aula MODELO DE PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO TEXTUAL
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- Luísa Alvarenga Castel-Branco
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1 MODELO DE PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO TEXTUAL METAS AS Apresentar o conceito de representação social; Explicar a dimensão cognitiva do discurso por meio da apresentação do modelo de processamento da informação textual; Apresentar a noção de elasticidade do texto por movimentos da expansão e condensação dos sentidos. OBJETIVOS Ao final desta o aluno deverá ser capaz de: reconhecer a dimensão cognitiva do discurso; reconhecer como se processam as informações de textos; e realizar os processos de expansão e condensação dos sentidos. PRÉ-REQUISITOS Conhecimento prévio sobre os conceitos de linguagem como forma de ação social, de discurso e de texto.
2 Produção e recepção de texto I INTRODUÇÃO Atualmente, diversas disciplinas das Ciências Humanas e Sociais têm demonstrado um interesse crescente no estudo do discurso. Você já sabe que o discurso é uma prática social e como tal se abre para muitos campos do saber, daí seu caráterinterdisciplinar. Dentre as muitas de suas dimensões, você estudará, nesta, a cognitiva. O estudo dessa dimensão do discurso necessitou da colaboração da Psicologia Cognitiva que, em parceria interdisciplinar com a Lingüística, pôde desenvolver um modelo de processamento textual capaz de explicar os processos de construção, desconstrução e reconstrução dos conhecimentos e valores sociais na mente humana. Nesta, você conhecerá esse modelo processador por meio da estrutura e funcionamento da memória. Esperamos que você tire proveito desse novo aprendizado e possa aproveitá-lo no aprimoramento da escrita e leitura de textos. 4
3 Modelo de processamento da informação textual Acreditamos que você não tenha tido dificuldades em com-preender a importância e a abrangência do conceito de discurso. Você viu que ele apresenta muitas interfaces: social, histórica, ideológica, cultural e política. Nesta seção, você vai estudar a interface cognitiva do discurso. A cognição diz respeito ao modo como a mente humana processa, produz e arquiva os conhecimentos na memória. São três os questionamentos básicos formulados por Schwarz (apud KOCH, 2002) para explicar os aspectos estruturais e processuais da cognição humana: REPRESENTAÇÃO SOCIAL 1. De que conhecimento o ser humano precisa dispor para poder realizar tarefas tão complexas como pensar, falar e agir socialmente? 2. Como este conhecimento está organizado e representado na memória?. Como este conhecimento é utilizado e que processos e estratégias cognitivas são postos em ação por ocasião do uso? Trataremos de um modelo de caráter interdisciplinar de compreensão do discurso, tomando por base a pesquisa desenvolvida por Kintsch & van Dijk, no período compreendido entre 1975 e Antes, porém, você tomará conhecimento do conceito de representação social, tão fundamental para o modelo a ser estudado. Vimos que não há discurso sem história e sociedade. Na fabricação da história e na construção da realidade social, há uma dimensão psicossocial do sujeito que deve ser levada em consideração. Essa dimensão, segundo Jovchelovitch (2000), envolve os saberes simbólicos que se produzem na vida cotidiana, quando agentes sociais se engajam nas práticas comunicativas da esfera pública. Tais saberes são designados representações sociais. Toda e qualquer representação social sempre ocupa o lugar de alguma coisa, re-apresenta alguma coisa. Está radicada nas reuniões públicas, nos bares, nas ruas, nos meios de comunicação, nas instituições sociais e assim por diante. Este é o espaço onde as repre- 5
4 Produção e recepção de texto I sentações sociais se incubam, sedimentam e são transmitidas. Enquanto fenômeno, elas expressam, em sua estrutura interna, permanência e diversidade, tanto a história como realidades atuais. Assim, as representações sociais contêm em si não só resistência à mudança como também sementes de mudança. A resistência à mudança se expressa pelo peso da história e pela tradição. As sementes de mudança são encontradas no meio essencial das representações sociais, notadamente quando produzimos textos orais ou escritos em situações de comunicação. Desse modo, você pode entender o texto como produto de um processo contínuo de diálogo, conflito e confrontação entre o novo e o velho. ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DA MEMÓRIA A memória, segundo van Dijk (1992), é um espaço mental onde as informações são processadas, armazenadas e organizadas sob a forma de conhecimentos ou saberes simbólicos. Dito de outra maneira, é nesse espaço mnemônico que se alocam as representações sociais. A estrutura da memória é formada basicamente por três compartimentos ou armazéns, que desempenham funções distintas na ordem processual da informação. Há um primeiro armazém destinado à recepção de informações: Memória de Curto Prazo (MCP). Nele, as informações são mantidas num curto lapso de tempo, pois ele tem capacidade limitada de estocagem, de 7 a 9 dígitos. Vamos entender um pouco mais sobre sua capacidade. Você sabe que os números de telefone, atualmente, possuem oito algarismos. Contudo, eles são memorizados em dois blocos, como: Cada bloco equivale a dois dígitos. O mesmo ocorre com a recepção de informações textuais. Quando conhecemos uma língua, não processamos palavra por palavra, mas segmentos textuais, que podem equivaler a uma oração ou a um período. O segundo armazém destina-se à estocagem das informações 6
5 Modelo de processamento da informação textual recebidas, processadas e transformadas em conhecimentos. Sua função na mente humana é comparável a uma base de dados, por isso não tem capacidade limitada. Essa parte da memória é designada Memória de Longo Prazo (MLP), pois os conhecimentos nela armazenados são de longa duração e se apresentam organizados por esquemas conceituais, que representam a redução das informações recebidas na Memória de Curto Prazo (MCP). Possui ainda uma subdivisão em duas partes: Memória Social e Memória Individual ou Episódica. Adiante, Lobo frontal você conhecerá sua estrutura e funcionamento. Finalmente, o terceiro armazém destina-se ao processamento das informações propriamente dito. Ele é designado Memória Operacional ou Memória de Área de Lobo temporal Trabalho. Seu funcionamento assim se apresenta: as informações recebidas na MCP são enviadas a esse compartimento, onde interagem com os conhecimentos ativados da MLP, de modo a passarem por processos de seleção, organização e redução. Findo o processamento, conseguimos construir proposições genéricas, que condensam os sentidos mais gerais do texto. Ainda que bastante elementar, preste atenção no exemplo a seguir: em uma consulta ao médico, o paciente relata todos os seus sintomas. Em seguida, passa por um exame clínico e por exames laboratoriais, se necessário. Finda essa seqüência de procedimentos típicos de uma consulta, o médico chega a um diagnóstico da doença. Esse diagnóstico representa a redução de todas as informações recebidas pelo médico e por ele avaliadas. Hipocampo O funcionamento da memória envolve um mecanismo complexo, que integra diversas áreas do cérebro. As principais são o hipocampo (figura acima) e os lobos frontal e temporal (figura à esquerda). Como a maior parte de nossa experiência sensorial é convertida em equivalentes de linguagem, antes de ser armazenada nas áreas de memória, a área de Wernicke desempenha papel importante fundamental no mecanismo da memória. 7
6 Produção e recepção de texto I Antes de desenvolvermos mais as subdivisões da Memória de Longo Prazo, visualize na figura abaixo a estrutura geral da memória humana: ESTRUTURA DA MEMÓRIA SOCIAL Você aprendeu, no item anterior, que a memória social, assim como a individual ou episódica, é uma das subdivisões da Memória de Longo Prazo (MLP). Aprendeu também que as informações estocadas na MLP apresentam-se organizadas e reduzidas por esquemas conceituais. Agora você vai estudar a estrutura da memória social. A estrutura desse compartimento da memória armazena três tipos de conhecimento: 1. Conhecimentos de língua: são aqueles relativos ao vocabulário e às regras gramaticais de uma dada língua. É importante ressaltar que qualquer falante nativo, mesmo o que não sabe ler nem escrever, tem armazenados, na memória social, conhecimentos do vocabulário e do funcionamento sintático da língua de uso. É óbvio que, quando desconhecemos uma língua, a possibilidade de processamento de informações tende a zero. 2. Conhecimentos de tipos de textos: são aqueles relativos à estrutura dos textos narrativos, dissertativos e descritivos. Nos processos de socialização, construímos representações da estrutura desses textos. Geralmente, a primeira que adquirimos é a forma da narrativa, visto que contar histórias é uma das primeiras ações lingüísticas da criança. 8
7 Modelo de processamento da informação textual A estrutura narrativa básica que aprendemos no convívio social pode ser, posteriormente, aprimorada na escolarização. Aqui, o que nos interessa saber é sobre a representação da estrutura elementar da narrativa. Ela é formada basicamente por uma Situação Inicial (SI), constituída por enunciados de ser ou de estado. A ela segue-se um Fazer Transformador (FT), constituído por enunciados de fazer, que transformam a situação inicial com a inserção de um problema a ser solucionado. Por último, apresenta-se uma Situação Final (SF), constituída por novos enunciados de ser ou de estado, alterados pelo fazer transformador. Exemplificamos esse tipo de conhecimento com o texto narrativo, mas o mesmo ocorre com os demais tipos textuais.. Conhecimentos enciclopédicos ou de mundo: são aqueles relativos aos acontecimentos sociais ou conceitos desvinculados de acontecimentos. Eles se organizam por esquemas conceituais, como frames e scripts. Nos primeiros, os conhecimentos formatam-se fora de uma ordem seqüencial do tempo. Diante do conceito carnaval, por exemplo, ativamos vários outros conceitos afins, como na figura a seguir: Certamente, se você tentar, poderá completar o frame com muitos outros conceitos relativos ao carnaval, que são amplamente socializados, isto é, conhecidos, sobretudo pela maior parte dos brasileiros. O im- 9
8 Produção e recepção de texto I portante é que você tenha entendido essa forma de organização dos conhecimentos de mundo. Os scripts constituem um outro modo de organização dos conhecimentos, que se estabelece por uma seqüência de ações ordenadas no tempo. Veja o exemplo de um script básico para o conceito crime : X assaltar Y (ação 1) X fugir do local (ação 2) Y chamar a polícia Z (ação ) Z capturar X (ação 4 Z prender X na cadeia (ação 5) X ser julgado por W (representante legal = juiz) (ação 6) X ser sentenciado por W (ação 7) X ser absolvido ou condenado por W (ação 8). Note que não pormenorizamos todas as ações intermediárias, como também procedemos a um recorte num dado momento do acontecimento representado. Isso significa que há ações antecedentes e subseqüentes ao recorte realizado no exemplo dado. Tanto os conhecimentos representados em frames quanto em scripts são de suma importância na produção e recepção de texto, pois, dada sua natureza sócio-histórica, esses conhecimentos são largamente compartilhados. Por essa razão, não necessitam ser explicitados em textos para que não se escreva ou se diga o óbvio. 40
9 Modelo de processamento da informação textual ESTRUTURA DA MEMÓRIA INDIVIDUAL OU EPISÓDICA Esse outro compartimento da Memória de Longo Prazo (MLP) diz respeito ao modo pelo qual interpretamos os conhecimentos da memória social por um ponto de vista individual, que depende das nossas experiências pessoais. Uma pessoa pode representar o carnaval, por exemplo, como morte, tristeza, sem que, com isso, se desfaça dos conhecimentos socializados sobre tal conceito (ver figura no item 2.1). Imagine que tal pessoa tenha vivido a experiência de morte de um ente querido durante o carnaval. Essa lembrança poderá acompanhá-la por muito tempo e assim associar-se à representação dessa festa. A estrutura da memória individual é a mesma que a da social, basta que acrescentemos à memória social os conceitos pessoais. As representações sociais têm natureza histórica, porque seu processo de sedimentação se faz ao longo dos anos, de modo lento e gradual. Elas se armazenam na memória de longo prazo, sob a forma de modelos mentais organizados por scripts ou frames. Esses modelos não são ape- CONCLUSÃO nas sociais, mas também individuais, na medida em que dependem do modo como cada indivíduo os reinterpreta, tendo em conta suas experiências pessoais. O modelo de processamento das informações assume um papel de fundamental importância nas s de produção de textos, porque desautomatiza nossa ação na escrita e na leitura, visto que tomamos consciência de todo o processo de construção de sentidos para o texto. 41
10 Produção e recepção de texto I RESUMO Nelson Rodrigues Escritor pernambucano (1912/1980). Entre os seus trabalhos mais conhecidos estão: Toda nudez será castigada (1965) e Bonitinha, mas ordinária (196). Nesta, você aprendeu como construímos e reconstruímos nossos conhecimentos por meio da apresentação do modelo de processamento de informação textual. Para tanto, tomou conhecimento das representações sociais e pôde verificar que elas são modos de conhecimentos simbólicos que se instauram em nossa memória de longo prazo, mas também são continuamente modificadas no uso discursivo da língua em situações de comunicação. Essa dinâmica do conhecimento, que oscila entre os pólos da conservação e da mudança de sentidos, é constitutiva da ação pela linguagem, visto que estamos sempre ressignificando o mundo em que vivemos. A estrutura e o funcionamento da memória desempenham um papel relevante nesse processo. Daí a pertinência de seu aprendizado nesta disciplina. ATIVIDADES Leia a frase do dramaturgo Nelson Rodrigues ( ): Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância. Lance seu comentário sobre essa frase no fórum de discussões e o compare com os comentários de seus colegas. Em seguida, agrupe de um lado os comentários concordantes e, de outro, os discordantes. Finalmente, sintetize em uma única frase as idéias comuns a cada um dos dois grupos. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Você deverá estar atento aos processos cognitivos que lhe dão a possibilidade de comparar, agrupar e reduzir as informações veiculadas. 42
11 Modelo de processamento da informação textual PRÓXIMA AULA Prezado aluno, o próximo assunto tratará das diferenças entre referência e tema, além da possibilidade de manutenção e expansão do texto. REFERÊNCIAS DIJK, Teun Adrianus van. Cognição, discurso e interação. Tradução: Ingedore V. Koch. São Paulo: Contexto, KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez,
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