REACÇÕES TRANSFUSIONAIS
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- Victor Gabriel Palmeira Farias
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1 REACÇÕES TRANSFUSIONAIS As transfusões sanguíneas podem realmente salvar a vida de um animal. No entanto, o risco de possíveis reacções tem de ser tido em conta, exigindo uma monitorização intensiva nos primeiros 30 minutos de transfusão, periodo durante o qual a velocidade de transfusão deverá ser lenta. Desta forma, o risco pode ser diminuído e as reacções precocemente identificadas. A percentagem de reacções adversas em cães e gatos é, sensivelmente, 2,5 % e 2 %, respectivamente. As reacções transfusionais podem ser classificadas como imunomediadas (devidas à interacção Ac-Ag) não imuno-mediadas (devidas a contaminação, manuseamento impróprio activação de citoquinas no sangue a ser transfundido); estas últimas são independentes do estado imunológico do receptor e não necessitam de sensibilização prévia. As reacções podem, ainda, ser classificadas como agudas (durante a transfusão até pcas horas depois) retardadas (após dias semanas). As tabelas seguintes resumem os vários tipos de reacções apresentadas, o seu tratamento e métodos de prevenção.
2 REACÇÕES Agudas (minutos após início da transfusão até 48 horas depois) Retardadas Imunogénio Eritrócitos ++ (mediada por Ig G) Plaquetas e Leucócitos Proteínas plasmáticas (mediada por Ig E), anticoagulante plástico Eritrócitos Plaquetas Imuno-mediadas Sinais Hemólise intra extravascular Febre Agitação / vocalização Hemoglobinémia / Hemoglobinúria Anafilaxia / Hipotensão Apneia / Taquipneia Taquicardia / Arritmias Anúria / IRA Urticária / Prurido / Angioedema Tremores / Convulsões Choque GATOS Fase I (1 os 5 minutos após a transfusão): taquipneia, ligeira hipotensão e polipneia até fraqueza extrema, hipotensão grave, bradicardia e apneia. Fase II (recuperação): taquicardia, polipneia, hipertensão, arritmias ventric. e edema pulmonar. Febre (leve a moderada; tipicamente após 30 minutos do início da transfusão e até 12 horas depois) Febre por hemólise: sem hemoglobinémia e hemoglobinúria Febre por contaminação microbiana: sem apatia grave e menor duração Vómitos Tremores Trombocitopénia Em transfusões repetidas de plaquetas Púrpura Urticária 5-60 minutos após a transfusão Prurido Eritema Angioedema Salivação Vómitos e diarreia Dispneia Febre (-) Anafilaxia (hipotensão, fraqueza, mucosas pálidas) Ataques Hipoalbuminémia (em alergias severas) - ascite, efusão pleural e edema pulmonar Diminuição do Ht 2-5 dias após a transfusão. (GV s duram 3-5 dias, quando normalmente durariam 3 semanas no cão e 35 dias no gato) Possíveis reacções semelhantes às anteriores, mas sempre mais fracas. Isoeritrólise neonatal. Trombocitopénia (1-2 semanas após a transfusão e dura até 2 meses)
3 REACÇÕES Causas Contaminação microbiana Colheita, armazenamento e/ administração impróprios Púrpura Não imuno-mediadas ALTERAÇÕES: Sangue mais escuro, agregados de células, bolhas de ar - tempos de transfusão superiores a 4-6 horas - contaminação - sobreaquecimento - mistura com fluidos não isotónicos Agudas Hipervolémia - velocidade/volume exagerados Sobrecarga por citrato Hipotermia Microembolismo pulmonar Microagregados Agentes infecciosos do dador MAIS FREQUENTE EM: Gatos, animais jovens, cardiopatas, insuficientes renais e animais com anemia crónica Quelante do Ca 2+ sérico - transfusão rápida - insuficiência hepática - bolsas de transfusão com volume de sangue inferior à capacidade anunciada - administração de produtos frios MAIS FREQUENTE EM: Jovens, transfusão de grandes volumes de sangue e transfusões durante a anestesia ALTERAÇÕES: Sangue contaminado é mais escuro e acastanhado, podendo conter bolhas de ar e coágulos NÃO USAR Retardadas Hemossiderose Rara; encontrada em receptores com anemias hemolíticas Hiperamonémia congénitas É devida à formação de amónia durante o armazenamento dos GV s Sinais Sépsis: febre hipotensão hemólise vómitos CID Infecção Hemólise Vómitos Edema Dispneia Vómitos Edema Rinorreia serosa Quemose Dispneia/taquipneia/edema pul. reacção anafilática: na sobrecarga de volume há vasoconstrição, normo/hipertensões, pulso forte e distensão dos vasos pulm. ao Rx Tosse Taquicardia Urticária Hipocalcémia espasmos tremores vómitos arritmias ventriculares alterações no ECG - prolongamento de segmento Q-T - depressão das ondas P e T Tremores Arritmias (pricipalmente se agrava a hipotermia já induzida pelo choque) Paragem cárdio-respiratória Dispneia, taquipneia Trombose Sinais variados, dependendo do agente (vírus, bactérias, fungos e parasitas) Prevenção: não administrar eritrócitos com mais de 2 semanas de armazenamento a insuf. hepáticos.
4 TRATAMENTO Geral Parar a transfusão sanguínea. Realizar um exame físico geral, ECG e medição das pressões arteriais (se possível). Administrar medicação (em reacções moderadas e severas). Reiniciar a transfusão, a uma taxa mais baixa, após a ausência de sintomas (excepto em reacções severas). Hipervolémia Reacções não hemolíticas Geralmente é autolimitante após paragem da transfusão. Recomeçar a transfusão a uma taxa lenta após a resolução dos sintomas. Tratamento da dispneia se necessário. Dispneia Por broncoconstrição: - Oxigenioterapia - Aminofilina (5 mg/kg IV, durante 20 minutos, repetir a dose após 6 horas se necessário) Por edema pulmonar: - Furosemida (cão: 2-4 mg/kg, IV, IM; gato 1-2 mg/kg, IV, IM) - Oxigenioterapia - Aminofilina (5 mg/kg, IV, durante 20 minutos, repetir a dose após 6 horas se necessário) Reacção de hipersensibilidade (urticária, prurido, edema facial) - Prometazina (Fenergan 1-2,5 mg/cão, IV, IM, q 6h se necessário) + - Dexametasona (0,25-1 mg/kg, IV, lento durante 20 minutos) Se há choque anafilático: - Oxigenioterapia - Adrenalina 1 mg/ml (0,01-0,1 ml/kg, IV) - Fluidoterapia agressiva com NaCl 0,9 % (30 ml/kg em 20 minutos; repetir se necessário) - Prometazina (Fenergan 1-2,5 mg/cão, IV, IM, q 6h se necessário) - Ranitidina (cão: 0,5-2 mg/kg, IV; gato: 2,5 mg/kg, IV) Cimetidina (5 mg/kg, IV) - Prednisolona (5-30 mg/kg, IV em 20 minutos) - apenas após reverter hipotensão - Colóides (cães: ml/kg e gatos: 5-10 ml/kg, durante minutos) apenas se há hipotensão persistente evidência de aumento da permeabilidade vascular (hipoproteinémia, ascite, edema pulmonar efusão pleural) Poderá realizar-se nova transfusão, mas sempre com sangue de um novo dador.
5 Febre - reacção hemolítica - contaminação bacteriana - reacção a plaquetas leucócitos Toxicidade por citrato Arritmias Ataques Vómitos e Diarreias Hipocalcémia velocidade de transfusão elevada sobrevolémia Trombocitopénia retardada Leve aumento da temperatura: não necessita de tratamento. Aumento moderado a severo (> 41 ºC): - Fluidoterapia - Dipirona (cão: mg/kg, IV, IM; gato: 10 mg/kg, IV, IM) - Dexametasona (0,25-1 mg/kg, IV, lento) - Acetaminofeno (10 mg/kg, PO) - apenas em cães - Ac. acetilsalicílico (10 mg/kg, PO) - apenas em cães - Meloxicam (0,1 mg/kg, IV, IM, PO) - Gluconato de Ca %: monitorização da freq. cardíaca e arritmias (0,5-1,5 ml/kg, IV, durante 20 minutos) Tratamento da arritmia verificada. As arritmias ventriculares em gatos geralmente não necessitam de medicação. - Diazepam (0,5 mg/kg, IV, repetir a dose se necessário). Geralmente são autolimitantes, não necessitando de tratamento - Anti-H 2 quando apresenta sintomas moderados a severos: Ranitidina (cão: 0,5-2 mg/kg, IV; gato: 2,5 mg/kg, IV) Cimetidina (5 mg/kg, IV) Famotidina (0,5 mg/kg, IV, PO, SC, IM) - nunca IV em gatos - Gluconato de Ca %: monitorização da freq. cardíaca e arritmias (0,5-1 ml/kg, IV, lento durante 20 minutos) - Prednisolona (1-2 mg/kg, PO, BID, 2 semanas)
6 REALIZAR: - tipificação do dador e receptor - crossmatching CONFIRMAÇÃO: - Centrifugar um pco de sangue do dador e receptor e avaliar evidência de hemólise a nível do plasma. - Tira reactiva de urina evidenciando hemoglobinúria. - ABC Reacções hemolíticas - Fluidoterapia (cristalóides, 20 ml/kg em bólus durante 20 minutos, repetir até 3 vezes se necessário); colóides se persistência de hipotensão. - Adrenalina 1 mg/ml (0,01-0,1 ml/kg, IV) - Prometazina (1-2,5 mg/cão, IV, IM, q 6 h se necessário) - Dexametasona (0,25-0,5 mg/kg, IV lento, dose única) - Furosemida (2-4 mg/kg, IV) apenas em casos moderados a severos, de forma a manter o débito urinário; se necessário deverá continuar com o protocolo de insuficiência renal aguda. - Heparina ( UI/kg, SC, TID) como profilaxia de CID apenas em casos de hemólise severa. Se há evidência de septicémia: Cultura sanguínea do sangue dador e receptor. - Enrofloxacina (5 mg/kg, IV, BID) e cefazolina (30 mg/kg, IV, BID) - Enrofloxacina (5 mg/kg, IV, BID) e clindamicina (10 mg/kg, IV, BID) Pode ser difícil diferenciar sinais de reacção hemolítica por incompatibilidade sanguínea e sinais de choque séptico, podendo administrar-se antibiótico profilacticamente: Ampicilina (20 mg/kg, IV, q6h) Cefoxitina (20-30 mg/kg, IV, q 8 h) Monitorização: Auscultação Pressões arteriais Débito urinário Ureia, creatinina, bilirrubina Provas de coagulação Evolução da hemólise: Hematócritos Urianálises (hemoglobinúria) Nos casos de animais que necessitem de nova transfusão, deverá usarse um novo dador e fazer um pré-tratamento com anti-histamínicos, com sem corticosteróides. Estes não eliminam a possibilidade de nova reacção.
7 PREVENÇÃO DAS REACÇÕES TRANSFUSIONAIS Reacções imuno-mediadas: - Administrar o componente sanguíneo mais adequado, minimizando a exposição a Ag s externos. - Deve realizar-se tipificação sanguínea, de forma a prevenir reacções sanguíneas. - Deve realizar-se crossmatching maior e menor em determinados casos ver atrás em prova cruzada crossmatching. - O sangue DEA 1.1 positivo apenas deve ser usado em cães desse mesmo grupo. - Cães não tipificados apenas devem receber sangue DEA 1.1 negativo. - Em animais com trombocitopénia e anemia deveremos administrar sangue com maior tempo de armazenamento. Isto porque o sangue administrado contém sempre detritos celulares e células danificadas que são rapidamente absorvidas pelo sistema retículo-endotelial. Este, por sua vez, ao encontrar-se na máxima actividade, vai sequestrar plaquetas diminuindo ainda mais o seu número. Se administrarmos sangue com maior tempo de armazenamento, as plaquetas e leucócitos vão adquirindo maior capacidade de adesão aos detritos celulares e células danificadas, sendo mais facilmente removidos nos filtros dos sistemas de soro. - Regra geral, o tratamento pré-transfusional com anti-histamínicos e corticosteróides não previne as reacções transfusionais. Apenas está indicado o tratamento profilático nos casos de transfusões múltiplas e nos casos de transfusões com elevada velocidade de infusão. Deverá ser usada prometazina (1-2,5 mg/cão, IV, IM, 30 minutos antes da transfusão) e dexametasona (0,5-1 mg/kg, IV, 5-15 minutos antes da transfusão). - Em pacientes com múltiplas transfusões, deverão ser usados sangues de diferentes dadores. - Em animais com história de reacções febris recorrentes, poderá administrar-se dexametasona (0,5-1 mg/kg, IV, 5-15 minutos antes da transfusão), AINE s a doses habituais acetaminofeno (10-15 mg/kg, PO, 1 hora antes da transfusão), como forma de prevenir possíveis períodos febris após a transfusão. Reacções não imuno-mediadas:
8 - Os dadores devem ser testados contra os agentes infecciosos transmitidos por via sanguínea. - A colheita, armazenamento e administração devem ser realizados em condições assépticas. - Deverá realizar-se um flushing inicial e final do cateter com soro fisiológico. - Deve utilizar-se um sistema de infusão com filtro, de forma a eliminar micropartículas. - Não se deve exceder as 4 horas de transfusão. - Não administrar medicações soluções que contenham lactato na mesma via da transfusão. - Manter a velocidade de infusão baixa em jovens, cardiopatas com insuf. renal. De uma forma geral: - Deverá administrar-se sangue seus derivados a uma velocidade lenta nos primeiros 15 minutos. - Monitorizar as mucosas, temperatura, pulso e respiração antes da transfusão, a cada 5-10 minutos nos primeiros minutos, a cada minutos até ao final da transfusão, 1 hora após o final da transfusão e 12 horas depois. - Avalie o hematócrito imediatamente antes da transfusão, 1 hora após o final e 12 horas depois.
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