SOLUÇÃO ANALÍTICA E NUMÉRICA DA EQUAÇÃO DE LAPLACE
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- Ronaldo Carmona Borges
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1 15 16 SOLUÇÃO ANALÍTICA E NUMÉRICA DA EQUAÇÃO DE LAPLACE 3. Todos os dispositivos elétricos funcionam baseados na ação de campos elétricos, produzidos por cargas elétricas, e campos magnéticos, produzidos por correntes elétricas. Por sua vez, correntes elétricas se constituem de cargas elétricas em movimento. Para entender o funcionamento de dispositivos elétricos, devemos ser aptos para avaliar estes campos nestes dispositivos, e em torno deles. Isso é possível se dominarmos técnicas que nos permitam uma visualização espacial dos fenômenos. Em outras palavras, devemos ser capazes de produzir mapas de campos que descrevam o comportamento dos fenômenos elétricos. Estes mapas normalmente representam linhas de fluxo, superfícies equipotenciais e distribuições de densidades. Estes mapas nos dão informações a respeito de intensidade de campo, diferença de potencial, energia armazenada, cargas, densidades de correntes etc. A obtenção de mapas de campos é possível resolvendo-se as equações de campo já apresentadas na seção anterior. Entretanto, essas equações diferenciais possuem solução bastante complexas, e na grande maioria dos casos práticos só possuem uma solução numérica. Dedicaremos essa seção à solução da equação de Laplace, para a eletrostática, em configurações simples. O assunto é bastante complexo, e não pode ser esgotado no âmbito de um curso de graduação SOLUÇÃO ANALÍTICA DA EQUAÇÃO DE LAPLACE Vamos escrever a equação de Laplace ( V = ) em coordenadas retangulares, para o caso bidimensional: V V + = x y (16.1) Esta é uma equação diferencial a derivadas parciais de segunda ordem (possui derivadas de segunda ordem) e primeiro grau (não possui potências além da primeira). a Equação 16.1 é a maneira mais geral de se expressar a variação do potencial eletrostático V em relação à posição (x,y,z), não sendo específica a nenhum problema em particular. Em outras palavras, para se resolver um problema em eletrostática utilizando esta equação, deve-se conhecer as condições de contorno do problema. Vamos resolver a equação (16.1) utilizando o método da separação de variáveis, onde assumimos que V pode ser expresso como o produto de duas funções X e Y. Ou: onde: X é função de x, apenas, Y é função de y apenas, Substituindo 16. em 16.1, nós temos: V= XY (16.) d X d Y Y + X = dx dy (16.3)
2 16 Dividindo 16.3 por XY, teremos: 1 d V 1 d V + = (16.) X dx Y dy Desde que a soma dos três termos é uma constante, e cada variável é independente, cada termo deve ser igual a uma constante. Então, podemos escrever: X dx 1 d V 1 d V dx = a (16.5) = a X (16.6) 1 e, similarmente: d V = a Y dy (16.7) d V = a 1 Z dz (16.8) O problema agora consiste em achar a solução para cada variável separadamente (daí o nome separação de variáveis ). A solução para a equação 16.6 é: a x a x X = C e 1 + C e 1 (16.9) 1 onde C 1 e C são constantes arbitrárias, que devem ser calculadas a partir das condições de contorno. De maneira semelhante : a1jy a1jy X= C3e + Ce (16.1) Qualquer termo em 16.1 é uma solução, e a soma também é uma solução. Para verificar isso, basta substituir 16.1 em A solução geral da equação 16.1 é: a1x a1x a1jy a1jy V= (C1e + C e )(C3e + Ce ) (16.11) onde C 1, C, C 3, e C são constantes a determinar, a partir das condições de contorno do problema. As soluções também podem ser escritas nas formas de funções trigonométricas e hiperbólicas. Exemplo 16.1 Considere um capacitor de placas paralelas, de área 1 cm e distância entre as placas.1 m. a placa inferior está no potencial zero, e a placa superior no potencial 1 V. Utilizando a equação de Laplace, determine a distribuição de potencial entre as placas (desprezar o espraiamento).
3 17 solução z V = 1 V dv 1 = C dz z 1 figura Capacitor de placas paralelas Não há variação do potencial nas direções y e x, mas apenas na direção z. Portanto a equação de Laplace se reduz a: V = d V = dz Para a segunda derivada de V em relação a z ser zero, a primeira derivada deve ser igual a uma constante: y V= C1z + C Utilizando agora as condições de contorno, vamos determinar as constantes C 1 e C. Em z =, temos V =. Portanto: = + C C = Em z =.1 m, temos V = 1 V. Portanto: 1 = C. 1 C = Introduzindo os valores de C 1 e C na equação da solução: integrando:. dv dz dv C = 1 C dz = 1 V = 1 z ( V) O campo elétrico entre as placas ( E = V ) será: E = 1 a z Portanto, constante, e igual à relação V/d, como era de se esperar SOLUÇÃO REPETITIVA DA EQUAÇÃO DE LAPLACE Na seção anterior apresentamos uma solução exata para a equação de Laplace em um capacitor de placas paralelas. Trata-se, entretanto, de um problema extremamente simples. Configurações mais complexas torna a solução analítica extremamente difícil, e, em muitos casos, impossível. Nesta seção vamos apresentar um método de solução numérica da equação de Laplace (método bastante primitivo, diga-se de passagem), denominado de solução repetitiva. Para simplificar a variação na direção z não existe. Isso reduz o nosso problema a um problema de campo bidimensional: V V + = (16.1) x y O primeiro termo na equação 16. é a derivada parcial segunda de V em relação a x, isto é, a taxa de variação em relação a x da taxa de variação de V em relação a x. Idem para o º termo, em relação a y. Vamos reescrever a equação 16.1 da seguinte maneira: ( ) V x x V y = y (16.13)
4 18 Considere agora uma distribuição bidimensional de potenciais em torno de um ponto P, como é mostrado na figura 16.. Seja o potencial no ponto P igual a V, e os potenciais nos quatro pontos em torno dele iguais a V 1, V V 3 e V, conforme é mostrado. Vamos agora substituir as derivadas na equação por diferenças do tipo (V - V 1 )/ x (neste caso específico, esta é a inclinação da curva de V entre os pontos P e 1). A diferença das inclinações, dividida pela distância incremental x é aproximadamente igual a V/ x. A equação de Laplace pode agora ser reescrita como: [( ) ] ( ) [ ] [( V V ) y] [( V V ) y] V V / x V V 1 / x 3 / / x y (16.1) V 3 3 y V 1 x V x V 1 P y V Fazendo x = y, teremos: figura Construção para encontrar o potencial em P. V + V + V + V V (16.15) 1 3 V 1 ( V1 + V + V3 + V ) (16.16) Se conhecermos o potencial nos pontos 1,, 3 e, podemos calcular o potencial no ponto P de acordo com a equação Em outras palavras, o significado físico da equação de Laplace é que o potencial em um ponto é simplesmente a média dos potenciais dos quatro pontos que o circundam, a uma mesma distância. Exemplo 16. Considere a configuração Mostrada na figura A placa superior está a um potencial de V, e isolada. O perfil em forma de U está no potencial zero. Calcular a distribuição de potenciais para esta configuração, utilizando o método de solução repetitiva da equação de Laplace.
5 19 solução Gap V Gap figura Configuração do exemplo 16. O valor de V no centro do quadrado será = 1 ( V ) O potencial no centro do gap será a média aritmética entre o potencial no placa superior e o potencial nulo: + = V V V V 1 V figura º cálculo do potencial O valor do potencial no centro dos novos quadrados será: = ( V ) =.. 5 ( V ) Calculando novamente os potenciais nos quadrados internos teremos: = 7. 5 V, = 15. V = V
6 11 V V V V V figura º cálculo do potencial Os cálculos de potenciais podem prosseguir indefinidamente. quanto maior for o número de potenciais calculados por esse processo, maior será a precisão. Finalmente, a figura figura º cálculo do potencial 16.8 apresenta um gráfico com o mapeamento dos potenciais eletrostáticos. Cada linha representa um valor de potencial (3,, 15, 1, 5 e.5 V) V figura Mapeamento dos potenciais eletrostáticos Apresentamos neste capítulo dois exemplos, um com a solução analítica da equação de Laplace, outro com uma solução numérica. A solução analítica das equações de Laplace e Poisson se restringem a casos onde a geometria é bastante simples, e por isso ela não é muito utilizada. A solução numérica dessas equações é bastante comum, e métodos bastantes avançados já foram desenvolvidos. Apesar de termos realizados exemplos de eletrostática, o mesmo procedimento é realizado no caso de campos magnéticos, onde as complexidades de geometria e meios magnéticos não lineares são ainda maior.
7 111 EXERCÍCIOS 1) - Quatro placas de cm de largura formam um quadrado, conforme indicado na figura 3. se as placas são isoladas entre si, e estão submetidas aos potenciais indicados, encontre o valor do potencial nos pontos a e b, indicados na figura. 3 V gap = 1 mm a 5 cm V V 1 cm b 15 cm 5 cm 1 V figura 1 - figura do problema 1 ) - Encontre o valor do potencial V nos pontos P 1 e P da configuração abaixo. 3 cm V = 9 cm V = 1 P 1 3 cm P 9 cm 3) - Um potencial em coordenadas cilíndricas é função apenas de r e φ, não o sendo de z. obtenha as equações diferenciais separadas para R e Φ, onde V = R(r)Φ(φ), e resolva-as. A região é sem cargas.
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