UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA UCB PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO PRG CURSO DE PSICOLOGIA / HABILITAÇÃO PSICÓLOGO TRABALHO DE FINAL DE CURSO

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1 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA UCB PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO PRG CURSO DE PSICOLOGIA / HABILITAÇÃO PSICÓLOGO TRABALHO DE FINAL DE CURSO O desaparecimento de um membro da família: estudo dos aspectos da dinâmica e reestruturação familiar. Autora: Alessandra Oliveira Souza Orientadora: Profª. Drª. Maria Alexina Ribeiro. Banca Examinadora: Edna Maria da Silva Andrade Melo.

2 2 O desaparecimento de um membro da família: estudo dos aspectos da dinâmica e da reestruturação familiar. RESUMO O desaparecimento de um membro é vivido por muitas famílias com grande sofrimento, tendo em vista a ruptura das relações estabelecidas com a pessoa, que repentinamente deixa de fazer parte do convívio familiar. Os sentimentos mais presentes envolvem a questão da ambigüidade que permeia a família no decorrer dos anos, dificultando a busca e a elaboração do luto. Atualmente, de acordo com o Ministério da Justiça existem 45 crianças e adolescentes desaparecidas no Distrito Federal. O presente estudo buscou compreender como as famílias se reestruturam diante do desaparecimento de um membro. Para tanto, investigamos a dinâmica familiar, os papéis exercidos por cada membro, as formas e circunstâncias do desaparecimento, bem como os processos que são envolvidos diante da perda, principalmente, os relacionados à perda ambígua. Para realização do estudo escolhemos a teoria sistêmica, já que a base da investigação proposta relaciona-se diretamente com as questões familiares. Nesse sentido, o método utilizado foi a pesquisa qualitativa, através do estudo de caso, onde entendemos ser possível acessar questões de maneira mais profunda, aproximando o pesquisador dos colaboradores. Foram realizadas duas entrevistas com uma família que vive em seu contexto atual o desaparecimento de um de seus membros. As entrevistas foram realizadas na Universidade Católica de Brasília e na residência da família, sendo gravadas em fita. Os dados foram analisados e interpretados à luz da abordagem sistêmica da família e os instrumentos utilizados para compreensão do fenômeno estudado foram os roteiros de entrevista e o genograma. Os resultados demonstraram que o sofrimento é algo presente em suas vidas após o desaparecimento, bem como o sentimento inacabado de dúvida. Apesar da mobilização familiar a busca do membro não teve êxito. A reestruturação e as mudanças positivas no contexto familiar são identificadas como: menor valor às questões materiais, aprendizado com a experiência, aproveitamento dos momentos livres com as pessoas que fazem parte da família, aumento da comunicação e preocupação com acontecimentos vividos por cada membro. Os dados do estudo foram discutidos e relacionados aos encontrados na literatura. Palavras-chave: desaparecimento, família, perda ambígua.

3 3 PARECER Apresento o Trabalho de Final de Curso O desaparecimento de um membro da família: estudo dos aspectos da dinâmica e reestruturação familiar, de Alessandra Oliveira Souza. A pesquisa teve como objetivo geral: conhecer a repercussão que o desaparecimento de um membro tem sobre a dinâmica familiar, identificando suas estratégias de enfrentamento e mecanismos de reestruturação. Os objetivos específicos foram: conhecer a estrutura familiar anterior e posterior ao desaparecimento do seu membro; identificar os mecanismos e as estratégias utilizadas pela família para o enfrentamento do problema e indicar elementos importantes para que terapeutas sistêmicos possam trabalhar com famílias que tenham este tipo de demanda. O estudo se faz importante tendo em vista a quantidade de famílias que convivem com o desaparecimento de um de seus membros, sejam crianças, adolescentes, adultos ou idosos. De acordo com os autores da abordagem sistêmica da família a perda representa uma transição maior que rompe os padrões de interação do ciclo de vida, e, portanto, requer uma reorganização familiar e propõe desafios de adaptação. Entendemos que os resultados aqui apresentados poderão contribuir para a compreensão de como a família vive o desaparecimento de seu ente, a insegurança e a incerteza de que algum dia o terão em seu convívio novamente. Trata-se de um tema atual e pouco estudado. Destacam-se a originalidade da pesquisa, o aprofundamento do levantamento bibliográfico realizado, os cuidados metodológicos e preocupações éticas, que renderam a esse TFC a nota máxima da banca examinadora. Brasília, 30 de março de Professora Doutora Maria Alexina Ribeiro Orientadora da pesquisa

4 4 SUMÁRIO RESUMO...2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO REFERENCIAL TEÓRICO Família Estrutura, Adaptação e Papéis Familiares Ciclo de Vida Familiar A Perda na Família Perda Ambígua A Morte e o Ciclo de Vida Familiar Resiliência OBJETIVOS Objetivo Geral Objetivos Específicos MÉTODO Participantes...43 FIGURA I...44 GENOGRAMA...44 FIGURA II...45 LEGENDA - GENOGRAMA Instrumentos Procedimentos Análise dos Dados ESTUDO DE CASO A Família de João O Desaparecimento Expectativa e mistério A dor da ausência Rotina Dificuldades encontradas na busca Facilidades e tentativas Religião Apoio psicológico Apoio governamental Saber o que aconteceu Perda ambígua Uma palavra, uma frase, um sentimento Relacionamento familiar antes e após o desaparecimento DISCUSSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...51 Anexo I...51 Roteiro de Entrevista com a Família...51 Anexo II...51 Dados do Desaparecido...51

5 Anexo III...51 Roteiro da Entrevista Semi-estruturada...51 Anexo IV...51 Termo de Livre Consentimento

6 6 1 - INTRODUÇÃO O presente trabalho surgiu do interesse em investigar e compreender como as famílias de pessoas desaparecidas se reestruturam diante da perda de seu membro. Uma visita à casa rosada, sede do Governo da Argentina, em janeiro de 2005, em uma tarde de quinta-feira, motivou-me ainda mais a trabalhar com o referido tema. Lá foi possível perceber, mesmo que superficialmente, a repercussão que o desaparecimento de uma pessoa pode ter na vida dos seus familiares. Neste dia da semana, quinta-feira, há mais de trinta anos, mães de pessoas desaparecidas na época da ditadura militar, se reúnem para reivindicar do governo o paradeiro de seus entes. Fazem panelaço, religiosamente, e, principalmente, choram pela perda e falta de informações. Famílias que são obrigadas a conviver com a impossibilidade de velarem os corpos de seus entes queridos e de superarem os longos anos de angústia e incerteza. Diante da problemática apresentada foi possível determinar alguns parâmetros fundamentais para nortear o presente estudo. Que estratégias de enfrentamento essas famílias utilizam para lidar com a perda, como redefinem os papéis familiares diante do desaparecimento repentino, como lidam com a ambigüidade tão salientada pelos autores que estudam o problema e, finalmente, como a psicoterapia familiar - sistêmica pode compreender a dinâmica dessas famílias e como este estudo pode indicar parâmetros essenciais para que terapeutas possam trabalhar com este tipo de demanda. O estudo tem como finalidade conhecer a estrutura familiar anterior e posterior ao desaparecimento, pois como ressalta Andolfi (1984, apud CERVENY; BERTHOUD, 2002) a família é um sistema ativo em constante transformação, ou seja, um organismo complexo que se altera com o passar do tempo para assegurar a continuidade e o

7 7 crescimento psicossocial de seus membros. Esse processo dual de continuidade e crescimento permite o desenvolvimento da família como unidade e, ao mesmo tempo, assegura a diferenciação entre seus membros. A estrutura familiar demarca e fortemente caracteriza como o individuo age dentro e fora do contexto familiar. O estudo se atentará para as relações familiares a partir da confirmação do desaparecimento. É necessário também conhecer as circunstâncias que envolveram o momento do desaparecimento, bem como a fase do ciclo de vida familiar, pois como postulam alguns autores, o momento de cada família, diante do mesmo problema, pode ser vivido de diferentes maneiras. Gerson e McGoldrick (1995) consideram que o ciclo de vida familiar é um fenômeno complexo. Ele é um espiral da evolução familiar, na medida em que as gerações avançam no tempo em seu desenvolvimento do nascimento à morte. Já Cerveny e Berthoud (2002) o descrevem como sendo um conjunto de etapas ou fases definidas sob alguns critérios (idade dos pais, filhos, tempo de união de um casal, entre outros) pelos quais as famílias passam, desde o início da sua constituição em uma geração até a morte dos indivíduos que a iniciaram. O desaparecimento de um membro pode atingir a dinâmica familiar de diversas formas, mas a sensação de perda permeia todas elas, pois, geralmente, a confirmação do fato é regada a mistério e despreparo dos familiares, já que não costumam contar com a possibilidade de perder uma pessoa de tal maneira. Sendo assim, os aspectos que envolvem a perda, dentro do contexto familiar, é demasiadamente relevante diante da tentativa de compreensão desse fenômeno. Gerson e McGoldrick (1995) consideram a perda como uma transição maior que rompe os padrões de interação do ciclo de vida, e que, portanto, requer uma reorganização familiar e propõe desafios de adaptação compartilhados. O senso de movimento de uma

8 8 família através do ciclo de vida pode ficar paralisado ou distorcido depois de uma perda, e os genetogramas nos permitem traçar o efeito das perdas ao longo do tempo. Outra característica vivida por grande parte das famílias, que possuem algum membro desaparecido, é definida por alguns teóricos como perda ambígua. Esta compreensão permite averiguar a capacidade que os membros familiares vão lidar com o problema. Para Walsh e McGoldrick (1998) a ambigüidade em torno de uma perda interfere na obtenção de controle sobre ela, freqüentemente produzindo depressão nos familiares. Um ente querido pode estar fisicamente ausente, mas psicologicamente presente, como em situações de seqüestro, desaparecimentos de dissidentes políticos ou de soldados em ação. A incerteza quanto à morte de um membro pode ser uma agonia para a família. Por exemplo, no caso de uma criança desaparecida, a família pode se consumir nos esforços para manter a esperança, mesmo temendo pelo pior, e busca tentativas desesperadas de obter informações que confirmem o destino da criança. A impossibilidade de recuperar um corpo pode aumentar o sofrimento. Uma das estratégias de enfrentamento para lidar com esse tipo de situação, geradora de grande sofrimento e angústia, parece ser a capacidade que todos os indivíduos possuem de serem resilientes, ainda que algumas pessoas sejam mais ou menos detentoras de tal característica. Walsh (1998, apud MELILLO; OJEDA, 2005, p. 81) afirma que a resiliência não é uma essência, que alguns possuem e outros não. Para eles é necessário que a pessoa seja capaz de reconhecer os problemas e limitações a enfrentar, comunicá-los aberta e claramente, registrar os recursos pessoais e coletivos existentes e organizar e reorganizar as estratégias e metodologias, tantas vezes quanto necessário, revisando e avaliando perdas e ganhos. Atualmente, segundo informações do Ministério da Justiça, existem cerca de 45 crianças e adolescentes desaparecidos no Distrito Federal, sendo que 17 desapareceram

9 9 após enfrentarem algum tipo de conflito familiar. Nesse sentido, o estudo se faz necessário e importante, tendo em vista a quantidade de famílias que convivem com o desaparecimento de um de seus membros. Contribuirá também para a compreensão de como a família vive o desaparecimento de seu ente. Como lidam com a insegurança e a incerteza de que algum dia terão em seu convívio novamente o familiar?

10 10 2 REFERENCIAL TEÓRICO Na busca de compreendermos a problemática apresentada e de viabilizar o presente estudo que tem por objetivo Conhecer a repercussão que o desaparecimento de um membro tem sobre a dinâmica familiar, identificando suas estratégias de enfrentamento e mecanismos de reestruturação, foi necessário um aporte teórico que abordasse os conceitos que envolvem o tema pesquisado. Neste estudo, abordaremos alguns conceitos, tais como: família, papéis familiares, ciclo de vida familiar, a morte e o ciclo de vida familiar, perda na família, perda ambígua e resiliência. 2.1 Família Minuchin (1982) ressalta que a teoria familiar está fundamentada no fato de que o homem não é um ser isolado. Ele é um membro ativo e reativo de grupos sociais. O que experiência como real depende de componentes tanto internos como externos. Von Bertallanfy (1972, apud CALIL, 1987, p. 17) afirma que a família pode ser considerada como um sistema aberto, devido ao movimento de seus membros dentro e fora de uma interação uns com os outros e com sistemas extrafamiliares (meio ambiente comunidade), num fluxo recíproco constante de informação, energia e material. A família tende também a funcionar como um sistema total. As ações e comportamentos de um dos membros influenciam e simultaneamente são influenciados pelos comportamentos de todos os outros.

11 11 A família pode, então, ser vista como um sistema que se autogoverna através de regras, as quais definem o que é e o que não é permitido. Estabiliza-se, equilibra-se em torno de certas transações que são a concretização dessas regras. O sistema familiar oferece resistência a mudanças além de um certo limite, mantendo, tanto quanto possível, os seus padrões de interação sua homeostasia. Existem padrões alternativos disponíveis dentro do sistema, mas qualquer desvio que vá além do seu limite de tolerância aciona mecanismos que restabelecem o padrão usual. O mecanismo utilizado na família para restabelecimento da homeostase é denominado retroalimentação negativa, ou feedback negativo. (CALIL, 1987, p. 19) Para Osório (1996), família não é um conceito unívoco. Segundo ele, pode-se até afirmar, que a família não é uma expressão passível de conceituação, mas tão somente de descrições; ou seja, é possível descrever as várias estruturas ou modalidades assumidas pela família através dos tempos, mas não defini-la ou encontrar algum elemento comum a todas as formas com que se apresenta este agrupamento humano. Andolfi (1984, apud CERVENY e BERTHOUD, 2002, p. 17), considera que a família é um sistema ativo em constante transformação, ou seja, um organismo complexo que se altera com o passar do tempo para assegurar a continuidade e o crescimento psicossocial de seus membros. Esse processo dual de continuidade e crescimento permite o desenvolvimento da família como unidade e, ao mesmo tempo, assegura a diferenciação entre seus membros. As autoras complementam ainda que a unidade familiar também é um sistema composto por indivíduos que podem ser considerados sistemas por si só e ainda ser parte do sistema familiar, que fazem parte de um sistema familiar maior que se inclui em outros sistemas mais amplos como o econômico e sociocultural. A família proporciona o marco adequado para a definição e conservação das diferenças humanas, dando forma objetiva aos papéis distintos, mas mutuamente vinculados, do pai, da mãe, e dos filhos, que constituem os papéis básicos em todas as culturas. Pichon-Rivière (1981, apud OSÓRIO, 1996, p. 15).

12 12 Féres-Carneiro (1992) ressalta que dependendo da forma como o grupo familiar estrutura-se e da dinâmica que estabelece, ele pode funcionar como facilitador ou como dificultador na formação da saúde mental de seus membros. Não é tarefa fácil fazer a distinção entre famílias mentalmente sadias e famílias mentalmente enfermas. Para Osório (1996) existem alguns elementos introdutórios que possibilitam condições para formular uma definição ad hoc, de cunho operativo, sobre família: Família é uma unidade grupal onde se desenvolvem três tipos de relações pessoais aliança (casal), filiação (pais/filhos) e consangüinidade (irmãos) e que a partir dos objetivos genéricos de preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência e fornecer-lhe condições para a aquisição de suas identidades pessoais, desenvolveu através dos tempos funções diversificadas de transmissão de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais. [...] a família pode se apresentar, a grosso modo, sob três formatos básicos: a nuclear (conjugal), a extensa (consangüínea) e a abrangente. Féres-Carneiro (1983) utiliza uma classificação criada por Pichon-Rivière, Fernandez e Tubert (1970) para classificar as famílias em: aglutinadas, uniformadas, isoladas e integradas. Na família aglutinada, há uma falha da identidade grupal, compensada pela tendência exagerada à aglutinação, o que dificulta a individualização de seus membros. Há um absolutismo do papel materno e um exagero das normas maternas. A interação é estereotipada e há um predomínio de mensagens concretas e com intensa carga emocional. Para a família uniformada, a falha na identidade grupal é compensada pela tendência exagerada à uniformidade. Há um absolutismo do papel paterno e um exagero das normas paternas. A interação também é estereotipada e as mensagens são, ao mesmo tempo, concretas e abstratas, com carga emocional controlada. Já na família isolada, há um predomínio excessivo das identidades individuais, com perda da identidade grupal. A interação é escassa e os papéis familiares estão ausentes. Não é relevante o grau de abstração e as mensagens quase não têm carga emocional.

13 13 Por último, o autor descreve a família integrada, onde há um equilíbrio entre a identidade individual e a grupal. A interação é estável e flexível. Existe equilíbrio entre os papéis e as normas, e essas são discutidas explicitamente. As mensagens são concretas e abstratas, com carga emocional instrumental. Toda família enfrenta situações de tensão e a família sadia não pode ser distinguida da família enferma pela ausência de problemas. Para avaliar uma família, o terapeuta deve dispor de um esquema conceitual do funcionamento familiar, baseado na concepção da família como sistema que opera dentro de contextos sociais específicos. Tal esquema deve considerar que a família é um sistema sócio-cultural aberto, em processo de transformação; mostra um desenvolvimento através de certo número de etapas; adapta-se às circunstâncias em mudança de modo a manter uma continuidade e fomentar o crescimento psicossocial de cada membro. Minuchin (1977, apud FÉRES-CARNEIRO, 1983, p.15) Carter e McGoldrick (1995) consideram que a família compreende todo o sistema emocional de pelo menos três, e agora freqüentemente quatro, gerações. Esse é o campo emocional operativo em qualquer momento dado. Afirmam que a influência da família esteja restrita aos membros de uma determinada estrutura doméstica ou a um dado ramo familiar nuclear do sistema. Para as autoras, na nossa realidade, sob a denominação família, existe uma pluralidade de composições que incluem laços consangüíneos, relações não formalizadas por parentesco, família conjugal extensa, núcleo doméstico, família não legitimada juridicamente, entre outras. A constituição familiar acontece de diferentes formas e sua configuração se dá através de regras distintas que somente satisfazem aqueles que a integram. As autoras levantam algumas questões como: como os membros da família se relacionam? Como estabelecem e mantêm os vínculos? Como lidam com problemas e conflitos? Que tipos de rituais cultivam? Salientam ainda sobre a etapa desenvolvimental da seguinte maneira: quando essa família começou? Os filhos ainda são pequenos ou já são adolescentes? Os pais são jovens ou estão na meia idade? É uma família na qual convivem três, quatro gerações, com netos,

14 14 noras, genros, avós? Ou é um núcleo reduzido a pessoas de muito mais idade que já têm a responsabilidade da criação de gerações mais novas? Segundo as autoras ao longo desse processo, os afetos, as percepções dos papéis e funções de cada um, a dinâmica das relações e o investimento emocional também estão em constante mudança e reorganização, fazendo com que em cada etapa o significado que o sistema adquire na vida particular de cada indivíduo seja diferenciado. Num grupo familiar sadio, verdadeiramente operativo, cada membro conhece e desempenha seu papel específico, de acordo com as leis da complementariedade, e o grupo é aberto à comunicação no processo de aprendizagem social. Ele enfatiza o conceito de aprendizagem do papel no grupo familiar, na medida em que considera que as falhas na instrumentalização do papel geram no indivíduo um sentimento de insegurança, predispondo-o a doenças. Um grupo familiar que possui uma boa rede de comunicação, que se desenvolve eficazmente em sua tarefa, é um grupo operativo, no qual cada membro possui um papel específico, porém com determinado grau de plasticidade que permite assumir outros papéis funcionais. Pichon-Rivière (1978, apud FÉRES- CARNEIRO, 1983) 2.2 Estrutura, Adaptação e Papéis Familiares Para Minuchin (1982), a estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem. Uma família é um sistema que opera através de padrões transacionais. Transações repetidas estabelecem padrões de como, quando e com quem se relacionar e estes padrões reforçam o sistema. Quando uma mãe diz a seu filho para tomar o seu suco e ele obedece, esta interação define quem ela é em relação a ele e quem ele é em relação a ela, naquele contexto e naquele momento. Operações repetidas, nestes termos, constituem um padrão transacional.

15 15 Os padrões transacionais regulam o comportamento dos membros da família. São mantidos por dois sistemas de repressão. O primeiro é genérico, envolvendo as regras universais que governam a organização familiar. Por exemplo, deve existir uma hierarquia de poder, em que os pais e os filhos têm diferentes níveis de autoridade. Também deve haver uma complementaridade de funções, com o marido e a mulher aceitando a interdependência e operando como uma equipe. O segundo sistema é o idiossincrático, envolvendo as expectativas mútuas de membros específicos da família. A origem destas expectativas está mergulhada em anos de negociações explícitas e implícitas entre os membros da família, freqüentemente em torno de pequenos eventos cotidianos. Desta maneira, o sistema mantém a si mesmo. Oferece resistência à mudança, além de certo alcance, e mantém padrões preferidos, desde que possíveis. Padrões alternativos estão disponíveis dentro do sistema. Mas qualquer desvio que ultrapasse o limiar de tolerância do sistema, faz surgirem mecanismos que restabelecem o âmbito costumeiro. Quando surgem situações de desequilíbrio do sistema, é comum que os membros da família achem que os outros membros não estão cumprindo as suas obrigações. Então, aparecem reivindicações de lealdade familiar e manobras que induzem culpa. (MINUCHIN, p.p. 57) Féres-Carneiro (1992) define papel, no grupo familiar, como as funções de cada membro a partir das posições que ocupa nos subsistemas conjugal, parental, fraterno e filial. A família é facilitadora de saúde emocional, na medida em que cada membro conhece e desempenha seu papel específico. A autora afirma ainda que os papéis são definidos quando fica explícito para a família, a função de cada membro, de acordo com sua posição no grupo familiar. São adequados quando cada membro se comporta, no grupo familiar, tendo em vista a definição de suas funções específicas no mesmo. São flexíveis quando permitem aos membros da família assumir outras funções no funcionamento familiar, diferentes daquelas relativas ao papel específico de cada um, quando se fizer necessário. Para Osório (1996), os papéis familiares nem sempre correspondem aos indivíduos que convencionalmente designamos como seus depositários. Assim, o papel nutrício de uma mãe eventualmente poderá ser desempenhado por uma avó ou mesmo pelo pai; o papel fraterno poderá estar acoplado ao papel do avô que circunstancialmente desempenha funções de confidente ou companheiro de um neto que é filho único; o papel filial poderá

16 16 estar depositado num dos cônjuges cuja maturidade emocional o torne carente da proteção e cuidados habitualmente requeridas por uma criança, e assim por diante. Minuchin (1982) considera que a família tem passado por mudanças que correspondem às mudanças da sociedade. Tem assumido ou renunciado a funções de proteção e socialização de seus membros em resposta às necessidades da cultura. Neste sentido, as funções da família atendem a dois diferentes objetivos. Um é interno, a proteção psicossocial de seus membros; e outro é externo, a acomodação a uma cultura e a transmissão dessa cultura. Para o autor, a estrutura familiar deve ser capaz de se adaptar, quando as circunstâncias mudam. A existência continuada de família, como um sistema, depende de uma extensão suficiente de padrões, da acessibilidade de padrões transacionais alternativos e da flexibilidade para mobilizá-los, quando necessário. Desde que a família deve responder as mudanças internas e externas, deve ser capaz de transforma-se de maneira que atendam às novas circunstâncias, sem perder a continuidade, que proporciona um esquema de referência para seus membros. A família é sujeita à pressão interna, que provém de mudanças evolutivas nos seus próprios membros e subsistemas, e à pressão exterior, proveniente das exigências para se acomodar às instituições sociais significativas, que têm um impacto sobre os membros familiares. Responder a estas exigências, tanto de dentro como de fora, requer uma transformação constante da posição dos membros da família, em relação um com o outro, de maneira que possam crescer, enquanto o sistema familiar mantém a continuidade. (MINUCHIN, 1982, pp. 64) Para Minuchin (1982), existem muitas fases na própria evolução natural da família que exigem a negociação de novas regras familiares. Novos subsistemas devem aparecer e novas linhas de diferenciação devem ser delineadas. Nesse processo, surgem inevitavelmente conflitos. De forma ideal, os conflitos serão resolvidos por negociações de transição e a família se adaptará com sucesso. Estes conflitos oferecem uma oportunidade

17 17 para o crescimento de todos os membros da família. Todavia, se tais conflitos não são resolvidos, os problemas transicionais podem dar origem a problemas adicionais. 2.3 Ciclo de Vida Familiar Carter e McGoldrick (1995) enfatizam que uma aplicação rígida das idéias psicológicas ao ciclo de vida normal pode ter um efeito prejudicial, caso promova um ansioso auto-escrutínio que desperte o medo de que qualquer desvio das normas seja patológico. As autoras afirmam que a perspectiva do ciclo de vida familiar vê os sintomas e as disfunções em relação ao funcionamento normal ao longo do tempo, e a terapia como ajudando a restabelecer o momento desenvolvimental da família, formulando problemas acerca do curso que a família seguiu em seu passado, sobre as tarefas que está tentando dominar e do futuro para o qual está se dirigindo. A família é mais do que a soma de suas partes. O ciclo de vida individual acontece dentro do ciclo de vida familiar, que é o contexto primário do desenvolvimento humano. Sobre o ciclo de vida familiar, Cerveny e Berthoud (2002) o descrevem como sendo um conjunto de etapas ou fases definidas sob alguns critérios (idade dos pais, filhos, tempo de união de um casal, entre outros) pelos quais as famílias passam, desde o início da sua constituição em uma geração até a morte do ou dos indivíduos que a iniciaram. Gerson e McGoldrick (1995) consideram que o ciclo de vida familiar é um fenômeno complexo. Ele é um espiral da evolução familiar, na medida em que as gerações avançam no tempo em seu desenvolvimento do nascimento à morte. Os genogramas são

18 18 retratos gráficos da história e do padrão familiar, mostrando a estrutura básica, a demografia, o funcionamento e os relacionamentos da família. Eles são uma taquigrafia utilizada para descrever os padrões familiares à primeira vista. Eles proporcionam uma visão de um quadro trigeracional de uma família e de seu movimento através do ciclo de vida. É particularmente importante observar as idades dos membros da família na medida em que se movem através do ciclo de vida. Existe um momento normativo para a transição a cada uma de suas fases. Essas normas estão sempre mudando, e têm variado através das culturas e por toda a história, mas podem servir como um ponto de partida para compreendermos mais sobre as transições de ciclo de vida numa família. É importante, ao avaliar uma transição de ciclo de vida, examinar os estressores existentes na família naquele momento. Quando vemos perdas e eventos traumáticos coincidentes no genograma, devemos começar a explorar seu possível efeito sobre o processo do ciclo de vida. (GERSON; MCGOLDRICK, 1995, p.146) Dentro de uma perspectiva sistêmica Gerson e McGoldrick (1995) ressaltam que a perda é considerada como uma transição maior que rompe os padrões de interação do ciclo de vida, e que, portanto, requer uma reorganização familiar e propõe desafios de adaptação compartilhados. O senso de movimento de uma família através do ciclo de vida pode ficar paralisado ou distorcido depois de uma perda, e os genogramas nos permitem traçar o efeito das perdas ao longo do tempo. Para Walsh e McGoldrick (1998), o movimento específico de uma perda no ciclo de vida familiar multigeracional da família pode criar um risco maior de conseqüências disfuncionais. As complicações são mais prováveis em casos de: (1) Perdas prematuras: o movimento do ciclo de vida familiar e as expectativas sociais, bem como a idade cronológica, contribuem para a prematuridade de uma morte e para seu impacto sobre os sobreviventes. Os múltiplos papéis e relacionamentos nas famílias implicam a experiência de perda ainda mais, como na morte de cônjuge/pai no mesmo estágio familiar da criação de filhos pequenos.

19 19 (2) Coincidência de múltiplas perdas ou perda no momento de outro grande estresse familiar: a coincidência temporal de múltiplas perdas ou de uma perda com outros estressores e fatos evolutivos marcantes produz um acúmulo de estresse que pode soterrar a família, complicando as tarefas de luto. (3) Perdas traumáticas não resolvidas no passado e, em particular, replicações de aniversários transgeracionais: algumas famílias e indivíduos com perdas traumáticas anteriores parecem ter se tornado mais resistentes com a experiência, enquanto outros se tornam mais vulneráveis a perdas subseqüentes. Quando as questões de separação são proeminentes nos problemas apresentados clinicamente, a relevância das perdas passadas deve ser cuidadosamente avaliada. Quando as famílias têm dificuldade com transições normativas, como a saída dos filhos de casa, prestamos uma atenção especial a indícios de lutos não resolvidos de perdas passadas, cujas lembranças estejam bloqueadas ou distorcidas ou onde os sentimentos sejam extremamente intensos ou dissociados. Walsh e McGoldrick (1998) acreditam que, de todas as experiências humanas, a morte coloca os desafios adaptativos mais dolorosos para as famílias. 2.4 A Perda na Família Walsh e McGoldrick (1998) consideram que a partir de uma perspectiva familiar sistêmica, a perda pode ser vista como um processo transacional que envolve o morto e os sobreviventes em um ciclo de vida comum, que reconhece tanto a finalidade da morte como a continuidade da vida. Atingir o equilíbrio neste processo é a tarefa mais difícil que uma família deve enfrentar em sua vida.

20 20 As autoras afirmam que embora reconheçam a diversidade das respostas culturais, individuais e familiares à perda, consideram os processos familiares como determinantes cruciais de adaptação saudável ou disfuncional à perda. Ressaltam que em nosso tempo, passamos a esconder a morte, tornando o processo de adaptação à perda ainda mais difícil. Em contraste com outras culturas tradicionais, nossa sociedade carece de suportes culturais para ajudar as famílias a integrarem o fato da morte a vida que continua. Walsh e McGoldrick (1998) acreditam que todas as perdas requerem um luto, que reconheça a desistência e transforme a experiência para que possamos internalizar o que é essencial e seguir em frente. O pensamento direto a respeito da morte, ou o pensamento indireto a respeito de manter-se vivo e evitar a morte, ocupa mais tempo do homem do que qualquer outro tema... O principal entre todos os temas tabus é a morte. Uma grande porcentagem das pessoas morre só, presa em seus próprios pensamentos, que não podem comunicar para os outros. Existem aí pelo menos dois processos em operação. Um é o processo intrapsíquico do self, o qual sempre envolve alguma negação da morte. O outro é o sistema fechado de relações: as pessoas não podem comunicar os pensamentos que têm, para não incomodarem a família ou os outros. BOWEN (1976, apud WALSH; MCGOLDRICK, 1998, p. 29) Bowen (1976, apud WALSH; MCGOLDRICK, 1998, p. 30) considera que muito depois da perda, o sistema familiar pode sofrer uma onda de choque como é descrito abaixo: Uma rede de temores secundários pode ocorrer em qualquer ponto do sistema familiar extenso nos meses ou anos que se seguem a eventos emocionais sérios em uma família. Ela ocorre mais freqüentemente após a morte ou ameaça de morte de um membro significativo da família, mas pode ocorrer após outros tipos de perda. Ela está relacionada às reações usuais de sofrimento ou luto das pessoas próximas àquela que morreu. Ela opera em uma rede subterrânea de dependência emocional entre os membros da família. A dependência emocional é negada, os eventos sérios aparentam não ser relacionados, a família procura camuflar qualquer conexão entre os eventos e há uma vigorosa reação de negação emocional, na qual ninguém tenta relacionar os eventos entre si. Walsh e McGoldrick (1998) relatam que a desatenção da terapia familiar à perda anda de mãos dadas com a negação da morte em nossa cultura. Em sua observação clínica

21 21 Rosaldo (1989, apud WALSH; MCGOLDRICK, 1998, p. 31), considera que nossa sociedade trata o sofrimento como um assunto particular, os clínicos, assim como os outros de fora da família, tendem a evitar fazer perguntas a respeito do impacto da perda, reforçando a comunicação invisível dos enlutados. Paul e Paul (1982, apud WALSH; MCGOLDRICK, 1998, p. 32) advertem que a aversão de um clínico à morte e ao sofrimento pode prejudicar sua capacidade de diagnosticar e tratar um problema sistêmico familiar corretamente enquanto ligado ao luto, resultando em uma concentração pouco útil em sintomas secundários. Kuhn (1981, apud WALSH; MCGOLDRICK, 1998, p. 32) afirma que a perda não é simplesmente um evento discreto; ao contrário, ela envolve um processo transacional ao longo do tempo, com a abordagem da morte em suas conseqüências. A perturbação individual após uma perda não se deve somente ao sofrimento, mas também é resultado de mudanças no realinhamento no campo emocional da família. Walsh e McGoldrick (1998) ressaltam que para ajudar as famílias frente à perda, os terapeutas devem reavaliar a história familiar, substituindo as premissas deterministas da causalidade por uma perspectiva evolucionista. Assim como o contexto social, o contexto temporal oferece uma matriz de sentidos na qual se insere todo o comportamento. Embora uma família não possa mudar seu passado, as mudanças no presente e no futuro ocorrem em relação a ele. Elas propõem que as famílias precisam estar em equilíbrio ou em harmonia com seu passado, não em uma luta para recuperá-lo, escapar dele ou esquecêlo. Afirmam ainda que ajudá-las a reconstruir sua história e colocar suas perdas em uma perspectiva mais funcional é uma parte essencial para ajudá-las a mudar suas relações com o passado e o futuro. Em relação à morte, Walsh e McGoldrick (1998) recuperam uma consideração de Lewis, Beavers, Gossett e Phillips (1976) onde dizem que a morte traz desafios adaptativos

22 22 comuns, exigindo uma reorganização imediata e a longo prazo e mudanças nas definições de identidade e objetivos da família. A capacidade de aceitar a perda está no âmago de todas as habilidades dos sistemas familiares saudáveis, em contraste com as famílias severamente disfuncionais, que demonstram padrões de má adaptação ao lidarem com perdas inevitáveis, unindo-se na fantasia e na negação para desfocar a realidade e insistir na atemporalidade e na perpetuação de laços nunca desfeitos. Walsh e McGoldrick (1998) propõem algumas tarefas adaptativas para a vivência de processos complexos como o luto: 1 - O reconhecimento compartilhado da realidade da morte e a experiência comum de perda. Tal reconhecimento é facilitado pela informação clara e pela comunicação aberta sobre os fatos e circunstâncias da morte. A comunicação entre a família é vital no curso do processo de perda. 2 A reorganização do sistema familiar e o reinvestimento em outras relações e projetos de vida. O processo de recuperação envolve um realinhamento das relações e a redistribuição dos papéis necessários para compensar a perda e prosseguir com a vida familiar. 2.5 Perda Ambígua Para Walsh e McGoldrick (1998) um dos fatores que influenciam a adaptação familiar à perda é a perda ambígua. A ambigüidade em torno de uma perda interfere com a obtenção de controle sobre ela, freqüentemente produzindo depressão nos familiares. Um ente querido pode estar fisicamente ausente, mas psicologicamente presente, como em situações de seqüestro, desaparecimentos de dissidentes políticos ou de soldados em ação. A incerteza quanto à morte de um membro pode ser uma agonia para a família. Por

23 23 exemplo, no caso de uma criança desaparecida, a família pode se consumir nos esforços para manter a esperança, mesmo temendo pelo pior, e busca tentativas desesperadas de obter informações que confirmem o destino da criança. A impossibilidade de recuperar um corpo pode complicar o sofrimento. Outros aspectos importantes considerados por elas são: a coesão familiar e a diferenciação dos membros. A adaptação à perda é facilitada pela coesão da unidade familiar no apoio mútuo, equilibrada com a tolerância e o respeito às diferentes respostas à perda dos vários membros da família; a flexibilidade do sistema familiar. A estrutura familiar, em particular as regras, papéis e limites, precisa ser flexível, ainda que clara, para a reorganização após a perda; a comunicação aberta versus segredo. É importante que os clínicos promovam um clima familiar de confiança mútua, apoio e tolerância para uma gama de respostas à perda. Segredos, mitos e tabus em torno da perda interferem no seu controle. Quando a comunicação é bloqueada, o indizível tem mais chances de ser expresso por meio de sistemas disfuncionais ou comportamentos destrutivos. Em uma publicação do Jornal do Brasil, em 21 de setembro de 2001, após o atentado terrorista à cidade de Nova Iorque, é relatado o grande sofrimento das famílias vitimas do grande desastre às torres gêmeas. Brody (2001) acredita que parentes, amigos e colegas das vítimas dos ataques terroristas do 11 de setembro podem estar lutando com um tipo particular de dor, que costuma atacar todos aqueles que perdem entes queridos em desastres nos quais os corpos nunca são encontrados. Afirma que Psicólogos e cientistas sociais referem-se a esse fenômeno como perda ambígua, expressão cunhada por Pauline Boss, professora de ciências sociais no âmbito familiar da Universidade de Minessota, para definir a mágoa não-resolvida que pode ocorrer quando não existem formas de atestar com certeza se uma pessoa desaparecida está viva ou morta.

24 24 O autor faz uma comparação ao dizer que a permanência dessa dor e a impossibilidade de lidarmos com ela ajuda a explicar a tenacidade de um movimento como o das Mães de Maio, que, desafiando o medo que assolava a Argentina de então, cobravam dia após dia dos chefes da ditadura militar notícias sobre seus filhos desaparecidos, simplesmente desaparecidos, sem nenhum cadáver e nenhuma informação nos porões da repressão. Boss (1999, apud Brody, 2001) afirma que sem informações claras e uma firme certeza, até mesmo pessoas muito fortes adotam uma postura ambivalente em relação à sua dor e tornam-se, assim, incapazes de decidir o que fazer em seguida. Elas não sabem se a pessoa desaparecida será encontrada, o que congela sua dor e também o processo psicológico que deveria lidar com ela. Alerta ainda que não saber se alguém está vivo ou morto, não ter um corpo, isso torna muito mais difícil para qualquer um lidar com a dor. Há quem consiga tomar uma decisão a respeito, decretando que o ente querido está morto, mas muita gente é incapaz de fazer isso. É normal essa necessidade humana de confirmar a morte primeiro. A autora ainda ressalta que tocar a vida em frente não significa que o assunto esteja encerrado. Para ela, esse assunto nunca de encerra. Algumas pessoas não esquecem jamais, não superam jamais. A respeito da adaptação à perda, Walsh e McGoldrick (1998) consideram que a dissociação, a negação e a repressão de um indivíduo podem ser habilidades importantes de enfrentamento na sobrevivência e no controle de traumas e perdas catastróficas, como ocorreu na tentativa de genocídio do Holocausto nazista. Mas, com o tempo, a manutenção destes padrões pode ter conseqüências disfuncionais para os outros membros de um sistema familiar. A persistência do bloqueio da comunicação e dos rompimentos físicos e emocionais do passado pode restringir as relações conjugais e criar o risco de efeitos sérios para as gerações seguintes.

25 25 Segundo Boss (2005) em uma perspectiva sociológica, quando entes queridos desaparecem é difícil manter os limites familiares, os papéis ficam confusos, tarefas permanecem negligenciadas, casais e famílias ficam imobilizados. De uma perspectiva psicológica, a percepção fica bloqueada pela ambigüidade e falta de informações; decisões têm que ser deixadas de lado; processos de luto e de enfrentar os problemas ficam congelados. Não existem apenas aspectos negativos a serem considerados em situações de perda como confirmam Walsh e McGoldrick (1998) ao dizerem que as famílias que experimentaram muitas mortes prematuras, traumáticas, podem desenvolver tanto um sentimento de serem amaldiçoadas e incapazes de superar estas experiências quanto podem ver a si mesmas como sobreviventes, que podem ser atingidos, mas nunca derrotados. Acreditam que quando as famílias podem se reunir e compartilhar a experiência de sofrimento, mudanças muito positivas costumam acompanhar o luto, fortalecendo a unidade familiar e todos os seus membros. Por outro lado, Boss (2005) ressalta que em todo o mundo as pessoas ficam traumatizadas por entes queridos desaparecidos em guerra, genocídio, holocausto, limpeza étnica, seqüestros, extermínios e terrorismo político. Com as cicatrizes de perda ambígua, os jovens crescem e formam suas próprias famílias. A resolução depois de uma perda, raramente é absoluta, principalmente quando um ente querido desaparece sem deixar rastro. Sem um corpo para enterrar, a situação desafia a cicatrização, então os terapeutas são treinados para ver o contexto maior o estímulo externo que causa a ambigüidade e forma na família, comunidade e forças culturais. A autora considera também que nem todas as situações de perda ambígua levam ao trauma e imobilização. Apesar da ausência de um membro da família, algumas famílias ou membros percebem a presença dos entes queridos claramente, mesmo que não se apresente desta forma para o terapeuta. (BOSS, 2005, p. 23) De acordo com a pesquisa realizada por Boss (2005), na cidade de Nova Iorque, após o atentado de 11 de setembro, casais e famílias permanecem resilientes apesar do

26 26 trauma da perda ambígua. Nesse sentido, tanto a percepção individual quanto a coletiva são necessárias. Essa percepção psicológica da pessoa desaparecida e se eles ainda consideram-na presente na família, é tão crítica para a recuperação do trauma quanto à documentação demográfica da estrutura familiar presente. Outras características são defendidas por Melillo e Ojeda (2005) como a capacidade de fantasiar, imaginar situações, cultivar e conservar os sonhos e as esperanças, sem que isto signifique alimentar falsas ilusões. Ainda, capacidade de inovação, de criação, de adaptação (para enfrentar o novo, aproveitando tudo o que traz como ensinamento); capacidade de superar impotências e obstáculos, não se dando facilmente por vencidos, habilidade para estimular os mais necessitados, sem abandoná-los; capacidade de aproveitar e gerar recursos, de construir definições coletivas de limites, pautas, papéis, objetivos, necessidades e estratégias; capacidade de se projetar no tempo e antecipar outro momento em que a situação tenha mudado, ou seja, experimentar sensações de esperança. Com uma perda bem definida, há uma clareza, atestado de óbito, velório e a oportunidade de ver, honrar e arranjar os restos. Com a perda ambígua nada disso existe. A clareza necessária para a manutenção de limites (no sentido sociológico) ou cicatrização (no sentido psicológico) é inatingível. Perda ambígua é estruturalmente um problema quando induz à ambigüidade dentro dos limites familiares, na participação e no estar em sociedade, por exemplo, papéis paternos ignorados, decisões adiadas, tarefas diárias negligenciadas, membros ignorados ou desligados, rituais e celebrações cancelados mesmo que eles sejam a união da vida familiar. Perda ambígua é, psicologicamente, um problema, quando há sentimentos de desesperança que levam à depressão, passividade e ambivalência que causam culpa, ansiedade e imobilização. Tais situações irresolúveis tendem a bloquear a cognição, bloquear o manejo do enfrentamento e do estresse e congelar o processo de luto BOSS (1999, apud BOSS, 2005, p. 25). Na pesquisa realizada por Boss (2005) onde famílias que tiveram membros que morreram ou desapareceram após o atentado de 11 de setembro é retratada a situação da perda ambígua, onde é normalizado o estresse, a confusão e a ambivalência estabeleceram o cenário para os membros das famílias escutarem as percepções e histórias de cada um sobre os desaparecidos; e ajudaram as famílias a reconstruir papéis, regras e rituais. A

27 27 meta, a longo prazo, foi para os membros das famílias encontrarem algum significado (outro além da própria culpa) sobre suas perdas e a ambigüidade. Diante do trabalho realizado em Nova Iorque, a autora faz algumas reflexões que cabem serem ressaltadas neste trabalho, como: 1 muitos terapeutas e profissionais médicos tendem a considerar como irracionais ou patológicos os membros familiares que acreditam que os desaparecidos ainda estejam vivos. Segundo o autor, muitos profissionais parecem desconfortáveis em não ter como esclarecer a ambigüidade que envolve a perda. Eles se tornaram impacientes com as famílias que permaneciam com esperança, mesmo que fosse importante aos que estavam sofrendo ter alguém que os escutassem pacientemente e sem julgar sua história. No senso social, o relato de uma pessoa sobre perda não é real, e, portanto, não solucionável, até que alguém se disponha a ouvi-la. 2 Pais, adolescentes e crianças contam que escutar relatos sobre pessoas desaparecidas ajuda-os a seguir em frente, apesar da ambigüidade. Enquanto os profissionais encorajam adultos, adolescentes e crianças a compartilhar uma história sobre um ente querido desaparecido, alguns não queriam falar, mas, naquele ambiente, eles escutaram e isso provou ser terapêutico também. Em um ambiente de grupo, era mais fácil para adultos e crianças achar apoio e, portanto, superar a relutância de falar ou expressar sentimentos. 3 É mais útil o agrupamento de vários familiares em seu próprio ambiente de comunidade sentar em círculos, para que possam escutar as histórias de cada um e formar novas conexões através da experiência comum. Encontros de várias famílias (ao contrário de chamá-los de sessões de terapia familiar) em um ambiente de comunidade (ao invés de consultório) provou ser uma

28 28 intervenção altamente eficaz em ajudar os pais e filhos a recuperar sua resiliência. Originalmente não comunicativos, os desolados pela perda de um familiar começaram a se conectar com os outros que sofriam pelo mesmo motivo, tanto nos encontros em casa ou nos seus bairros. 4 Pessoas comuns podem entender a terapia de perda ambígua e são capazes de aplicá-la em si mesmos para entender e enfrentar novas situações de perda obscura. 5 Ambigüidade não é um problema para toda família ou membro dela. Alguns indivíduos e famílias conseguem viver com perda ambígua sem efeitos negativos. 6 Os rituais e símbolos familiares são o âmago da vida em família e especialmente úteis em reconstruir interações familiares, quando há perda ambígua. Símbolos, cerimônias e rituais fomentados por pessoas de confiança de um ambiente de comunidade familiar ajudaram as famílias a sinalizarem a permissão de iniciar o luto, mesmo que não tivessem um corpo para enterrar. 7 O estresse da ambigüidade parece ser maior e mais debilitante para indivíduos e famílias mais dirigidas ao controle e à autoridade. Pessoas acostumadas a ter respostas, estar no controle, ser capaz de consertar uma situação, ter os meios de resolver os problemas, parecem ser menos capazes de tolerar a ambigüidade. 8 Nomear a ambigüidade como a culpada e externalizá-la, diminui a própria culpa, vergonha familiar e resistência terapêutica. Depois de uma perda traumática, indivíduos e famílias como um todo, geralmente, culpam a si mesmos. Nossa tarefa terapêutica depois de uma perda traumática é externalizar a culpa. Nomear a ambigüidade externa como a causa é útil para reduzir a

29 29 própria culpa e a vergonha da família, mas o próximo passo é aumentar a tolerância deles por nunca ter uma resposta clara. 9 Avaliação e tratamento para transtorno agudo ou pós-traumático são insuficientes e, às vezes, inapropriados desde que TEPT (Transtorno de Estresse Póstraumático) difere conceitualmente e, portanto, clinicamente de perda ambígua. APA (1994, apud Boss, 2005, p. 34) afirma que a Terapia para transtorno de estresse pós-traumático é direcionada ao indivíduo e não inclui a família (exemplo, pai, mãe, casal, filho ou outros membros da família). É não sistêmica e focada na patologia, não na força e resiliência. A autora acredita ainda que são necessários muitos estudos sobre o 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos que foram citadas em sua pesquisa com as famílias de desaparecidos e, sobretudo, sobre os aspectos que envolvem a perda, sendo assim, ela cita seis passos fundamentais ainda a serem alcançados, são eles: - Mais pesquisas clínicas são necessárias sobre os efeitos a longo prazo de perda ambígua no resiliente e no desesperado. Para entender os efeitos a longo prazo de perda ambígua, nós devemos estudar os indivíduos e famílias resilientes tão bem quanto os sintomáticos. - Mais informações são necessárias sobre a ocorrência simultânea dos dois tipos de perda ambígua, especialmente no que se refere à prevenção de negligência não intencional para com uma criança em virtude da tristeza traumática não resolvida. - Mais comparações clínicas em culturas cruzadas são necessárias para identificar as familiaridades assim como as diferenças nas famílias que estão reagindo às perdas ambíguas. Enquanto reações diversas e estratégias únicas de enfrentar as dificuldades são documentadas, é necessário também identificar as reações comuns, para ajudar famílias angustiadas por trauma ou perda. Mais estudos são necessários sobre padrões de

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