Dr. Claudio Gil S. Araújo

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1 Atividade Sexual e Coração Dr. Claudio Gil S. Araújo Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Gama Filho Coordenado r do Curso de Especialização em Medicina do Exercício e do Esporte da Universidade Estácio de Sá Diretor-Médico da Clínica de Medicina do Exercício CLINIMEX Rio de Janeiro, RJ A atividade sexual faz parte do elenco de atividades que o ser humano pode se envolver ou desempenhar. Ainda que exista uma grande variabilidade entre os diversos indivíduos, grupos étnicos e culturas, pode-se dizer que tipicamente em uma sociedade ocidental, um homem ou mulher saudáveis e que tenham se casado ao redor dos 25 anos de idade deverão manter cerca de 5 a 6 mil relações sexuais completas ao longo de sua vida. Nos primeiros anos de vida conjugal a freqüência semanal gira ao redor de 4, diminuindo lentamente ao longo dos anos até chegar a uma média de duas vezes semanais quando a idade se aproxima dos 50 ou 60 anos. Em princípio não há limite de idade para que um indivíduo saudável consiga completar uma relação sexual, mas ela é muito rara após os 80 anos de idade. O uso de medicações para combater a disfunção erétil (antigamente denominada de impotência) tem ampliado consideravelmente as possibilidades sexuais dos homens mais velhos. O ato sexual envolve várias fases e não pode ser definido de uma única maneira, pois possui características bastante variadas, porém tipicamente atinge o seu clímax com o orgasmo e a ejaculação do homem. A duração da penetração também é bastante variável (por exemplo, na ejaculação precoce é inferior a dois minutos) mas tende a girar ao redor dos 7 minutos, o que aliás foi o título de um famoso livro de Irving Wallace. O comportamento biológico do homem e da mulher difere bastante nas diferentes fases da relação sexual. O homem atinge mais rapidamente a sua excitação mas a perde rapidamente após o orgasmo, enquanto a mulher tende a subir e a descer mais gradativamente. Uma curiosidade científica para você. Durante o ato sexual, até recentemente pouco se sabia da posição relativa das estruturas, porém um estudo recente feito pelo holandes Willibrord Schultz e colaboradores e publicado no British

2 Medical Journal, utilizando imagens de ressonância magnética para estudar a anatomia do coito, trouxe importantes contribuições. Por exemplo, o pênis adquire um formato de bumerangue dentro da vagina na penetração completa e o útero não aumenta de tamanho mas se eleva com a excitação feminina, assim como há um engurgitamento sanguíneo da parede anterior da vagina. A atividade sexual (AS) possui um componente físico e outro emocional, ambos estressando o sistema cardio-respiratório. Objetivamente para uma análise fisiológica e clínica, a AS pode ser classificada de diversas formas: a) quanto ao gênero: homem ou mulher b) quanto ao tipo: com ou sem coito c) quanto ao parceiro: habitual ou eventual d) quanto à posição no coito: homem-em-cima, mulher-em-cima, ambos de lado etc e) quanto à fase do ato sexual: preliminares, penetração, orgasmo e resolução Em relação ao gênero: a quase totalidade de dados fisiológicos e clínicos foi obtida em homens, provavelmente por três razões: 1) os homens tendem a morrer mais de coração do que as mulheres; 2) acredita-se que o maior esforço é desempenhado pelo homem; 3) o coito completo depende, em tese, do orgasmo masculino e não do feminino Quanto ao tipo, existem vários trabalhos com dados sobre masturbação, especialmente em mulheres, e mostram um discreto aumento das variáveis cardiovasculares freqüência cardíaca (FC) e pressão arterial (PA) ex. aumento de apenas 20 a 40 bpm na FC, mostrando a participação do sistema nervoso simpático no processo excitação e orgasmo. Quando ocorre orgasmo, há uma elevação importante dos níveis do hormônio prolactina tanto em homens como em mulheres. Quanto ao parceiro, parece haver um consenso e alguma base científica para sugerir que os níveis de demanda cardíaca são maiores quando o parceiro é eventual (por exemplo, homem tendo relações com uma amante ou com uma prostituta), provavelmente por dois motivos: 1) excitação emocional pelo arriscado ou perigoso; 2) pelo desejo de desempenhar excepcionalmente bem Quanto à posição, parece haver um aumento do gasto energético relativamente modesto para o homem ou mulher que se encontram por cima, embora isso não tenha sido uniformemente encontrado por todos os pesquisadores. Muito provavelmente isso vai depender também da condição física e da técnica propriamente dita e logicamente da duração da penetração. Quanto à fase, para o homem o pulso e a pressão aumentam progressivamente durante as preliminares e a fase inicial da penetração, chegando a um ápice durante os 10 a 15 segundos que caracterizam o orgasmo e daí rapidamente regredindo para os níveis de repouso. O comportamento na mulher, menos estudado, tende a ser mais lento, de menor magnitude e de retorno mais gradativo, especialmente na posição missionário, com a mulher por baixo.

3 Específicas: Em indivíduos jovens 20 a 35 anos de idade, a FC raramente ultrapassa 130 bpm e ainda assim por alguns segundos durante a fase de orgasmo, em um ato sexual, seja ele parcial masturbação (pelo próprio ou pelo parceiro) ou completo, isto é, com penetração e orgasmo. A demanda energética equivale a algo entre 2,5 a 3 vezes o gasto energético de repouso, o que equivale a 20 a 40% da condição aeróbica máxima de um jovem e 40 a 60% em um indivíduo de 60 anos de idade, ainda assim considerando que ela é algo intermitente e não se mantém durante todo o ato sexual nesses níveis. Isso pode ser comparado a uma caminhada leve a moderada com velocidades em torno de 60 a 80 metros ppr minuto durante 10 minutos (andar 700 metros em 10 minutos). Portanto pode considerado como um exercício relativamente leve para a maioria das pessoas saudáveis e até mesmo para a grande maioria dos cardiopatas. Como em qualquer exercício físico, existe um pequeno risco aumentado de vir a sofrer um evento cardiovascular (infarto ou morte) durante o ato sexual. Por exemplo, dados obtidos em Frankfurt mostram que de 1972 a 1992, nas 21 mil autópsias realizadas, apenas 39 óbitos ocorreram durante o ato sexual propriamente dito. Interessantemente, dos 39 casos somente tinham duas mulheres e a maioria dos homens morreram tendo relações com prostitutas e a idade média deles era superior a 60 anos. Em outro estudo americano, praticamente 1% dos infartos ocorre durante o ato sexual ou nas duas horas seguintes. Outro dado interessante vem de um estudo feito no País de Gales em uma cidade pequena do interior, no qual foram avaliados 75% dos homens das redondezas entre 45 e 59 anos de idade e após acompanha-los por 10 anos, verificou que aqueles que tinham uma maior quantidade de orgasmos semanais por ocasião da primeira consulta tinham menos infartos e mortes por doenças cardiovasculares nos dez anos subseqüentes, sugerindo que atividade sexual é benéfica para a saúde, mesmo quando outras variáveis intervenientes foram controladas (ex. tabagismo etc). Papel do Exercício Físico na proteção do evento cardiovascular durante o ato sexual Primeira pergunta: será que o teste de esforço (TE) ajuda? É possível embora incomum ter um evento cardíaco com um TE normal e recente. O TE tende a identificar anormalidades naqueles que possuem placas gordurosas extensas nos seus vasos coronarianos, todavia, muitas vezes, o evento é desencadeado por um trombo que se forma em placa pequena que se rompe em um vaso com obstrução apenas parcial. Por outro lado, um TE alterado em níveis baixos de tolerância ao esforço tendem a identificar indivíduos com maior risco. Naqueles com doença coronariana e especialmente após um evento (cirurgia de revascularização ou infarto) a realização de um TE bem-sucedido e sem anormalidades dá mais confiança ao médico para liberar a atividade sexual e aumenta a auto-confiança do paciente e principalmente do cônjuge (ele(a) deve assistir ao TE).

4 Segunda pergunta: exercício físico regular ajuda a prevenir eventos durante ato sexual? Muito provavelmente sim, pois ao aumentar a condição aeróbia, a demanda energética do ato fica proporcionalmente menos intensa e mais fácil de ser realizada. Em segundo lugar, o exercício regular tende a aumentar a flexibilidade e a força/potência muscular favorecendo as trocas de posições, as carícias e a própria penetração. Outro aspecto é a menor necessidade de remédios (alguns deles capazes de afetar o desempenho sexual) que os cardiopatas fisicamente treinados possui. Finalmente, vale destacar a maior auto-confiança que o paciente coronariopata fisicamente treinado adquire, favorecendo a sua motivação para a atividade sexual. Conclusões: alguns lances de escada sem ficar exausto, você provavelmente possui condição física para manter um ato sexual completo 3. caso já tenha tido um evento cardíaco ou saiba possuir doença coronariana procure uma orientação com seu cardiologista; para muitos, a realização de um teste de esforço e a participação em um programa de exercício supervisionado podem ser convenientes para ajudar a identificar problemas, para aumentar o desempenho físico e para restabelecer a auto-confiança 4. caso pretenda usar alguma medicação para combater disfunção erétil converse antes com seu médico ( 1. Atividade sexual regular é importante para a saúde e para a qualidade de vida, especialmente para aqueles que já sofreram um evento cardiovascular e pode até ser sinalizar uma menor mortalidade futura. 2. Há um risco mínimo de um evento durante o ato sexual, que aparentemente é pequeno mesmo para aqueles que já tiveram um evento anterior 3. O esforço, seja na masturbação ou no ato sexual, é relativamente modesto e gera alterações pequenas de FC e de PA e parece não depender muito da posição adotada no ato sexual Dicas Finais: 1. provavelmente é mais perigoso deixar de fazer sexo do que faze-lo com o(a) parceiro(a) habitual 2. se você consegue caminhar em um passo rápido por pelo menos 10 minutos ou subir

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