O BELO NA ARTE MEDIEVAL
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- Elisa Estrada Pinheiro
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1 O BELO NA ARTE MEDIEVAL doi: /XIIjeam2013.lodenunes.oliveira26 LÓDE NUNES, Meire Aparecida 1 OLIVEIRA, Terezinha 2 Introdução O belo é o objeto de reflexão da Estética, portanto, uma inquietação filosófica que, como as demais, é atemporal e nos possibilita pensar o homem em sua totalidade e em diferentes momentos históricos. Fato considerável à nós que temos como interesse investigativo a educação na Idade Média. Assim, procuramos compreender como o homem medieval entendia o belo e em que medida ele atuava como elemento educativo na formação daquela sociedade. Essa questão justifica-se pelo fato da História da Educação ser a área de conhecimento que direciona nossas pesquisas. A proposta é decorrente do corrente uso do termo imagem para designar as criações artísticas do período substituindo o termo arte. Entendemos que isso ocorre para se evitar equívocos com relação a aplicação de arte para objetos que servem à outros propósitos que não seja a própria fruição do belo. Fato que dificulta o uso de arte com essa conotação na Idade Média porque naquele momento a arte deveria atender os propósitos de ensinar, lembrar e comover, como ficou estabelecido nos Concílios e sintetizado por Tomás de Aquino em Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo. A importância da realização dessas reflexões pode ser conferia ao fato de que a Idade Média foi um período em que teve uma grande produção imagética, a qual atuou de forma efetiva na formação daquela sociedade. Assim, estudar os assuntos referentes a arte medieval pode nos revelar muito daquela sociedade e nos fornecer importantes informações para pensarmos e entendermos nosso próprio tempo. Principalmente por que 1 UEM/PPE/UNESPAR/CNPq. 2 UEM/DFE/PPE/CNPq. 1
2 estamos vivendo um momento em que a comunicação por meio de imagens esta aumentando consideravelmente, inclusive com propósitos educativos. Nessa perspectiva, nos propomos a desenvolver duas abordagens. A primeira é conduzida pela intenção de evidenciarmos a essência da arte, ou seja, o belo. No segundo momento nos dedicamos a pensar o belo na arte medieval. Ambas asabordagens se constituem, principalmente, por meio das reflexões apresentadas por Étienne Gilson na obra Introdução às arte do belo: o que é filosofar sobre arte? 1 O belo O belo é conteúdo especifico de uma área da filosofia denominada de Estética. Apesar das controvérsias 3 com relação as abordagens que deveriam pertencer a Estética, o termo proposto por Baumgarten no século XVIII normalmente abarca todas as reflexões que se reportam ao belo. Todavia, essa não é uma tarefa tranqüila de ser realizada. Gilson nos possibilita imaginar a dimensão do problema ao mencionar que entende o conjunto das teorias de arte como uma avalanche que desabam uma após a outra. Para o autor essa área É um lamaçal onde o sábio cuidará de não por o pé (GILSON, 2010, p. 12). Assim, cuidando para não nos aproximarmos do lamaçal esclarecemos que nossa intenção é de apenas estabelecer alguns parâmetros que nos possibilite entender o que pode ser atribuído como belo artístico. Ao enunciarmos belo artístico estamos admitindo a existência de outro belo, a qual é denominado por belo natural. As duas concepções se opõem no sentido de seus criadores, um é produzido pelo homem e o outro pela natureza. As reflexões acerca desses dois conceitos remontam a Antiguidade, como nos explica Panofsky. O pensamento da Antiguidade, na medida em que fazia da arte um objeto de sua reflexão, havia desde o inicio (exatamente como o faria mais tarde o do Renascimento) justaposto ingenuamente dois temas não obstantes contraditórios: de um lado concebia-se que a obra de arte era inferior à natureza, uma vez que não fazia mais do que imitá-la, chegando, na melhor das hipóteses, a produzir sua ilusão; concebia-se, por outro lado, que a obra de arte era superior à natureza, uma vez que, corrigindo as falhas das produções naturais tomadas individualmente, ela 3 Como exemplo dessas controvérsias podemos observar a distinção que Gilson estabelece entre Estética e Filosofia da Arte em seu livro Introdução às arte do belo: o que é filosofar sobre arte?. 2
3 lhe opunha, com plena independência, uma renovada beleza. (PANOFSKY, 2000, p. 18) Face essas duas possibilidades de abordagens, direcionamos nosso olhar ao belo artístico. Todavia, esclarecemos que nossa opção não é decorrente de uma hierarquização, pois esse posicionamento seria incoerente. A beleza produzida pela natureza e pelo homem não apresenta, a nosso ver, parâmetros que possam determinar a superioridade de um sobre o outro. As reflexões sobre essa questão devem ser desenvolvidas por outro caminho, o qual se distancia de nossos interesses nesse momento. Iniciamos nossas reflexões aceitando a definição de belo apresentada por Gilson que o reconhece como [...] objeto de admiração. A palavra admirar significa voltar o olhar na direção de; admiração é reação espontânea do homem, sensibilidade e inteligência, à percepção de todo objeto cuja apreensão agrada por si mesma (GILSON, 2010, p. 28). Nesse sentido, nos ocupamos dos objetos produzidos pelo homem que causam admiração por sua própria existência e não em função de outro sentido. Essa é a noção capital das belas artes e o que, muitas vezes, impossibilita o uso do termo arte na Idade Média, uma vez que, naquele período, a produção imagética deveria estar a serviço da religião, ou de Deus, deixando o belo relegado ao segundo plano. Mas, dessa questão trataremos posteriormente, evitemos nesse momento conclusões precipitadas. Voltemos ao belo. Aceitando o conceito de belo como aquilo que causa admiração, podemos nos questionar: porque ocorre a admiração e quais os meios pelos quais a admiração chega a nós. A primeira questão pode ser pensada por meio da passagem de Panofsky que expressa o pensamento de Sócrates de que a pintura deveria ter a capacidade e obrigação de [...] na ausência de um homem cujo físico fosse irrepreensível sob todos os aspectos, de representar um corpo cuja aparência fosse bela, combinando, a partir de uma multiplicidade de corpos, o que de mais belo houvesse em cada um deles; [...] (PANOFSKY, 2000, p. 19). Identificamos nessa passagem duas questões que merecem ser comentadas. Primeiramente nos reportamos ao uso de ausência e representar. Essas duas palavras nos dão a idéia de que o belo artístico não tem compromisso com a realidade, apesar de ser constituído a partir da realidade é a imaginação do artista que possibilita a criação do belo. Um homem que possua um corpo que não tenha nada a ser objetado, pode não existir na realidade, mas essa perfeição pode existir na arte. Todavia, não é impossível 3
4 que esse homem realmente exista, portanto, essa questão nos remete ao pensamento de Aristóteles de que o compromisso da arte é com a verossimilhança e não com a verdade do fato. Gilson nos auxilia a formular essa afirmação ao dizer que o belo artístico não se compromete com a verdade, pois Quem se importa com a verdade ou a falsidade de um poema, um romance, uma tragédia, um desenho ou um quadro nos mostra? (GILSON, 2010, p. 35). A segunda questão que nos chama a atenção é que com a representação das mais belas parte do corpo de um homem ocorre a expressão da perfeição do corpo humano. Essa observação nos remete a compreensão tradicional do belo, a qual se fundamente por meio dos conceitos: integritas, forma, harmonia e claritas (brilho). A integritas refere-se a integridade do objeto, ou da representação, que deve possuir todas as partes necessárias, nada deve lhe faltar. Sobre esse conceito do belo, Gilson explica que é: A primeira condição tradicionalmente obrigatóriado belo, da parte do objeto, é que ele seja inteiro. Esta inteireza, ou integritas, consiste em que nada lhe pode faltar, que pertença à sua própria natureza, e como é precisamente o ser o que lhe poderia faltar, a integridade do objeto é idêntica ao seu ser. A mesma observação é valida para um outro nome que se dá a esta qualidade do belo no objeto, ou seja, a perfeição (integritasvelperfectio). (GILSON, 2010, p. 38) Dessa forma, podemos entender que a perfeição é determinada por usa integridade. Mas, como podemos saber se a representação está completa, ou se nada lhe falta? Essa questão só pode ser verificada por meio de um parâmetro que possibilite essa análise, o qual pode ser denominado de forma. Gilson explica que a noção da forma é uma das determinações do belo, mas ela também pode se [...] chamada de essência, ou ideia. O nome escolhido pouco importa, desde que designe claramente um tipo de noção que define, não a ideia do ser como tal, mas a ideia de um certo ser (GILSON, 2010, p. 39). A forma deve corresponder a algo particular, pois somente assim pode ser estabelecida a conexão com a totalidade da representação, que permite a identificação da perfeição. Todavia, a totalidade das partes que compõem a forma, ou a idéia, precisa ser organizada proporcionalmente, ou seja, precisa obedecer a uma harmonia. Como afirmava Plotino em Enéada (I, 6,1), a beleza é o acordo na proporção das partes entre si, e delas com o todo. Essa idéia foi adotada por Agostinho e permaneceu por toda Idade Média, como pode ser verificado por meio do uso das regras da proporção aplicadas nas criações artísticas daquele período. Contudo, mesmo o objeto atendendo as exigências de perfeição e 4
5 harmonia, para se aproximar da definição de belo como aquilo que agrada o olhar, é preciso mais uma caracteriza e, talvez, a que melhor atenda a essa definição, como podemos verificar na seguinte passagem de Gilson: Um objeto precisa de fato ser inteiro ou perfeito para simplesmente ser; e para ser uno vale dizer, pois, para ser o mesmo objeto precisa da ordem e da harmonia que a forma lhe confere; mas o seu brilho é aquilo que, nele, prende o olhar e o retém. É, pois, o fundamento objetivo de nossa percepção sensível da beleza (GILSON, 2010, p. 40) O termo brilho é aplicado como tradução de claritas, mas ele precisa ser entendido metaforicamente, pois não caracteriza exatamente uma qualidade brilhante. Gilson (2010, p. 41), ilustra essa questão mencionando que Uma paisagem cinza, cores baças, timbres surdos e palavras sussurradas podem agir sobre a sensibilidade com tanta ou mais eficácia que o brilho propriamente dito. Portanto, claritas pode estar mais relacionado com a capacidade de sensibilizar, com o sentimento que desperta do que propriamente com o brilho, ou a luz, presente no objeto. Essa reflexão da claritas como elemento que desperta a sensibilidade nos direciona à segunda questão que destacamos como importante quando pensamos o belo, ou seja, como o percebemos. A percepção do belo ocorre por meio dos órgãos dos sentidos. Nessa perspectiva, concordamos como Gilson (2010, p. 42) ao afirma que Todas as artes são objetos materiais relacionados a percepção sensível. Podendo, a arte, também, ser identificada com um sensível, seguindo a designação aristotélica para os objetos externos a nós que tem a capacidade de despertar a sensibilidade. Aristóteles explica que a sensibilidade, ou [...] a faculdade perceptiva existe, evidentemente, não em actividade, mas apenas em potência (ARISTÓTELES, 2010, p.75). Para que essa potencia venha a ser ato necessita da interferência de um objeto externo, o sensível. Em suma, a sensação que a arte propicia e que captamos pela percepção sensível é entendida como belo artístico. Essa afirmação pode ser ilustrada pela passagem em que Gilson afirma que: [...] o belo artístico se define sempre, mesmo do simples ponto de vista de sua definição nominal, como dado numa percepção sensível cuja apreensão é desejável em si e por si mesma. A percepção-tipo que se costuma citar neste caso é a visão, e já que toda percepção do belo é desejável à medida que se acompanha de prazer, os Escolásticos 5
6 definiam o belo como aquilo cuja visão dá prazer, ou antes, o que agrada à visão. (GILSON, 2010, p.31-32) Esse pensamento nos apresenta outra questão importante para pensarmos o belo, o prazer. Podemos ter prazer devido a varias ações, como, por exemplo, o prazer em comer e beber, mas o prazer proveniente da arte tem suas raízes em outros elementos, àqueles relacionados ao conhecimento. Gilson explica que: Quem nunca interrompeu a leitura de um livro de erudição, de ciência ou de filosofia para tomar fôlego, digamos, diante da carga emocional de tal leitura, certamente ignora uma das alegrias mais intensas da vida do espírito. Os prazeres da arte são deste gênero, pois estão ligados ao conhecimento que tomamos de certos objetos e ao mesmo ato por que os apreendemos. Donde a seguinte definição nominal do belo: aquilo cuja apreensão agrada em si e por si mesma (GILSON, 2010, p.33) Diante dessa questão nos reportamos as reflexões de Aristóteles em Ética a Nicomaco sobre o prazer. Para o Filosofo o prazer é um estado da alma que pode ser um indicativo do caráter, pois é em sua função que [...] praticamos más ações, e por causa da dor que nos abstemos de ações nobres. Na sequencia, Aristóteles afirma que por isso os jovens devem, desde cedo, aprenderem a se deleitarem e sofrem com as coisas que possuem essas finalidades. Essa questão é importante porque o homem tende a se aproximar das coisas que lhe proporciona prazer e a se afastar do que causa dor. Assim, cultivar o prazer proveniente da arte pode ser uma atitude que contribui para a formação moral dos homens. Tendo ficado explicito que o belo é um prazer em si mesmo e que pode ser pensado por meio da ética, nos inquietamos com a afirmação de que esse prazer esta relacionado ao conhecimento, ou mesmo do ato de conhecer. Essa questão é apresentada por Gilson (2010, p.37) em outro momento quando menciona que [...] o belo é um conhecimento desejável no próprio ato por que se apreende. Podemos deduzir que o conhecimento que a arte proporciona, ou o belo, é um conhecimento sensível, já que é proveniente dos órgãos dos sentidos. Todavia, esse pensamento pode ser refutado por meio da teoria de Platão que defende a existência do belo perfeição, bem apenas na Ideia. Com o intuito de pensarmos um ponto médio entre os dois posicionamentos recorremos a reflexão de Gilson que entende o homem como um animal dotado de sensibilidade, inteligência e [...] uma 6
7 faculdade cujo papel mediador foi muitas vezes destacado pelos filósofos: a imaginação. A imaginação é entendida, grosso modo, como uma organização de imagens mentais já existentes. Ela não cria imagens, mas presentifica algo que não é visível no momento. Isso ocorre porque a imaginação recorre à memória e torna presente o ausente. Aristóteles em Sobre a Alma deixa-nos bem claro que imaginação não é pensamento e nem percepção sensorial, mas pelo fato de fazer uso de imagens, as quais são necessárias para aação de pensar, podemos inferir que a imaginação permeia as almas sensitivas e intelectivas, agindo como um elo entre sensibilidade e a racionalidade. Essa questão pode ser relacionada com o pensamento de Gilson de que: O próprio entendimento esta em ação, portanto, na experiência do belo e a indiferença que os animais frequentemente demonstram diante das imagens artificiais parece confirmar esta observação. O homem inteiro, como sujeito que conhece intelectualmente, que imagina, age e é capaz de sentir prazer e dor e, consequentemente, desejo e repulsa -, é a condição subjetiva da apreensão do belo (GILSON, 2010, p.37-38) Dessa forma, podemos entender o belo como uma ação da imaginação que se identifica como um conhecimento que permeia os elementos sensíveis e intelectivos do homem. Fato que coloca as reflexões sobre o belo dentro de uma perspectiva da totalidade humana. Assim, encerramos nossa abordagem com as palavras de Gilson que expressam a impossibilita de pensarmos o belo por meio de uma perspectiva fragmentada. É empresa vã, portanto, tentar constituir uma filosofia da arte que apele apenas às operações da inteligência para explicar a gênese das obras que os artistas criam. Essas obras incluem, na sua estrutura e substancia, a relação do sensível com a sensibilidade e a afetividade, o que lhes há de assegurar o efeito que pretendem ter sobre o leitor, espectador ou ouvinte (GILSON, 2010, p. 42) 2 O belo na arte medieval Para abordarmos o belo na arte da Idade Média é preciso esclarecermos algumas questões para evitarmos equívocos. Primeiramente, o termo arte que aparece corriqueiramente nos textos medievais não correspondea arte enquanto objeto artístico comprometido com o belo, como vimos anteriormente. Isso ocorre porque naquele momento o conceito de arte era próximo do conceito grego de technè, ou conjunto de 7
8 regras e normas para a boa execução de uma ação. Portanto, observamos a arte aplicada a varias áreas, principalmente quando o assunto é a educação medieval. Isso porque: A Idade Média foi dominada por um sistema de educação fundado nas sete artes liberais. A lógica era uma arte na medida em que ensinava as regras e maneiras de operar na ordem do raciocínio. O acento, porém, da denominação recaía sobre o termo liberais, que designava como pertencentes ao espírito, em oposição às artes servis, associadas à noção de servidão precisamente por causa do corpo (GILSON, 2010, p. 61). Assim, para evitar confusões muitos autores usam o termo imagem no lugar de arte. Essa substituição pode ser atribuída também pelo fato de que a arte medieval foi concebida conforme os preceitos religiosos do cristianismo, que mesmo diante de embates iconoclastas, fez com que prevalecesse a arte figurativa, ou representativa. Assim, arte medieval reduz-se, quase, a imagens figurativas. Todavia, as imagens só foram aceitas pela igreja depois de seremestabelecida suas características e finalidades, as quais podem ser observada nos Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo (III,9,2,3) de Tomás de Aquino. Três foram os motivos para a introdução das imagens na Igreja. O primeiro, para instruir os incultos, que as imagens ensinam como se fossem livros. O segundo, para lembrar o mistério da Encarnação e os exemplos dos santos representado-os todo dia aos nossos olhos. O terceiro, para alimentar os sentidos de devoção, pois os objetos da visão a excitam melhor que os da audição. Essa passagem nos remete a questão central que os estudiosos da arte medieval não se sentem a vontade em usar o termo arte, ou seja, a produção imagética naquele período estava a serviço de outras questões que retirava do belo a única finalidade do objeto. Como foi explicito na passagem anterior, a aceitação da arte só foi possível ao colocá-la a serviço da instrução, da lembrança e da emoção, o que a distancia do conceito de objetos que [...] não têm nenhuma outra função imediata e primeira senão a de serem belos. Este é o seu fim próprio, sua razão de ser e, consequentemente, sua natureza (GILSON, 2010, p. 30). Dessa forma, o belo nem foi mencionado na passagem de Tomás de Aquino. Todavia, mesmo diante dessas evidencias que nos deixa receosos em usar o termo arte para a imagística medieval, entendemos que foi a presença do belo que possibilitou 8
9 sua permanência e a colocou em um papel significativo na formação do homem daquele período. A hipótese que investigamos é de que as obras que sensibilizam por meio do belo, ou seja, causam prazer relacionado ao conhecimento, podem atender mais efetivamente a função de ensinar, lembrar e comover. Iniciamos essa reflexão estabelecendo como ponto de partida a característica solicitada à arte: Igreja exigia uma imagística no interesse da instrução e da piedade dos fieis. A imagística é uma arte cujo fim, essencialmente representativo e mimético, requer do artista uma inteligência, um saber, uma técnica e talentos de imaginação e de invenção infinitamente variados (GILSON, 2010, p.153). Não vamos considerar nesse momento as habilidades do artista, mas somente as características representativa e mimética do objeto. Nessa perspectiva, a imagem deveria imitar e reproduzir cenas religiosas com o propósito de evocar a emoção dos fieis. Mas pensemos nesse processo. A arte mimética, ou poética, não tem compromisso com a verdade, apenas com o verossímil. Portanto, as representações não precisavam ser fieis aos acontecimentos, mas precisavam colocar o apreciador em contato com situações próximas à realidade para que assim, suas emoções fossem despertadas. Assim, a evocação da piedade não precisava ser necessariamente em função da cena vista, mas do que ela representa. Dessa forma, o sentimento não esta propriamente na arte, mas na sensação que o objeto pode despertar. Esse pensamento esta de acordo com os preceitos que possibilitaram a aceitação das imagens nas igrejas. A idolatria ocorre quando há adoração do objeto em si, portanto, o que deve ser lembrado e evocado ultrapassa a representação. Tomás de Aquino admite a existência de duas possibilidades de apreciação da imagem, como podemos observar: [...] o ato que se dirige a uma imagem é duplo, segundo a considere um objeto particular ou a imagem de outra coisa. A diferença desses dois movimentos é que o objeto do primeiro é a próxima coisa que representa outra, enquanto o segundo, por meio do primeiro, se endereça ao que a imagem representa. (ST, III, 2,3) Podemos entender melhor essa questão apresentada por Tomás de Aquino por meio da ilustra de Aristóteles que já havia exposto essa idéia quanto tratou da Memória e Revocação: [...] é como se contemplássemos uma figura num quadro como um retrato, por exemplo de Corisco, embora não tivéssemos visto Corisco (ARISTÓTELES, 2012, p. 79). É nesse aspecto que entendemos o belo na arte mimética, como um mediador que 9
10 possibilita, pela sensibilidade, a ativação do intelecto. Pensemos essa questão por meio da análise do detalhe da imagem Lamentação de GiottodiBondone. Figura 1: Lamentação (detalhe) Giotto di Bondone ( ) Fonte: A pintura de Giotto que desperta grande emoção no apreciador em ver uma mulher amparando em seus braços afetuosamente um homem é a representação de Maria e Cristo. Sabemos que se trata da cena em que Jesus é retirado da cruz e entregue à sua mãe. Todavia, a cena em si não expõe fatos que expressem esse momento. O corpo de Cristo não apresenta nenhuma marca de seu martírio. De acordo com o capitulo 19 evangelho de São João que descreve a morte de Cristo, um soldado romano atingiu a lateral direita, logo abaixo das costelas, com um lança, sendo esse fato, inclusive considerado, um dos motivos de sua morte. Mas, o artista ao expor justamente o lado direito ao publico não mostrou o ferimento. O mesmo pode ser notado com relação aos ferimentos que Cristo deveria ter nos pulsos devido aos pregos que o fixaram na cruz. Giotto, prefere esconder com as mãos que seguram os braços de Jesus essas marcas que são a expressão máxima do sofrimento do redentor. A mesma situação pode ser observada com relação a coroa de espinhos que o Rei dos Judeus foi crucificado. Assim, Giotto teria limpado toda a cena. As marcas da tortura, da dor e da morte foram destituídas. Todavia, essas imagens se encontram na memória do apreciador e são presentificadas tornando a apreciação estética um momento de atualização do conhecimento adquirido anteriormente. Todavia, entendemos que esse processo é induzido porque o artista conseguiu reunir em sua criação os elementos característicos do 10
11 belo. A idéia (forma ou essência) da cena foi cumprida por meio do arranjo entre todas as partes necessárias para a caracterização dos personagens enquanto homens possíveis de existirem na realidade e a expressividade necessária para evidenciar a morte e a dor que ela pode causar aos demais. Essa composição que se estabelece na devida proporção com as combinações de cores e traços fazem refletir o brilho que desperta na alma do apreciador a admiração e o prazer estético que define o belo. Face ao exposto, podemos inferir que o termo arte é usado quando o objeto tem como fim a admiração do belo, o qual é considerado por meios das qualidades de integridades, forma, harmonia e claritas. Por meio dessas qualidades a obra desperta no apreciador um prazer que pode ser denominado de experiência estética ou fruição do belo. Todavia, mesmo diante do fato das produções imagéticas durante a Idade Média serem direcionadas pelos preceitos do cristianismo e assim não se constituírem como arte de acordo sua compreensão de objeto especifico ao belo, pudemos constatar que sua ação sobre o apreciador pode ser identificado como uma experiência estética. Dessa forma, a experiência estética que a arte medieval proporcionava pode ser compreendida como eficiente ao objetivo de ensinar, lembrar e emocionar desejado naquele momento para a formação do homem medieval. REFERENCIAS: ARISTÓTELES. Sobre a alma. Obras completas de Aristóteles. Vol.III. Imprensa Nacional-Casa da Moeda: Parva Naturalia. SP: Edipro, GILSON, E. Introdução às artes do belo: o que é filosofar sobre arte. São Paulo: É realizações, PANOFSKY, E. Idea: a evolução do conceito de belo. São Paulo: Martins Fontes,
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