea, New York: Simon & Schuster. 18
19 um processo evolutivo. Se isso for aceite, então a intencionalidade pode fazer parte da ciência natural, na medida em que podemos explicá-la usando um ponto de vista evolucionista. No entanto, visto que a intencionalidade é para Dennett algo que apenas é atribuído aos estados mentais e não algo que existe realmente, o que a teoria evolucionista vai explicar será a forma como a selecção natural escolheu este comportamento de atribuir intencionalidade a outros seres, humanos ou não humanos. 4. Outras questões 4.1. Identidade Pessoal Uma forma de pôr o problema da identidade pessoal é o da dificuldade em dizer o que faz com que uma pessoa seja a mesma pessoa mesmo com todas as mudanças que ocorrem ao longo do tempo. Um exemplo muitas vezes referido é o do Barco de Teseus. O barco de teseus é um barco, com uma tripulação, que navega no mar, e é feito de madeira. O barco vai sendo reparado e as peças substituídas uma a uma até que a certa altura já não tem nenhuma peça original, mas manteve sempre as suas funções enquanto barco, com a mesma tripulação etc. É o mesmo barco? Suponhamos também que alguém guardou todas as peças conforme foram sendo substituídas e mais tarde reconstruiu um barco com essas peças, agora há um barco original e uma cópia? Qual é o original e qual é a cópia? Há dois? Nesta experiência de pensamento a questão torna-se a de saber se a identidade desse barco depende material físico do qual o barco foi construído, ou da função do barco enquanto barco. No caso do barco podemos dizer que podemos decidir uma coisa ou outra, que depende do interesse dessa distinção, porque se está a fazer: por exemplo, se é para saber quem tem direito ao lugar na doca o que manteve a função deve ser escolhido, se para saber quem herda seria necessário ver com que direito a pessoa que usou as peças substituídas tinha para as usar etc. No caso de tentar encontrar um critério para a identidade pessoal as nossas intuições já são diferentes. Hoje em dia temos a intuição de que a nossa identidade pessoal está no cérebro, 5 Dennett, D.C. (1996) Kinds of Minds, Basic Books. 19
20 mesmo não sabendo exactamente o que é (estas experiências de pensamento podem ajudar-nos a decidir isso). Podemos imaginar se um dia a neurocirurgia avançar de tal modo que permita transplantar cérebros, nós manteríamos a nossa identidade pessoal num novo corpo. Dennett apresenta uma experiência de pensamento no artigo Where am I? onde decorre a seguinte história: imaginemos que o governo dos Estados Unidos pede a Dennett para desactivar uma bomba radioactiva que só ataca o cérebro, por essa razão põem o cérebro numa cuba com fios. O corpo de Dennet morre, mas arranjam um novo corpo que fica em contacto com o cérebro. Aqui o essencial de Dennet parece manter-se. Mas se pouco a pouco se for transferindo informação do cérebro para um computador e no fim nem o corpo de Dennett nem o cérebro são originais, mantém-se a identidade de Denett. Que critérios devemos ter para identidade pessoal? Searle, por exemplo, propõe uma noção de identidade pessoal em que há quatro critérios principais e em que uma pessoa que os cumpre a todos manteve a sua identidade pessoal e uma que não os cumpra a nenhum, não a mantém. Uma pessoa que tenha apenas alguns mantém essa identidade com um grau menor, etc. Os critérios propostos por Searle são os seguintes: 1) Continuidade do corpo espácio-temporal; 2) Continuidade temporal relativa de estrutura; 3) Memória e 4) Continuidade de personalidade. Quanto à continuidade espácio-temporal, existe uma continuidade espácio-temporal desde que nascemos até que morremos. Embora a nossa microestrutura esteja sempre a mudar, há um traço espacial e temporal que se pode seguir ao longo da vida de uma pessoa. Isto pode ser observado do ponto de vista da terceira pessoa e não depende da nossa percepção que temos de nós próprios etc. Quando à continuidade temporal relativa de estrutura, embora a estrutura do nosso corpo mude, muda de uma forma normal para um ser humano, não acordei um dia e sou uma mosca como na Metamorfose de Kafka ou uma girafa. As alterações que o corpo sofre durante a vida são relativamente regulares e podem ser reconhecidas por terceiros. Note-se que os dois primeiros critérios são públicos, mas se queremos um privado, se eu quero ter autoridade absoluta da primeira pessoa para dizer que sim, eu sei que sou a mesma pessoa, mesmo um caso de transplante do cérebro, precisamos de critérios da primeira pessoa. O critério da memória é satisfeito segundo Searle, quando do ponto de vista da própria pessoa parece haver uma seqüencia de estados conscientes ligados pela minha capacidade de me lembrar desses estados. O critério de continuidade 20
21 de personalidade é menos importante que os outros, mas há uma relativa consistência de personalidade e disposição ao longo do tempo que faz com que eu me sinta a mesma pessoa. (exemplo se acordar amanhã a pensar que sou a princesa diana, e isso se manter, podemos dizer que não sou a mesma pessoa). Se temos as quatro características temos a mesma pessoa, se uma falha podemos discutir se é ou não a mesma pessoa. 21
22 4.2. Outras Mentes O problema das outras mentes é o problema de justificar a crença de que os outros têm mentes semelhantes à nossa, tendo em conta que não temos acesso directo a outras mentes. Um sub-problema das outras mentes é o de discutir se máquinas, computadores, robôs, extra-terrestes, bebés recem nascidos, etc, têm mente. Há duas formas de apresentar o problema das outras mentes, uma é problema epistémico de como é que eu sei que existem outras mentes; outra é o problema conceptual de saber como é que eu tenho um acesso directo à minha própria mente e não à mente dos outros, posso saber se os outros têm uma vida mental semelhante à minha. Este problema assume que existe um acesso imediato do individuo aos seus próprios estados mentais, também apelidado por vezes de transparência dos estados mentais ou acesso privilegiado. O problema conceptual das outras mentes é um desafio céptico que pode levar ao solipsismo, a posição segunda a qual só existem os meus estados mentais e nada mais, nem o mundo, nem os estados mentais dos outros etc. Há várias respostas possíveis ao problema epistémico: podemos dizer que por inferência para a melhor explicação temos razões para atribuir outras mentes aos outros seres humanos, é a melhor explicação para a semelhança de comportamentos ou podemos defender que por inferência analógica estamos justificados a apelar à semelhança entre nós e os outros, podemos concluir que os outros têm vidas mentais mais ou menos semelhantes às nossas. Quando a questão é posta do ponto de vista conceptual, muitas vezes as respostas recorrem à estratégia de analisar o conceito de mente sem recorrer ao carácter essencialmente privado desta, ligando o conceito de mente a um conceito público, como por exemplo o de acção. Esta estratégia dissolve o problema das outras mentes.exemplos de autores que usam este tipo de estratégia são Wittgestein, Strawson e Davidson. Estes definem o conceito de mente como necessariamente ligado ao conceito de acção, como tal a premissa do acesso privilegiado desaparece e o problema é dissolvido a la Wittgenstein). Mental Acção / Comportamento 22
23 Esta estratégia de ligar o mental à acção ou a um qualquer tipo de comportamento é repudiada por filósofos como Galen Strawson, Thomas Nagel e John Searle, que pretendem criar uma separação radical entre o mental/a consciência, que é privada e à qual temos acesso privilegiado (o que é ser eu, o que é ser um morcego, etc), e o comportamento. (Note-se que a atribuição de estados mentais tendo por base o comportamento leva a termos de atribuir estados mentais a robôs, computadores, etc). Mental Acção / Comportamento Assumir a privacidade do mental, mesmo que parcial, leva, como vimos ao longo deste capítulo, à questão de saber que acesso temos ao estudo da nossa própria mente e da mente dos outros, a um estudo objectivo da mente. O problema das outras mentes, embora se tenha posto tradicionalmente de forma separada, quando se dirige ao conhecimento objectivo do mental, é problema também das nossas próprias mentes, pois nós somos outras mentes para os outros. O tipo de questões apresentadas neste capítulo são de interesse não só no sentido de discussão prévia conceptual como também no desenvolvimento de uma ciência cognitiva abrangente. 23
24 Bibliografia Leituras iniciais Beakley, B. & Ludlow, P., eds. (1992) Philosophy of Mind: Classical Problems/Contemporary Issues, Cambridge, MA: MIT Press. Block, Ned (1980), Readings in the Philosophy of Psychology, Cambridge MA, Harvard University Press. Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira (Meditações Metafísicas) Rosenthal, D., ed., (1991) The Natuure of Mind, Oxford University Press. Leituras fundamentais Churchland, P.M. (1981) Davidson, D. (1970) "Mental Events", Experience and Theory, ed. L. Foster, J.W. Swanson, Amherst: University of Massachusetts Press. Field, H. (1978), "Mental Representation", Erkentniss, Jackson, F. (1986), What Mary Didn't Know, Journal of Philosophy 83: Kim, J. (1984), "Epiphenomenal and Supervinient Causation", Midwest Studies in Philosophy, Vol. 9, Mineapolis: University of Minesota Press. Lewis, D. (1980), "Mad Pain and Martian Pain", Readings in the Philosophy of Psychology, Vol. 1, ed. Ned Block, Cambridge MA: Harvard University Press. Nagel, Th., 1974, What is it like to be a bat?, Philosophical Review 83:
O diálogo entre a psicanálise e a neurociência: o que diz a filosofia da mente? Elie Cheniaux
O diálogo entre a psicanálise e a neurociência: o que diz a filosofia da mente? Elie Cheniaux As relações entre a psicanálise e a neurociência As relações entre a psicanálise e a neurociência As relações
FILOSOFIA DA MENTE CORRENTES MATERIALISTAS
FILOSOFIA DA MENTE CORRENTES MATERIALISTAS Behaviorismo analítico reação contra a tradição dualista positivistas vienenses na década de 30, e mais tarde por Gilbert Ryle, sob influência de Wittgenstein
Lógica Proposicional Parte 2
Lógica Proposicional Parte 2 Como vimos na aula passada, podemos usar os operadores lógicos para combinar afirmações criando, assim, novas afirmações. Com o que vimos, já podemos combinar afirmações conhecidas
COMENTÁRIO SOBRE O CONCEITO DE SENTIMENTO NO MONISMO DE TRIPLO ASPECTO DE ALFREDO PEREIRA JR.
COMENTÁRIO SOBRE O CONCEITO DE SENTIMENTO NO MONISMO DE TRIPLO ASPECTO DE ALFREDO PEREIRA JR. Cláudia Passos-Ferreira 1 Embora muito esforço já tenha sido dispendido na tentativa de resolver o problema
Sobre o Artigo. Searle, John, R. (1980). Minds, brains and programs. Behavioral and Brain Sciences 3(3):
Sobre o Artigo Searle, John, R. (1980). Minds, brains and programs. Behavioral and Brain Sciences 3(3): 417-457 Searle John Rogers Searle (Denven, 31 de julho de 1932) é um filósofo e escritor estadunidense,
5 Conclusão. ontologicamente distinto.
5 Conclusão Considerando a força dos três argumentos anti-materialistas defendidos por Chalmers e a possibilidade de doutrinas alternativas não materialistas, devemos definitivamente abandonar o materialismo?
DETERMINISMO E LIBERDADE NA AÇÃO HUMANA capítulo 5
DETERMINISMO E LIBERDADE NA AÇÃO HUMANA capítulo 5 O Problema do livre-arbítrio Professora Clara Gomes 1. A professora levanta o braço para indicar aos alunos que falem um de cada vez. 2. A professora
Searle: Intencionalidade
Searle: Intencionalidade Referências: Searle, John, The background of meaning, in Searle, J., Kiefer, F., and Bierwisch, M. (eds.), Speech Act Theory and Pragmatics, Dordrecht, Reidel, 1980, pp 221-232.
O que é uma convenção? (Lewis) Uma regularidade R na acção ou na acção e na crença é uma convenção numa população P se e somente se:
Convenções Referências Burge, Tyler, On knowledge and convention, The Philosophical Review, 84 (2), 1975, pp 249-255. Chomsky, Noam, Rules and Representations, Oxford, Blackwell, 1980. Davidson, Donald,
A LÓGICA EPISTÊMICA DE HINTIKKA E A DEFINIÇÃO CLÁSSICA DE CONHECIMENTO. Resumo
A LÓGICA EPISTÊMICA DE HINTIKKA E A DEFINIÇÃO CLÁSSICA DE CONHECIMENTO Autor: Stanley Kreiter Bezerra Medeiros Departamento de Filosofia UFRN Resumo Em 1962, Jaako Hintikka publicou Knowledge and Belief:
Ψ AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE OLIVEIRA
Ψ AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE OLIVEIRA DE FRADES PSICOLOGIA B 12º ANO 4º Teste Ano lectivo 2010/2011 A prova é constituída por três grupos de itens: - O Grupo I testa objectivos de conhecimento, de compreensão
Algumas considerações sobre a primeira pessoa segundo a filosofia intermediária de Wittgenstein
Algumas considerações sobre a primeira pessoa segundo a filosofia intermediária de Wittgenstein NOME DO AUTOR: Priscilla da Veiga BORGES; André da Silva PORTO. UNIDADE ACADÊMICA: Universidade Federal de
Descartes filósofo e matemático francês Representante do racionalismo moderno. Profs: Ana Vigário e Ângela Leite
Descartes filósofo e matemático francês 1596-1650 Representante do racionalismo moderno Razão como principal fonte de conhecimento verdadeiro logicamente necessário universalmente válido Inspiração: modelo
Pensamento e Linguagem: observações a partir de Donald Davidson. No nosso dia a dia nos comunicamos uns com os outros com sucesso na
Pensamento e Linguagem: observações a partir de Donald Davidson Marcelo Fischborn 1 No nosso dia a dia nos comunicamos uns com os outros com sucesso na maior parte das vezes. Pergunto a alguém que horas
O que é o conhecimento?
Disciplina: Filosofia Ano: 11º Ano letivo: 2012/2013 O que é o conhecimento? Texto de Apoio 1. Tipos de Conhecimento No quotidiano falamos de conhecimento, de crenças que estão fortemente apoiadas por
Teoria do conhecimento de David Hume
Hume e o empirismo radical Premissas gerais empiristas de David Hume ( que partilha com os outros empiristas ) Convicções pessoais de David Hume: Negação das ideias inatas A mente é uma tábua rasa/folha
É com a mente que pensamos: pensar é ter uma mente que funciona e o pensamento exprime, precisamente, o funcionamento total da mente.
A mente, sistema de construção do mundo A mente recolhe informações do ambiente e com elas cria representações. A representação não copia a informação interpreta-a. A informação em si não possui qualquer
quanto ao comportamento aprendido x herdado quanto às teorias de aprendizagem quanto ao determinismo
quanto ao comportamento aprendido x herdado: Skinner nunca se dedicou a traçar esses limites; achava que esta natureza de informação poderia ajudar muito pouco à AEC, sobretudo porque o comportamento herdado
DAVID HUME ( )
DAVID HUME (1711-1776) * Filósofo, historiador e ensaísta britânico, nasceu em Edimburgo, na Escócia, e se tornou célebre por seu empirismo radical e seu ceticismo filosófico. *Hume opôs-se particularmente
André Filipe dos Santos Coelho
1 Em que consistem os processos conativos? A conação, os processos conativos, ligam-se, por sua vez, à dimensão do fazer, das maneiras como regulamos os nossos comportamentos e acções. Esta procura compreender
I g o r H e r o s o M a t h e u s P i c u s s a
Filosofia da Ciência Realidade Axioma Empirismo Realismo cientifico Instrumentalismo I g o r H e r o s o M a t h e u s P i c u s s a Definição Filosofia da ciência é a área que estuda os fundamentos e
Grice: querer dizer. Projecto de Grice: explicar a significação em termos de intenções.
Grice: querer dizer Referências: Grice, Paul, Meaning, in Studies in the Way of Words, Cambridge (Mas.), Harvard University Press, 1989, pp 213-223. Schiffer, Stephen, Meaning, Oxford, Oxford University
Lógica Computacional. Métodos de Inferência. Passos de Inferência. Raciocínio por Casos. Raciocínio por Absurdo. 1 Outubro 2015 Lógica Computacional 1
Lógica Computacional Métodos de Inferência Passos de Inferência Raciocínio por Casos Raciocínio por Absurdo 1 Outubro 2015 Lógica Computacional 1 Inferência e Passos de Inferência - A partir de um conjunto
A AUTORIDADE DE PRIMEIRA PESSOA, NO TEMPO PRESENTE: A ESCUTA E A INTERPRETAÇÃO DA ESCUTA
A AUTORIDADE DE PRIMEIRA PESSOA, NO TEMPO PRESENTE: A ESCUTA E A INTERPRETAÇÃO DA ESCUTA Mariluze Ferreira de Andrade e Silva Laboratório de Lógica e Epistemologia DFIME - UFSJ Resumo: Propomos investigar
edelman 7/9/05 15:22 Página 19 CAPÍTULO 1 A Mente do Homem COMPLETANDO O PROGRAMA DE DARWIN
edelman 7/9/05 15:22 Página 19 CAPÍTULO 1 A Mente do Homem COMPLETANDO O PROGRAMA DE DARWIN Em 1869, Charles Darwin exasperou-se com o seu amigo Alfred Wallace, co-fundador da teoria da evolução. Tinham
PROFESSOR: MAC DOWELL DISCIPLINA: FILOSOFIA CONTEÚDO: TEORIA DO CONHECIMENTO aula - 02
PROFESSOR: MAC DOWELL DISCIPLINA: FILOSOFIA CONTEÚDO: TEORIA DO CONHECIMENTO aula - 02 2 A EPISTEMOLOGIA: TEORIA DO CONHECIMENTO Ramo da filosofia que estuda a natureza do conhecimento. Como podemos conhecer
CONTRIBUIÇÃO DAS DIFERENTES TEORIAS
CONTRIBUIÇÃO DAS DIFERENTES TEORIAS PARA A COMPREENSÃO DO PROCESSO MOTIVACIONAL 1 Manuel Muacho 1 RESUMO Compreender os motivos do comportamento humano tem sido objeto de muitas teorias. O advento da psicologia
Plano de aula PESQUISA QUALITATIVA 23/05/2018 A EVOLUÇÃO DA PESQUISA EM ENFERMAGEM. Críticas aos dados quantitativos
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto PESQUISA QUALITATIVA Profª Drª Maria Helena Pinto 2018 Plano de aula Objetivo geral - o aluno deverá conhecer em linhas gerais os pressupostos da pesquisa
Princípios e práticas da Psicologia Experimental. Ana Raquel Karkow Profa. Luciane Piccolo Disciplina Psicologia Experimental I 2011/1
Princípios e práticas da Psicologia Experimental Ana Raquel Karkow Profa. Luciane Piccolo Disciplina Psicologia Experimental I 2011/1 O que é Psicologia Experimental? Psicologia Experimental Parte da Psicologia
Frank Cameron Jackson (1943- ) (Australian National University, Canberra) Disponível online em:
O QUE MARY NÃO SABIA Frank Cameron Jackson (1943- ) (Australian National University, Canberra) Original: JACKSON, F.C. (1986), What Mary didn t know, Journal of Philosophy 83: 291-5, 148 (janeiro). Disponível
EMOÇÕES HUMANAS: UMA INTRODUÇÃO
EMOÇÕES HUMANAS: UMA INTRODUÇÃO Prof. Julian Dutra 7ª série Ensino Fundamental II Filosofia Colégio João Paulo I Unidade Sul 7 EMOÇÕES PRIMÁRIAS MEDO RAIVA NOJO DESPREZO SURPRESA TRISTEZA ALEGRIA Estas
Psicologia e Senso Comum. "... a Psicologia tem um longo passado, porém uma curta história." EBBINGHAUS
Psicologia e Senso Comum "... a Psicologia tem um longo passado, porém uma curta história." EBBINGHAUS Psicologia e Senso Comum O que é Psicologia? Como usamos o termo Psicologia? A Psicologia é recente
Lógica Computacional
Aula Teórica 1: Apresentação Departamento de Informática 14 de Fevereiro de 2011 O que é a lógica? Lógica: de que se trata? A lógica está na base do raciocínio É um processo inerentemente humano, tão básico
Resenha da obra Filosofia da mente, de Cláudio Costa.
Resenha da obra Filosofia da mente, de Cláudio Costa. Por Prof. Dr. Ana Maria Guimarães Jorge A obra Filosofia da mente, de Cláudio Costa apresenta, na introdução, um breve panorama do surgimento de estudos
Prova escrita de Psicologia Acesso ao Ensino Superior dos Maiores de 23 Anos 20 de Maio 2016
Prova escrita de Psicologia Acesso ao Ensino Superior dos Maiores de 23 Anos 20 de Maio 2016 Duração da Prova 120 minutos Nome: Classificação: Assinaturas dos Docentes: Notas Importantes: A prova de avaliação
Uma introdução ao Monismo Anômalo de Donald Davidson
Uma introdução ao Monismo Anômalo de Donald Davidson Por Marcelo Fischborn http://fischborn.wordpress.com (Universidade Federal de Santa Maria, Outubro de 2010) REFERÊNCIAS: Davidson (1917 2003) DAVIDSON,
A EPISTEMOLOGIA E SUA NATURALIZAÇÃO 1 RESUMO
A EPISTEMOLOGIA E SUA NATURALIZAÇÃO 1 SILVA, Kariane Marques da 1 Trabalho de Pesquisa FIPE-UFSM Curso de Bacharelado Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil E-mail:
Uma Teoria Fisicalista do Conteúdo e da Consciência - D. Dennett e os debates da filosofia da mente
Uma Teoria Fisicalista do Conteúdo e da Consciência - D. Dennett e os debates da filosofia da mente Publication previously assigned to the now archived group GFMC (2002-2015). Research Line: Modern & Contemporary
RESUMO. Filosofia. Psicologia, JB
RESUMO Filosofia Psicologia, JB - 2010 Jorge Barbosa, 2010 1 Saber se o mundo exterior é real e qual a consciência e o conhecimento que temos dele é um dos problemas fundamentais acerca do processo de
I. Iniciação à atividade filosófica Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar... 13
Índice 1. Competências essenciais do aluno... 4 2. Como estudar filosofia... 5 3. Como ler, analisar e explicar um texto filosófico... 7 4. Como preparar-se para um teste... 10 5. Como desenvolver um trabalho
A utilidade da lógica na lecionação do programa de Filosofia
A utilidade da lógica na lecionação do programa de Filosofia Ficha técnica: Autor/a: Faustino Vaz Título: A utilidade da lógica na lecionação do programa de Filosofia Licença de utilização Creative Commons
Indiscernibilidade de Idênticos. Atitudes Proposicionais e indiscernibilidade de idênticos
Indiscernibilidade de Idênticos Atitudes Proposicionais e indiscernibilidade de Consideremos agora o caso das atitudes proposicionais, das construções epistémicas e psicológicas, e perguntemo-nos se é
Hume e o empirismo radical
Hume e o empirismo radical Premissas empiristas de David Hume (que partilha com os outros empiristas) Não há ideias inatas A mente é uma tábula rasa/folha em branco Todo o conhecimento deriva da experiência
FILOSOFIA 11º ano O CONHECIMENTO E A RACIONALIDADE CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
FILOSOFIA 11º ano O CONHECIMENTO E A RACIONALIDADE CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA Governo da República Portuguesa Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva 1.1 Estrutura do ato de conhecer 1.2 Análise
Conceitos Básicos e História
Psicologia na Educação Aula 1 Conceitos Básicos e História Profa. Adriana Straube Nesta aula discutiremos sobre o conceito de psicologia. As origens da psicologia como ciência nascendo na Alemanha. História
Duas teorias realistas para a interpretação da semântica dos mundos possíveis
77 Duas teorias realistas para a interpretação da semântica dos mundos possíveis Renato Mendes Rocha 1 [email protected] Resumo: O discurso a respeito dos Mundos Possíveis pode ser uma ferramenta bastante
HISTÓRIA DA PSICOLOGIA
HISTÓRIA DA PSICOLOGIA De acordo com Freire (1997) página 89 em diante Continuação ao estudo da história da psicologia Prof. Ms. Elizeth Germano Mattos 1S/2018 PARTE II O DESABROCHAR DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA
Compreender a Mente e o Conhecimento
Compreender a Mente e o Conhecimento Publication previously assigned to the now archived group GFMC (2009-2015). Research Line: Modern & Contemporary Philosophy Research Group: Mind, Language & Action
PROGRAMA ANUAL DE CONTEÚDOS ENSINO FUNDAMENTAL II - 7ª SÉRIE PROFESSOR EDUARDO EMMERICK FILOSOFIA
FILOSOFIA 1º VOLUME (separata) FILOSOFIA E A PERCEPÇÃO DO MUNDO Unidade 01 Apresentação O Começo do Pensamento - A coruja é o símbolo da filosofia. - A história do pensamento. O que é Filosofia - Etimologia
O que é Realidade? 3 - Modelos Mentais (Johnson-Laird) Modelos mentais. Modelos mentais. Regra de ouro. Modelos mentais
O que é Realidade? 3 - Modelos Mentais (Johnson-Laird) A fenômenos B imagem de A (observações Estágio Curricular Supervisionado em Física II D causas? (nãoobserváveis) REALIDADE Leis, Teorias, Princípios
Interface Homem-Computador
Interface Homem-Computador Aula: O Homem e a Máquina - parte II Professor: M.Sc. Flávio Barros [email protected] www.flaviobarros.com.br Interface Homem-Computador Psicologia Cognitiva Psicologia Cognitiva
Locke ( ) iniciou o movimento chamado de EMPIRISMO INGLÊS. Material adaptado, produzido por Cláudio, da UFRN, 2012.
Locke (1632-1704) iniciou o movimento chamado de EMPIRISMO INGLÊS. Material adaptado, produzido por Cláudio, da UFRN, 2012. Racionalismo x Empirismo O que diz o Racionalismo (Descartes, Spinoza, Leibiniz)?
Trabalho sobre: René Descartes Apresentado dia 03/03/2015, na A;R;B;L;S : Pitágoras nº 28 Or:.Londrina PR., para Aumento de Sal:.
ARBLS PITAGORAS Nº 28 Fundação : 21 de Abril de 1965 Rua Júlio Cesar Ribeiro, 490 CEP 86001-970 LONDRINA PR JOSE MARIO TOMAL TRABALHO PARA O PERÍODO DE INSTRUÇÃO RENE DESCARTES LONDRINA 2015 JOSE MARIO
A TEORIA DOS ESTADOS MENTAIS DE JOHN R. SEARLE E SUAS CRÍTICAS A DANIEL DENNETT
A TEORIA DOS ESTADOS MENTAIS DE JOHN R. SEARLE E SUAS CRÍTICAS A DANIEL DENNETT Alexander Almeida Morais Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí. Aluno de Iniciação Científica Voluntária
Interface Humano-Computador
Interface Humano-Computador Aula 1.7 - Abordagens Teóricas em IHC Psicologia Cognitiva Bruno Neiva Moreno Instituto Federal do Rio Grande do Norte Campus Nova Cruz [email protected] 1/41 Conteúdo
Racionalismo. René Descartes Prof. Deivid
Racionalismo René Descartes Prof. Deivid Índice O que é o racionalismo? René Descartes Racionalismo de Descartes Nada satisfaz Descartes? Descartes e o saber tradicional Objetivo de Descartes A importância
O GRANDE RACIONALISMO: RENÉ DESCARTES ( )
O GRANDE RACIONALISMO: RENÉ DESCARTES (1596-1650) JUSTIFICATIVA DE DESCARTES: MEDITAÇÕES. Há já algum tempo que eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras,
Relacionamento Interpessoal na Auditoria: Você está preparado? Elisabeth Sversut
Relacionamento Interpessoal na Auditoria: Você está preparado? Elisabeth Sversut Você está preparado? Pense bem... Curso superior, pós-graduação, dois idiomas... Um Auditor Como qualquer outro profissional,
Lógica. Abílio Rodrigues. FILOSOFIAS: O PRAZER DO PENSAR Coleção dirigida por Marilena Chaui e Juvenal Savian Filho.
Lógica Abílio Rodrigues FILOSOFIAS: O PRAZER DO PENSAR Coleção dirigida por Marilena Chaui e Juvenal Savian Filho São Paulo 2011 09 Lógica 01-08.indd 3 4/29/11 2:15 PM 1. Verdade, validade e forma lógica
MURCHO, Desidério - Essencialismo naturalizado. Coimbra: Angelus Novus, Ltd., 2002, 100 p.
MURCHO, Desidério - Essencialismo naturalizado. Coimbra: Angelus Novus, Ltd., 2002, 100 p. I Desidério Murcho não é desconhecido no Brasil. Foi tema de comunicação apresentada no Congresso de Filosofia
Recursos. Corpo Docente. Lab. Psicofisiologia. J. Marques-Teixeira. CAEC Centro Apoio ao Estudo do Cérebro. Fernando Barbosa
Corpo Docente J. Marques-Teixeira Fernando Barbosa Recursos Lab. Psicofisiologia CAEC Centro Apoio ao Estudo do Cérebro 1 ESTRUTURA GERAL DO PROGRAMA Enquadramento Geral da Psicofisiologia Síntese dos
Comunicação no Seminário de Eco-Condução organizado pelo IMTT - 20 de Maio O Comportamento na Condução
Comunicação no Seminário de Eco-Condução organizado pelo IMTT - 20 de Maio 2009 O Comportamento na Condução Reflexões sobre a formação de uma Atitude Positiva face à Eco-condução Bom dia a todos os presentes.
O que é a Indiscernibilidade de Idênticos
O que é a Indiscernibilidade de Idênticos A nossa agenda é a seguinte Primeiro, formulamos a Lei da Indiscernibilidade de Idênticos e damos uma ideia do seu âmbito de aplicação Depois, distinguimos esse
Semiótica. Prof. Dr. Sérsi Bardari
Semiótica Prof. Dr. Sérsi Bardari Semiótica Ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer
HERMENÊUTICA E INTERPRETAÇÃO
HERMENÊUTICA E INTERPRETAÇÃO Hermenêutica e Interpretação não são sinônimos: HERMENÊUTICA: teoria geral da interpretação (métodos, estratégias, instrumentos) INTERPRETAÇÃO: aplicação da teoria geral para
CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA COGNITIVA AO ESTUDO DA APRENDIZAGEM 1. Introdução
331 CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA COGNITIVA AO ESTUDO DA APRENDIZAGEM 1 Victor Cesar Amorim Costa 2, Sérgio Domingues 3 Resumo: Várias são as teorias que se propuseram a explicar a aprendizagem. Este estudo
Nota: Este enunciado tem 6 páginas. A cotação de cada pergunta encontra- se no início de cada grupo.
PROVA PARA AVALIAÇÃO DE CAPACIDADE PARA FREQUÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR DOS MAIORES DE 23 ANOS 2014/2015 Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Licenciatura em Psicologia Componente Específica de Psicologia
EXAME NACIONAL PROVA DE INGRESSO VERSÃO 1
EXAME NACIONAL PROVA DE INGRESSO 10.º/11.º anos de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março) PROVA 714/10 Págs. Duração da prova: 120 minutos 2007 1.ª FASE PROVA ESCRITA DE FILOSOFIA VERSÃO
Pontifícia Universidade Católica Psicologia Jurídica AS FUNÇÕES MENTAIS SUPERIORES
Pontifícia Universidade Católica Psicologia Jurídica AS FUNÇÕES MENTAIS SUPERIORES REALIDADE Realidade psíquica elaborada pelo indivíduo a partir dos conteúdos armazenados na mente As vezes, usamos nossa
EDUCAÇÃO INFANTIL OBJETIVOS GERAIS. Linguagem Oral e Escrita. Matemática OBJETIVOS E CONTEÚDOS
EDUCAÇÃO INFANTIL OBJETIVOS GERAIS Conhecimento do Mundo Formação Pessoal e Social Movimento Linguagem Oral e Escrita Identidade e Autonomia Música Natureza e Sociedade Artes Visuais Matemática OBJETIVOS
PROVA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS E COMPETÊNCIAS CANDIDATOS AO ENSINO SUPERIOR DOS MAIORES DE 23 ANOS DISCIPLINA DE PSICOLOGIA
PROVA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS E COMPETÊNCIAS CANDIDATOS AO ENSINO SUPERIOR DOS MAIORES DE 23 ANOS DISCIPLINA DE PSICOLOGIA 16 de Junho de 2016 Tempo de realização da prova: 1h00 Nome completo: Nº
PROVA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS E COMPETÊNCIAS CANDIDATOS AO ENSINO SUPERIOR DOS MAIORES DE 23 ANOS DISCIPLINA DE PSICOLOGIA
PROVA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS E COMPETÊNCIAS CANDIDATOS AO ENSINO SUPERIOR DOS MAIORES DE 23 ANOS DISCIPLINA DE PSICOLOGIA 16 de Junho de 2016 Tempo de realização da prova: 1h00 Nome completo: Nº
Lógica Proposicional. 1- O que é o Modus Ponens?
1- O que é o Modus Ponens? Lógica Proposicional R: é uma forma de inferência válida a partir de duas premissas, na qual se se afirma o antecedente do condicional da 1ª premissa, pode-se concluir o seu
Quine e Davidson. Tradução radical, indeterminação, caridade, esquemas conceituais e os dogmas do empirismo
Quine e Davidson Tradução radical, indeterminação, caridade, esquemas conceituais e os dogmas do empirismo Historiografia e Filosofia das Ciências e Matemática ENS003 Prof. Valter A. Bezerra PEHFCM UFABC
Fases no processamento da informação Esquemas. Social
Cognição Social e pensamento social Cognição social Fases no processamento da informação Esquemas Copyright, 2005 José Farinha Cognição Social Definição: Processamento da informação social - pensamento
Lógica. Fernando Fontes. Universidade do Minho. Fernando Fontes (Universidade do Minho) Lógica 1 / 65
Lógica Fernando Fontes Universidade do Minho Fernando Fontes (Universidade do Minho) Lógica 1 / 65 Outline 1 Introdução 2 Implicações e Equivalências Lógicas 3 Mapas de Karnaugh 4 Lógica de Predicados
Ao término desta unidade, você será capaz de:
Aula 02 PRINCIPAIS ESCOLAS Objetivos de aprendizagem Ao término desta unidade, você será capaz de: Conhecer as principais escolas da Psicologia Compreender as principais Correntes teóricas da Psicologia.
Psicologia da Educação II Pressupostos Teóricos de Vygotsky. Profa. Elisabete Martins da Fonseca
Psicologia da Educação II Pressupostos Teóricos de Vygotsky Profa. Elisabete Martins da Fonseca Recapitulando... Em nossa última aula apresentamos as contribuições de Jean Piaget. Lançamos uma reflexão
NEUROPSICOLOGIA BÁSICA
NEUROPSICOLOGIA BÁSICA Prof. Dr. Sergio Fernando Zavarize [email protected] PLANO DE ENSINO EMENTA: Proporcionar ao aluno uma visão da Neuropsicologia como uma das áreas de abrangência
Bases Matemáticas. Como o Conhecimento Matemático é Construído. Aula 2 Métodos de Demonstração. Rodrigo Hausen. Definições Axiomas.
1 Bases Matemáticas Aula 2 Métodos de Demonstração Rodrigo Hausen v. 2012-9-21 1/15 Como o Conhecimento Matemático é Construído 2 Definições Axiomas Demonstrações Teoremas Demonstração: prova de que um
UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA. Programa da Unidade Curricular PSICOLOGIA DA ARTE E EXPRESSIVIDADE Ano Lectivo 2017/2018
Programa da Unidade Curricular PSICOLOGIA DA ARTE E EXPRESSIVIDADE Ano Lectivo 2017/2018 1. Unidade Orgânica Ciências Humanas e Sociais (1º Ciclo) 2. Curso Jazz e Música Moderna 3. Ciclo de Estudos 1º
Tópicos da História da Física Clássica
Tópicos da História da Física Clássica Descartes Victor O. Rivelles Instituto de Física da Universidade de São Paulo Edifício Principal, Ala Central, sala 354 e-mail: [email protected] http://www.fma.if.usp.br/~rivelles
SIMPÓSIO: COGNIÇÃO: RELEVÂNCIA E METAS COORDENADOR FÁBIO JOSÉ RAUEN (UNISUL)
COORDENADOR FÁBIO JOSÉ RAUEN (UNISUL) A teoria da relevância sustenta que estímulos serão mais relevantes quanto maiores forem os efeitos e menores os esforços cognitivos despendidos para processá-los.
EDUCAÇÃO INFANTIL OBJETIVOS GERAIS. Linguagem Oral e Escrita. Matemática OBJETIVOS E CONTEÚDOS
EDUCAÇÃO INFANTIL OBJETIVOS GERAIS Conhecimento do Mundo Formação Pessoal e Social Movimento Linguagem Oral e Escrita Identidade e Autonomia Música Natureza e Sociedade Artes Visuais Matemática OBJETIVOS
INDUÇÃO ULTRAFORTE: EPISTEMOLOGIA DO SUBJETIVO
INDUÇÃO ULTRAFORTE: EPISTEMOLOGIA DO SUBJETIVO Felipe Sobreira Abrahão Doutorando, HCTE UFRJ E-mail: [email protected] 1. INTRODUÇÃO A problemática do raciocínio indutivo é abordada pelos pensadores
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
TEORIA DO CONHECIMENTO E FILOSOFIA DA CIÊNCIA III 2º Semestre de 2013 Disciplina Optativa Destinada: alunos de Filosofia e de outros departamentos Código: FLF0445 Pré-requisito: FLF0113 e FLF011 Prof.
