ACIDENTES GEOMORFOLÓGICOS NA MICROBACIA DO CÓRREGO FRUTUOSO EM ANÁPOLIS (GO).

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1 ACIDENTES GEOMORFOLÓGICOS NA MICROBACIA DO CÓRREGO FRUTUOSO EM ANÁPOLIS (GO). Maria de Lourdes Gomes Guimarães 1,3 ; Homero Lacerda 2,3 1 Voluntária de Iniciação Científica PVIC/UEG 2 Pesquisador Orientador 3 Curso de Geografia - Unidade de Ciências Socio-Econômicas e Humanas de Anápolis - UEG RESUMO Os acidentes geomorfológicos da área são erosão pluvial (sulcos, ravina e voçoroca), erosão fluvial, rolamento de matacão e assoreamento. Resultam da falta de planejamento do uso e ocupação do solo urbano e da ausência de infra-estrutura de pavimentação e drenagem de águas pluviais. A análise desses processos fornece subsídios para definição de medidas de controle preventivo. Palavras chave: erosão, assoreamento, rolamento de matacão. INTRODUÇÃO A microbacia do Córrego Frutuoso tem área de aproximadamente 2km 2 e está localizada na região noroeste de Anápolis. Compreende os bairros Residencial Dom Emanoel, Adriana Parque, Vila Jaiara, Vila Nova Jaiara e residencial Mônica Braga (Figura 1). Um primeiro inventário dos riscos geológicos do local foi apresentado por Lacerda et al. (2005) e, segundo estes autores, a área apresenta riscos de inundação pluvial (alagamentos) e erosões (ravina, boçoroca). O trabalho ora apresentado foi realizado como iniciação científica e monografia de conclusão do curso de Licenciatura Plena em Geografia. O estudo teve por objetivo avançar no conhecimento dos acidentes geomorfológicos do local, analisando as relações entre acidentes e infra-estrutura urbana. MATERIAIS E MÉTODOS O trabalho iniciou com a realização de pesquisa bibliográfica, visando compreender os tipos de acidentes e riscos geomorfológicos urbanos, bem como obter os critérios para identificá-los no campo (Cerri e Carvalho, 1991; Cunha, 1991; Cerri e Amaral, 1998; Infanti Júnior e Fornasari Filho, 1998). Os acidentes e riscos geomorfológicos foram identificados em trabalho de campo, quando foram utilizadas as seguintes bases cartográficas: planta da cidade de Anápolis em escala 1/18.500; mapas de riscos geológicos e bacias hidrográficas de Anápolis em escala 1/ (Lacerda, 2004). A

2 caracterização da Boçoroca do Córrego Frutuoso foi feita com base em observações de campo, registradas em ficha de cadastramento, segundo a proposta de Oliveira et al. (1991). Neste cadastramento foram utilizadas informações de moradores locais, obtidas por meio de entrevista não estruturada (Marconi e Lakatos, 1982). O uso da terra e a infra-estrutura de pavimentação e drenagem foram levantados durante trabalho de campo, com utilização das mesmas bases cartográficas empregadas no inventário dos acidentes. Os resultados do estudo são apresentados a seguir, iniciando pelo uso da terra, seguido da descrição dos riscos e acidentes, concluindo com uma síntese dos resultados. USO E OCUPAÇÃO DO SOLO O uso do solo na microbacia admite dois grupos principais (Figura 1): áreas parceladas, com diversos níveis de ocupação e de infra-estrutura urbana; e área de vegetação antrópica. Fig. 1: Uso da terra e infra-estrutura urbana na área de estudo (a localização da área na malha urbana de Anápolis está no canto superior direito do mapa). Fonte: Guimarães (2004). Áreas parceladas: As áreas parceladas podem ser subdividas em três classes, de acordo com a disponibilidade de infra-estrutura urbana e densidade da ocupação (Figura 1): área com alta densidade de ocupação, dotada de pavimentação e sistema de drenagem de águas pluviais, representada pela parte leste da bacia; área com alta densidade de ocupação, dotada de

3 pavimentação mas sem sistema de drenagem de águas pluviais, recobrindo a maior parte da área parcelada, englobando os bairros Vila Jaiara, Vila Nova Jaiara e Residencial Mônica Braga; e área parcelada, com ocupação esparsa, sem asfaltamento e sem drenagem de águas pluviais, na parte oeste da bacia, nos bairros Adriana Parque e Residencial São Miguel, onde as casas são construídas em sistema de auto construção. Áreas de vegetação antrópica: A área de vegetação antrópica está localizada no fundo do vale e, na margem direita do córrego Frutuoso, é representada por chácaras urbanas que destinam partes de seus lotes a pequenos cultivos de hortaliças. Nas cabeceiras do Córrego Frutuoso existe uma chácara que representa uma situação peculiar na bacia estudada, pois é um local onde foi implantado um sistema de drenagem de águas pluviais. A chácara é circundada por canalização que serve para coletar as águas pluviais vindas de montante e que são lançadas a jusante da chácara. Nestas condições, o local está protegido de alagamentos e erosões causados pelas águas do escoamento superficial. Concluindo este tópico sobre uso da terra e infra-estrutura urbana, cabe assinalar a desigualdade na implantação de infra-estrutura urbana básica. Esta desigualdade será refletida na distribuição dos acidentes geomorfológicos da área, conforme será examinado no próximo tópico. ACIDENTES E RISCOS GEOMORFOLÓGICOS Este tópico é dedicado à descrição e interpretação dos acidentes geomorfológicos da área, a partir das observações de campo (Figura 2). Sulcos: Os sulcos tem comprimentos de até 250m, 50cm de largura e 60cm de profundidade e, nas partes baixas da encosta, estão localizados nas laterais das ruas, onde ocorre concentração do escoamento superficial. São mais freqüentes nos locais onde não existe a drenagem urbana e estão concentrados nos bairros Adriana Parque e Residencial Dom Emanuel (Figuras 1 e 2). Os prejuízos maiores são danos e mesmo destruição do piso das ruas afetadas. Ravina: Está localizada em um lote baldio, no bairro Adriana Parque (Figura 2), tem 50m de comprimento, 2m de profundidade e 1m de largura e, segundo Almeida Filho e Ridente Júnior (2001), pode ser classificada como ravina. A área é um local de concentração do escoamento superficial vindo de montante, onde as ruas não têm sistema de drenagem de águas pluviais e apresentam um traçado ao longo da declividade.

4 Fig. 2: Mapa dos acidentes geomorfológicos da área de estudo. Fonte: Guimarães (2004). Boçoroca: Trata-se de uma erosão onde aflora o lençol freático e, segundo Almeida Filho e Ridente Júnior (2001), pode ser classificada como boçoroca ou voçoroca. Tem cerca de 180m de comprimento, 21m de largura e 6,5m de profundidade e seu volume foi estimado em m³. A margem direita da boçoroca é constituída por chácara de recreio e prática de horticultura. A margem esquerda é constituída por lotes baldios e algumas residências, sendo que a mais próxima está a 5m da borda da erosão e apresenta trincas nas paredes (Figuras 3A e 3B). Na cabeceira da boçoroca existe remanescente da mata ciliar original. Em toda sua extensão há tendência de alargamento dos bordos, devido à erosão pela água subterrânea, conforme evidenciado pelas surgências d água em vários pontos no interior da erosão. A cabeceira da voçoroca apresenta sinais de movimentos de massa recentes, com trincas no terreno, degraus de abatimento e queda de solo. A erosão está instalada sobre o canal do Córrego Frutuoso, admitindo-se que teve origem no reentalhe do canal, devido ao aumento das vazões máximas. O incremento das vazões está relacionado ao parcelamento da área à montante, no bairro Nova Vila Jaiara, que não possui sistema de captação de águas pluviais adequado. Observou-se ainda o lançamento clandestino de esgoto doméstico no interior da erosão. A única medida de contenção é o lançamento de entulho e, neste local, existem trincas no terreno, indicando a instabilidade do aterro de entulho.

5 Erosão fluvial acelerada: A jusante da boçoroca o canal do Córrego Frutuoso está sofrendo reentalhe, conforme observado na parte norte da área estudada, onde houve destruição de um bueiro. A erosão é mais intensa num trecho de 14m de comprimento, onde o canal tem 3,4m de profundidade e 12m de largura. A B C D Fig. 3: Acima à esquerda, casa a 5 metros da borda da erosão (3A); acima à direita, trinca em casa situada próximo à erosão (3B); abaixo à esquerda, assoreamento no baixo curso do Córrego Frutuoso (3C); e abaixo à direita, matacões expostos no Residencial Mônica Braga (3D). Fonte: Guimarães (2004). Assoreamento: Foi observado na desembocadura do Córrego Frutuoso, na planície fluvial do Córrego Reboleiras. A área principal de assoreamento ocorre como um cone de dejeção, com raio da ordem de 150m, constituído por sedimentos (cascalho, areia, silte, argila), restos de construção e de lixo doméstico (Figura 3). Rolamento de matacão: Trata-se de risco observado na parte sul da área, no bairro Residencial Mônica Braga (Figuras 2 e 3), onde os matacões são fragmentos do horizonte ferruginoso, parte da couraça laterítica que ocorre nas partes mais elevadas da área.

6 CONCLUSÃO Os acidentes ou riscos geomorfológicos identificados na área são erosão pluvial (sulcos, ravina e voçoroca), erosão fluvial, rolamento de matacão e assoreamento. As situações de risco identificadas estão associadas à uma ocupação urbana feita sem levar em conta os processos geomorfológicos e sem implantação de infra-estrutura de pavimentação e drenagem. A erosão em sulcos e em ravinas está condicionada ao uso da terra, ocorrendo na área urbana parcelada em consolidação, onde faltam pavimentação e drenagem de águas pluviais. A boçoroca é produto do reentalhe do canal do Córrego Frutuoso devido ao aumento das suas vazões máximas que, por sua vez, está relacionado à impermeabilização da microbacia e ausência de sistema de drenagem sustentável. O risco de rolamento de matacão está relacionado à realização de cortes, com exposição de blocos de couraça laterítica. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA FILHO, G. S. de; RIDENTE JÚNIOR, J.L. Erosão: Diagnóstico, Prognóstico e Formas de Controle. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE CONTROLE DE EROSÃO, VII, 2001, Goiânia. Minicurso... Goiânia: ABGE, 2001, 84p. CERRI, L. E. S.; AMARAL, C. P.. Riscos Geológicos. In: OLIVEIRA, A. M. S.; BRITO, S. N. A. (org.). Geologia de Engenharia. São Paulo: ABGE, CERRI, L. E. S.; CARVALHO, C. S. Hierarquização de situações de risco em favelas no município de São Paulo, Brasil Critérios e metodologia. In: SIMPÓSIO LATINO-AMERICANO SOBRE RISCO GEOLÓGICO URBANO, 1, São Paulo, Anais... São Paulo: ABGE, 1990, p CUNHA, M. A. (org.).ocupação das Encostas. São Paulo: IPT, GUIMARÃES, M. L. G. Riscos geomorfológicos urbanos na microbacia do Córrego Frutuoso, Anápolis-GO. Anápolis: UEG, Monografia de conclusão do curso de Geografia, INFANTI JUNIOR, N.; FORNASARI FILHO, N. Processos de Dinâmica Superficial. In: OLIVEIRA, A. M. S.; BRITO, S. N. A. (org.). Geologia de Engenharia. São Paulo: ABGE, 1998, p LACERDA, H. et al. Riscos geológicos e uso da terra em Anápolis (GO). Educação e Mudança. Anápolis, (aceito para publicação). LACERDA, H. et al. Mapa das bacias hidrográficas e dos acidentes geológicos de Anápolis em escala / (inédito), MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de Pesquisa. São Paulo: Atlas, OLIVEIRA, A. M. S. et al. A caracterização de boçorocas urbanas: Uma proposta de cadastro. In: SIMPÓSIO LATINO-AMERICANO SOBRE RISCO GEOLÓGICO URBANO 1, 1990, São Paulo. Anais... São Paulo: ABGE, 1990, p

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