Zona da Mata MINAS. Região concentra forças na busca de alternativas para fugir dos efeitos da guerra fiscal e alavancar economia

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1 MINAS K Ł ŤŢţŦ Ł ş ťũ Zona da Mata Região concentra forças na busca de alternativas para fugir dos efeitos da guerra fiscal e alavancar economia

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3 O Sistema FIEMG é SESI e SENAI, é FIEMG, CIEMG e IEL. São cinco organizações privadas que atuam ao lado dos empresários mineiros para que a indústria produza mais e melhor. O Sistema FIEMG é segurança e saúde no trabalho. É tecnologia e inovação. É educação e formação profissional. O Sistema FIEMG é mais desenvolvimento para todos. Para a indústria. E para você. www. fiemg.com.br

4 Editorial TERRA DE GENTE TRABALHADORA Cada região com seu passado, sua história. Percorrer a Zona da Mata é ir descobrindo essas vocações não apenas econômicas, mas talentos que parecem estar no DNA das gerações. É a sensação que se tem em Cataguases, terra que respira arte e cultura em cada esquina. Onde o passado dialoga com o presente. A cidade abriga o maior acervo arquitetônico modernista do interior do país e tem 16 edificações tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde Tem ainda importantes espaços e instituições culturais e é considerada o berço da cinematografia brasileira porque foi aí que Humberto Mauro iniciou, em 1925, sua trajetória cinematográfica. Essa efervescência cultural foi possível graças à presença de uma elite intelectual e cultural que entre 1940 e 1960 começa a intervir na cidade, como a família Peixoto, proprietária da Companhia Industrial Cataguases que teve papel preponderante, financiando boa parte das obras modernas da cidade como suas próprias residências, algumas moradias para funcionários das indústrias de sua propriedade, diversos equipamentos como escola, cineteatro, hospital, monumentos, praças, entre outros. Passados 78 anos de sua fundação, a tecelagem é referência afetiva em Cataguases, pois gera empregos, produz 2,5 milhões de metros de tecidos por mês, exporta para mais de 20 países e apoia vários projetos culturais e educacionais na cidade. Em Ubá, certificamo-nos da paixão do povo pela cidade, conhecida pela qualidade e diversidade de seu polo moveleiro que conta com 500 empresas que, no ano passado, faturaram 9,5 milhões de dólares e geram mais de empregos diretos. Indústria que não apenas contabiliza ganhos financeiros, mas que tem apoiado um projeto de qualificação de detentos, ao contratar aqueles que se formam em profissões como estofadores e corte e costura. Desde que começou, em 2010, o projeto, implantado por um juiz da cidade, já beneficiou 200 detentos que encontraram uma nova chance de reinserção social. Juiz de Fora ainda tenta se livrar dos reflexos da guerra fiscal com o Rio de Janeiro e busca alternativas econômicas para voltar a ocupar a posição econômica que já conquistou um dia. Tem lutado para voltar a atenção do poder público para reivindicações antigas como melhorias na malha rodoviária regional e a implantação do Parque Tecnológico, mas comemora o início das obras da estrada que vai ligar a cidade ao aeroporto Presidente Itamar Franco, em Goianá, que teve de volta a operação dos voos comerciais. Confira. Ana Elizabeth Diniz, repórter Diretor-geral Paulo Cesar de Oliveira Diretor licenciado Gustavo Cesar de Oliveira Diretora Executiva Eliana Paula Diretor de redação Homero Dolabella Diretora de arte Oriádina Panicali Machado Chefe de redação Maria Eugênia Lages Editora-executiva Silvânia Arriel Subeditora Luciana Avelino Editora-adjunta Cláudia Rezende Repórter Ana Elizabeth Diniz Revisão Maria Ignez Villela Secretária de redação Tamara de Jesus Editor de arte Renato Luiz Equipe de arte Adroaldo Leal, Gilberto Silva e Luciano Cabral Fotografia Agência i7 Gerente de marketing Monique Araki Gerente de eventos Gustavo Serpa Gerente financeira Marcela Galan Assistente comercial Sumaya Mayrink Departamento comercial (31) Andrea Monteiro, Dária Mineiro, Janaína Almeida, José Lopes, Karine Scofield, Márcia Perígolo, Marco Adail e Sônia Beatriz Assinaturas (31) Impressão Log&Print Gráfica e Logística S.A. Entregas Fast Entregas Distribuição bancas Disa - Distribuidora Sant Anna Viver Minas é uma publicação da VB Editora e Comunicação Ltda. São Paulo: Jacques Felix, 19 Vila Nova Conceição - CEP: São Paulo, SP Tel.: (11) Minas Gerais: Rodovia MG 030, 8.625, torre 2, nível 4, Vale do Sereno, Nova Lima, MG CEP: (31) VIVER Agosto

5 Sumário Fotos da capa: Pedro Vilela/Agência i7 5 Economia 8 Entrevista 10 Ali e acolá 13 Tenho dito 14 Polo cervejeiro 18 Indústria 20 Têxtil 22 Cidadania 24 Cinema 28 Arte 32 Perfil 34 Culinária Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 VIVER Agosto

6 VIVER MINAS ZONA DA MATA ECONOMIA Tentativas e acertos REGIÃO TENTA SE LIVRAR DOS REFLEXOS DA GUERRA FISCAL COM O RIO DE JANEIRO E BUSCAR ALTERNATIVAS ANA ELIZABETH DINIZ A Zona da Mata já foi a segunda região mais desenvolvida de Minas Gerais e hoje é a sétima. Juiz de Fora está à mercê do desenvolvimento do estado e precisa de ajuda. Há 20 anos, ações desenvolvimentistas oriundas da gestão estadual deixaram de existir na cidade que deixou de crescer e ter investimentos, argumenta Francisco Campolina, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), regional Zona da Mata há nove anos. Segundo ele, há nove anos, a ex- -governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, criou uma lei de incentivo fiscal e o governo do Espírito Santo fez a mesma coisa. A Zona da Mata, que faz divisa com os dois estados, foi afetada gravemente. Com carga tributária menor naqueles estados, quem se atreveria a abrir empresas e investir na região? Os últimos governos de Minas viraram as costas para nossa região e, com isso, perdermos empresas. Não houve investimento industrial o que culminou com o enfraquecimento econômico da região, analisa. A situação estava tão precária que Aécio Neves, em determinado momento, concluiu que a Zona da Mata estava ficando para trás e, no final de 2009, criou uma legislação para enfrentar a guerra fiscal principalmente com o estado do Rio de Janeiro. Ele criou um protocolo para a criação de cinco ou seis indústrias em Juiz de Fora e outras na Zona da Mata. Algumas estão produzindo e faturando e outras em instalação. Esperamos que o governo amplie e mude o modelo de fortalecimento da região que é por produto, e não por empresa, defende Campolina. A luta para vislumbrar soluções que pudessem mudar essa realidade econômica na região vem de longe. Em 2011, durante a reunião da Agenda Regional de Desenvolvimento da Zona da Mata foram listadas 15 ações para alavancar o desenvolvimento da região. A pergunta é: o que aconteceu desde então? Essa agenda teve início, meio e seu cumprimento é autorrenovável, pois priorizava essencialmente melhorias na malha rodoviária regional, a implantação do Parque Tecno- 6 VIVER Agosto

7 Pedro Vilela/Agência i7 CAMPOLINA: Esse retorno vai gerar desenvolvimento e renda para a região lógico, entre outras ações. De concreto temos o início das obras da estrada que vai ligar Juiz de Fora ao aeroporto Presidente Itamar Franco, localizado entre Rio Novo e Goianá, parceria entre o governo estadual e a iniciativa privada, responde Campolina. Dos 22 km de estrada, 13,8 km estão em obras, faltam os 8 km finais. A obra foi orçada em 52 milhões de reais e a previsão de entrega é até o final de Esperamos que o governo cumpra a segunda parte da estrada. Já fizemos movimento junto ao ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, para que ele nos ajude. A Associação dos Municípios da Microrregião do Vale Paraibuna (Ampar) congrega 42 prefeituras que participam do movimento, além da população que reivindica a estrada que vai evitar que caminhões de carga tenham que passar pela cidade e vai aliviar o fluxo de automóveis, diz. Outra luta antiga era a retomada dos voos comerciais no aeroporto Presidente Itamar Franco. A Fiemg Zona da Mata liderou, desde o início de 2013, uma mobilização que chamamos de Movimento Pró Aeroporto Itamar Franco em protesto contra a transferência dos voos para o aeroporto Francisco Álvares de Assis (Serrinha). O aeroporto Presidente Itamar Franco é o primeiro a ser privatizado no Brasil e está sendo administrado sob regime de terceirização pela empresa Multiterminais Alfandegados do Brasil, mas o governo fará uma nova licitação e a empresa contemplada irá administrá-lo por 25 anos. Economicamente falando, a retomada dos voos é comemorada por Campolina que aposta no fortalecimento das indústrias da Zona da Mata e sua rede de negócios. Esse retorno vai gerar desenvolvimento e renda para a região, já que esse terminal pode ser considerado como um elo entre a Zona da Mata e todo o Brasil. Agora, estamos trabalhando para o NÚMEROS DA ZONA DA MATA indústrias extrativas, de transformação, construção civil e serviços industriais de utilidade pública é o número de pessoas empregadas pela indústria 59,8% do PIB é dos setores de comércio e serviços 19,2% é o PIB da indústria 10% é o PIB da agricultura 3,6 bilhões de reais foram investidos na Zona da Mata nos últimos quatro anos funcionamento do terminal de carga, que já está pronto, mas inoperante, anuncia o dirigente. Um grande projeto regional que tinha tudo para dar certo, o Parque Tecnológico, teve a licitação para as obras barrada pelo Tribunal de Contas. Quando a obra foi finalmente liberada, já havia acabado o prazo, ou seja, a Universidade Federal de Juiz de Fora terá que começar o processo do zero. Mas temos grande expectativa em relação ao parque mesmo porque participamos do seu DNA e entendemos que ele vai contribuir efetivamente para o desenvolvimento econômico da região. Ele será a cabeça pensante do que poderá ocorrer nas indústrias da região e nos setores energético e de alimentação, finaliza Campolina. VIVER Agosto

8 VIVER MINAS ZONA DA MATA ENTREVISTA Cidade de potencialidades VADINHO BAIÃO, PREFEITO DE UBÁ, COMENTA SOBRE OS PROJETOS E DESAFIOS DE SUA GESTÃO Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 ANA ELIZABETH DINIZ Ele é o primeiro prefeito reeleito na história de Ubá, cidade com 110 mil habitantes. Vadinho Baião, 55, ex-vereador e ex-deputado federal é um apaixonado pela cidade e pelo seu povo acolhedor como ele gosta de se referir aos seus conterrâneos. Ubá é uma das cidades que mais cresce na Zona da Mata, já somos a segunda economia depois de Juiz de Fora e a segunda população, depois de Muriaé. Somos ainda o terceiro maior polo moveleiro do Brasil e o primeiro de Minas Gerais com 300 empresas de móveis e um comércio bem diversificado. A indústria moveleira é a base da economia e o setor que mais gera empregos diretos, cerca de Quais os avanços na área de educação nesses últimos cinco anos? Educação é hoje nossa maior vitrine, pois fizemos uma revolução. Quando assumi a prefeitura, eram 80 vagas nas creches municipais, hoje temos 1.000, e, até o ano que vem, va- 8 VIVER Agosto

9 mos dobrar esse número, construindo novas escolas e creches. Nosso município já atingiu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) previsto para 2022, pelo Ministério da Educação. Temos 22 escolas municipais e alunos. Distribuímos uniforme escolar gratuitamente. Pelo fato de Ubá ser uma cidade muito quente, já temos 70% das salas de aula com ar- -condicionado e a meta é atingir 100% até o final do ano. Estamos investindo no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, temos uma Universidade Aberta do Brasil (UAB) em parceria com as universidades de São João del Rei, Juiz de Fora e Viçosa e, no próximo ano, teremos aqui um polo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifet) com 400 vagas. Há faculdades particulares e, ainda esse ano, será realizado o primeiro vestibular para medicina com 60 vagas oferecidas pela Faculdade Governador Ozanam Coelho. E na área de saúde, o que tem sido feito? Esse é um gargalo para as prefeituras. Evoluímos muito e criamos um consórcio intermunicipal de saúde com a participação de 19 municípios onde atendemos uma população de 300 mil habitantes. Essas cidades estão buscando oferecer à população serviços que não são facilmente oferecidos pelo SUS, sejam consultas especializadas ou exames. Construímos um prédio dotado de ótima infraestrutura, onde são oferecidas diversas especialidades médicas, com características de atendimento particular, com hora marcada. O atendimento é de graça para o cidadão, mas os municípios pagam 40 reais por uma consulta para o médico. Implantamos a primeira unidade do Samu, adquirimos uma ambulância com equipamentos de urgência, médico e enfermeira e outra com enfermeiro e socorrista. Aumentamos o atendimento primário nos postos de saúde. Ubá recebeu nove médicos cubanos que se somaram aos outros médicos para atender às 19 unidades de atenção primária à saúde. Novas empresas estão chegando à cidade? A Rede de Supermercados Bahamas está investindo 8 milhões de reais na implantação da segunda loja com m 2, o que irá gerar cerca de 200 novos empregos e movimentar a economia local. A estratégia deles é trazer o atacado para dentro da loja de varejo com preços diferenciados e estoque maior, o que eles chamam de atacarejo. Dentro dessa mesma linha, está vindo outro grupo supermercadistas (que não posso ainda divulgar o nome). Um grupo de Belo Horizonte vai construir um shopping center na cidade, um investimento entre 70 e 80 milhões de reais, com 140 lojas, de três a cinco salas de cinema, praça de alimentação. Ele vai gerar em torno de novos empregos e atrair grandes marcas nacionais. Estamos discutindo os últimos detalhes. A segurança pública tira o sono? Foi aprovada a construção da cadeia regional de Ubá que vai oferecer 388 vagas, um investimento de 16 milhões de reais. Nossa atual cadeia pública é pequena, tem capacidade para 70 presos e tem mais de 300. Estamos tentando recuperar o preso por meio de um projeto idealizado pelo juiz da Vara Criminal da Infância e Juventude e Execução Penal, Nilo Marques Martins Júnior. Aqueles que se interessam e têm a aprovação do juiz, frequentam cursos de capacitação profissional e, quando saem de lá, começam a trabalhar nas fábricas e na indústria moveleira. Quando o cara quer, ele sai da marginalidade, oportunidade ele tem. FRASE Ao final de oito anos de governo, quero deixar o povo mais otimista, orgulhoso e feliz Vadinho Baião Como é a participação do estado na segurança pública? Esse é o problema. A segurança pública é papel do estado, mas os municípios estão tendo que absorver muitos custos. A prefeitura tem que ajudar a pagar conserto de viaturas, despesa do Corpo de Bombeiros, da Polícia Rodoviária, ceder funcionários para Polícia Civil. Estamos muito sacrificados. Ubá conta com um indicador muito ruim. De acordo com nossa população, deveríamos ter 180 policiais e hoje temos 110, temos um déficit de quase 50% o que faz com que o sentimento de insegurança da população aumente. O consumo de drogas aumentou, levando a pequenos furtos, mas estamos investindo na área social. Temos um centro chamado POP que atende à população de rua, criamos um abrigo, a Casa Cidadã, espaço toda equipado para tentar tirar as pessoas das ruas. Descobrimos coisas inesperadas como uma professora, falando inglês, vivendo na rua. Ela foi expulsa de casa por causa das drogas. Quando dissemos a ela que tinha um lugar para tomar banho, ela chorou. Quando abrimos uma porta, a pessoa pode se recuperar. Temos programas sociais que já são referência nacional como o karatê cidadão que já fez um campeão brasileiro e parcerias com clínicas de recuperação e indústrias que absorvem as pessoas após o tratamento. Qual seu maior desafio? A grande meta que tracei, quando assumi o governo, há cinco anos e meio, foi deixar a cidade bem mais bonita do que encontrei e o povo ubaense com boa autoestima em relação à cidade. Ao final de oito anos de governo, quero deixar o povo mais otimista, orgulhoso e feliz. VIVER Agosto

10 ALI E ACOLÁ POR ANA ELIZABETH DINIZ Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 Pipoca com queijinho Não se sabe ao certo com quem e quando começou essa verdadeira febre em Juiz de Fora, a pipoca com queijinho, que os nativos garantem ter sido criada na cidade. Gabriel Rodrigues, 57, fritava o queijo 10 parmesão, cortado em cubinhos, na gordura quente, enquanto seus ajudantes Igor Leonardo e Caio Eduardo Batista iam enchendo os saquinhos de pipoca quentinha. O segredo, diz Gabriel, é usar o queijo meia cura, o único que dá o ponto certo, crocante por fora e macio por dentro. Ele é misturado à pipoca em embalagens que vão de 1,50 a 10 reais. A Pipoca do Parque Halfeld é de propriedade de Mateus Maier e está naquele ponto há 61 anos. VIVER Agosto

11 Leitura na praça Uma geladeira vermelha em plena praça pública chama a atenção de quem chega pela primeira vez a Ubá. Com as portas escancaradas, ela armazena revistas e livros que estão ali para serem levados e deixados. O projeto Geladoteca - Refresque sua ideia foi lançado, em 2012, pela secretária municipal de Educação, Maria do Carmo Mello Coelho. A minibiblioteca funciona atualmente nas praças São Januário, da Independência, das Mercês, Gladstone Faria Alvim e na rua São José, conta com a boa ação de voluntários e está desmistificando a ideia de que brasileiro não tem costume de ler. e mais Ary Barroso em bronze Os espaços públicos de Ubá são muito bem valorizados. Em uma caminhada pela praça São Januário, o turista fica cara a cara com a estátua de bronze do filho da terra, Ary Barroso, compositor, arranjador e radialista, autor de Aquarela do Brasil e de muitas outras pérolas da música popular brasileira. Batizada de Ary Barroso ao Piano, a estátua foi criada pelo artista plástico Wellington Fernandes. VIVER Agosto Rosa Mística Há 25 anos, ininterruptamente, faça sol ou chuva, um grupo de devotos vai todas as terças-feiras, às 15h, rezar o terço em louvor à Rosa Mística, na praça Halfeld, no centro de Juiz de Fora. A tradição começou com Terezinha Falci que morreu no ano passado, mas deixou sucessora, Olímpia Diolli, que jurou de pés juntos manter a tradição de fé e devoção. Rosas vermelhas, amarelas e brancas, velas, cânticos, pedidos e agradecimentos em meio ao turbilhão urbano. 11

12 ALI E ACOLÁ Damas e carteado Cine abandonado No Parque Halfeld, há de tudo um pouco. Comilança, reza, namoro e uma turma que ocupa quase 100% das mesas e bancos para passar o tempo jogando cartas ou dama. É claro que o jogo é apenas um pretexto para enrolar a velhice e flertar com a sorte ou o azar. Há quem frequente o local há mais de 20 anos, como Antônio, Claudiomiro, Adão, Paulo, Flávio e Manoel que formam duplas para disputar animados campeonatos. e mais Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 Um marco da arquitetura de Cataguases, o Cine Teatro Edgard já viveu dias de glória e apogeu. A obra, de 1946, teve projeto de Aldary Henriques Toledo e Carlos Azevedo Leão e foi tombada pelo Iphan em Até 2010, foi propriedade particular, mas, após ampla mobilização de lideranças e instituições culturais locais, ele está em processo de desapropriação 12 e aquisição pela prefeitura. Foi interditado em janeiro de 2013 devido à precariedade das instalações elétricas e nada foi feito e, tampouco, reaberto. Tem 960 lugares e um enorme salão social na parte superior onde, no passado, aconteciam os bailes e tardes dançantes. A população aguarda uma decisão da prefeitura para que ele seja reaberto. Cidade das mudas Dona Euzébia é uma cidade miúda com pouco mais de habitantes. É o primeiro produtor de mudas do estado e o segundo do país. Produz mudas cítricas, frutíferas, ornamentais e florestais, e abastece grande parte das cidades brasileiras. Ao longo da estrada, as flores colorem a paisagem, principalmente as buganvílias de todas as cores, matizes e variedades. Tradição de mais de meio século. São 130 produtores registrados que geram mais de 700 empregos. Estima-se que na região há plantados entre 2,5 milhões e 3,5 milhões de pés de frutas cítricas. VIVER Agosto

13 Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 tenho dito o melhor e o pior da minha cidade Cataguases tem qualidade de vida, muita cultura, artesanato, arquitetura modernista e boa comida. Há poucas empresas e, com isso, pouca oferta de trabalho. Gostaria que tivessem mais opções de lazer e mais atrativos pelo fato de ser uma cidade histórica. Karla Rodrigues Marinho, 36, tesoureira Tocantins é uma cidade pequena do interior com grandes investidores na agricultura, Tem projetos sociais que incentivam o esporte, a música e a dança. Minha crítica é que tem aumentado o índice de violência e o número de dependentes químicos. Marcilene Meireles, 18, recepcionista Juiz de Fora é uma cidade boa para se viver e boa para trabalhar porque tem muito emprego. Aqui temos parques e lazer. Mas a violência vem aumentando muito e nos postos de saúde faltam médicos. Um simples exame de sangue leva um mês para ser marcado. José de Jesus Gonçalves, 65, porteiro As pessoas aqui são afetuosas e recebem bem. Ubá é uma cidade industrial, bem estruturada e com muitas empresas e ofertas de trabalho, mas está ficando violenta. Vejo certo despreparo do poder público para lidar com isso uma vez que o que está sendo feito é pouco para combater a insegurança que a população sente. Tiago Couto, 34, músico VIVER Agosto

14 VIVER MINAS ZONA DA MATA POLO CERVEJEIRO Pedro Vilela/Agência i7 Embriagados pela paixão CERVEJAS ESPECIAIS CONQUISTAM EMPRESÁRIOS DE JUIZ DE FORA QUE JÁ PRODUZEM 30 MIL LITROS POR MÊS 14 VIVER Agosto

15 ANA ELIZABETH DINIZ Juiz de Fora é a segunda cidade mineira com a maior concentração de cervejarias com cinco produtores registrados e uma produção de 30 mil litros por mês. A história da cerveja tem quase 10 mil anos, mas em Juiz de Fora, a tradição remonta ao tempo da colonização da cidade pelos alemães que ali se instalaram, principalmente nos bairros da cidade alta (são Pedro, Borboleta), talvez pela proximidade de fontes de água limpa. Assim como os monges, os padres brasileiros fabricavam sua própria cerveja para o jejum, chamado de pão líquido. Em Juiz de Fora, é a paixão pela fabricação artesanal que vem movendo um grupo de empresários locais que tem se dedicado a essa arte. Não basta apenas investir, é preciso se qualificar e se preparar para atuar formalmente nesse mercado em ascensão, principalmente, se o objetivo é a expansão do negócio. Por isso, o Sebrae desenvolveu, em 2011, um projeto de qualificação dessas empresas. Iniciamos o processo com uma pesquisa sobre as atividades do setor e o consumo das cervejas artesanais em Minas Gerais e no Brasil. Concluímos que se tratava de um negócio viável, com um mercado em evolução e implantamos ações que pudessem permitir que os produtores migrassem da antiga condição de fabricação doméstica, restrita, para uma situação formal, com registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, explica Marcelo Rother, analista do Sebrae da microrregião de Juiz de Fora. O Sebrae oferece as ferramentas e os empresários as implementam, alguns imprimem maior ou menor rapidez nesse processo, conforme suas facilidades ou limitações. Segundo ele, a meta é o aumento da produção e ampliação do mercado. Elas estão sendo atingidas com intensidades diferentes entre os cervejeiros, já que cada um deles implementou as melhorias em condições diferentes. Mas todos avançaram em direção aos objetivos propostos inclusive, porque, para ampliar as vendas, necessariamente, eles deveriam buscar sua formalização, o que foi possível a partir do final do ano passado e início deste ano. A transição de informal para formal exige investimento financeiro que nem sempre está disponível para todos. A produção individual vem aumentando conforme os cervejeiros vão ampliando suas estruturas de produção. Além de serem feitas em estruturas e escalas menores que as industriais, as cervejas artesanais têm como traço marcante a pureza. A receita parece simples, mas envolve várias etapas, e a maneira como a bebida é processada influencia no sabor, no aroma e na aparência, gerando diversos tipos de cerveja. As cervejas artesanais contam com a aceitação de um mercado cada vez mais exigente e focado em sabores especiais. Estamos trabalhando esse projeto de forma compartilhada com outros projetos como o turismo de negócios, buscando tornar a culinária associada à cerveja de Juiz de Fora um atrativo adicional aos visitantes, comenta Marcelo. Um exemplo dessa expansão que tem estimulado também parcerias locais é a dos empresários Arthur Fernandes Gouvea, 30, e Cristian Rocha, 43, que juntos, estão fabricando suas cervejas em fábrica novinha, com 150 m 2 de área FRASE Estamos buscando tornar a culinária associada à cerveja um atrativo a mais Marcelo Rohter construída, onde investiram em equipamentos e todas as exigências sanitárias. Arthur é formado em turismo e conta que seu interesse pelo assunto começou na faculdade durante as matérias de gastronomia e harmonização. Em um encontro em minha casa, em 2006, um amigo levou cervejas importadas. Naquela época, ainda não se falava nisso em Juiz de Fora. Esse foi meu primeiro contato com cervejas diferentes das tradicionais. Comecei a pesquisar e vi que esse tipo de cerveja era comum na Europa e nos Estados Unidos, onde as pessoas fabricam cervejas em casa. Li muito sobre o assunto e entrei com um pedido de bolsa de iniciação científica na Universidade Federal de Juiz de Fora. Consegui reais, comprei fogão, panelas, termômetro, fermentador e a matéria-prima como malte, lúpulo, levedura. Em 2007, ainda na minha república comecei a fazer cerveja e não parei mais, relembra Arthur. Seu desejo era produzir uma cerveja vermelha. Fabricava em casa, produção acanhada de 30 litros por mês, os amigos aprovaram e começou o boca a boca. Quando se formou, em 2009, ele começou a trabalhar em agência de turismo, mas percebeu que não era o que queria. Foi quando seu pai, Carlos Magno Toledo Gouvea, resolveu investir no negócio, e seu irmão Fernandes Gouvea entrou como sócio. Investimos 260 mil reais na construção da fábrica e na compra de equipamentos como barris e cozinha cervejeira. As leveduras vêm da Bélgica, Alemanha e Inglaterra. Em 2011, ganhei um prêmio da VIVER Agosto

16 POLO CERVEJEIRO Associação dos Cervejeiros Artesanais de Minas Gerais (Acerva Mineira), fiquei em primeiro lugar na categoria Russian Imperial Stout, uma cerveja com teor alcoólico de 10.3%. No início deste ano, obtive o registro, estou formalizado e comercializando minha marca Arthorius no Bar Boi na Curva. Minha capacidade de produção é de 700 litros por mês, mas entre seis meses e um ano devo estar produzindo litros por mês e a meta é atingir 20 mil litros por mês, prevê. O cervejeiro Cristian Rocha, 43, nasceu em uma família onde o pai, seu Lair, tinha um comércio desde Ele começou como um armazém que foi transformando em mercearia, bar. Ele se aposentou, foi quando eu caí de paraquedas. Nessa época eu trabalhava como eletrotécnico, mas como nasci aqui em Juiz de Fora, escolhi morar aqui. Em 1995, estava prestes a abrir uma empresa de manutenção elétrica, mas percebendo que meu pai não conseguia vender o ponto comercial, localizado no bairro Santa Terezinha, resolvi assumir o negócio provisoriamente por um ano. Fracassei nessa intenção porque estou lá até hoje, conta. O empresário diz que seu estilo é diferente do pai. Ele era negociador, eu adoro planejar modelos de negócios. Ele fabricava caldos que tinham muita aceitação e eu resolvi mantê-los e aprimorá-los. A empresa foi crescendo 30% ao ano e acabei formando uma mão de obra qualificada. Antes, o bar que existe há 48 anos, ocupava 27m 2, hoje está com 200m 2. Percebi que o negócio de caldos tem sazonalidade, é forte no inverno e tem queda no verão. Sempre tentava imaginar um caldo para o verão até que entendi que era a cerveja. Cristian mergulhou de cabeça em pesquisas sobre esse universo TIPOS DE CERVEJA ARTHORIUS SAISON - Cerveja de coloração laranja, com 5% de teor alcoólico, apresenta aroma cítrico e picante. Sabor suave e levemente seca é feita com casca de limão siciliano, lima da Pérsia, pimenta jamaicana e anis estrelado. Harmoniza com conservas, carne de porco assada com molho de laranja. Cerveja para verão e bem refrescante PILSEN TRADICIONAL Com teor alcoólico de 5,3%, essa é uma cerveja bem leve, refrescante e muito maltada WEISS BIER - Feita de trigo, tem teor alcoólico de 4,8% e é ideal para acompanhar tira-gostos, frutos do mar e saladas RED ALE Com 5,3% de teor alcoólico tem coloração avermelhada, aroma levemente frutado com notas de caramelo e leve tostado. Harmoniza com queijos amarelos porque tem um leve sabor e aroma de bala toffe e caramelo RUSSIAN IMPERIAL STOUT Tem 10,3% de teor alcóolico e é elaborada com sete tipos de maltes especiais e é totalmente opaca. Tem coloração escura, espuma bege, boa formação, complexo aroma de chocolate, café, malte torrado e frutas secas. Harmoniza com sobremesas de chocolate meio amargo CRISTIAN ROCHA: produção começa a chegar a BH e ao Rio 16 VIVER Agosto

17 Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 ARTHUR GOUVEA: meta de atingir 20 mil litros por mês Ana Rivelo/Divulgação SAIBA MAIS: Shutterstock Lagers são cervejas que usam levedura (fermento) de baixa fermentação (as leveduras ficam no fundo do fermentador e necessitam uma temperatura de mais ou menos 7-12 C para fermentar) Ales são cervejas que usam levedura de alta fermentação (as leveduras ficam em cima nos tanques de fermentação e necessitam de mais ou menos C) Lambic é uma cerveja de fermentação espontânea para criar álcool e tem várias leveduras e não apenas uma só como no caso das ales e lagers Pilsen é o tipo de cerveja mais consumido no mundo. Em 1842, criou-se, na cidade de Pilsen, na atual República Tcheca, uma cerveja lager mais clara, que veio a ser denominada cerveja Pilsen, ou Pilsener, bem dourada, com notáveis aromas de lúpulo e um sabor bem mais acentuado de malte que as nossas cervejarias nos vendem aqui como Pilsen Cada cerveja pede uma harmonização que é influenciada pela herança gastronômica da região. Cervejas extremamente ácidas, como a belga e a Lambic, harmonizam com doces Saison é um tipo de cerveja considerada de fazenda porque é elaborada com temperos e aromas como cardamomo, gengibre, pimentas, flores como camomila. Ela utiliza um espectro maior de possiblidades, tem sabor mais seco e é mais alcóolica Uma boa cerveja deve proporcionar equilíbrio entre o corpo (sensação na boca) e o álcool A principal fonte de aroma da cerveja de alta fermentação vem das leveduras. As de baixa fermentação como pilsen, bock e Viena o maltado está em primeiro plano e acabou chegando nas artesanais, especiais, que considera as melhores do mundo. Isso não quer dizer que, por ser artesanal, é boa. Para isso, elas devem obedecer a critérios de qualidade. Em janeiro de 2007, fiz informalmente a primeira cerveja, a Profana. Comecei a participar de concursos de cervejeiros caseiros e encontrei subsídio para aprender e evoluir até chegar no ponto de registrar e comercializar a marca esse ano. Cristian comercializa a Profana no seu bar Boi na Curva. Ela é do tipo dopellbock, tem cor castanho avermelhada, lager, tem baixa fermentação e sabor maltado muito forte. Seu teor alcoólico é de 9%, tem sabor pouco adocicado com notas de caramelo, bala toffe, bolo e chocolate. Estou produzindo 350 litros por mês, um processo que leva quase 90 dias para ficar pronta. O primeiro lote começou a ser vendido em Juiz de Fora, mas no próximo mês ela será comercializada em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, em escala mais tímida. VIVER Agosto

18 VIVER MINAS ZONA DA MATA INDÚSTRIA Força moveleira em Ubá MAIS DE 500 EMPRESAS GERAM MAIS DE EMPREGOS DIRETOS E EXPORTARAM, NO ANO PASSADO, 9,5 MILHÕES DE DÓLARES Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 FABRICAÇÃO de móveis tubulares: polo tem 95 associados ANA ELIZABETH DINIZ Em 1917, Eduardo Marcato montou uma marcenaria na rua Júlio Alvim para fazer esquadrias e móveis de encomenda. Em 1927, Luiz Fiesten montou uma loja e uma marcenaria na rua São José. Paulinho Trevizano, em 1935, inaugurou sua marcenaria na Travessa Santo Antônio, e fabricava malas e móveis sob encomendas. Após a 2ª Guerra Mundial (1946),João Rosignoli instalou sua marcenaria no Lavapés, que além de fabricar móveis era especialista em ferrar e colocar eixo em carro de boi. Mas foi Francisco Parma o responsável por alavancar a indústria moveleira em Ubá quando trocou uma carroça e um cavalo por três máquinas e deu para seus filhos, Luiz e José Francisco Parma, que foram os primeiros a fabricar móveis em série. Muita coisa mudou de lá para cá, a gestão de negócios se aprimorou, novos mercados e demandas surgiram e a mão de obra se qualificou. O polo moveleiro de Ubá cresceu e se notabilizou, prova disso é a Feira de Móveis de Minas Gerais (Femur), realizada bienalmente, e que na sua 11ª edição, realizada de 19 a 23 de maio desse 18 VIVER Agosto

19 SHOW-ROOM da fábrica: vendas para países da África ano, completou vinte anos de história. Considerada um dos eventos mais representativos do setor moveleiro no Brasil, a feira apresenta 120 indústrias expositoras, distribuídas em uma área de 18 mil m 2, e já movimentou em todos esses anos cerca de 1,1 bilhão de reais em negócios e atraiu 147 mil visitantes. Segundo Michel Henrique Pires, presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá e Região (Intersind), a entidade congrega 95 associados de oito cidades que fabricam móveis e painéis de madeira reconstituída (MDF) e tubulares, comercializam com todo o Brasil e exportam, principalmente para a África. O foco do polo moveleiro são salas de jantar, cozinhas, dormitórios, escritórios, móveis infantis, estofados, estantes, colchões. O marco para o desenvolvimento da movelaria industrial está nos primeiros anos da década de A nova indústria que ali começava substituiu a economia do fumo, do café e do milho. Nas décadas de 1960 e 1970, a indústria cresceu com sobressaltos, mas a partir da década de 1980, o polo se tornou vigoroso, fazendo com que hoje seja o maior de Minas Gerais e o quinto maior do país, observa Michel. O dirigente ressalta que, apesar dos números positivos do polo mo- MICHEL PIRES: desafios precisam ser enfrentados NÚMEROS empregos diretos empregos indiretos 525 empresas moveleiras 540mil m 3 de chapa de madeira foram consumidos pelas empresas em 2013 US$9,5milhões foi o valor das exportações em mil toneladas de aço foram consumidas pelas empresas em 2013 R$25milhões foram investidos pelas empresas em 2013 na melhoria de infraestrutura, maquinário e pessoal Cidades do polo: Guidoval, Guiricema, Rio Pomba, São Geraldo, Rodeiro, Tocantins, Ubá e Visconde do Rio Branco veleiro, há desafios que precisam ser enfrentados. Para isso, ele já entregou à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico um documento que traz as principais reivindicações do setor, como a construção de um anel viário em torno de Ubá, a criação de uma linha de crédito específica para renovação de maquinário, redução do ICMS de 18% para 12% para os fabricantes de colchão, redução do ICMS para compras de chapas de aço dentro de Minas, zerar o ICMS para importação de máquinas, entre outros. Michel é proprietário da Modecor, empresa familiar fundada em 1991, instalada em uma área de m 2 em Tocantins, especializada em móveis tubulares, mesas, cadeiras e sofás. Geramos 200 empregos diretos e 50 indiretos. Vendemos para todo o Brasil, menos a região Sul, e exportamos para Moçambique, Angola e Argélia. Produzimos 60 mil peças por ano. Até 1990, o mercado estava em expansão. Hoje está retraído, a carga tributária é pesada e o consumo caiu, comenta. Apesar de ser o principal negócio da região, o polo carece de mão de obra especializada. Temos o Senai que oferece capacitação para profissionais da área moveleira, mas os cursos estão desatualizados. É preciso criar capacitações específicas para determinados maquinários. Já estamos estudando essa possibilidade, finaliza Michel. Divulgação VIVER Agosto

20 VIVER MINAS ZONA DA MATA TÊXTIL MÁQUINAS E FIOS: sofisticação nos detalhes Alquimia do algodão COMPANHIA INDUSTRIAL CATAGUASES COMPLETA 78 ANOS E PRODUZ 2,5 MILHÕES DE METROS DE TECIDOS POR MÊS ANA ELIZABETH DINIZ Fica muito fácil de entender porque a Companhia Industrial Cataguases é conhecida em todo o mundo pela qualidade de seus tecidos após conhecer de perto a área de produção e ver de perto o algodão ganhando forma, cores e vida em uma fiação cuidadosa, fruto de muita pesquisa e conhecimento de mercado. Equipamentos modernos e equipe capacitada vão extraindo do algodão infinitas possibilidades de cores e estamparias que, a cada ano, ganham as passarelas da moda de todo o mundo. A empresa foi criada em 1936 quando fabricava 15 mil metros de tecidos por mês. Hoje, sua produção é de 2,5 milhões de metros de tecido por mês, é uma das maiores tecelagens de tecidos de algodão do mundo, produzindo para todas as regiões do Brasil e exportando para mais de 20 países, principalmente para aqueles que ditam os padrões da moda mundial. Gera empregos diretos e produziu, no ano passado, metros de tecidos. Nossa meta é desenvolver produtos e serviços com foco na qualidade e no crescimento sustentável, assegurar o crescimento e a rentabilidade do negócio e promover o bem-estar das pessoas e dos colaboradores. A empresa é reconhecida pela qualidade de seus tecidos, produtividade, inovação tecnológica, qualidade de atendimento, além do respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos, comenta o jornalista da empresa, Juliano Carvalho Ferreira. Nossa visita começou com uma conversa descontraída com Amauri Marques, gerente de desenvolvimento de produtos da empresa, que comanda uma equipe megatalentosa de oito profissionais que dão asas à imaginação e cria estampas e padronagens diferentes a cada estação. A sofisticação está nos detalhes É preciso um olhar apurado, sensível e, ao mesmo tempo percepção de mercado para criar tecidos únicos. Temos ou- 20 VIVER Agosto

21 Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 FIQUE LIGADO Abrasão - desgaste por atrito ou fricção entre a superfície de um tecido e outra qualquer Acabamento final tem a finalidade de melhorar o brilho, caimento, respirabilidade, tato e desempenho em geral Adamascado - tecido de seda, linho ou algodão com desenhos lavrados em motivos florais ou geométricos. Seu nome deriva-se de Damasco, capital da Síria Alvejamento - processo mecânico, físico e químico através do qual se eliminam as impurezas naturais ou que foram adicionadas durante os processos de engomagem e tecelagem Ana Ruga -tecido leve de algodão, raiom ou seda com uma superfície de listras enrugadas Calandrado - acabamento mecânico, associado a agentes químicos, no qual o tecido passa por um processo de pressão e calor entre dois cilindros, obtendo brilho e compactação Cambraia - tecido fino, leve e transparente, de algodão ou linho. É produzido por tecelagem plana e recebe um tratamento de goma Casimira - termo genérico para um tipo de tecido em sarja, de trama fechada Chambray - mescla de fio de algodão branco e índigo. A versão clássica é azul Façonné - descreve certos tecidos que trazem desenhos ou padrões lavrados Gabardina - tecido de superfície homogênea com efeito de estrias finas diagonais em relevo, específico para a confecção de ternos, casacos e calças Pente - componente do tear cuja função é manter os fios de urdume paralelos entre si, organizando a densidade do tecido Tafetá - é a armação mais simples e mais usada, cujo entrelaçamento é resultado de fios de urdume que passam ora por cima das tramas, ora por baixo. Apresentam vários nomes comerciais, tais como morim, voile, organdi, popeline, tricoline e cambraia Urdume - série de fios em sentido longitudinal que, ao unir-se com os fios da trama, forma um tecido plano Viscose - fibra artificial de celulose derivada da polpa de madeira Wrinklefree - acabamento que tem por finalidade evitar que o tecido amarrote durante o seu uso ou lavagem sadia para conquistar outros mercados e, por isso, somos a única empresa brasileira a participar do Première Vision, em Paris que reúne indústrias têxteis de 27 países que apresentam suas coleções. A próxima será de 16 a 18 de setembro e vamos lançar a coleção inverno 2015, diz. O algodão usado pela Cataguases vem de diversos fornecedores, tanto nacionais como internacionais. Logo que chega, ele passa por um processo de limpeza e depois é enrolado nos carretéis. Daí, segue para ser fiado, tingido, engomado, digitalizado, alvejado, lavado. Para se ter uma ideia da complexidade da fabricação, somente o processo de acabamento do tecido tem 24 etapas. Entre 20% e 30% da produção é exportada. Esse percentual já chegou a 40%, mas caiu por causa da concorrência do mercado chinês. Hoje, entre 80% e 90% da nossa produção é de tecidos e 10% de confeccionados, mas esse número tende a mudar. Estamos prospectando na área do work fashion já algum tempo, um processo de adaptação da indústria têxtil ao mercado que busca produtos já prontos, comenta Juliano. Nosso tour termina na estamparia digital, tecnologia que aperfeiçoa a qualidade da cor nos tecidos. As rotativas trabalham, assim como toda a fábrica, 24 horas por dia. Cada máquina opera com uma paleta com 11 cores (cilindros) que estampam até 300 metros de tecido por hora, de acordo com a cor, que é equalizada através de programas de computador, de acordo com a solicitação do cliente. Os corantes podem gerar infinitas possibilidades de cores. Vimos em primeira mão as estamparias natalinas que vão enfeitar as mesas esse ano. Mas a Industrial Cataguases não é apenas números. Sempre teve uma marcante participação social na comunidade da cidade. Há quinze anos reuniu essas ações em um único projeto, criando o Instituto Francisca de Souza Peixoto que atende a pelo menos pessoas por mês em iniciativas de responsabilidade social, saúde, esportes, educação, cidadania, arte, cultura e meio ambiente. VIVER Agosto

22 VIVER MINAS ZONA DA MATA CIDADANIA Nova chance EM UBÁ, MAIS DE 200 DETENTOS FORAM QUALIFICADOS E GANHARAM UMA PROFISSÃO TURMA do corte e costura produz peças sob encomenda ANA ELIZABETH DINIZ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Percebendo que algo deveria ser feito pelos detentos de Ubá, o juiz da Vara Criminal da Infância e Juventude e Execução Penal, Nilo Marques Martins Júnior, idealizou e coordena um projeto de recuperação, qualificação e inserção do detento no mercado de trabalho. Implantado há quatro anos, o projeto já conta com mais de 60 empresas parceiras e já recuperou mais de 200 presos. Por meio da Associação Municipal de Assistência ao Recuperando (Amarc), os detentos podem se inscrever em cursos de qualificação em corte e costura, artesanato, horta orgânica e palestras de socialização. Através do Senai local, eles são direcionados às empresas. Sempre tive comigo que a melhor maneira de recuperar o homem é pelo trabalho e, por isso, criamos a associação. Tudo começa com o interesse do preso que procura a associação. A partir daí, avalio o tempo de pena que ele tem a cumprir, qual a qualificação de seu interesse e o seu comportamento. Ele entra em uma fila e é chamado para entrevistas com psicólogo e assistente social do presídio de Ubá, explica o juiz. Quando abre uma vaga, se aprovado, o detento frequenta o curso escolhido durante seis meses, período em que se qualifica naquela função. Se contratado por alguma empresa local 22 VIVER Agosto

23 passa a receber o salário mínimo. Os bons de serviço são contratados e isso representa 90% deles, os outros 10% saem do presídio antes disso. Após a implantação desse programa, a reincidência criminal em Ubá diminuiu 80%. Hoje temos de 10 a 20 presos empregados em marcenaria, trabalhando com corte e costura, artesanato e na horta que vai fornecer verduras e legumes para as escolas da região e sacolões. Na cidade temos mais de 300 fábricas de móveis e grande carência de mão de obra, comemora Nilo. Segundo ele, 80% estão presos por causa de droga e eles têm entre 18 e 25 anos. São jovens que acabam se envolvendo com as drogas e o tráfico. O estado está deficitário, não tem que construir presídios, mas colônias de recuperação de drogados. Quando o detento se qualifica, ele sai das drogas. Ainda no programa padres e pastores participam de um trabalho de conscientização dos detentos. O remédio é Deus e um dos pilares da associação é colocar Deus no coração das pessoas. A psicóloga Natália Contrera Coutinho vive a rotina diária nas oficinas que são oferecidas aos detentos e se entusiasma ao falar do programa que devolve a eles a vontade de se reintegrar socialmente. Nosso objetivo é a humanização da pena. Hoje temos quatorze detentos se profissionalizando, mas a proposta é atender vinte. Eles têm a opção de passar pelas oficinas de artesanato, marcenaria, pintura de pano de prato. Temos uma parceria com a Secretaria de estado de Educação para alfabetização e com o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) porque sabemos que, além da recuperação do detento, é preciso fazer um trabalho com sua família para que ele se sinta apoiado para não retornar para o mundo das drogas. É muito importante a forma como ele é recebido em casa, diz Natália. Das 8 às 17h, os detentos ficam nas diferentes tarefas. O pessoal do TXAI SOARES: chance de aprender profissão corte e costura produz peças sob encomenda para facções e uniformes para empresas. É o caso de Txai Damiano Soares, 24, que está há seis meses participando da oficina de corte e costura. Já cumpriu quatro anos de um total de dez anos e 10 meses de pena por tráfico de droga e envolvimento com gangues. Casado e com uma filha, ele se diz satisfeito com a oportunidade que está tendo. É importante ter essa chance de aprender Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 PRESOS preparam terra para a horta orgânica uma profissão para não se envolver novamente em coisa errada. O que eu passei não quero para ninguém. Tenho esposa e uma filha e quero criar ela da melhor forma. Não quero mais dar desgosto para minha família que já sofreu muito com minhas escolhas. Tenho fé em Deus e em nome de Jesus sei que terei uma vida melhor quando sair daqui, confia. Em outro local da associação, outro grupo de detentos preparava a terra e fazia canteiros para uma horta orgânica. Sob a orientação de Paulo Elias de Oliveira, engenheiro agrônomo e instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o grupo estava empenhado na horta e observava uma sementeira que, em apenas dois dias depois do plantio já exibia caules viçosos de alfaces e outras verduras. Nosso objetivo aqui é ensinar a trabalhar a terra, o aprender a fazer, fazendo. Eles estão tendo a oportunidade de aprender todo o processo da olericultura. Já vamos começar a trabalhar na compostagem porque aqui não vai entrar nenhum químico. Toda a produção será doada para instituições. Nada pode ser vendido, finaliza. VIVER Agosto

24 VIVER MINAS ZONA DA MATA CINEMA MEMORIAL dedicado ao cineasta Na trilha de Humberto Mauro POLO AUDIOVISUAL DA ZONA DA MATA TEM SIDO PALCO DE VÁRIAS PRODUÇÕES CINEMATOGRÁFICAS DE PESO ANA ELIZABETH DINIZ Cataguases respira arte e tem o privilégio de ter boa parte de sua história preservada por uma geração jovem, filhos de empresários locais, intelectuais e artistas que beberam na fonte do modernismo. Esses jovens usaram de sua sensibilidade e se envolveram em múltiplos projetos culturais de resgate de espaços históricos e fazeres artísticos como o cinema e foram apoiados pela iniciativa privada. A cidade é considerada o berço da cinematografia brasileira porque foi aí que o cineasta Humberto Mauro iniciou, em 1925, sua trajetória com uma câmera em 9,5 mm com o curta Valadão, O Cratera. Em 1926 lança seu primeiro longa-metragem, Na Primavera da Vida. Com ele surgiu a primeira musa do cinema brasileiro, a filha do fotógrafo Pedro Comello, Eva Nil, que abandonou a carreira artística rapidamente. Cataguases é o epicentro de uma das mais importantes avalanches cinematográficas do século passado. Filho de um italiano com uma mineira, Humberto Mauro nasceu em Volta Grande, na Zona da Mata e foi para Cataguases quando tinha terminado o ginásio em Leopoldina. Fez um curso por correspondência de eletricidade em bondes elétricos e na antiga Companhia Força e Luz (hoje Energisa) montou uma oficina. Eu me meti em rádio, fui a primeira pessoa. Papai levou um pra mim, com válvula, a gente só ouvia com fone. Como curioso que era, abri aquilo. É uma coisa à toa para fazer. Fiz um e deu certo, comecei a fazer uma porção e vender. Fui o precursor do rádio em Minas Gerais, revelou ele. 24 VIVER Agosto

25 O cinema veio muito tempo depois. Sempre gostei muito de fotografia. Frequentava o cinema quando era mocinho, mais para ver a fotografia. Cinema em Cataguases era duas ou três vezes por semana no máximo. Tinha um preto chamado Liberato, empregado do dr. Abreu, que pagava uma entrada pra mim nas torrinhas para eu ler legenda pra ele. Eu lia alto, o sujeito lá embaixo reclamava, conta o cineasta em um trecho exibido no Memorial Humberto Mauro, inaugurado em 2002 em Cataguases. Espaço dinâmico, vivo, e que oferece trechos de suas obras, exibe objetos pessoais, depoimentos, um rico e bem conservado acervo. O memorial foi capitaneado pelos esforços da Fundação Ormeo Junqueira Botelho. Está aqui o mundo-mauro: a Phebo Brasil Filme e seus produtores, Homero Cortes Domingues e Agenor de Barros, a atriz Eva Nil e o fotógrafo Pedro Comello, seu pai. O fotógrafo Edgar Brasil e a estrelíssima Carmen Santos. Os tempos da cinédia, com Adhemar Gonzaga, e os do Ince, com Roquette Pinto. A parceria com o maestro Heitor Villa-Lobos no (re) descobrimento do Brasil, define Mônica Botelho, presidente da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, do grupo Energisa. O Memorial Humberto Mauro integra as ações que vêm sendo implantadas desde 2002 na cidade e região com o lançamento de um programa de cultura e desenvolvimento local. Desde então, esse programa vem sendo organizado com a participação de importantes lideranças da cultura, educação, instituições, empresas e governos municipais. São inúmeras iniciativas, festivais, fóruns, cursos, oficinas, equipamentos e produções de filmes, comenta Cesar Piva, gestor cultural da Fábrica do Futuro e que, junto com Mônica DJALMA DUTRA e Marco Antônio: foco no audiovisual PEÇAS do memorial: obra contemplada Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 Botelho, coordena as ações do Polo Audiovisual da Zona da Mata de Minas Gerais, nascido em 2008 com o apoio da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho/Energisa, o Instituto Fábrica do Futuro e o Sebrae. Segundo Piva, desde 2010 já foram produzidos mais de 40 filmes, dentre longas-metragens, curtas, documentários, videoclipes musicais, animação e webséries, que geram trabalho, renda, negócios e já impactam a economia da região. Este ano já foram produzidos treze longas metragens e estão em andamento duas importantes produções: o filme Redemoinho, inspirado na obra do escritor cataguasense Luiz Ruffato e dirigido pelo também mineiro, José Luiz Villamarim (diretor de Rebu) e Introdução à Música do Sangue, dirigido por Luiz Carlos Lacerda e inspirado na obra do escritor Lúcio Cardoso. Cataguases traz sua marca histórica ligada à cultura dos modernistas na literatura, arquitetura, paisagismo, mobiliário, ao surgimento do cinema brasileiro, com a obra de Humberto Mauro. Esse legado maravilhoso, está sendo muito bem aproveitado ao aliar novas práticas de gestão cultural, responsabilidade social empresarial moderna com o avanço de políticas públicas no Brasil. Enxergamos nossa diversidade cultural como fator altamente promissor para um novo modelo de desenvolvimento, sobretudo, para esse novo país que se fortalece a partir da qualidade de vida das pequenas VIVER Agosto

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