FACULDADE INTEGRADAS PROMOVE CURSO DE BACHAREL EM DIREITO ESTATUTO DE ROMA E CONSTITUIÇÃO FEDERAL: POSSÍVEIS ANTINOMIAS

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1 FACULDADE INTEGRADAS PROMOVE CURSO DE BACHAREL EM DIREITO ESTATUTO DE ROMA E CONSTITUIÇÃO FEDERAL: POSSÍVEIS ANTINOMIAS ALUNO: ÉDLON NUNES FILHO ORIENTADORA: (DOUTORA) FERNANDA NEPOMUCENO DE SOUSA Brasília, DF 2013

2 ÉDLON NUNES FILHO CURSO DE BACHAREL EM DIREITO ESTATUTO DE ROMA E CONSTITUIÇÃO FEDERAL: POSSÍVEIS ANTINOMIAS Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial do curso de Direito, para obtenção do título de Bacharel sob a orientação da professora Doutora Fernanda Nepomuceno de Sousa. Brasília, DF 2013

3 Estatuto de roma e constituição federal: possíveis antinomias Rome Statute and the federal constitution: possible antinomies Por Édlon Nunes Filho Graduando em direito Aluno do 10º Semestre do Curso de Direito das Faculdades Integradas Icesp-Promove de Brasília Resumo O presente artigo menciona a Constituição Federal e o Estatuto de Roma, bem como sua incorporação ao ordenamento jurídico brasileiro, passando pelo Tribunal Penal Internacional, entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 45, definindo e caracterizando ambos, visando uma análise em relação a possíveis antinomias entre o Estatuto e a Constituição. Esse Trabalho visa esclarecer a existência de possíveis incompatibilidades entre o Estatuto de Roma e a Constituição Federal onde foi identificado que as tais antinomias seriam apenas aparentes uma vez que depois de minuciosa análise, não foi encontrado nenhuma discordância entre ambos. Palavra-chave: Constituição Federal. Estatuto de Roma. Antinomias. Tribunal Penal Internacional. Abstract This article mentions the Federal Constitution and the Rome Statute, as well as its incorporation into the Brazilian legal system, through the International Criminal Court, Entry into force of the Constitutional Amendment nº. 45, defining and characterizing both aiming at an analysis regarding possible ente antinomies the statute and the Constitution. This work aims to clarify the existence of possible incompatibilities between the Rome Statute and the Federal Constitution. Was identified that such antinomies would be apparent only once after thorough analysis, no incompatibility between the two has not been identified. Keywords: Federal Constitution. Rome Statute. Antinomies. International Criminal Court. Sumário: 1. Introdução. 2. Estatuto de Roma. 2.1 Ratificação do Estatuto de Roma pelo Brasil. 2.2 A entrada em vigor da Emenda Constitucional nº A Hierarquia constitucional do Estatuto de Roma. 3. Constituição Federal. 3.1 Soberania. 3.2 Classificação. 4. Tribunal Penal Internacional. 4.1 Conceito. 4.2 Competência. 5. Possíveis Antinomias entre a Constituição e o Estatuto. 5.1 A entrega de nacionais. 5.2 A instituição da prisão perpétua. 5.3 As imunidades em geral e as relativas ao foro por prerrogativa de função. 5.4 Reserva Legal. 5.5 A Respeito da Coisa Julgada. 6. Discussão e Resultado. 7. Considerações Finais. Referências Bibliográficas. Anexos.

4 1. INTRODUÇÃO O Direito permanece em constante evolução, seja em decorrência dos costumes de cada local que exigem o progresso contínuo das leis, seja em decorrência de inexistirem hoje nações completamente isoladas, o que propicia o conflito jurídico entre as diversas normativas internacionais. Cada país possui sua soberania, elaborando assim seu próprio ordenamento jurídico interno, de acordo com suas características sociais e individuais. A Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada em 5 de outubro de 1988, representa lei fundamental e suprema, sendo referência para parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas, situada portanto, no topo do ordenamento jurídico brasileiro. Com a instituição de um regime democrático de direito e a promulgação da Constituição, a República Federativa do Brasil se comprometeu a reger-se nas relações internacionais pela prevalência dos direitos humanos. O Brasil ratificou em 20 de junho de 2002, o Estatuto de Roma, promulgado pelo decreto nº 4.388, de 25 de setembro de 2002, obrigando-se assim, a cooperar e cumprir as normas previstas neste, bem como submeter-se a sua jurisdição. O Estatuto de Roma é um tratado que criou o Tribunal Penal Internacional, justamente com objetivo de complementar as jurisdições penais nacionais, bem como garantir a paz, segurança e o bem-estar da humanidade. Ocorre que a recepção do Estatuto de Roma pela Constituição Brasileira suscitou várias dúvidas e discussões doutrinárias, quanto à existência de possíveis antinomias entre ambos, uma vez que o Estatuto foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente de República em 20 de maio de 2002, obedecendo os requisitos legais para tal. O tema do presente artigo menciona a recepção do Estatuto de Roma pela Constituição brasileira, relatando análise de possíveis incompatibilidades entre ambos, principalmente em relação a cinco temas específicos, são eles: a) A entrega de nacionais; b) a instituição da prisão perpétua; c) a forma como são tratadas em nível de Tribunal Penal Internacional as imunidades em geral e as relativas ao foro por prerrogativa de função; d) a questão da reserva legal; e) a respeito da coisa julgada. 4

5 Para isso, será feita uma análise das normas que possam conter incompatibilidades entre o Estatuto de Roma e a Constituição Federal, à luz do direito internacional e da legislação Estatal interna, bem como pelos recentes julgados do Supremo Tribunal Federal, acompanhando opinião de conceituados doutrinadores para aperfeiçoamento e conclusão do tema por meio do método hipotético-dedutivo com procedimentos funcionalistas. Vale ressaltar, que o Estatuto de Roma foi um marco para a proteção dos direitos humanos na jurisdição internacional e na jurisdição interna, uma vez que o mesmo visa garantir os direitos humanos da sociedade como um todo, não existindo portanto, inconstitucionalidade, tanto intrínseca quanto extrínseca, da adesão brasileira ao Estatuto, apenas se faz concluir que o Estado brasileiro ratificou uma convenção multilateral que visa trazer um bem-estar para a sociedade internacional. 2. ESTATUTO DE ROMA Após o fim da segunda Guerra Mundial, havia uma enorme necessidade da criação de uma Corte Internacional com competência para julgar crimes contra a humanidade. Carlos Eduardo Adriano Japiassú (2004) informa que: na realidade foi somente a partir da Segunda Guerra Mundial e dos julgamentos de Nuremberg e de Tóquio que o Direito Penal Internacional efetivamente se consolidou como ciência unitária e autônoma em relação às suas origens históricas. Nesse contexto foi Criado o Estatuto de Roma, corte permanente para tutela penal internacional de crimes contra a humanidade. O Estatuto de Roma instituiu o Tribunal Penal Internacional, um tribunal de caráter permanente, destinado a processar e julgar responsáveis pelos crimes de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de Agressão. 2.1.Ratificação do Estatuto de Roma pelo Brasil A ratificação segundo Francisco Rezek: é o ato unilateral com que o sujeito de Direito internacional, signatário de um tratado, exprime definitivamente, no plano internacional, sua vontade de obrigar-se. 5

6 Dentre as etapas que compreendem o processo de ratificação de tratados no ordenamento brasileiro, verifica-se que foram todas cumpridas. O Brasil assinou em 07 de fevereiro de 2000 o Estatuto de Roma, sendo este, aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente de República em 20 de maio de Cabe frisar que o Brasil ao ratificar Tratados Internacionais obriga-se no plano internacional a cumprir o ali disposto, uma vez que depois da aprovação do Congresso Nacional, automaticamente aceita o que nele está escrito, não havendo portanto diminuição de sua soberania, e sim a pratica de um ato de soberania, o fazendo de acordo com o que a constituição estabelece. Não obstante, também obrigou-se no plano interno, ao promulgar o decreto nº 4388, de 25 de setembro de 2002, o qual foi devidamente publicado no Diário Oficial. 2.2.A Entrada em Vigor de Emenda Constitucional nº 45 João Albino de Medeiros Farias, na Revista DIREITOS CULTURAIS - v.1 - n.1 - Dezembro 2006, preceitua que: A partir de 8 de dezembro de 2004, em virtude da entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 45, o Brasil passou a reconhecer formalmente a jurisdição do Tribunal Penal Internacional por meio do 4º acrescentado ao art. 5º da Constituição, segundo o qual: O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional, cuja criação tenha manifestado adesão. O que fez essa disposição constitucional foi solidificar a tese segundo a qual a Constituição de 1988 está perfeitamente apta a operar com o Direito Internacional e com o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Com a entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 45, houve reconhecimento formal da jurisdição do Tribunal Penal Internacional criado pelo Estatuto de Roma, comprovando assim que a Constituição Federal não encontra barreiras ao operar com o direito internacional. 2.3.A Hierarquia Constitucional do Estatuto de Roma Perante o Ordenamento Jurídico Interno Não há previsão expressa no ordenamento jurídico brasileiro quanto a hierarquia do Estatuto de Roma, porém, vários dispositivos constitucionais referentes aos tratados 6

7 internacionais de direitos humanos de forma implícita findam a conclusão de que o Estatuto de Roma apresenta hierarquia constitucional. O artigo 7º do Ato Das Disposições Constitucionais Transitórias, dispõe: O Brasil propugnará pela formação de um tribunal de direitos humanos. Antes mesmo da ratificação do Estatuto de Roma, foi previsto a criação de um tribunal internacional de direitos humanos, onde haveria a admissão da jurisdição deste tribunal no ordenamento jurídico brasileiro. João Albino de Medeiros Farias, na Revista DIREITOS CULTURAIS - v.1 - n.1 - Dezembro 2006, afirma que: O Estatuto de Roma de 1998 passou a ser formalmente constitucional no Brasil, aprovado em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos seus respectivos membros, nos termos do disposto no 3º do art. 5º da Constituição, também introduzido pela Emenda nº 45/2004. Neste caso, para além do status de norma materialmente constitucional, o Estatuto de Roma galgará ainda os efeitos jurídicos próprios das emendas constitucionais, passando a ser insuscetível de denúncia neste caso. Flávia Piovesan assinala que o entendimento sobre a hierarquia constitucional do Estatuto de Roma advém ainda de uma interpretação sistemática e teleológica dos 1º e 2 do artigo 5º da Constituição, que dispõe respectivamente: Art. 5 [...] 1 As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicabilidade imediata. 2 Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. [...] O princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais, disposto no art. 5, 1 da Constituição, estende-se as normas oriundas de tratados e convenções de direitos humanos ratificados pelo Estado brasileiro, inclusive ao Estatuto de Roma. Com relação ao art. 5, 2 da Constituição, Carol Proner leciona que o Texto Constitucional inclui ao rol dos direitos constitucionais protegidos, os direitos previstos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte, constituindo-se cláusulas pétreas. Deste modo, a interpretação é consonante com o princípio da máxima efetividade, pelo qual no dizer de Jorge Miranda: 7

8 [...] a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê; a cada norma constitucional é preciso conferir, ligada a todas as outras normas, o máximo da capacidade de regulamentação. Interpretar a Constituição é ainda realizar a Constituição. Em virtude deste princípio, deve-se preferir a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos humanos. Portanto, faz-se concluir que o Estatuto de Roma tem status constitucional, uma vez que o Tratado versa sobre direitos humanos, bem como foi aprovado em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos seus respectivos membros, nos termos do disposto no 3º do art. 5º da Constituição, introduzido também pela Emenda nº 45/2004, respeitando assim os trâmites legais para tal. 3. CONSTITUIÇÃO FEDERAL A Constituição Federal de 1988, denominada constituição cidadã e promulgada em 05 de outubro de 1988 constitui o marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. De acordo com Paulo Ricardo Schier, a Constituição de 1988 é preocupada e comprometida com a afirmação da democracia, visto que buscou romper com o passado antidemocrático marcado pelo Golpe Militar de 1964 que, em nada primou os direitos fundamentais. Desta forma, a Carta Magna inova ao alargar a dimensão dos direitos e garantias, incluindo no catálogo de direitos fundamentais não apenas os direitos civis e políticos, mas também os sociais. Além disso, os direitos e garantias individuais estão consagrados pela constituição e constituem cláusula pétrea, não podem ser abolidos por meio de Emenda à Constituição. 3.1.Soberania A Constituição Federal de 1988 preconiza em seu art. 1º: A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: 8

9 I - a soberania; [...] Segundo Jean Bodin, soberania refere-se a entidade que não conhece superior na ordem externa nem igual na ordem interna. Para Miguel Reale, A soberania é uma espécie de fenômeno genérico do poder. Uma forma histórica do poder que apresenta configurações especialíssimas que se não encontram senão em esboços nos corpos políticos antigos e medievos." A soberania é uma autoridade superior que não pode ser limitada por nenhum outro poder, cada país possui sua soberania para editar e alterar seu ordenamento jurídico interno. 3.2.Classificação da Constituição Federal de 1988 A Constituição brasileira é classificada como formal, escrita, dogmática, promulgada, rígida e analítica. Paulo Mascarenhas, em seu livro Manual de Direito Constitucional, nos explica quanto as características da constituição brasileira, são elas: Quanto ao conteúdo: Quanto à forma: FORMAL: consubstancia-se em um conteúdo normativo expresso, estabelecido pelo poder constituinte originário em um documento solene que contém um conjunto de regras jurídicas estruturais e organizadoras dos órgãos supremos do Estado. (MASCARENHAS, 2010, p.17). Quanto à forma de elaboração: ESCRITA: é o conjunto de regras codificado e sistematizado em um único documento para fixar-se a organização fundamental. Caracteriza-se por ser a lei fundamental de um povo, colocada no ápice da pirâmide das normas legais, dotada de coercibilidade. (MASCARENHAS, 2010, p.17). Quanto a Origem: DOGMÁTICA: é aquela que se nos é apresentada de forma escrita e sistematizada, por um órgão constituinte, a partir de princípios e ideias fundamentais da teoria política e do direito dominante em uma determinada sociedade. (MASCARENHAS, 2010, p.18). PROMULGADA: também chamada de democrática ou popular, é aquela fruto do trabalho de uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo povo com a finalidade da sua elaboração. Exemplos: Constituições brasileiras de 1891, 1934, 1946 e (MASCARENHAS, 2010, p.18). 9

10 Quanto a estabilidade: RÍGIDA: é aquela escrita, mas que pode ser alterada através de um processo legislativo mais solene e com maior grau de dificuldade do que aquele normalmente utilizado em outras espécies normativas. (MASCARENHAS, 2010, p.18). E por fim, quanto à sua extensão e finalidade: ANALÍTICA: é aquela que examina e regulamenta todos os assuntos relevantes à formação, destinação e funcionamento do Estado. É também chamada de Constituição dirigente porque define fins e programa de ação futura. (MASCARENHAS, 2010, p.18). A Constituição de 1988 foi um marco na história do Brasil, pois proclamou os direitos sociais e individuais e aprimorou o sistema democrático por meio do incremento da democracia semidireta, além dos direitos individuais e coletivos, dentre outros. Até mesmo pelo momento que o Brasil vivia, quando saia de uma longa ditadura militar que durou mais de 20 anos, onde os direitos individuais e sociais foram extremamente prejudicados. Havia uma enorme necessidade de mudança, e a nova constituição de 1988 veio como um sinal de esperança para os brasileiros. 4. TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL O Tribunal Penal Internacional foi criado pelo Estatuo de Roma, com a finalidade de instituir um tribunal internacional permanente, que alcance os países vinculados ao Estatuto, promovendo assim, uma segurança jurídica internacional. Aprovado em 17 de julho de 1998, em Roma, na Conferência Diplomática de Plenipotenciários das Nações Unidas, o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional teve por finalidade constituir um tribunal internacional com jurisdição criminal permanente, dotado de personalidade jurídica própria, com sede na Haia, na Holanda. Foi aprovado por 120 Estados, contra apenas 7 votos contrários. (MAZZUOLI, 2008, p.833) O Tribunal Penal Internacional tem competência complementar em relação às jurisdições penais nacionais de seus Estados vinculados, com competência para julgar indivíduos acusados de cometer crimes de maior gravidade e potencial ofensivo, que afetam a sociedade internacional como um todo. Portanto o TPI não pode interferir indevidamente nas jurisdições nacionais, uma vez que cabe ao Estado a responsabilidade de processar e jugar crimes cometidos pelos seus nacionais. 10

11 4.1.Competência O Estatuto de Roma traz em seu preambulo os crimes imprescritíveis de sua competência, estabelecendo assim, em quatro categorias: crimes de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão. Bem como apenas tem competência para julgar os crimes cometidos após sua instituição, ou seja, depois de 1º de julho de O Tribunal tem jurisdição internacional e não estrangeira, podendo afetar todo e qualquer Estado-parte da Organização das Nações Unidas. O Tribunal Penal Internacional é uma pessoa jurídica de direito internacional com capacidade necessária para o desempenho de funções e de seus objetivos. Possui competência complementar às jurisdições internas de cada país, buscando sanar eventuais falhas gerando assim uma maior segurança jurídica internacional. 5. POSSÍVEIS ANTINOMIAS ENTRE A CONSTITUIÇÃO E O ESTATUTO As regras penais e procedimentais estabelecidas pelo Estatuto de Roma podem pressupor possíveis incompatibilidades com o direito constitucional brasileiro. No direito dos tratados, tais matérias são denominadas de inconstitucionalidade intrínseca dos tratados internacionais. Esta tem lugar quando o tratado, apesar de formalmente ter respeitado todo o procedimento constitucional de conclusão estabelecido pelo direito interno, contém normas violadoras de dispositivos constitucionais. Não se confundi com a inconstitucionalidade chamada extrínseca (ou formal), também conhecida por ratificação imperfeita, que ocorre quando o Presidente da República viola norma constitucional de fundamental importância para celebrar tratados, ratifica o acordo sem o assentimento prévio do Congresso Nacional. No caso do Tribunal Penal Internacional, a ratificação ocorreu nas escorreitas normas constitucionais determinantes da competência para celebrar tratados: arts. 49, inc. I e 84, inc. VIII, da CF. (MAZZUOLI, 2008, P. 847). O Estatuto de Roma foi corretamente ratificado de acordo com as previsões constitucionais do ordenamento jurídico brasileiro, não possuindo assim, as denominadas inconstitucionalidades intrínsecas quando a forma é respeitada, porém contem normas que 11

12 violam o direito interno, bem como não possuindo também inconstitucionalidades extrínsecas, quando ocorre a ratificação imperfeita, onde o vício se encontra na forma. Diante de possíveis incompatibilidades do Estatuto de Roma em relação à Constituição brasileira, Valério de Oliveira Mazzuoli, em seu livro, Curso de Direito Internacional Público, nos explica cada uma das cinco questões de relevante importância, disciplinadas pelo Estatuto de Roma, são elas: 5.1.A Entrega de Nacionais A primeira possível antinomia é a entrega de nacionais, o art. 89, 1º do Estatuto do Estatuto de Roma preconiza: O Tribunal poderá dirigir um pedido de detenção e entrega de uma pessoa, instruído com os documentos comprovativos referidos no artigo 91, a qualquer Estado em cujo território essa pessoa se possa encontrar, e solicitar a cooperação desse Estado na detenção e entrega da pessoa em causa. Os Estados Partes darão satisfação aos pedidos de detenção e de entrega em conformidade com o presente Capítulo e com os procedimentos previstos nos respectivos direitos internos. A entrega de uma pessoa, qualquer que seja sua nacionalidade, ao Tribunal Penal Internacional é um instituto jurídico sui generis nas relações internacionais contemporâneas, bem distinto do instituto chamado de extradição, que é um ato de cooperação internacional onde ocorre a entrega de uma pessoa condenada ou acusada por algum crime ao país que a reclama. A Constituição Federal, no seu art. 5º, incisos LI e LII, dispõe: LI - nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei; LII - não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião; Tais incisos pertencem ao rol dos direitos fundamentais, estão cobertos pela cláusula do art. 60, 4º, inc. IV, da mesma Carta, segundo a qual não será objeto de deliberação proposta de emenda tendente a abolir os direitos e garantias individuais. Por este motivo, o Estatuto de Roma distingue claramente o que se entende por entrega e por extradição. Nos termos do seu art. 102, alíneas a e b, vejamos: 12

13 Para os fins do presente Estatuto: a) Por "entrega", entende-se a entrega de uma pessoa por um Estado ao Tribunal nos termos do presente Estatuto. b) Por "extradição", entende-se a entrega de uma pessoa por um Estado a outro Estado conforme previsto em um tratado, em uma convenção ou no direito interno. Portanto, fica bem evidente a diferença entre ambos, onde a entrega refere-se ao ato de o Estado entregar uma pessoa ao Tribunal, diferente de extradição quando ocorre a entrega de uma pessoa por um Estado a outro Estado. Segundo Mazzuoli a diferença fundamental: [...] consiste em ser o Tribunal uma instituição criada para processar e julgar os crimes mais atrozes contra a dignidade humana de uma forma justa, independente e imparcial. Na condição de órgão internacional, que visa realizar o bem-estar da sociedade mundial, porque reprime crimes contra o próprio Direito Internacional, a entrega do Tribunal não pode ser comparada à extradição. (MAZZUOLI, 2008, P.849). Valério de Oliveira também preconiza: Assim, não se trata de entregar alguém para outro sujeito de Direito Internacional Público, de categoria igual a do Estado-parte, também dotado de soberania e competência na ordem internacional, mas sim a um organismo internacional criado pelo aceite e esforço comum de vários Estados. O Tribunal Penal Internacional certamente não é uma jurisdição estrangeira como é aquela de um outro Estado, não podendo ser-lhe aplicadas as mesmas regras que se aplicam a este último, em matéria de soberania e de política externa. (MAZZUOLI, 2008, P.849). O Tribunal Penal Internacional, age de forma imparcial, tratando-se de um órgão internacional e não estrangeiro, assegurando a segurança jurídica internacional. A extradição envolve sempre dois Estados soberanos, sendo ato de cooperação entre ambos visando a repressão internacional de crimes, diferente do que o Estatuto de Roma classificou de entrega, onde a relação de cooperação se processa entre um Estado e o próprio Tribunal. A entrega de nacionais do Estado ao Tribunal Penal Internacional estabelecida pelo Estatuto de Roma, não fere o direito individual da não extradição de nacionais, insculpido no art. 5º, inc. LI, da Constituição brasileira de 1988, bem como o direito de não-extradição de estrangeiros por motivos de crime político ou de opinião, constante do inc. LII do mesmo art. 5º da Carta de A aceitação, pelo Brasil, do art. 89, 1º, do Estatuto, impede (mais que corretamente) a alegação de violação da norma constitucional brasileira proibitiva da extradição de nacionais como meio hábil a livrar um nosso nacional à jurisdição do Tribunal. (MAZZUOLI, 2008, P.850). 13

14 Portanto fica evidente a diferença entre os dois institutos, extradição e entrega, o que faz concluir que não há nenhuma incompatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro. 5.2.A Instituição da Prisão Perpétua Outro ponto delicado que pode causar um aparente conflito entre as disposições do Estatuto de Roma e a Constituição brasileira de 1988 diz respeito à previsão do art. 77, 1º, alínea b, do Estatuto, segundo o qual o Tribunal pode impor à pessoa condenada por um dos crimes previstos no seu art. 5º, dentre outras medidas, a pena de prisão perpétua, se o elevado grau pela pena privativa de liberdade não superior a trinta anos (pena máxima do Código Penal brasileiro, nos termos do seu art. 75, caput ). A interpretação mais correta a ser dada para o caso em comento é a de que a Constituição, quando prevê a vedação de pena de caráter perpétuo, está direcionando o seu comando tão-somente para o legislador interno brasileiro, não alcançando os legisladores estrangeiros e tampouco os legisladores internacionais que, a exemplo da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas, trabalham rumo à construção do sistema jurídico internacional. (MAZZUOLI, 2008, P.852). A pena de prisão perpétua não pode ser instituída dentro do Brasil, quer por meio de tratados internacionais, quer mediante emendas constitucionais, por se tratar de cláusula pétrea constitucional. Mas isso não impede de forma alguma, que a mesma pena possa ser instituída fora do Brasil, em tribunal permanente com uma jurisdição internacional, de que o Brasil é parte e em relação ao qual deve obediência, em prol do bem-estar da humanidade. Cachapuz de Medeiros acentua que: O Supremo Tribunal Federal entende, que a esfera da nossa lei penal é interna ; mas, ainda segundo seu entendimento, se somos benevolentes com nossos delinquentes, isso só diz bem com os sentimentos dos brasileiros, não se podendo impor o mesmo tipo de benevolência aos países estrangeiros. A Constituição brasileira de 1988 preceitua no art. 72 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que o Brasil propugnará pela formação de um tribunal internacional dos direitos humanos, e no 4º do art. 5º, que o Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão. E isto reforça a tese de que o conflito entre as disposições do Estatuto de Roma e a Constituição brasileira é apenas aparente, não somente pelo fato de que a criação de um tribunal internacional de direitos humanos reforça o princípio da dignidade da pessoa humana (também insculpido pela 14

15 Constituição, no seu art. 1º, inc. III), mas também pelo fato de que o comando do texto constitucional brasileiro é dirigido ao legislador doméstico, não alcançando os crimes cometidos contra o direito internacional e reprimidos pela jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Não obstante a vedação das penas de caráter perpétuo ser uma tradição constitucional entre nós, o Estatuto de Roma de forma alguma afronta a nossa Constituição (como se poderia pensar numa leitura descompromissada de seu texto); mas, ao contrário, contribui para coibir os abusos e as inúmeras violações de direitos que se fazem presentes no planeta, princípio esse que sustenta corretamente a tese de que a dignidade da sociedade internacional não pode ficar à margem do universo das regras jurídicas. De outra banda, o condenado que se mostrar merecedor dos benefícios estabelecidos pelo Estatuto poderá ter sua pena reduzida, inclusive a de prisão perpétua. Nos termos do art. 110, 32 e 42, do Estatuto, quando a pessoa já tiver cumprido dois terços da pena, ou 25 anos de prisão, em caso de pena de prisão perpétua, o Tribunal reexaminará a pena para determinar se haverá lugar a sua redução, se constatar que se verificam uma ou várias das condições seguintes: a) a pessoa tiver manifestado, desde o início e de forma contínua, a sua vontade em cooperar com o Tribunal no inquérito e no procedimento; b) a pessoa tiver, voluntariamente, facilitado a execução das decisões e despachos do Tribunal em outros casos, nomeadamente ajudando-o a localizar bens sobre os quais recaíam decisões de perda, de multa ou de reparação que poderão ser usados em benefício das vítimas; ou c) quando presentes outros fatores que conduzam a uma clara e significativa alteração das circunstâncias, suficiente para justificar a redução da pena, conforme previsto no Regulamento Processual do Tribunal. 5.3.As Imunidades em Geral e as Relativas ao Foro por Prerrogativa de Função Pode surgir ainda o conflito, também aparente, entre as regras brasileiras relativas às imunidades em geral e às prerrogativas de foro por exercício de função e aquelas atinentes à jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Tais regras são aplicáveis, por exemplo, ao Presidente da República, seus Ministros de Estado, Deputados, Senadores, etc. Essas imunidades e privilégios, contudo, são de ordem interna e podem variar de um Estado para o outro. Também existem outras limitações de ordem internacional, a exemplo da regra sobre imunidade dos agentes diplomáticos à jurisdição penal do Estado acreditado, determinada 15

16 pelo art. 31 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961, que está em vigor no Brasil desde Os embaixadores, por exemplo, têm imunidade plena na jurisdição penal dentro dessa sistemática. Os crimes de competência do Tribunal são quase sempre perpetrados por indivíduos que se escondem atrás dos privilégios e imunidades que lhes conferem os seus ordenamentos jurídicos internos. Levando em conta tais circunstâncias, o Estatuto de Roma pretendeu estabelecer regra clara a esse respeito, e assim o fez no seu art. 27, que trata da irrelevância da qualidade oficial daqueles que cometem os crimes por ele definidos, segundo o qual: 1. O presente Estatuto será aplicável de forma igual a todas as pessoas sem distinção alguma baseada na qualidade oficial. Em particular, a qualidade oficial de Chefe de Estado ou de Governo, de membro de Governo ou do Parlamento, de representante eleito ou de funcionário público, em caso algum eximirá a pessoa em causa de responsabilidade criminal nos termos do presente Estatuto, nem constituirá de per se motivo de redução da pena. 2. As imunidades ou normas de procedimentos especiais decorrentes da qualidade oficial de uma pessoa, nos termos do direito interno ou do direito internacional, não deverão obstar a que o Tribunal exerça a sua jurisdição sobre essa pessoa. Portanto, as imunidades ou privilégios especiais que possam ser concedidos aos indivíduos em função de sua condição como ocupantes de cargos funções estatais, seja segundo o seu direito interno, seja segundo o Direito Internacional, não constituem motivos que impeçam o Tribunal de exercer a sua jurisdição em relação a tais assuntos. O Estatuto elide qualquer possibilidade de invocação da imunidade de jurisdição por parte daqueles que cometeram genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra ou de agressão. Assim, de acordo com essa nova sistemática, não podem os genocidas e os responsáveis pelos piores crimes cometidos contra a humanidade acobertar-se pela prerrogativa de foro, pelo fato de que exerciam uma função pública ou de liderança à época do delito. 5.4.A Reserva Legal A próxima questão em comento, quanto à pretensa Incompatibilidade da Constituição brasileira em relação ao Estatuto de Roma, diz respeito à reserva legal. Não há qualquer conflito entre o Estatuto de Roma e a constituição brasileira, uma vez que aquele próprio instrumento já prevê os princípios de nullum crimen sine lege e nulla poena sine lege, em seus arts. 22, 1º e 16

17 23, segundo os quais, respectivamente, nenhuma pessoa será considerada criminalmente responsável, nos termos do presente Estatuto, a menos que a sua conduta constitua, no momento em que tiver lugar, um crime da competência do Tribunal, não podendo qualquer pessoa condenada pelo Tribunal ser punida a não ser em conformidade com as disposições do presente Estatuto. (MAZZUOLI, 2009, P. 854). Estatuto de Roma explicitou os crimes de sua competência, até mesmo pelo fato do Tribunal ter sido criado não somente para julgar nacionais de outros Estados, mas também nacionais dos próprios Estados que o criaram. Portanto existe previsão no Estatuto quanto aos crimes de competência do Tribunal Penal Internacional, tornando a questão da Reserva Lega mais uma mera aparente antinomia, uma vez que não existe conflito com a mesma em relação à Constituição Brasileira. 5.5.Respeito à Coisa Julgada Por fim uma última questão que poderia ser colocada em relação às possíveis incompatibilidades entre o Estatuto de Roma e a Constituição diz respeito à eventual agressão à chamada coisa julgada material, definida pelo art. 467 do Código de Processo Civil, vejamos: Art Denomina-se coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário. A regra da Constituição brasileira que versa sobre a coisa julgada material, vem transcrita no art. 5º, inc. XXXVI, da Constituição de 1988, segundo a qual a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. No caso de uma pessoa sujeita à jurisdição do Tribunal Penal Internacional já ter sido julgada pelo judiciário brasileiro. Com trânsito em julgado da sentença cessa a sua competência, nos termos do seu art. 20, 3º, que trata da regra do ne bis in idem, segundo o qual o Tribunal não poderá julgar uma pessoa que já tenha sido julgada por outro tribunal, por atos também punidos pelos artigos 6º, 7º ou 8º, a menos que o processo seja outro nesse outro tribunal: a) tenha tido por objetivo subtrair o acusado à sua responsabilidade criminal por crimes da competência do Tribunal; ou b) não tenha sido conduzido de forma independente ou imparcial, em conformidade com as garantias de um processo equitativo reconhecidas pelo direito internacional, ou tenha sido conduzido de uma maneira que, no caso concreto, se revele incompatível com a intenção de submeter a pessoa à ação da justiça. (MAZZUOLI, 2008, p.855). O Tribunal Penal Internacional tem jurisdição subsidiária à jurisdição dos Estados, portanto atuará somente quando o julgamento feito pelo Estado local conter vícios que 17

18 possam inocentar o autor dos crimes definidos pelo Estatuto, dando assim uma maior segurança jurídica internacional. Quanto ao fato do Tribunal poder reexaminar questões já decididas em último grau pelos Estados nacionais competentes encontrado no art. 17 do Estatuto, Valério de Oliveira nos explica: É um equívoco pensar que o Estatuto de Roma ofende a coisa julgada material (resguardada, no Brasil, em última instância, pelo Supremo Tribunal Federal), em virtude da permissibilidade de o Tribunal Penal Internacional reexaminar as questões já decididas em último grau pelo judiciário nacional. Neste caso, sem dúvida, a norma constitucional brasileira deve ceder perante a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nos mesmos termos em que a norma do inc. XLVII, alínea b, do art. 52, da Constituição (proibição das penas de caráter perpétuo) cede frente à possibilidade de prisão perpétua prevista pelo Estatuto de Roma de 1998." (MAZZUOLI, 2008, p.855). Portanto, o Tribunal Penal Internacional tem jurisdição Complementar, atuando com o fim de promover igualdade e justiça nas relações internacionais. Atuando assim apenas quando o julgamento ocorrido no país de origem estiver eivado de vício que comprometa a veracidade dos fatos, tirando a imparcialidade do julgamento. Dessa forma o Tribunal Penal Internacional atuará na intenção de sanar esse vício, encontrando a verdade real dos fatos, fazendo com que mais uma vez trate de uma mera antinomia, pois não ofende a legislação brasileira no tocante ao respeito da coisa julgada. 6. DISCUSSÃO E RESULTADO Diante de uma enorme necessidade de justiça internacional, após o fim da segunda guerra mundial foi criado o Estatuto de Roma, corte permanente para tutela penal internacional de crimes contra a humanidade. O Estatuto de Roma instituiu o Tribunal Penal Internacional, tribunal este, de caráter permanente, destinado a processar e julgar os responsáveis pelos crimes de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de Agressão, com a finalidade de promover uma segurança jurídica internacional. A Constituição Federal de 1988 teve enorme importância na história do país, ela veio como um grande avanço na busca de melhoria social estabelecendo fatores fundamentais para organização e implementação dos direitos e garantias individuais e sociais. Trata-se do ápice 18

19 do ordenamento jurídico brasileiro, promulgada com participação popular representado o Estado Democrático de Direito. A Constituição de 1988 é classificada como formal, pois possui um conteúdo normativo expresso estabelecido pelo poder constituinte originário. Escrita, pois o conjunto de regras está codificado e sistematizado em um único documento. Dogmática, uma vez que é apresentada de forma escrita e sistematizada, por um órgão constituinte. Promulgada, pois houve participação popular, fruto do trabalho de uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo povo. Rígida, porque é escrita e pode ser alterada mesmo que com uma grau de dificuldade maior e Analítica, pois examina e regulamenta todos os assuntos relevantes à formação, destinação e funcionamento do Estado, sendo mais ampla e completa. Cada país possui soberania para editar seu próprio ordenamento jurídico interno, não podendo ser limitado por nenhum outro poder. Ocorre que o Brasil em um ato de soberania estabeleceu os procedimentos para a aceitação de uma norma internacional, nesse âmbito o Estatuto de Roma passou pelos ritos necessários para se tornar norma legitima no Brasil, com status de norma constitucional, uma vez que o Tratado versa sobre direitos humanos e foi aprovado em dois turnos por três quintos dos membros do Congresso Nacional. Quanto as possíveis antinomias entre o Estatuto e a Constituição, foi analisado mais especificamente cinco temas de fundamental relevância, são eles: a) A entrega de nacionais; b) a instituição da prisão perpétua; c) a forma como são tratadas em nível de Tribunal Penal Internacional as imunidades em geral e as relativas ao foro por prerrogativa de função; d) a questão da reserva legal; e) a respeito da coisa julgada. Depois de minuciosa análise, foi identificado que as possíveis incompatibilidades supracitadas nada mais são do que meras aparentes antinomias, uma vez que não foi encontrada nenhuma divergência com o texto constitucional. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ficou evidente a enorme importância da Constituição Federal de 1988, criada com participação popular, veio para garantir uma sociedade nacional mais justa, destacando os direitos e garantias individuais e sociais. 19

20 A Criação do Estatuto de Roma veio para sanar a grande insegurança jurídica internacional, pois cada país tem soberania para editar suas leis, ocorre que no âmbito internacional e com o avanço da globalização, está cada vez mais comum atritos internacionais, onde se faz necessário a instituição de um Tribunal imparcial de caráter permanente. Portanto, o Tribunal Penal Internacional é de suma importância para proteção internacional dos Direitos Humanos, até mesmo pois veio com o objetivo de complementar as jurisdições internas buscando sanar falhas dos tribunais nacionais, que muitas vezes deixam impune seus criminosos além de evitar a criação dos tribunais ad hoc respeitando o principio do juiz natural e também a criação de tribunais ex post facto, criados depois do fato para julga-lo. Na medida em que o Brasil assina e ratifica um tratado como esse que versa sobre direitos humanos e visa garantir a justiça da sociedade internacional não está de forma alguma prejudicando sua soberania, tratando sim de um ato de soberania interna, garantindo uma maior proteção e segurança jurídica aos seus nacionais. O Estatuto de Roma criou o Tribunal Penal Internacional para processar e julgar os piores crimes, de cunho mais ofensivo, que violam os direitos humanos causando instabilidade e insegurança na justiça internacional. Quanto ao objeto do trabalho em verificar a existência de incompatibilidade entre o Estatuto de Roma e a Constituição Federal, ficou claro que todas as questões levantadas apenas nos faz concluir que tratam-se de meras aparentes antinomias, pois não se verifica nenhuma incompatibilidade com a Constituição Federal, e sim a concretização de uma jurisdição complementar buscando sanar possíveis falhas na jurisdição interna, assegurando assim uma maior segurança jurídica nacional. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA AMARAL JUNIOR, Alberto. Introdução ao Direito Internacional Público. Ed. São Paulo: Atlas S.A AMORA, S. Minidicionário Soares Amora da Língua Portuguesa. 1.ed.São Paulo: Saraiva,

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