Viagens de Gulliver. Jonathan Swift

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1 Jonathan Swift Viagens de Gulliver O título original de Viagens de Gulliver, bem ao gosto da época de sua publicação (1726), é Travels into several remote nations of the world, in four parts. By Lemuel Gulliver, first a surgeon, and then a captain of several ships [Viagens a diversas nações remotas do mundo, em quatro partes. Por Lemuel Gulliver, primeiro cirurgião, depois capitão de diferentes navios]. O frontispício da primeira edição, num artifício destinado a reforçar a aparência de verdade buscada pelo texto, chega a reproduzir um retrato de seu suposto autor, Lemuel Gulliver, que teria sido gravado quando ele, natural de Redriff (atual distrito de Rotherhithe, em Londres), tinha 58 anos de idade. O autor de fato, o clérigo Jonathan Swift (Dublin, ), era um letrado que então exercia o cargo de decano da catedral de São Patrício. Swift havia se tornado conhecido do público inglês por sua atuação política e jornalística durante o governo tóri (conservador), que, a partir de 1714, fora destituído por uma ampla maioria whig (liberal). De volta à Irlanda após a derrota de seu partido, Swift provavelmente já levava consigo a ideia de compor um livro satírico à maneira das Viagens, cuja redação efetiva se deu em Por suas opiniões heterodoxas, declaradamente ofensivas aos dogmas políticos e religiosos então dominantes, Swift lançou mão da alegoria como método de codificar mensagens sobre temas sensíveis. Mesmo em panfletos destinados à polêmica pública, como quando propõe a comercialização de crianças pobres irlandesas como alimento para as classes abastadas, o criador dos yahoos utiliza uma linguagem perpassada de comicidade irônica, que torna mais palatáveis suas concepções ferinas acerca da guerra, do colonialismo e da vida em sociedade. Esse artifício fica evidente nos nomes de lugares e outras expressões das línguas estrangeiras 1

2 aprendidas por Gulliver entre os estranhos povos que visita ao longo de suas quatro viagens: Lilipute representa a Inglaterra, Blefuscu, a França etc. Por outro lado, pode-se simplesmente relevar a sátira histórica e ler o relato do aventuroso navegador inglês como uma deliciosa sucessão de viagens improváveis por terras exóticas. Por conta de sua natureza fantástica, o livro tornou-se quase instantaneamente um dos clássicos mais conhecidos da literatura inglesa. Traduzidas para muitas línguas, repetidamente adaptadas para o teatro, o cinema e a televisão, as aventuras de Gulliver pertencem ao patrimônio cultural da humanidade, embora muitas vezes se refiram a acontecimentos e personalidades históricos que somente especialistas no século xviii têm condições de identificar. 2

3 1. Qual é o nome pelo qual Gulliver se torna conhecido entre os liliputianos? Em que ocasião ele toma conhecimento dessa denominação? Por suas dimensões doze vezes maiores que as dos habitantes de Lilipute (que acarretam, portanto, um volume 1278 vezes maior), o forasteiro recebe o nome de Quinbus Flestrin o que o narrador, ainda que seus conhecimentos do idioma sejam imperfeitos, diz tratar-se literalmente de Homem-Montanha. Ele descobre seu nome entre os pequenos anfitriões quando tem acesso ao relatório sobre seus pertences encontrados pelos oficiais do imperador, que ordena uma revista por medo de que as eventuais armas de Gulliver tivessem um poder de destruição proporcional a seu tamanho. (primeira parte, capítulo ii) 2. Que itens os liliputianos encontram nos bolsos do estrangeiro? Quais deles são confiscados? Os oficiais Clefren Frelock e Marsi Frelock fazem um relatório pormenorizado dos achados: um pedaço de pano grosseiro (um lenço) no bolso direito da jaqueta, e um enorme Baú de Prata com um pó negro dentro (o recipiente de rapé) no bolso esquerdo. No colete, um Maço prodigioso de substâncias brancas e finas [...] cobertas de Sinais negros (as folhas do diário de Gulliver) e uma máquina com vinte Postes compridos (um pente). Nos bolsos das calças, os Frelock encontram pilares de ferro oco (pistolas), pedaços redondos de metal coloridos (moedas) e chapas de aço que, com razão, julgam serem máquinas perigosas (faca e navalha). Finalmente, encontram preso a uma corrente uma espécie de Globo, metade de Prata e metade de algum Metal transparente (o relógio), a cimitarra e a munição de Gulliver. Apenas estes últimos e as pistolas são 3

4 confiscados, e Gulliver ainda salva da inspeção diversos itens de seus bolsos secretos. (primeira parte, capítulo ii) 3. Quais são as origens da guerra entre Blefuscu e Lilipute, na qual Gulliver acaba se vendo obrigado a tomar partido? As hostilidades tiveram origem na controvérsia sobre qual extremidade dos ovos deve ser quebrada antes que eles sejam ingeridos. Certa vez, o herdeiro de um antigo imperador de Lilipute cortou-se ao quebrar a extremidade maior, o que resultou num édito que obrigava todos os súditos a quebrar a extremidade menor. O povo então se revoltou, desencadeando uma guerra civil incentivada pelas autoridades de Blefuscu, interessadas em agravar as dificuldades da potência rival. Segundo os habitantes de Blefuscu, a ofensa aos Extremidade-Grandistas seria uma afronta grosseira a seu deus e a seus costumes, e por conta disso a guerra entre os dois países já dura trinta e seis Luas. (primeira parte, capítulo iv) 4. No final de sua permanência em Lilipute, Gulliver cai em desgraça junto à corte. Quais são as acusações que lhe são feitas e que penas são propostas pelo Conselho do Império? Movidos pelo ciúme e pela inveja em relação ao sucesso do Homem-Montanha na guerra contra Blefuscu e entre suas próprias mulheres, alguns membros do governo se põem a intrigá-lo junto aos juízes e ao imperador. Afinal, uma legislação especialmente concebida para puni-lo é redigida com base em sua atuação na extinção do incêndio no palácio real, em cujo interior o ato de urinar é considerado infame; em sua recusa de exterminar completamente as forças navais de Blefuscu; em seu comportamento excessivamente amistoso entre os embaixadores da potência estrangeira, quando de sua missão de paz; e, finalmente, em sua intenção de fazer uma viagem não autorizada até Blefuscu. Advertido por um conselheiro amigo, Gulliver fica sabendo que foi condenado à cegueira pelo Conselho, que se decidiu por essa pena misericordiosa após considerar diversas torturas com venenos e flechas, a execução pura e simples e a morte por inanição. (primeira parte, capítulo vii) 5. Na segunda viagem, Swift inverte a hipérbole da sátira, e Gulliver se vê reduzido a um tamanho doze vezes menor que o de seus anfitriões de Brobdingnag. O medo dos cavalos do imperador de Lilipute diante 4

5 do Homem-Montanha é ecoado pelo medo que Gulliver sente diante de que animais na casa do fazendeiro? Gulliver é convidado a almoçar com o gigantesco fazendeiro e sua família. Durante a refeição em que só é capaz de comer pequenos farelos da comida de seus anfitriões, o viajante tem uma reação de terror parecida com a dos cavalos liliputianos ao ver o gato e os cachorros da casa, do tamanho de elefantes. Contudo, é o pequeno filho do fazendeiro que quase o mata, arrebatando-o das mãos da mãe e colocando-o na boca. (segunda parte, capítulo i) 6. Na descrição do país de Brobdingnag, o autor faz referência à necessidade de corrigir os mapas do noroeste da América, região ainda inexplorada na época. A que episódio da viagem a Lilipute essa passagem faz referência? Por seu tamanho privilegiado, segundo o artigo oitavo do documento imperial que lhe concedeu a liberdade, Gulliver deveria colaborar com o mapeamento dos domínios do imperador de Lilipute por meio da contagem de seus passos ao longo da costa. Em Brobdingnag, o mesmo procedimento é repetido para estimar sua localização, mas dessa vez Gulliver anda sobre um mapa do rei. (segunda parte, capítulo iv) 7. Para instruir-se, o rei de Brobdingnag pede que seu pequeno visitante lhe explique o funcionamento da sociedade inglesa. Qual é o julgamento dele no final da exposição de Gulliver? Ao longo de cinco audiências, Gulliver elogia nos termos mais elevados as instituições e os governantes da Inglaterra, chegando a ocultar alguns de seus defeitos. Entretanto, no fim de sua fala, o rei, por meio de perguntas bem direcionadas, demole todas as afirmações elogiosas, concluindo que o vício, a torpeza, o crime e a injustiça são as verdadeiras forças motrizes do país dos ingleses. Gulliver, entre irônico e ofendido, atribui o evidente engano do rei ao exotismo de sua formação intelectual e à falta de informações sobre os verdadeiros avanços da Europa. (segunda parte, capítulo vi) 8. Os habitantes de Brobdingnag concentram seu saber singular em que tipos de ciências? Imersas em sua visão de mundo limitada, como são escritas as leis do reino? COs gigantes não possuem qualquer propensão para Ideias, 5

6 Entidades, Abstrações e Transcendentais, focando somente conhecimentos práticos que possibilitem a melhoria da vida real. Mesmo a matemática é empregada apenas para cálculos relacionados às artes mecânicas. Em Brobdingnag, nenhuma lei pode ser escrita com mais de 22 letras, número que também é o de caracteres do alfabeto local fato que demonstra a natureza essencialmente simples e direta da sociedade dos gigantes. (segunda parte, capítulo vii) 9. Depois de exagerar a pequenez e o gigantismo dos estrangeiros visitados por Gulliver nas duas primeiras viagens, qual é a característica que o autor ressalta nos laputianos? Habitantes de uma ilha voadora cuja posição relativa à Terra indica sua índole desligada dos assuntos cotidianos, os laputianos se caracterizam pela extrema concentração em suas elucubrações mentais. Todas as suas atividades, discursos e mesmo alimentos fazem referência a ideias e conceitos abstratos. Entre eles, a matemática e a música são as ciências mais desenvolvidas na verdade, as únicas ciências relevantes e são empregadas apenas para o puro deleite do intelecto, a ponto de suas habitações serem construídas em ângulos inclinados para evitar a obviedade dos ângulos retos. Chega a tal extremo a falta de atenção dos laputianos ao mundo exterior que, para atividades indispensáveis como andar e conversar, eles contam com a ajuda de batedores, profissionais encarregados de despertálos dos devaneios da razão com pequenas batidas no rosto e no corpo. (terceira parte, capítulos i-ii) 10. Qual a origem da diferença entre a suntuosidade de Laputa e a pobreza de Balnibarbi e Lagado? Hospedado pelo senhor Munodi, ex-governador de Lagado, Gulliver aprende que a desgraça material de Balnibarbi se deve ao fato de que, quarenta anos antes, seus habitantes haviam ido a Laputa e se encantado com a ideia de construir embaixo uma sociedade inspirada nas abstrações concebidas acima. Daí surgira a ideia de instituir em Balnibarbi uma Academia de Projetistas responsável por todo tipo de novos conceitos revolucionários sobre a lavoura, as construções e a sociedade. Entretanto, nenhuma das novas maravilhas projetadas havia sido terminada, e as pessoas abandonaram-se ao desespero na esperança de que as coisas se resolvessem por si, segundo novos projetos mirabolantes. Desse modo, apenas conservadores 6

7 como Munoldi ainda podiam exibir uma aparência de limpeza e prosperidade. (terceira parte, capítulo iv) 11. Qual é a principal habilidade do governador de Glubbdubdrib? Como Gulliver se vale dela? A carta do guarda-caça apresenta uma longa reflexão sobre a frajá em Maldonada, enquanto espera o transporte para o Japão, Gulliver faz uma curta visita ao soberano daquela ilhota, que espanta o visitante com sua habilidade de tornar visível qualquer pessoa morta, escravizando-a por um dia. Assim, desejando divertir-se com Cenas de Pompa e Magnificência, Gulliver pede ao governador que materialize Alexandre, o Grande, em plena batalha, no que é atendido. Em seguida, a comparação dos tribunos e governantes modernos com os grandes vultos da história romana faz o viajante inglês lamentar a torpeza dos atuais representantes do povo. Gulliver em seguida se põe a confrontar, com grande diversão, os filósofos antigos com seus comentadores, revelando as mentiras e falsas interpretações destes últimos. O artifício de assistir à história passar diante de seus olhos também leva o narrador a questionar seriamente a pureza das linhagens nobres governantes em seu país e na Europa, enxergando as mais torpes traições de suas mulheres com serviçais, bandidos e demais desqualificados. (terceira parte, capítulos vii-viii) 12. Gulliver expõe aos habitantes de Luggnagg os diversos benefícios de ser imortal como os struldbruggs vantagens naturais que, segundo acredita, deveriam ser reconhecidas com a eleição de alguns imortais para a corte e o conselho do reino. Como seus argumentos são rebatidos pelos luggnaggianos? Segundo Gulliver, o imenso conhecimento adquirido por um imortal ao longo dos séculos seria de incalculável valia para o progresso das ciências, da história e da política. Tal sábio teria muito a oferecer a seus semelhantes mortais, orientando-os segundo as fabulosas aprendizagens acumuladas e a sabedoria progressivamente aperfeiçoada. Contudo, os luggnaggianos que o ouvem, pertencentes às camadas mais instruídas, põem-se a zombar de suas opiniões e explicam que a imortalidade é entre eles considerada um fardo terrível. Os struldbruggs não permanecem eternamente jovens, como pensa Gulliver, mas se degeneram física e mentalmente do modo mais repulsivo, tornando-se velhos decrépitos imortais; por isso, seus bens 7

8 lhe são confiscados aos oitenta anos e eles são abandonados à própria sorte. Essa revelação faz o narrador deixar de cobiçar a vida eterna. (terceira parte, capítulo x) 13. Na última parte de suas viagens, já capitão, Gulliver é abandonado na terra dos yahoos e houyhnhnms pela tripulação de seu novo navio após um motim. Que artifício satírico o autor emprega dessa vez? As oposições entre grande/pequeno, instruído/néscio, mortal/ imortal que determinam as três partes anteriores dão origem a uma inversão entre homem e animal: no país dos cavalos, os humanos é que são os servos. Contudo, como o autor demonstra ao longo de toda a quarta viagem, os houyhnhnms possuem uma nobreza de caráter e uma bondade muito superior à natureza bruta dos yahoos, humanos em estado decaído. (terceira parte, capítulos i-ii) 14. O que leva os cavalos a entender que Gulliver é uma espécie de yahoo evoluído? Apesar de sua semelhança física com os yahoos, Gulliver possui a curiosa habilidade de raciocinar e expressar-se numa linguagem coerente. Entretanto, sua condição inferior à dos cavalos é denunciada por suas roupas. Certa vez, ao ser surpreendido nu enquanto dormia por um criado da casa, o viajante confessa que as roupas não fazem parte de seu corpo. Seus senhores então concluem que ele é apenas um yahoo sem muitos pelos e garras proeminentes. A atração de uma fêmea yahoo por Gulliver também é apontada como prova cabal de sua triste condição humana. (quarta parte, capítulos iv, viii) 15. Em um dos trechos mais abertamente críticos do livro, Gulliver explica a natureza da política e da sociedade europeias ao cavalo, seu senhor. Que aspecto da guerra o houyhnhnm não entende e acha que se trata de uma coisa que não é (mentira)? O cavalo não entende como as cifras de mortos e mutilados citadas por Gulliver podem ser verdadeiras, uma vez que, pela experiência no trato com os yahoos, sabe-se que eles são incapazes de assassinar uns aos outros em grandes quantidades apenas com a forças de seus músculos e garras. Gulliver então menciona a longa lista de armas de guerra desenvolvidas pela humanidade para o próprio extermínio: canhões, pistolas, vasos de guerra, cercos e incêndios. (quarta parte, capítulo v) 8

9 16. No final de sua viagem, qual é o motivo que leva Gulliver a ser expulso da terra dos houyhnhnms? Ao contrário do aconteceu em suas outras viagens, Gulliver se encanta com a sociedade de seus anfitriões e se horroriza com a ideia de ter de voltar para junto dos humanos, os brutais yahoos escondidos atrás de roupas. Ele está satisfeito na condição de humilde criado de seu senhor. Entretanto, os outros cavalos passam a temer pelas consequências do tratamento dispensado pelo houyhnhnm a Gulliver, que julgam contra a natureza. Além disso, como yahoo instruído e ladino, o viajante talvez possa a qualquer momento liderar uma rebelião entre seus companheiros escravizados. Assim, a assembleia local exorta o cavalo-senhor pois o órgão é incapaz de determinar, ordenar a desfazer-se de Gulliver, que recebe autorização para partir após construir uma embarcação com madeira e cânhamo. (quarta parte, capítulo x) 9

10 Leituras recomendadas Case, Arthur. Four essays on Gulliver s Travels. Princeton: Princeton University Press, Crane, R. S. The Houyhnhnms, the Yahoos, and the history of ideas. In: DONOGHUE, Denis (org.). Jonathan Swift: A critical anthology. Londres: Penguin, 1971, pp Eddy, W. A. Gulliver s Travels: A critical study. Princeton: Princeton University Press, Williams, Harold (org.). The correspondence of Jonathan Swift. 5 v. Gloucestershire: Clarendon Press,

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