Papo A UTOPIA. Um Artista em. da música de Bebeto Alves Por Marcio Pinheiro Pág. 8 e 9 SETENTISTA. As 3 Dimensões. (entrevista)

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1 BETO A As 3 Dimensões da música de Bebeto Alves Por Marcio Pinheiro Pág. 8 e 9 A UTOPIA SETENTISTA Por Emílio Chagas Pág. 3 Papo (entrevista) Por Paulo Klein Pág. 10, 11 e 12 Jimi Joe Juarez Fonseca Nelson Coelho de Castro Ricky Bols Ricardo Duarte e muito mais... Um Artista em

2 Paulo Klein...Faça ele sucesso ou não. Toque ou não no rádio. Sua verdade permanecerá maior do que a cultura que tenha sabido ou não reconhecer-lhe a grandeza. ¹ Era um verdadeiro bando de gaúchos, de gauches na vida, que aportavam na Paulicéia nos around s 80s. Filhos ilegítimos da ditadura, chegavam para expandir horizontes, no momento em que se anunciava a Anistia e a abertura política no país. Eram jovens cheios de sonhos, atores em busca de personagens, escritores não publicados, músicos com esperança em galgar os degraus da fama. Ouvir Devoragem (álbum de Bebeto Alves / Bank 7 Music) - três décadas depois de conhecer o jovem músico sulista na febre paulistana - é, para mim, uma experiência especial. Ajuda-me a compreender - de certa maneira - porque este hábil compositor e intérprete brasileiro, com um trabalho diversificado, embebido em multinfluências, ousado, denso e de extrema qualidade, não emplacou (popularmente) naquela época. A maioria dos ouvidos não estava preparada para tal riqueza musical. Naqueles tempos, quando fazia sua ronda pela noite paulistana, Bebeto apresentava-se, individualmente ou em dupla instrumental com o violinista Ricardo Frota, em casas como Dama da Noite, Lei Seca, Persona e Vitória. Ele era um jovem visionário, multimodal, com um violão nas mãos e muitos sonhos no coração. Uma imagem que guardo desse tempo e seus sonhos é a da comemoração de meu aniversário, quando Bebeto apareceu com um bando de músicos sulistas, com seus instrumentos, bombas e ervas pro chimarrão, e muitas canções. Alguns destes músicos me presentearam com composições a partir de poemas de meu livro Coeur Rasgado. Desta safra resultou minha parceria com Bebeto Alves - Krafts, Mesmo! que acabaria num festival da TV Globo, merecendo elogios do Tarik de Souza no Jornal do Brasil. Com tudo isso, mesmo sendo eu (na época) identificado como mais um compositor gaúcho - o que muito me honrava, apesar de ser paulistano da gema - permaneceríamos malditos no contexto da Música Contemporânea Brasileira, o que, na real, chega a ser uma vantagem. Na verdade, Bebeto Alves é apenas mais um injustiçado na cultura brasileira, compositor com lâmina na voz, farpas no coração, que pode ser alinhado a outros malditos da canção brasileira, como Adoniran Barbosa, Geraldo Vandré, Luis Melodia, Jorge Mautner e Sergio Sampaio, para lembrarmos uns poucos. Isso, em nada diminui a grandeza de Bebeto Alves como artista múltiplo, como compositor e instrumentista versátil, intérprete em vários idiomas, qualidades que fazem dele um autêntico artista universal. PAULO KLEIN * * Escritor, compositor popular, crítico de arte e produtor cultural. ¹BOSCO Francisco Encarte do cd Devoragem. EDITORIAL Esta publicação, mais do que uma publicação promocional do novo projeto Bebeto Alves em 3D, quer abranger o significado e a importância do trabalho de Bebeto Alves, através de textos e depoimentos de amigos, parceiros, jornalistas e do próprio Bebeto. Este novo projeto de discos do artista é um projeto ousado e que exige uma reflexão maior do espaço que esse multi - talentoso e jovem senhor ocupa no nosso imaginário e no cenário da música popular brasileira. Temos aqui uma leitura do caráter, da personalidade e da sensibilidade de um artista comprometido, na sua essência, em ser verdadeiro e único. Através do tempo Bebeto Alves vem experimentando, propondo uma estética plural sem cair no vazio de uma novidade amorfa e sem sentido. O que se esclarece aqui são as dimensões alcançadas por esse artista ainda inovador. Mesmo que se parasse aqui toda sua inventividade ou, que se negasse a continuar efervescente como é, sobraria o eco da sua criatividade na nossa memória, a soprar nos nossos ouvidos que tudo é um pouco mais; um pouco mais do que se pensa, um pouco mais do que nos permitimos e que podemos e devemos nos arriscar, um pouco mais. Aprecie, leia, ouça, sem moderação. S.Schlindwein. Escreveram nesta edição: Paulo Klein, Oly Jr., Juarez Fonseca, Claudia Lisboa, Antonio Carlos Bola Harres, Alexandre Derlam, Emílio Chagas, Nelson Coelho de Castro, Simone Schlindwein, Marcelo Corsetti, Camilo de Lélis, Mauro Moraes, Ricardo Duarte, Jimi Joe, Ricky Bols, Wagner Coriolano e Márcio Pinheiro. Ilustração: Ricky Bols Arte: Jean Alvarenga Fotos: BA Imagens Uma Publicação da SWPropaganda bebeto alves Pág. 2

3 Emílio Chagas Luiz Carlos Maciel, o guru da contracultura brasileira com a página Underground no Pasquim, disse em meados dos anos 70, que a geração daquela década estava desperdiçando as conquistas dos anos 60. Sim, os 60 foram os mais transformadores anos da história contemporânea ocidental. Women s lib, marcha dos direitos civis no EUA, a pílula, Panteras Negras, Che Guevara, Maio 68, Berkeley, Marcuse, nouvelle-vague francesa, Tropicalismo, Zé Celso & Teatro Oficina, Hélio Oiticica, Sartre e existencialismo, Dylan, Beatles, Stones, Woodystock, Easy Rider, o próprio Pasquim, resistência armada com o MR8 sequestrando o embaixador americano no Brasil tudo isto (e muito mais) dá uma idéia da grande ebulição política, social e cultural que vivia o mundo. E o Brasil, claro. Na verdade, os 60 gestavam a resistência e a explosão comportamental que viriam com os anos 70. A utopia sonhadora dos cabelos longos, do sexo libertário, da vida em comunidade, da busca à natureza, o misticismo e a vida onírica e lisérgica. O grande sonho de paz e amor, enfim. Em Porto Alegre um dos intensos palcos desse fenômeno era a Arquitetura da UFRGS, que já tinha revelado, com seus festivais, Bixo da Seda e Carlinhos Hartlieb, entre muitos outros. E foi lá, nos primeiros anos dos 70 que foi encontrar o grupo Utopia. Três meninos mágicos, empunhando dois violões manejados por Bebeto Alves e Ronald Frota e um inacreditável violino em plena na cena rock, esgrimido por Ricardo Frota. Com precários equipamentos, logo me despertaram a atenção. Fui reencontrá-los mais tarde numa das primeiras Rodas de Som, comandadas pelo mesmo Carlinhos Hartlieb, no Teatro de Arena, reduto da resistência cultural e teatral de Porto Alegre na segunda metade dos anos 60 sempre eles! Jairo de Andrade, sintomático dos 70, abria as portas para o rock e os novos tempos. No fim da apresentação fui procurá-los, claro. Eu vivia muito intensamente a cena cultural da cidade e vi neles uma coisa nova, como um pouco antes havia sido o Mordida na Flor, lendário grupo muito pouco lembrado e estudado até hoje que se perdeu na bruma, na névoa e no rarefeito ar do sonho desfeito por Lennon. Trabalhava eu como redator na Rádio Continental, do Sistema Globo de Rádio, que revolucionou a linguagem e a técnica radialísticas, abrindo caminho para as rádios de hoje, como a Ipanema, por exemplo. Levei o trio para lá, gravando no famoso estúdio B, com o também lendário Anele, exímio operador de som. Foi a primeira rádio a tocar música produzida aqui. Com o apoio publicitário da Continental (e com a força de Juarez Fonseca, decisiva para uma geração inteira de músicos gaúchos) produzi o meu primeiro show do Utopia no Auditório da Assembléia. Onde cabiam exatas 586 pessoas, entraram e mais um bando lá fora. Estava construído o mito utópico, sempre com um séquito de um grande bando. O grupo acabou mais tarde, já sem mim. Mas deixou o vigoroso, criativo, inquieto, vanguardista e o mais importante compositor gaúcho da sua geração, Bebeto Alves. bebeto alves Pág. 3 Foto/Arquivo

4 Ricky Bols 1973 Conheci o Bebeto ali pela Santana se não me engano estava com o Peixe.Era uma época que os magrinhos se reconheciam na rua, como hoje tem os emo, punks, grunge etc...naquela época só magrinhos eram diferentes do resto. Não sei se foi no começo ou mais pro fim do ano pois logo depois fui pro Rio onde comecei a trabalhar na Globo como assistente de cenógrafo. Já em 74 me aparece o Bebeto no meu apartamento que eu dividia com a Arlita, secretária do meu chefe Federico Padilha. Acho que ele ficou uns dias lá em casa. E aí teve uma cena interessante. Consegui uma entrevista com um cara, acho que era da Som Livre pro Bebeto e ai ele me botou na obriga de acompanhá-lo tocando, não me lembro nem se toquei na audição.alias o Bebeto tem esta mania de como bom músico que é, de vamo lá, dá uma ensaiadinha besta e tá bom, mete bronca. Foi assim no Milongueando Stones em que tocamos juntos It s only rock n roll but I like it. Como ele sempre arrebenta tocando ou cantando, acha que os outros vão seguir a linha dele. Mas funciona como incentivo. Voltando a Porto em 75, aí nossa amizade e parceria foi amadurecendo. O Utopia tava a mil e as ruas de Porto Alegre fervilhavam de gente sem lenço nem documento mas louca prá botar seu bloco na rua. Fiz cenário, cartazes e novamente o Bebeto me jogou aos leões. Falo assim pois meu trabalho de desenhista é sempre mais introspectivo onde a gente não mostra muito a cara. Eu tava sempre tocando com o Neni Scliar, outro grande amigo,e o Bebeto resolve nos convidar para abrir dois shows do Utopia no Clube de Cultura. Lá vou eu de novo rachar a cara, mas foi legal, minha quase unica experiencia como músico profissional. Ainda bem que conhecia a maioria do público, e estava cheio. Ir a shows, que não eram muitos como hoje era 1976 uma das formas de encontrar os amigos, alias a forma mais certeira. Casei. O Bebeto começou a cair fora, São Paulo, Rio. Separei e resolvi ir pro Rio. O Bebeto morava lá com Claudinha, Luna e Mel em Vila Isabel. Peguei o 433, aquele mesmo da música, aqui é VIla Jardim. O começo foi dificil mas logo engrenou, eu fui morar com os gauchos Luisinho e Casarin em Copacabana. E daqui a pouco, 3 anos depois a coisa ficou feia e lá vem o Bebeto, agora separado, me livrar me convidando prá morar com ele em Santa Tereza. Saí do limbo pro paraiso. Cuidando do Ricardo, então com 6 anos, minha vida era muito presa pois meus companheiros não davam muita colher ao fato de eu viver com meu filho. Já com o Bebeto tudo mudou. Aí Ricky: pode sair eu fico com o Ricardo e lá ia eu, saborear um pouco da vida de solteiro, ou o contrário, juntavamos a gurizada toda e a brincadeira era sempre memorável. Tenho ainda alguns desenhos das nossas estripulias. Pena que durou pouco, ele foi pros States e na volta casou com a Cris e voltou prá Porto, Eu casei com a Adriana e vivemos muito felizes enquanto durou aquela mutua felicidade. Mas a nossa convivencia continua, aqui e ali vamos juntando nossas experiencias, trabalhos, alegrias e agruras. Qualquer dia destes ele vai me convidar prá tocar num disco dele e ai talvez façamos uma dupla, não que nem aquela que o Roberto, produtor da campanha eleitoral lá em Uruguaiana dizia, todos os dias nos tres meses que trabalhei lá com o Bebeto em 2004: e ai Ricky cadê o Renner? Ai vai ser Bebeto&Ricky! Você que é o Bolinha? Antonio Bola Harres Primeiro foi um par de tamancos. Eu não era Diógenes e nem ele Alexandre o Grande. Mas projetou uma sombra sobre minha sessão solitária de atabaques, a meio dia qualquer dos anos 70, no tapete voador em que as névoas da Canabbis transformavam a Redenção. Subindo dos tamancos, passando pelo violão levado à mão com certa displicência de domador de raios, cheguei até o olhar sorridente dos que reconhecem instantâneamente confrades. - Você que é o Bolinha? Perguntou. Mal terminei de responder que sim e sentou-se ao lado, e fez trovejar o encordoamento, e acelerar a viagem que fazia parecer minaretes persas as torres e campanários das figueiras e palmeiras vizinhas. Essa primeira sessão à violão e atabaque resultou no convite para atuar como percussionista do show Reascender, reavivar, no Utopia, que além da presença friquibrodiana dos irmãos Frota, punha-me sob o grande espírito de Thomas Moore; aquariano que preferiu cortar a cabeça do que ajoelhar-se à pretensão divina de Henrique VIII, exemplo que Bebeto sempre imitou em suas relações com a mais valia das gravadoras e a arrogância de seus executivos Mais tarde, além de ter me confiado o lugar de padrinho da Luna, generosamente também musicou palavras minhas. Até hoje cultivo com carinho na memória aqueles momentos livres e espontâneos na Redenção, que são a essência da criatividade inesgotável de Bebeto e, lhe conferem o raro dom de me fazer sentir parte do bando e muitos outros. bebeto alves Pág. 4 R. Jornal NH, B. Ideal Novo Hamburgo (RS) - (51) espaço cultural & restaurante

5 O de 12! Jimi Joe Tem coisas que você não esquece, especialmente quando você é um adolescente bastante impressionável, o que por destino ou coincidência calhava de ser meu caso lá pelo início dos anos 70. Guri chegado de Pedro Osório lá por 1967 sem sequer imaginar que havia um tal de Verão do Amor acontecendo em alguns lugares do mundo, embora já fosse fã dos Beatles e desconhecesse basicamente tudo sobre os Rolling Stones, demorei muito para me enturmar como se dizia então na capital. Enquanto não achava minha turma e nem estava procurando muito, pra dizer a verdade começava a arranhar um violão comprado pela minha irmã que logo se deu conta de que eu era canhoto e lascou um taxativo não me vira essas cordas!. Sem turma, talvez com lenço mas sem documento só pra citar Caetano en passant, sonhava em tocar no violão todas aquelas músicas da Tropicália, da Jovem Guarda e, claro, dos Beatles que eu ouvia num velho rádio Philips valvulado, herança do avô materno. Aprendendo a tocar violão pelo avesso porque eu nunca fui desses canhotos que se acovardam na hora do vamo vê! e se bandeiam pro lado da imensa maioria destra, - aprendi também a cantar, de cabo a rabo, o repertório da época de Chico Buarque de Hollanda em dueto com minha irmã a dona do violão que eu insistia em aprender arrevesadamente que era fã de carteirinha (outra expressão da época...) do Chico. Quando os anos 70 bateram à porta e a ditadura recrudesceu com o tal de general Médici, gaúcho de Bagé (espero que eles não tenham orgulho dele por lá...), minha irmã passou num concurso do Banco do Brasil e acabou dando com os costados lá pelo Rio de Janeiro por uns dois anos, levada por um tio, irmão caçula da minha mãe, que já era gerente do BB nas plagas cariocas. Com a guardiã do violão distante ah, sim, acho que cabe mencionar que o tal violão era um maravilhoso Bungi construído bravamente na rua Andaraí, bairro do Passo D Areia, em Porto Alegre entrei no clima subversivo familiar e inverti as cordas do fabuloso instrumento. Quanta diferença! Agora tinha ficado mais fácil de tocar e eu até mesmo me arrisquei a começar a fazer umas cançonetas. Aí já era 1972 e eu estava começando o segundo grau que agora se chamava Colegial com a unificação do Clássico e do Científico e, maravilha das maravilhas, começando a me enturmar e até mesmo a querer namorar apesar de todas as toneladas da minha gigantesca timidez. E claro, todo mundo sabe, nessa hora, um violãozinho bem tocado e as canções certas fazem milagres. Bom, agora estamos quase chegando onde quero chegar. Pois na minha turma do Colegial tinha uma garota que cantava (e cantava muito bem!), Élbia Regina. A essa altura eu já tinha visto shows de Chico Buarque, Quarteto em Cy, MPB-4 e não lembro mais quem no Ginásio do União, deixei escapar a passagem dos Herman Hermits por Porto Alegre, mas peguei Mutantes fazendo playback no programa do Ivan Castro no Ginásio da Brigada Militar e vi Roberto Carlos desfilar em carro aberto no centro da capital na volta vitoriosa do Festival de San Remo. Mas a gente nunca sabe tudo nem nunca vai saber, como dizem os verdadeiros sábios. Pois foi ali por 1972 que a Élbia me convidou para ouvir ela cantando (desnecessário dizer que a essa altura eu já estava apaixonado, né?) num show chamado Porta dos Fundos, no recém inaugurado Teatro de Câmara (que ainda não se chamava Túlio Piva, até porque o Túlio ainda estava bem vivo e ativo). Não vou lembrar, além da Élbia e de um cabeludo muito cabeludo chamado Tuca, quem mais fazia parte da banda. Mas vou lembrar sempre que antes da banda foi anunciado algo como um número de abertura. Entrou no palco um cidadão chamado Bebeto Nunes Alves com um flamante violão de 12 cordas e cantou uma canção singela chamada De Manhãzinha ( as galinhas vão cantar lá no quintal... ). Chapei na hora, não sei exatamente se pelo violão de 12 em si, pelo som do bicho ou, bem mais provável pela força, carisma e coragem daquele sujeito que entrou no palco sozinho usando como defesa tão somente um violão e sua voz. Lembrei, na hora, de uma propaganda da Giannini no Pasquim, na época do Festival de Woodstock: uma foto de Ritchie Havens e a frase: O cara que cantou a liberdade em Woodstock não tinha dentes. Mas tinha um violão. Sinceramente não lembro muito do show do Porta dos Fundos que se seguiu a não ser que Élbia cantou Golden Slumbers, dos Beatles, lindamente, mas afinal eu estava apaixonado. A imagem de Bebeto com seu violão de 12 cordas enfrentando a platéia ficou para sempre. Um tempo depois, quando minha irmã exigiu a devolução do velho violão Bungi com as cordas ajeitadas para destros, ela me levou até a imensa loja Mesbla, que vendia instrumentos musicais ali onde hoje é a Ulbra, na Voluntários da Pátria e disse: Escolhe um pra ti. Com os olhos grudados num DiGiorgio de 12 cordas, eu só consegui perguntar: Qualquer um? Ela disse sim e eu, sem pestanejar, falei: O de 12! bebeto alves Pág. 5

6 O Desígnio do Escorpião... E naquela manhã, Deus compareceu ante suas doze crianças e em cada uma delas plantou a semente da vida humana. Uma por uma, cada criança deu um passo à frente para receber o dom que lhe cabia. A ti, Scorpio, darei uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te darei a permissão de falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ferido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra Mim, esquecendo que não sou Eu, mas a perversão da Minha Idéia que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do ser humano, que chegarás a conhecer o homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos animais em ti mesmo, que perderás o teu caminho; mas quando finalmetne voltares a Mim, Scorpio, terei para ti o dom supremo da Finalidade. Martin Shulman Claudia Lisboa Bebeto, homem - menino de alma tatuada com a potência do signo de escorpião, desenhou sua história fiel às tendências da sua cartografia natal. Suas composições são a expressão da força transformadora, que mexe com as entranhas, que não dá folga para respirar. Bebeto fez do seu encontro com a arte o caminho que o levou às suas próprias transformações. Tornou-se outro, diferente de si mesmo. Tudo nele é marcado pela intensidade, pela angústia, pelas tormentas internas, consteladas pela simbologia do planeta que recebe o nome do deus da morte: Plutão. E ele soube fazer destas coisas música. Paralelamente, a presença constante das cenas da realidade cria as margens que desenham o imaginário instigante. Ele fala de ruas, ele fala dos canos que levam e trazem as águas, ele cria o homem invisível com imagens que podem ser tocadas com as pontas dos dedos. A tormenta tem materialidade, a angústia é construída com os objetos que estão ao nosso alcance. Tudo isto bem representado pelo encontro de Saturno com o Sol, que ocupavam a mesma longitude na esfera celeste no momento do nascimento do Bebeto. Seu trabalho congrega o anseio de todos que querem mudança, daqueles que andam na contra-mão do fluxo comum. Ele fala por muitos, não está só quando compõe, sua imagem é projetada no espelho da coletividade. As águas jorradas do aguadeiro encontram eco em quem ouve seu trabalho. As forças de natureza feminina foram consagradas na sua cartografia pelo signo dos movimentos contemporâneos e das ações de natureza social, o signo de Aquário. É também ele que nos sugere a possibilidade de dar espaço ao paradoxo. E Bebeto é assim, paradoxal, sem compromisso com a coerência. Tudo nele é fluidez e resistência ao mesmo tempo. Bebetos Alexandre Derlam Bebeto é um cara cheio de vida e ideias. E um cara assim deixa marcas por onde passa. Tive a sorte e talvez a benção de conviver com ele nestes dois últimos anos. E durante este tempo a gente rodou muito por ai. Tudo começou através das filmagens do documentário Mais uma Canção baseado nas suas experiências e vivências musicais (direção minha e do Rene Goya produção da Estação Elétrica). A produção deste filme nos proporcionou viajar ao Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Leopoldo, Uruguaiana, M a r r o c o s, E s p a n h a, Portugal, ufa...o bebeto não para nunca. Isso todo mundo sabe. Assim, aos poucos, fui conhecendo os bebetos. Tem bebeto que toca e canta. Tem bebeto que atua e fotografa. Que faz exposições, gestão cultural. Tem mais bebeto que escreve roteiros e colaborou comigo na cerimônia de entrega dos Prêmio Açorianos de música em 2009 e Artista com opinião sobre tudo. Claro que nem sempre se concorda com o bebeto. Ás vezes ele é temperamental (também né, ele é de escorpião). É inquieto, polêmico e tá sempre agitando uma parada. Tem pressa e tremenda energia. O resultado tá ai. Enquanto todo mundo lança um disco ele lança logo três. Daí a expressão bebetos não to certo? M a s n i n g u é m q u e c o n h e ç o q u e s t i o n a s u a g e n e r o s i d a d e e criatividade. Bebeto ou bebetos (como inventei hoje) é um bom amigo. Daqueles que mesmo nos momentos tensos, tem uma atitude alto astral e positiva. Um cara ético e honesto. Virtudes tão positivas e necessárias para o nosso Brasil. Lembro de estar na Rua da Praia (Andradas) aos 15 anos, l á e m ( b á q u e saudade). Eu caminhava d e s p r e o c u p a d o e m e deparei com um jornal de bairro numa daquelas bancas típicas do centro da cidade. Na capa estampava uma foto do bebeto com a manchete: Bebeto Alves um artista q u e n ã o s e e n t r e g a aos modismos. Nunca imaginaria que vinte e p o u c o s a n o s d e p o i s ficaríamos amigos e que estaríamos juntos nesta aventura de um filme. Cara, você é do bem e nunca se entrega. Assim como o teu Grêmio, tá sempre na luta. Merece todo o reconhecimento que tens obtido. O convívio contigo é um grande prazer e privilégio. Meu caro amigo, que outros bebetos ainda venham por ai. bebeto alves Pág. 6 Sebo & Café

7 Tenho me dedicado, entre outras coisas, a escrever roteiros para o teatro, uma constante. É um formato onde me sinto confortável, pela intimidade que tenho com a linguagem, pelo gosto, pela paixão. Fazer nascer personagens que se materializam pelas mãos de um encenador e no corpo dos atores é, no mínimo, fascinante. Nada foi encenado até agora, mas, tenho na gaveta 4 roteiros. Não tenho pressa, tudo ao seu tempo. Disponho aqui um trecho de uma das peças escritas nesses últimos anos, chama-se O Tubo. A sinopse é do meu amigo Camilo De Lélis. Espero que vocês curtam e que possam em algum momento assistirem a sua montagem. O TuBO No descomeço de lugar nium Bebeto Alves Antão e Murcilo estão numa estrada que é um tubo no descomeço de lugar nium. São personagens atordoadas por seus questionamentos e por sons que se infiltram nesse tubo, trazendo fragmentos de informações insuficientes para fazer sentido, porém suficientes para delinear uma esperança de significado orientador nessa caminhada sem fim. Antão e Murcilo assemelham-se a D. Quixote e Sancho Pança e estão inseridos num tempo que mistura o futuro previsível (para os próximos 50 anos) ao passado (com o imaginário da década de 60), o que nos dá um espectro de aproximadamente 100 anos, dentro dos quais a ação pode estar acontecendo. Antão e Murcilo estão procurando saber quem são, que lugar é aquele e como foram parar ali. Surge a terceira personagem, Malva Castanhola, uma espécie de Dulcinéia feia, suja e malvada e, com ela, as manifestações psicanalíticas de um triângulo edipiano. As personagens masculinas falam um português distorcido e a personagem feminina se exprime através de um misto de portunhol com italiano. Essa experiência lingüística apresenta uma comunhão de significantes desconstruídos, fragmentados em pequenos pacotes que circulam, em repetições intermitentes, nos discursos das personagens. Antão fala sem parar, numa tentativa de recordar e segurar alguma referência de identidade. Murcilo escora-se nele, para reproduzir em si o que no outro já é um sonho. A própria voz falada passa a ser portadora de uma arqueologia de pseudosaberes, vinda de vinhetas comerciais de outro contexto de tempo-espaço e passa em pulsações sonoras através do tubo. Antão e Murcilo ouvem, expectantes, essas vinhetas e, religiosamente, dançam um rito de memorização a fim de materializar, em seus corpos, esse tênue fio de sentido que sempre volta através das canções. Então, num transe hipnótico, se contorcem em surtos epiléticos, choram, riem, gritam e vomitam como crianças que ingeriram alimento demasiado forte... É um teatro de espectros, cujos corpos de referência concreta estão perdidos. No final da peça encontramos a saída numa resposta, que também é um espelho a refletir a imagem para outro labirinto, numa alegoria da teia, do emaranhado, que é a realidade cada vez mais virtual, desenraizada, ejectada de seus veículos de corpo, emoção e fala, mas, ainda e sempre, a realidade humana. O Tubo é um texto no qual o teatro - com seu espaço físico, sua cenografia e os corpos em convulsão dos atores - aparece, principalmente, na dança dos neurônios de quem lê ou assiste à peça, criando luz de entendimento e afeto. Um teatro que aponta para a efetiva construção gregária, como pilar, farol, viga sustentadora de nossa história humana. Camilo de Lélis PERSONAGENS Antão, Murcilo e Malva Castanhola. Cena I Antão e Murcilo aparecem carregando seus badulaques através do tubo. Antão Anda, anda Murcilo, que ni há de nada pra lado nenhum que nos aguarda pra que né? Ni mais um dia desses que nascem anssi como sempre aos borbotões, solis, nuvis... ah nuvis! E quem é que nos manda e nos desmanda hein? É só nóis Murça, só nóis de dois. Anda, anda, vamu Murcilo, que nada há que nos espere mais por nóis anssi.viu? Murcilo (apalermado, correndo curtinho um pouco atrás de Antão ) - O que? o que? Tu dizeu demais de tudo que me abotoa tudo errado. Se ni chego é como se tivesse ni vido pra ti. Tu sempre despensa que atrapaio os dois lado do cabeçote né? E aí... aí hein Antão? Vido como tudo vai anssi na vida né? Aliais, que qué né? Meso essa puta vida hein? que coisa de mesisse chatomansa de nóis hein? Essa estrada anssi só pra frente e ni que se destermina pur demais de tempo... Antão - ah, não me atordoa que eu ni me desmereço. Parece que dessinto tudo e me perco em desumanidade maléva e de pronto me desataco para cima de tu viu!? Ôôô carrapato das elétrica tempestiva! Ô omi dos cafundó melequento que me descompassa! Murcilo Óia Antão... faz de favor que ni me desconhece como assunto de que nóis tanto fala desde que fumo um dia pra sempre trais de ontem. Ah... - ômi desbaraio que ni pacienta mais. (puxa Antão pelas vestes andrajosas) -Tá cu fomi tá? Acho meso inté que nois devia comê um o otro alimento... que ficá de cara enfeiada anssi de mãnhazinha ni vai bem com nada.e se a gente se freia e embucha pouquinho mais raiz e transparência se queda bem mais meió, ni que é? vai lá, vai... Antão (Olhando Murcilo com desalento) - Óia ni é mais tão de mãnhazinha anssi, aqui o tempo passa todo descapitulado e desincomformado. Dias que é mais de longo, otros como hoje vai sê dos curto.( Para, descarrega seus pertences.) -Tá bom Murcilo! tá bem de bom... Vamu esquenta pouco mais o bucho e despassá o mais do que se possa despois. A noite desse frio vai pipoca os dente da gente lá mais adiante, não muito despois disso, e vai geadar a alma denoseu que é nóis meso. Se vai... brrrr! nem dá pra despensar de todo.( fala esfregando as mãos, dando bafo com a boca.) ( Param, sentam-se. Murcilo animado tira de um farnel duas mandiocas. Descascam, comem, tomam água, se fartam. Palitam os dentes com pressão de ar e dedos. Fazem muito barulho comendo como se quisessem espantar alguma coisa em volta. Olham para todos lados. ) (Se ouve sons de canais de tv sendo trocados.) Murcilo - ni adianta de nada se intocá dos miolo que é sempre anssi ni é que meso? eu de mim meso faiz de conta que ni ovo mais.é tanto sonido e relãmpejo... (Murcilo deita-se sobre suas trouxas e trapos. Fecha os olhos. Aos poucos adormece. Ronca, se coça, etc. Antão olha para os lados, vasculhando com o olhar o que tem em volta). Antão Nada, nada...cozinho os miolo no nada e nessa tormenta sonificada que se desanuncia todo e santo dia a quarqué estante. Porque que se desfigura tanto anssi tudo tão de repente? Como que lugar onde já passei é sempre o meso e nunca é. Palavrório, nomes, tudo o que me vem que ni sei donde que me dói de trás da testa pra dentro. Que merdança, que merdança! Onde que nóis tá nesse descaminho? A estrada se mexe viva que nem cobra.pra cima e pra baixo, pros lado, devagar, como o solis passando o tempo. E a gente parece que ni dissente... mas dissente, mareia. E esse lugar que não é o meso que nunca e pra sempre é? Donde é que nus pariu? que madre? que mês? Que não me alembro de nada. E se não me alembro, não sou nada, sou Murcilo, sou coisa niuma. Aliais, quem é esse Murcilo que me anda junto, que me sombra alinhavado, fedido e peidorrento. Me faz parar, me faz comer e despensar e peida anssi? Ni fome tenho meso nunca mais, ni esse descomposto do Murcilo também. Ni sei pra que nóis come e ni bem sei de onde que saí das cosa desse Murça o que se come. Cacareco! Que isso destonteia e meso viu... pra mim meso viu? Se não fosse pelo que a Malva dizeu... já tinha me escafedido da compãnia desse merdolento. Coitado! (Antão fecha os olhos, se recosta nas suas trouxas, se afroxa e começa a assoviar uma canção. Fica inquieto, põe a mão nos bolsos, pega uma bússola, tenta se localizar. Mexe em suas coisas). Entra Malva pelo tubo, lentamente na penumbra, mal e mal se vê, ela é apenas uma silhueta. (Malva falando para Antão, que pára com o que estava fazendo. fica pensando...não olha pra Malva quando ela fala. Ela nesse momento é apenas uma lembrança). Malva Antón como te dijo ya, vá a venir un otro humanínia...tiene que cuidar del, el es por demás importante para tu preparacion.nada de erros...nada...nada. Se mantegan pur la strata, no hagan nada. Deja que todo passe por ti, no te importes, no te assombres, no pregunte, ni para ti mismo...eh?...ciao Antón... (desaparece...) (Antão olha para Murcilo, que agora dorme profundamente. Tira um funil de um saco, se aproxima de Murcilo. Leva o funil aos ouvidos de Murcilo e canta uma canção, nina Murcilo). (continua) bebeto alves Pág. 7

8 Márcio Pinheiro Bebeto Alves anda numa fase de paradoxos. Canta o homem invisível ao mesmo tempo que se mostra mais visível do que nunca, escancarando seu pensamento, suas ideias, seus sons e sua intimidade num documentário ( Mais uma Canção ) do qual é o protagonista. Fala nas suas raízes em Uruguaiana (questão sempre presente na sua obra e que com o passar dos anos adquire uma força cada vez maior) ao mesmo tempo que empreende uma viagem pelo Marrocos e pela Espanha em busca das origens da sua musicalidade. Um roteiro de revelações, de espantos e de descobertas. Fala em compor menos, em deixar se surpreender pela música ( A música não está dentro de mim. Muitas vezes sou eu que estou dentro dela, ensina), mas num mesmo momento de coragem e de audácia - coloca quatro discos novos no mercado. São eles: um de trilhas sonoras, um acústico e um álbum duplo gravado ao vivo. O primeiro é uma coletânea com trabalhos feitos por Bebeto para TV (arquivo de trilhas do SBT), cinema ( Netto Perde sua Alma, de Beto Souza e Tabajara Ruas) e teatro ( Mehrda Presidentas e A Salamanca do Jarau ). O acústico reúne 15 composições sendo que 14 delas são inéditas. A exceção é Ruas parceria dele com Totonho (hoje, Antonio) Villeroy e que já havia sido gravada anteriormente pelo co-autor. Da safra nova estão as parcerias com Camilo de Lélis ( Tirésias ), Reinaldo Arias ( Quero Mais ) e mais uma com Villeroy ( Outra Tarde Gris ). Além da parceria musical, Bebeto também valoriza a parceria com o intérprete, tanto de velhos companheiros de pegadas artísticas, como o violinista Ricardo Frota (do seminal Utopia), na homenagem Poema pra Cao Trein, quanto de encontros recentes, como o com a cantora Andreia Cavalheiro, em It Doesn t Matter. Mas a essência do Bebeto inquieto e andarilho está no disco duplo ao vivo. Gravado em duas gélidas noites de julho do ano passado no Teatro de Arena, o álbum cumpre um longo ciclo. Foi ali, no mesmo teatro localizado nas escadarias da Borges de Medeiros, que Bebeto soltou seus primeiros acordes nos anos 70. Era a fase que a música gaúcha dava sinais de crescimento, misturando influências interioranas e urbanas, revelando contemporâneos de Bebeto como Nelson Coelho de Castro, Nando D Ávila, Cláudio Vera Cruz e Gelson Oliveira além dos já veteranos Carlinhos Hartlieb e Raul Ellwanger -, e sinalizando que finalmente o Rio Grande do Sul seria ouvido no resto do país. Como uma reafirmação dos melhores ideais que esta geração representou, Bebeto construiu um disco que traz um repertório irrepreensível e que revisita todas as fases de um artista que sempre soube estar em ebulição e interpretar seu tempo. Estão lá marcas da estrada como Flash (canção nascida de uma parceria com o falecido Joe Eutanázia que de certa forma mostrava o otimismo de Bebeto com o novo país que surgia com a Nova República), Depois da Chuva, Kraft!... Mesmo (sua primeira e única participação no festival MPB Shell), Mais uma Canção, Notícia Urgente (sua canção do exílio, do tempo que morou no Rio de Janeiro) e Pegadas, sua assinatura musical e talvez a sua composição que melhor reflita seu espírito andarilho. Produzido por Marcelo Corsetti, o disco ao vivo conta ainda com as participações de Jimi Joe (outro que estava nas pioneiras noites do Teatro de Arena, em Sandina e Pegadas ) e Oly Jr., que com sua mistura de milonga e blues de certa maneira complementa o trabalho que vem sendo desenvolvido por Bebeto há mais de três décadas. Aos 55 anos, depois de muitas e boas (e algumas nem tão boas), Bebeto, além de paradoxal, se mostra mais sereno. Pai e avô, dividindo-se entre Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Leopoldo - onde exerce outra de suas facetas, a de gestor público -, o artista que chegou a gravar os quatro primeiros discos cada um por uma gravadora diferente agora consegue rir sem amargura das loucuras que o mercado fonográfico aprontava na década de 80. A receita, segundo Bebeto, é um certo desapego, um ouvido mais crítico e uma certeza de que o futuro já existe. Durante muito tempo tive uma saudade do futuro. Mas quem não teve?, questiona Bebeto, para em seguida responder que seu objetivo maior atualmente é ficar velho Estou atrás de uma fonte da juventude às avessas, explica. Nessa velhice tão aguardada, a música tem que surpreendê-lo. E, no momento, o que mais surpreende Bebeto são as artes plásticas em geral e a fotografia em particular. Ou seja, Bebeto está interessado nas imagens e sua música se alimenta disso. Se antes Bebeto fazia manifestos, com letras longas e discursivas, hoje, com os sons, Bebeto compõe retratos. Podem ser 3x4 ou postais ou até mesmo imensas panorâmicas. Mas a música não pode mais estar separada da imagem. E como síntese desses novos tempos que o artista vive, entre o presente e o futuro, entre o amadurecimento e a velhice, entre o som e a imagem, poderia se concluir que os olhos de Bebeto estão em dois pontos diametralmente opostos - um no microscópio, outro no telescópio. bebeto alves Pág. 8 e 9 Que se pasa, Bebeto?

9 Entrevista / Interview BEBETOALVES Questão de fronteira Versátil e incrivelmente criativo, Bebeto Alves é um artista ímpar na cultura brasileira. Cantor, compositor, artista visual e gestor cultural, ele dá conta de todas estas características com muita criatividade e competência. Na entrevista a seguir, feita por seu amigo e parceiro musical, o escritor e crítico de artes visuais Paulo Klein, ele fala de sua infância em Uruguaiana, sua juventude em Porto Alegre, suas experiências no Rio, São Paulo e no mundo. À despeito de ser mantido um pouco à margem do mainstream cultural brasileiro, suas atividades são muitas e sua produção ininterrupta. No momento em que relança algumas gravações do passado, apresenta trabalhos inéditos e surge em um filme sobre sua trajetória, Bebeto Alves solta a voz e abre o coração nesta conversa descontraída e franca. PK - Comecemos por revelar seu nome completo e o por que? do codinome Bebeto. Pode ser? Como e desde quando? BA- No inicio, desde sempre, eu, um Luiz Alberto Nunes Alves, nome mais usado para preenchimentos burocráticos quaisquer, ou contas a pagar. Bem antes, como minha mãe costumava me chamar. Hoje ela me chama de Bebeto. Não sei quando passei a ser chamado assim, mas creio que desde a mais tenra idade. PK - Data de nascimento, filiação, profissão dos pais, onde nasceu, lembranças da infância, início e continuidade da formação. BA- Nasci a 4 de novembro de 1954 em Uruguaiana, cidade fronteiriça do Rio Grande do Sul. Lá, colecionei maços de cigarro (os da argentina eram preciosos), aprendi judô, esperava ansiosamente pelos verões, pescava lambari no rio Uruguai, trocava jibi nas matinées, tocava pedra em vidraça, soltava bombas de São João, aprendi a tocar violão com o Seu Miguel, que era sapateiro, cantava nos programas de rádio, bailes, brincava no enorme pátio da cada do meu pai, montava nos cavalos que entravam no final de semana para dentro desse pátio. Meu pai era funcionário da Receita Federal e minha mãe, que tinha exercido a profissão de professora quando solteira, ao casar, passou a cuidar dos filhos e tarefas domésticas. Mas, voltando... Tomei umas boletas, cheirei lança perfume, desfilava nos 7 de setembro, beijava as meninas no cinema, adorava o circo e o carnaval, ficava acordado com os amigos até ver o sol nascer, lia, estudava, tinha muitos amigos, gostava de histórias de terror, de assombração que os meus irmãos contavam e, fui embora de lá, com minha mãe e dois irmãos, para a capital, no ano de Uma mudança drástica, pura adrenalina e ansiedade. E, claro muitas coisas, que, ou não lembro, ou, não merecem ser contadas, ou, ainda, não tem espaço aqui para serem contadas. PK E, a Música?... BA - A música, desde sempre e nem sei por que... não, sério, sei sim: por causa do cinema e da rádio. Não víamos televisão. Era um aparelho inútil por ali, não pegava nada, não havia antena de transmissão, nem sinal. Só vi televisão quando fui para Porto Alegre, isso, beirando os 16 anos, quando eu conheci o mar também. Por isso a tv é um objeto que não sinto nenhuma atração, não me faz falta. Mas, ouvi de tudo lá na fronteira: rock argentino, musica regionalista, o iê, iê, ié de Roberto Carlos e Erasmo. Meu irmão mais velho, que morava em Porto Alegre nos levava as novidades: Caetano, Chico, Gil, Mutantes, e outras cositas más. Em 69, já ouvinte ligado em Stones Beatles, etc, ouvi pela primeira vez Led Zeppelin sai do ar. Nunca pensei que se pudesse fazer uma música assim, foi um delírio. E a partir disso, tudo foi rock and roll e adjacências. Outra ligadeira: Liverpool, Marcelo Zona Sul, me arrebatou. E, bom, sei lá, não sei o quanto já li e o quanto vou ler, mas, sigo aflito em busca de um desenvolvimento pessoal no que está escrito ou sendo pensado. PK - E as outras expressões (poesia, literatura, artes visuais), vieram depois? Quando? Como? BA - Ah, pois é...os livros, herança de pai e mãe. Eles gostavam muito de ler. Meu pai lia um pouco de tudo e citava frases famosas e de efeito, frases históricas como: Alea jacta est! (risos) Contava histórias curiosas dos filósofos gregos e de partes da história do Brasil. Desde sempre me senti assim. me lançando à sorte. Minha primeira leitura, propriamente dita, leitura de conseqüência - e realmente foi para mim, pois despertou a vontade e o gosto pela leitura -, foram os livros de José Mauro de Vasconcelos, autor hoje pouco lembrado, ou mesmo, até considerado pequeno, de pouca grandeza, mas, era o que mais falava a mim, ao meu universo interiorano. Depois em Porto Alegre, dei um salto forte e comecei a ler de tudo até me fixar em Huxley, como me fixei nos livros todos do José Mauro. E, bom, sei lá, não sei o quanto já li e o quanto vou ler, mas, sigo aflito em busca de um desenvolvimento pessoal, no que está escrito ou sendo pensado. Não fiz nenhuma faculdade, não tive uma experiência acadêmica, talvez por isso a necessidade da leitura como formação mesmo. O lance visual acompanhou tudo desde o inicio, desde o cinema em Uruguaiana, da onde veio a minha música. Nos setenta conheci o meu povo em Porto Alegre, pessoas que se reuniam na Esquina Maldita no bairro Bom Fim de Porto Alegre, nas cercanias da Faculdade de Arquitetura: Claudinha, Danilo Tibiriçá, Caio Fernando Abreu, Carlinhos Hartlieb, Dilmar Messias, Leo ferlauto, Ricky Bols, Neny Scliar, Emilio Chagas, Peixe, Caramez, Sônia e Juarez Fonseca, Ligia, Lidinha, Wesley Cool, Carlos Asp, Bola Harres, Magra Jane, Nelson Toco Soares, Nizinha Venturella, Mônica Schmidt, Renato Alemão Endress,Lena Thompson, Leopoldo Plentz, Eduardo Oliveira e mais uma larga sorte de camaradas das mais variadas tendências, políticas e sociais, mas, com certeza, todos contra. Nesse meio nascia um grupo chamado Utopia. O Utopia éramos, eu, Ricardo e o Ronald Frota, assim batizado pelo Peixe, naquela época, estudante de arquitetura e um grande desenhista. Mais ainda, um agregador. Orbitavamos em torno da sua comunidade, éramos dali. O Peixe era uma espécie de guru. O Utopia foi um grupo importante na cena musical daquele período. Por um tempo me arrisquei a desenhar, bebeto alves Pág. 10 Ifood - Photopopshow Ifood - Photopopshow Sub-Postais /Lisboa

10 entusiasmado e influenciado por grandes desenhistas e plásticos como: Julio Flash Viega, Mario Ronhelt, Ricky Bols, Milton Kurtz,o próprio Peixe, Danilo Jacaré, Maciel, Marcos Pilar e mais uma outra sorte de artistas de grosso calibre. Época de publicações, jornais, revistas, da contracultura, e estávamos todos lá. Uma história que, para mim, se arrasta até os dias de hoje. PK - Vc se lembra exatamente, como e quando nos conhecemos? Acho que já era 1980 (e tantos), né? Você já estava aqui quando fizemos o Encontro Independente, no SESC Consolação e a Procopiarte, na Rua Augusta? Lembro que eu estava junto com o Zé Ramalho e Zé do Caixão no show doteatro Procópio Ferreira. O Carlos Alberto Sion era o empresário do Zé Ramalho. É o período no qual fiz capas de álbuns e prestei outros serviço de apoio (assessoria de imprensa, inclusive) para a Elba Ramalho, Alceu Valença, Amelinha e Zé Ramalho. BA - Sim, te conheci justamente nesse período. Carlinhos Sion me levou até o Teatro Procópio Ferreira e nos apresentou. Carlinhos foi um cara especial na minha vida. Gostava do meu trabalho e via nele uma forma de trazer para o caldeirão da musica popular brasileira esse veio sulista. Ele achava, naquela época, que podia acontecer com o sul, o mesmo que tinha acontecido com pessoal do nordeste. Deu zebra, e por varios, motivos. Zebra no sentido mercadológico e cultural sim. O que não aconteceu tem explicação, ou melhor dizendo, o que aconteceu. A história é muito comprida. Mas, o fato de estarmos até hoje, não só em atividade, mas atentos aos acontecimentos, fazendo parte deles de uma maneira ou de outra, propositivos, é significativo. Nessa época,( eu morava na Augusta, lembra?) o Carlinhos me ligava ou passava por lá para me levar para um almoço digno de um 5 estrelas ou simplesmente para me deixar uma grana. Esse era o cara. Quando ele conseguiu o contrato com a CBS, hoje Sony, para gravarmos o meu primeiro disco, fiz questão de pagar ao Carlos um pouco do que ele me adiantou naqueles dois anos de dureza em São Paulo. Falo isso, porque obviamente o Carlinhos ja estava levando algum pela minha contratação por lá. Normal. Nunca conversamos sobre isso, mas ele apesar de ser uma pessoa complicada eu não entendia muito bem - era um cara muito generoso. PK - Lembro que você era um cara boa pinta (aliás, modéstia a parte, éramos...e ainda somos...rsrs), com um enorme talento, mas teve que trabalhar na noite, como músico e até como garçom. Pode nos falar sobre sua chegada em Sampa (lembro que morava com um casal nas imediações da Augusta...), como foi o encontro com a cidade, a sobrevivência, a cena musical...lembro também que vários músicos do sul estavam vindo pra cá...seguindo o exemplo do Kleiton e Kledir, Raul Ellwanger, que havia sido gravado pela Elis... Enfim...Anos 80. Fale um pouco da sua experiência em São Paulo e Rio, gravadoras, festivais, etc... BA - Pois é, como falei antes, anos de dureza. Fui para São Paulo com a Claudia e a Luna, minha primeira filha, pequeninha. Claudinha foi trabalhar com o Bola (Antônio Carlos Harres, astrólogo, como ela ) na Escola Júpiter. Fomos morar com ele e a sua mulher na época, Inez, em Perdizes. Ficamos pouco tempo juntos e nos separamos. Fui morar com um camarada do sul que tinha um AP onde moravam mais pessoas. Ali estava também, meu Sub-Postais/Tanger Ifood - Photopopshow Sub-Postais/Rio de Janeiro antigo parceiro de música, o Ricardo Frota, violinista da pesada. Fizemos uma dupla de música instrumental e nos arriscamos na noite. Foi complicado, mas, rolou. Tocávamos nas melhores casas de São Paulo da época: Dama da Noite, Vitória Pub, Lei Seca. No Bixiga, nos apresentávamos no Persona, do Roberto Campadello. Figura...! Tinha uma amiga namorada, Regina, que achou que eu ia me fuder de tanto beber e tomar porcarias e me aconselhou a parar de tocar na noite. Me arrumou um emprego de garçon numa casa de chá em Pinheiros, a Erva- Doce, de um arquiteto sulista chamado Claudio Ferlauto. Gostei, estava mesmo precisando dar uma parada. A Cris, mulher do Claudio e a Djanira, a outra sócia, eram muito legais. Fiquei ali comportado alguns meses e foi ótimo. Comia as tortas da senhora Décio Pignatari, inventávamos misturas de chá, conheci muita gente legal. Fizemos uma mostra de musica do sul ali. E lá nos encontramos todos, gaúchos perdidos na cidade e novos amigos. Dos perdidos estavam, que eu me lembro agora, o Caio F. Abreu, o Nei Duclós e o Zé Antônio Silva. Mas, foi uma noitada. Tocaram o Fernando Ribeiro, Raul Ellwanger, Mario Barbará, que morou comigo na cidade, Nelson Coelho de Castro e não lembro mais quem. Ah não posso deixar de citar um baita companheiro nessa empreitada, o Álvaro, poeta, professor de história e um dos sócios do Erva-Doce. Recebíamos telefonemas anônimos, ameaças de bomba. Fechávamos a casa e íamos tomar sopa no Pirandello.Nessa época estouraram muitas, me lembro. Mas eu já vivia essa experiencia de estarsendo dos lugares, ou, nos lugares.compunha milongas perambulando na madrugada da Rebouças, caminhando em direção à Augusta. Me sentia um pouco dali, um pouco daqui, afinal... pensava, era tudo Brasil. Você foi muito importante e continua sendo, pois continuamos amigos desde aquele então, coisa que não aconteceu com mais ninguém, praticamente. Lembrei da Sonia Abreu agora, cadê ela? Dai fui para o Rio, contratado pela gravadora depois de uma reunião com o Sion e todos os executivos ai em Pinheiros, na Prudente de Moraes, pode ser? Bom, era para ter acontecido isso não? Afinal estávamos ali para isso. Lembrei de outra pessoa importante no período, Tânia Alves, grande amiga, grande pessoa, grande artista. Nos encontramos, eu e a Claudinha no Rio e casamos novamente. Desse segundo casamento nasceu a Mel. Krafts Mesmo! está nesse disco que o Carlos Sion produziu para a CBS, meu primeiro disco individual. Um disco que, confesso, tenho alguma dificuldade com ele, apesar dos ôbas que ele levou e da super produção. PK Dê a sua versão sobre a nossa canção Krafts Mesmo, que participou de um festival da Globo creio que foi o Abertura, não? Você lembra quem mais estava nesse festival? Quem ganhou? Foi Kleiton e Kledir, não??? Aproveite e fale do álbum que gravou para a CBS. Foi isso? O que contém ele reunia de músicas, de parcerias... Como foi a receptividade na imprensa, no Sul e aqui no Eixo Rio-SP? BA - Estravazamos na tua poesia do Couer Rasgado, no Erva-Doce, e dali saiu uma parceria nossa que nos levou ao festival da Globo. Musiquei um poema teu e demos o nome de Krafts mesmo! Pura onamatopéia. Dei uma ambientada no sul, trocando o Vidigal do original pela Restinga, bairro afastado, periférico de Porto Alegre. Krafts mesmo! está nesse disco que o Carlos Sion produziu para a CBS, meu primeiro disco individual. Um disco que, confesso, tenho alguma dificuldade com ele, apesar dos ôbas que ele levou e da super produção. Mas, tem uma música que virou um símbolo daquela geração no sul: De Um Bando. Claro, tem coisas legais mas...a capa é horrível, sempre achei, apesar de nunca ter tornado isso público, ou admitido, pra mim mesmo. E o trabalho é de um homem admirável, de quem sou fã, um dos artistas plásticos mais reconhecidos do Brasil, Carlos Vergara. Encontrei o Vergara ano passado no MAM, no Rio, na exposição do Vic Muniz, ele me falou que estava preparando uma exposição com esse caráter, só com suas peças gráficas e me disse: Vou colocar a sua capa. Acho que ele pensou melhor, a respeito. Espero...(risos) Não vi a exposição do Vergara mas, tenho certeza que a capa não deve ter entrado. Fotos do saudoso Bina Fonyat, parcerias, além da nossa, com os poetas conterrâneos meus, de Uruguaiana, Luis de Miranda e Nei Duclós. Nei já morava há um bom tempo em São Paulo, escrevia na Veja, Isto é, sei lá, uma dessas ai. PK - Como você levou em paralelo a tentativa de acertar artisticamente e a vida familiar? Você a Claudia Lisboa, as filhas, depois as outras relações. BA - Nada foi em paralelo, a vida não me permitiu que vivesse as coisas assim desse modo. A Claudinha sabia disso, com ela também foi assim. Ela abandonou a faculdade de arquitetura ao descobrir a astrologia que a levou a se tornar a pessoa conhecida e reconhecida que é hoje. Criamos as meninas dessa maneira. Elas, em algum momento, duvidavam disso: Um pai músico e mãe astróloga, ãh? Nada muito convencional. Pois é... Casei outra vez, tive outra filha, a Kim, mas nunca em nenhum momento da minha vida houve qualquer possibilidade de eu me tornar aquilo que eu jamais poderia ser: um outro. As pessoas que viveram comigo sempre souberam disso, não duvidavam, acreditavam, me apoiavam, enfim... PK - Como e quando você retorna pro Sul depois de longo tempo por Rio/SP? BA - O retorno foi um só, quando voltei dos EUA em 87, depois de ter vivido alguns meses em 86, em Cambridge, cidade periférica de Boston. Um só, pois a partir daquele momento entendi que a gente não voltava mais, que não existia a volta. Depois desse período foi um entendimento de que o mundo era o lugar para habitar e me fazer sentir. Estou em deslocamento desde então. Estou onde o tempo me ocupa e a ocupação estimula a minha criatividade. PK - Conte de suas experiências com a música nativa do Rio Grande, os festivais e os álbuns que gravou? Quantos? Com quem? BA - A Minha experiência com a musica nativa foi um pouco conturbada pois não acreditava muito naquilo, não daquela maneira. Eu era muito jovem. Eu estava no meio do pampa antes da aculturação da milonga e outros ritmos platinos e ouvia rock and roll e via pessoas que tocavam rock and roll nos bailes em Uruguaiana vestidas de gaúcho e tocando aqueles músicas que não me convenciam. Eu não tinha condições de reconhecer qualquer coisa dessas como uma manifestação da nossa cultura. Eu entendia aquele movimento como extremamente conservador na busca de um purismo inexistente. Isso foi há muito tempo. Depois de um bebeto alves Pág. 11

11 bebeto alves Pág. 12 longo período de atrito, as coisas se equilibraram favoravelmente ao que pensávamos: que dar margem a criatividade, as misturas, era o melhor que podíamos fazer, que traria algo novo, diverso, amplo. Acho que os discos que gravei interpretando as obras de Mauro Moraes possibilitaram as pessoas verem melhor aquilo que eu acreditava e não tinha maturidade para propor, ou, o que não estava totalmente esclarecido nas minhas musicas. E, verdade seja dita eu não gostava mesmo? E como poderia? Não era uma representação do eu era e do que já tinha vivido como fronteiriço. Mas, a minha idéia do que seria a música sulbrasileira persistiu e me acompanha até hoje. Lancei muitos discos, 23 ou 24, por muitas gravadoras e alguns selos pequenos e independentes. Vale a imagem, toda e qualquer imagem publicitária como uma ilustração argumentativa de Houllebecq, ou, de um futuro já há muito alcançado, ou, distraídamente, já passado, ou algo assim, segundo Baudrillard, existe mais algum? PK Quando chegou em São Paulo lembro que você já trazia uns zines, cartazes, poemas visuais e outras cositas gráficas. Como e em que grau pintaram as artes visuais na tua vida? BA - Na verdade a necessidade de criar me faz eu me utilizar de todas as técnicas disponíveis outras linguagens, As vezes sinto que só a música não me tranqüiliza, não me conforta, não me preenche e eu mexo com tudo. As artes visuais mais do que qualquer coisa, me estimulam, colocam-me em movimento. O silêncio, a não-música, a palavra. Acho que tudo começa pela palavra, mas a imagem é o seu espelho, qualquer imagem é um espelho e tudo é imagem, ao contrario do que dizia aquela propaganda de refrigerantes A imagem não é tudo, sem querer me utilizar de clichês. Nos anos 70 o desenho, as drogas alucinógenas, novamente o cinema, compunham um contexto criativo onde pulsava a poesia. A poesia primordial, de onde irradiam todas as coisas. A mudança comportamental, apesar da esmagadora ditadura militar, os desencontros, as mudanças de paradigmas, um mundo infinito e instantâneo se prenunciando, tornavam possivel sonhar uma grande transformação social, baseada em em outros valores Lembro agora do livro do Michel Houellebecq, Partículas Elementares, que não nos poupa ao nos identificar como os artíficies dessa realidade nova em que estamos envolvidos hoje, perdendo a noção entre o real e o ficcional, de maneira hedonista. Vale a imagem, toda e qualquer imagem publicitária como uma ilustração argumentativa de Houllebecq, ou, de um futuro ja há muito alcançado, ou, distraídamente, já passado, ou algo assim, segundo Baudrillard, existe mais algum? Fiz muito Xerox, no tempo do Xerox, e quem não fez? A gente xerocava tudo, a cara, a mão, a bunda, tudo. Lembro de um que fiz e que o correio passava adiante em datas especiais, ou em momentos especiais, em que alguma idéia se concretizava: Terra em Trânsito, já estabelecendo para mim, além de uma referência a Glauber, o ser humano em deslocamento e, outras bobagens. PK - Quando e como assume o trabalho com a Fotografia? BA - Sempre fotografei, sempre procurei dar um enquadramento ao mundo, sempre fui voyeur. Já fotografei sem câmera alguma, fotografei com câmeras ridículas, que nem amadoras eram. Acho que a fotografia faz parte de um certo voyeurismo, o fotografo é um voyeur, não? O que acho bacana nessas atividades, assim como na literatura ou, na pintura, é que o artista não aparece. Claro que sim, quando dono de sua própria linguagem, escola, estilo, ou como um auto-retrato, mas, ao contrario do artista pop e da sua super exposição midiática, ele é incluso, ele está, não é, apesar de ser, sem duvida. Minha filha Mel me deu de presente uma câmera mais profissional, uma Sony. Com ela comecei a descobrir coisas que intuía, ou mesmo que nem imaginava na arte de fotografar, além do olho, e da oportunidade. Descobri a luz e suas nuances, suas armadilhas. Descobri as dificuldades técnicas e suas soluções. Me auto eduquei e continuo me autoeducando. A Mel fotografa super bem, a Claudia também, fotografar está no âmbito das nossas descobertas. Hoje tenho trabalhado com boas câmeras e lentes apropriadas, ampliando a área de conhecimento da fotografia e, mais, buscando uma linguagem. Uma foto boa é uma foto boa e ponto final, fala por si, mas, uma foto boa não exprime toda a minha aflição, o meu desejo, por mais contundente que seja. Acredito que a foto que eu gostaria de me apropriar, é um acumulo, uma dosagem, de imagens, uma composição. São texturas, camadas. Quando eu penso em uma foto, ela são muitas, são imagens alem delas mesmas, uma outra possibilidade para ela existir, imagens internas das imagens. Uma foto é material para manipulação, é assim que me relaciono com a fotografia hoje, neste momento. Tenho admiração por bons fotógrafos, sempre fui um fotografado, não? O Luis Antônio Catafesto, o Emilio, fotógrafo da Zero-Hora, a Dulce Helfer, a Irene Santos, a Gabriele Lemanski, o Japa, o Alemão Uda, o garoto Luiz Frota lá do Rio e muito mais gente. Tenho buscado o entendimento daquilo que estou fotografando e revelado uma imagem que é uma parte subjetiva dela mesma, não do fotógrafo, não uma interpretação do olho, mas da alma do que está sendo fotografado. PK - Como está trabalhando e pretende desenvolver este trabalho no âmbito das Artes Visuais? BA - Tenho trabalhado no sentido de desenvolver composições próprias, de composição, de trabalhar a montagem ou colagem fotográfica. Perdi o pudor com isso, quando me dei conta que, ao utilizar a câmera, a gente já faz isso; corrige, expõe, contrai, expande, altera a luz, produz a cena, mesmo no instantâneo. Tenho buscado o entendimento daquilo que estou fotografando e revelado uma imagem que é uma parte subjetiva dela mesma, não do fotógrafo, não uma interpretação do olho, mas da alma do que está sendo fotografado. Poderíamos usar a imagem de um caçador. Quando fotografo me sinto caçando.tenho que saber o movimento, aprender o comportamento da imagem. PK - Fale da Música, da Literatura e das Artes no Rio Grande do Sul hoje, a partir da sua visão, da sua experiência. BA - No rio Grande do Sul tem muita coisa que me interessa. A música diversa que se produz, a literatura, desde Dionélio Machado. As Artes Plásticas sempre me interessaram como uma parceira da música também. Já fiz espetáculos me utilizando de obras, quadros, mas não emoldurando, como cenografia, mas como um elemento de relação. Em 92 fiz um espetáculo chamado Objeto em Exposição, com a artista plástica Daisy Viola, e com ele ganhamos o Prémio Açorianos de espetáculo do ano. O Sul me ocupa, possibilita muitas coisas, pois as pessoas sabem da minha capacidade de trabalho. Faço gestão cultural, fui secretário de cultura da minha cidade, diretor do IEM, Instituto Estadual de Música, fundamos uma cooperativa de músicos, a COOMPOR, escrevo roteiros de espetáculos, atuo, faço filmes, fotografo, assim, tudo de roldão., O sul se relaciona institucionalmente com os paizes vizinhos, tem um ar europeu, tudo muito sem frescura, naturalmente. É sério, me agrada, me sinto útil, capaz, aqui nesse lugar. Estamos vivendo um momento da história da nossa sociedade contemporânea, de uma mudança profunda e radical. O mundo como o conhecemos está acabando e eu quero estar em condições de viver, entender e interpretar isso. PK - Comente seu momento existencial, sua música, sua relação com as artes visuais, seus objetivos no futuro. Sua família. Suas alegrias, tristezas, decepções, esperanças. BA - Preparo o lançamento do meu novo projeto musical: Bebeto Alves em 3D. São três discos novos lançados de uma vez só: Bebeto Alves e os Blackbagual, Ao Vivo no Teatro de Arena esse disco tem um sabor de uma retrospectiva que jamais fiz. Músicas desde o primeiro disco aparecem ai com uma nova roupagem, ou nem tanto. Cenas, um disco de trilhas sonoras. Tenho desenvolvido ao longo dos anos, trilhas para os mais variados tipos de espetáculo - teatro, cinema, televisão etc. Reuno as melhores nesse disco. O terceiro é um disco de inéditas, gravadas de forma inédita: praticamente violão e voz, com um ou outro instrumento de percussão tocados por mim mesmo, chama-se O Maravilhoso Mundo Perdido. Já em processo de finalização, necessitando ainda de recursos, o filme Mais Uma Canção, longadocumentário sobre meu trabalho, produzido pela Estação Elétrica.Esperamos que ainda para este ano. Estes são trabalhos que sintetizam meu momento, um momento de grande atividade e expectativa. Me considero um cara de sorte, tenho uma familia linda, nada convencional, grandes amigos, estou em deslocamento, me acostumei a isso, não consigo viver em um só lugar, me estabelecer. Minhas raízes estão espalhadas por ai e me sinto em atenção permanente. Me agrada o momento de maturidade. Quero viver tudo ao que tenho direito, não vou me queixar de nada, de passado nenhum, nem de qualquer dificuldade imposta pelas relações, sejam elas de que natureza for. Estamos num momento da história da nossa sociedade contemporânea, de uma mudança profunda e radical. O mundo como o conhecemos está acabando e eu quero estar em condições de viver, entender e interpretar isso. Foram as escolhas minhas sempre um grande prazer e uma grande lição. E, vai ser sempre assim.

12 1978 Nelson Coelho de Castro Na Rua Senhor dos Passos, no sopé de uma pequena escadaria e adjacente a um portão de ferro, ficamos nos despedindo sem pressa alguma: Nando, Carlinhos Raul, Claudio, Bebeto e eu. Este âmbito dava entrada ao edifício donde ficava o estúdio da Isaec (Instituto Sinodal de Assistência. Educação e Cultura). O encontro se deu depois de participarmos de uma reunião para tratar da gravação do disco Paralelo Trinta. Lembro que o meu coração galopava no goto quando, meses antes, desliguei o telefone após atender a ligação do Juarez Fonseca. Ele, o fulcro da idéia, havia me convidado para participar deste disco. Metido nesta trupe duma hora pra outra, e agora ali diante dela, vibrava ainda sob aquela emoção, num mix de embaraço pueril e alegria. Conhecia o Bebeto e o Carlinhos mais pela Rádio Continental e por alguns shows coletivos, o Raul estava retornando aos pagos, o Claudio pelo grupo Som 4 e o Nando pelo Juarez me falar. Ficamos ali sei não quanto tempo, nos (re) conhecendo, falando como seria o disco, comentando sobre as canções escolhidas, os estilos de cada uma e o futuro da música em Porto Alegre que, justo naquela efeméride, começava a escancarar uma história que jamais poderíamos conjecturar... O sol da tarde veio da Praça Otavio Rocha, pincelou de laranja nossas indefectíveis bolsas de couro, também os cabelos até os ombros de pelo menos três de nós e mais ainda os nossos olhos abarrotados de cristais de felicidade e anseios. Nos despedimos, combinamos algum novo encontro antes de começar as gravações, descemos a escadaria, abrimos o portão de ferro e entramos na cidade para sempre... Minha história Juarez Fonseca Bebeto, não é que hoje eu não continue fazendo as coisas com espontaneidade. Sempre fiz. Mas se fosse fazer um outro Paralelo 30 hoje, com novos músicos e músicas, acho que teria mais, digamos, pompa e circunstância. Em 1978 tudo me pareceu natural porque tudo era novo, vocês na música, eu no jornalismo, e via todos na mesma barca, mesmo rota, mesmo objetivo. Nem considerei o fato de eu nunca ter entrada em um estúdio A ISAEC tinha recebido da Alemanha uma mesa de gravação tão cheia de recursos como as dos estúdios de Rio e SP, estava criando uma gravadora para concorrer no mercado nacional, trouxera o Geraldo Flach para dirigi-la e os horizontes eram os horizontes, ou seja: tudo aberto e amplo. Recente amigo do Geraldo, tive a ideia do disco e propus a ele, que topou de imediato, chamando o Sepé para compartilhar a produção. Por que escolhi vocês? Porque vocês estavam nesse horizonte de Rio Grande do Sul brasileiro que nos movia, o sentimento de identidade, lembra? Muitas descobertas. Eu já tinha te ouvido cantar milongas, e eras pop, como eu ouvia e gostava no Utopia. Carlinhos era amigo bem próximo desde os tempos da Faculdade de Filosofia, dez anos antes, também com a utopia rural dos hippies, conversávamos bastante. Nando eu tinha visto num show no Clube de Cultura, acho que em 78 mesmo, e me impressionado com a doçura e as melodias com que cantava o Sul. Já o olho em Vera Cruz vinha de 1972, quando eu o vira, audaciosamente, subindo ao palco no primeiro show Gil em Porto Alegre e matando a pau na guitarra ao lado de ninguém menos que Lanny. E agora estava fazendo umas canções com espírito sulista. Recém chegado do exílio, Raul trazia o espírito da resistência às ditaduras latinoamericanas e a ideia de união cultural, bem mais abrangente que nossa visão, digamos, gauchesca. No Paralelo 30, cantou samba e chacarera e pregou a ausência de fronteiras. E Nelson foi, ao mesmo tempo, a maior novidade e, quem sabe, a quintessência porto-alegrense do disco, um criador sem classificação. Bebeto, hoje tenho orgulho do Paralelo 30. Mas foi a história e vocês quem me fizeram sentir isso. Até uns bons anos atrás, imaginava apenas ter feito um trabalho de registro pelo lado de dentro. Porque sempre me senti um de vocês, e ainda me vejo assim. De vocês e muitos mais, de todos os gêneros e matizes. Não temos do que nos queixar... bebeto alves Pág. 13

13 Marcelo Corsetti O ano era 87 ou 88, tava fria aquela noite e fomos, o grande amigo Schimo e eu assistir o show do tal Bebeto no Araújo Viana. Lançamento do disco PEGADAS, posteriormente um clássico de nossa música. Foi fantástico. Depois da apresentação, só nos restou jogar sinuca no Bar Redenção, nas mesas grandes, pois depois de um grande espetáculo não cabia jogar nas mesas pequenas, mesmo que nosso jogo não fosse assim de grandes virtudes - o que depois se mostrou um pouco arriscado naquele local - pois a assistência ficou um pouco indignada com nossa performance. Como em uma novela da tv, corta para 92, encontrei o tal Alves na entrega do Troféu Açorianos de Música, ele ganhou melhor espetáculo. Como bom iniciante, meio revoltado, questionei: como um show de violão e voz pode ganhar melhor show? Corta de novo, para 94, 95, Nos encontramos nas gravações do projeto JUNTOS e cara, o neguinho é mais chato que eu: brigas, discussões e tudo que vocês puderem imaginar. Como dizem, dois bicudos não se beijam. Éramos, tipo assim, quase inimigos. Em 2002 fui assistir ao show BLACKBAGUALNEGOVEIO, mas, antes disso tinha encontrado o sujeito no PROJETO RODA SOM, onde tocava meu projeto XQUINAS. Conversamos civilizadamente pois, como disse antes, éramos quase inimigos. Quando vi o BBNV entendi como o show de 92 tinha sido premiado: não é que o sujeito sabia fazer as coisas? Ao fim desse show propus de gravarmos o BBNV (só eu mesmo). Resposta do sujeito: pra quê? Eu: pra que sim pô! Aí iniciou-se uma grande parceria que serviu pra realizar um de meus sonhos: tocar PEGADAS, ao vivo! Tem sido de muitos frutos o convívio com o BLACKBAGUAL, sujeito politicamente incorreto por natureza (tipo este que vos fala) e sem papas na língua nem que isso vá prejudicá-lo em muitas situações (não sei se esse sujeito é boa companhia). O BEBETO ALVES E OS BLACKBAGUAL, AO VIVO - Do projeto 3D, é mais uma realização de sonhos: tocar um show com grandes parceiros fazendo um disco que tem tudo pra entrar pra história, direto e sem frescuras, como é o LUIZ ALBERTO NUNES ALVES. VAMO QUE VAMO! (Marcelo produziu os disco Blackbagualnegovéio e o Ao Vivo no Teatro de Arena, que está sendo lançado no projeto Bebeto Alves em 3D. Tem acompanhado Bebeto de 2004 pra cá, em todas as suas produções). Foto/Gilson Schlindwein bebeto alves Pág. 14 Wagner Coriolano de Abreu Nos inícios de 2009, Bebeto Alves veio compor a equipe da Secretaria Municipal da Cultura, chegando com laptop e máquina fotográfica. Tive a satisfação de cruzar por ele logo no primeiro momento, quando se instalava no Centro Cultural José Pedro Boéssio. Bebeto quis saber de um artista uruguaianense que reside na cidade e, ainda naquele dia, visitamos o atelier de Rogério Severo, forte expressão na pintura e no desenho. O encontro foi memorável, os dois afinaram a prosa em torno de perspectivas de criação. Descobri que o compositor de Pegadas e Tchau palmilha há muito tempo as veredas das artes visuais. Com Bebeto Alves à frente do projeto Hora Local, em São Leopoldo, participei da produção do jornal enviando artigos sobre leitura, poesia e diversidade cultural. Recordo que fiz uma anotação em torno de poesia e música, a fim de contemplar o foco daquele projeto do Núcleo de Música da Secretaria da Cultura em parceria com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos. De uma edição para outra, tornei-me também leitor assíduo da versão impressa do Hora Local, encantado com a riqueza gráfica e a linha editorial, seleção de textos e imagens que contemplaram a Cultura com o que há de melhor atualmente, em termos de debate propositivo. Na trilha do jornal, apreciei as diversas ideias, melodias e ritmos com os quais Bebeto Alves movimenta a cena cultural e música popular brasileira, o que não é de hoje. Soltando o Verbo com o Bebeto. Soltando o Verbo com o Bebeto. Rua Vasco da Gama,165 - Bom Fim - Porto Alegre - Telefone

14 Ricardo P. Duarte B ebeto Alves e eu tivemos formação semelhante no que tange à música. Parece sacrilégio dizê-lo: ele, músico consagrado; eu recolhido à caverna paleolítica para sempre oculta. Mas fazemos parte de uma Uruguaiana anterior a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, marco divisório da cultura musical do estado. Ele a vivenciar a baixada da Rua Duque de Caxias, o rio Uruguai, o Tênis Clube, o porto; eu cruzando os campos do Touro Passo; os dois unidos, de qualquer forma, por uma origem rural das primeiras famílias povoadoras da Fronteira. E a Fronteira nos caracteriza, nos abraça e nos fascina. Nossas canções de ninar foram temas castelhanos, penetrados muito fundo em nosso inconsciente. Y el habla que misturamos algumas vezes a cultura americana como ecos da geração anterior. Qué se pasa, yo no sé. Qué se pasa, yo no sé porque: en la Frontera Oeste estaba dormido!... A geração pós guerra revolucionou o mundo. Woodstock, os festivais da MPB, e finalmente a Califórnia, explodiram marteladas na bacia do caldo amolecido de cultura, saltando tendências para todos os lados. Meu amigo virou roqueiro em determinado tempo; mas nunca cortou o cordão umbilical que o mantinha ligado a Uruguaiana, assim como nunca perdeu a batida original do violão que revela em si a Fronteira. Em 2004, subindo ao palco da Califórnia, apresentou uma milonga feita pelo Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, e cantou Paint it Black no estilo da milonga que aprendemos dos antigos guitarreros criollos platinos. Ligado, mas não escravo: Bebeto Alves é hoje um cidadão do mundo. Viajado, culto, inventivo, capaz; um artista que orgulha os amigos. Amigos que cultiva e cativa pelo carinho, embora o homem da Fronteira que vive nele mantenha sob o olhar castanho e firme, de sobrancelhas carregadas, uma aparente dureza que se desmancha ao cantar. Seu canto é livre. Se mantém o tom até certo modo campeiro do Rio Grande, é porque tem raízes aprofundadas em Uruguaiana. E Uruguaiana é o início do Rio Grande, encravada na lonjura do Pampa Gaúcho, no terreno brasileiro demarcado por nossos antepassados guerreiros para a paz do presente. Seguindo as pegadas, nem sempre na ordem em que se acham, do Bebeto Alves, onde o conteúdo conversa com o conhecimento e a canção cria uma intermediação em tempo real com a imagem, eu venho tentando ao cabo desse tempo todo, olhar onde ficam as coisas e, aos poucos, fazer minhas escolhas dentr o da desobediência interpretativa que surge e ressur ge em meu caminho aprendendo a aprender, Bebeteando por aí. Temos a característica da personalidade ao compor, ao propor, ao evoluir sob as próprias idéia se versejar tocando. Temos a mania de despencar os livros das estantes, de vasculhar os anos transcorridos e de pensa r o que estamos pretendendo e, a maior parte do que criamos está no texto e no contexto de cada fronteira interiorizada, onde o entorno junto às pequenas coisa s fundamenta o saber. Troveiros, levamos a melodia comentada, alterando o ritmo das palavras, milongueando sobre isso ou aquilo, aos olhos de nossas influências cotidianas originárias da costa do rio Uruguai, lá onde uma Uruguaiana deixada, testemunha a musicalidade da prosa ao aceitar a diversidade dos temas, e eu ainda sigo amagando o corpo no lombo do cavalo sem usar as esporas. Atraca no más meu compadre véio, atraca que o rio dá passo. Mauro Moraes No ar, pela Terra, Uruguaianense como o Bebeto. bebeto alves Pág. 15 Foto/Arquivo

15 Oly Jr. bebeto alves Pág. 16 Este trabalho é enredado por duas concepções musicais que envolveram e se envolveram na minha vida ao longo dos anos. O Blues, foi minha primeira escola musical, me dando todo o suporte e base pra entrar na guerrilha artística e sobreviver nesse caos sonoro. Através dele eu descobri a música contemporânea, me fez entender que o lamento de uma raça transformou em música as gerações futuras. A Milonga por sua vez, vem me cutucando desde sempre, antes mesmo de eu pensar em música, ela invadia meus ouvidos, acalmava minha alma e emocionava minha gente, despertava saudade por algo que eu pouco conheci. Mas era a tradução direta daquela mistura campeira, de uma linguagem sofrida e lapidada por duas línguas que debatiam-se nos lábios de meus ancestrais. Então, aconteceu algo que eu não consigo explicar exatamente, uma necessidade de buscar minhas origens, meu gosto musical, minhas lembranças, homenagear meus mestres, minha cidade, minha família, o amor da minha vida, uma forma peculiar de se expressar, enfim, apenas mais uma tentativa de sobreviver artisticamente através da forma mais sincera que um artista tem de exteriorizar seu pensamento: sua própria arte. Em meados de 2008, eu completei 10 anos de carreira e precisava de um divisor de águas. Tinha acabado de lançar um disco coletânea de canções de minha autoria, de discos anteriormente lançados, pois achei que estava na hora de revisar minha obra, para recomeçar do zero. Uma nova etapa, novos conceitos, ou seja, precisava me desvencilhar de certas manias e quebrar meus próprios tabus. Depois de ter iniciado minha trajetória musical através do blues e com o tempo incorporando o rock e o folk, parecia que me faltava algo. Não sabia bem o que era, mas ficava dia e noite matutando, a fim de buscar um modelo sonoro, estético ou alguma cosa parecida, que me traduzisse de forma peculiar. Resolvi testar outras afinações no violão e achei que o blues seria meu ponto de partida mais uma vez. Me encarnei no slide blues (um tipo de efeito sonoro, reproduzido por um cilindro de metal ou de vidro, encaixado no dedo, deslizando nas cordas de um instrumento, que no meu caso é o violão) e voltei a escutar os mestres do blues que usufruíam dessa técnica. Mestres como Muddy Waters, Robert Johnson, Elmore James, Mississippi Fred MecDowell, Tampa Red, entre outros. Paralelo a isso, me bateu uma vontade de escutar coisas mais regionais. Mas um regional mais contemporâneo. Mesmo que minha escola musical tenha sido o blues, nunca deixei de escutar e tocar várias canções de artistas gaúchos que me fascinavam dentro do circuito musical sulista. Circuito esse, que eu sempre sonhei em me inserir. Entrei numas de escutar com mais atenção os discos que o Bebeto Alves lançou com letras de Mauro Moraes. O trabalho do Bebeto, eu sempre acompanhei desde que eu entrei em contato com a sua obra. Mas esses discos eu nunca tinha parado para escuta-los com uma atenção especial. Os discos são: Milongueando uns Troços, Mandando Lenha e Milongamento. Comecei a ouvi-los direto e algumas canções me emocionaram muito, especialmente as milongas. Algo aconteceu! Como eu estava atrás de alguma coisa diferente do meu contexto musical até então, e o fato de eu me emocionar escutando certas canções dessa parceria entre Bebeto Alves & Mauro Moraes, a milonga veio a calhar. Dentre tantos estilos musicais do folclore gaúcho, sempre me identifiquei mais com a milonga. Desde piá, o único formato musical no meio de tantas canções nativas, a que eu facilmente identificava era a milonga. Achava tal concepção mais intimista. Outro disco que eu já tinha escutado, mas também não tinha dado a devida atenção, foi o Ramilonga do Vitor Ramil. O Vitor é outro artista que eu sempre acompanhei, mas escutava mais suas baladas, assim como Bebeto Alves. O que eu achava divino no Bebeto e no Vitor, era o fato de eles flertarem com a música sulista e contemporânea como se não houvesse separação. E hoje eu vejo que não existe essa separação. O que distancia os gêneros musicais são os preconceitos das mentes conservadoras. Aliás, uma de minhas bandas preferidas, Os Almôndegas e a dupla Kleiton & Kledir, cada um à sua maneira, eram mestres na mistura do regional com a música contemporânea, mas o Bebeto e Vitor penderam mais pro campo da milonga. Bueno, a única milonga que eu tocava no violão era uma canção chamada Amigo Punk da banda Graforréia Xilarmônica. Uma espécie de milonga bomfiniana, com a harmonia de uma milonga tradicional e uma letra bem porto-alegrense. Uma sátira muito bem feita por sinal. Mas o que me tocou mesmo foi a seriedade das ramilongas do Vitor e as milongas novas do Bebeto. A partir daí, me despertou a vontade de aprender os macetes de tal estilo musical. Fui aos trancos e barrancos exatamente como comecei a tocar blues, ouvindo os mestres e tirando certas canções no violão e tentando entender suas relatividades. Pensei em compor algumas milongas, mas tinha a sensação de que iria imitar meus mestres. Assim como eu componho blues em português e procuro passar minha vivência através das canções, justamente pra me diferenciar dos blueseiros americanos, fiquei dias pensando em como tocar uma milonga de forma peculiar. Foi quando me deu o estalo de tentar tocar uma milonga tradicional em um violão afinado para tocar um slide blues. Vi a luz! Chorei por alguns minutos, pois soube, na hora, que eu tinha criado algo novo. Falando mais especificamente de música, sempre vai haver alguma coisa artística em um determinado contexto musical. E era exatamente o que eu estava procurando. Algo artístico e peculiar dentro da música, não forçado e sim, natural. Pura idiossincrasia. Vamos deixar claro o conceito de arte: Arte é a capacidade que o ser humano tem de transformar a idéia em matéria, se valendo de seu estado de espírito e de sensações para a criação de uma obra. Sendo assim, qualquer tipo de criação musical, tem um conteúdo artístico que, independente do gosto pessoal de cada um, merece um minuto de atenção ou um pouco mais!!! Enfim, quando eu resolvi entrar de corpo e alma nos estilos musicais que aparentemente são extremamente diferentes, buscando o conteúdo artístico mor de cada um, consegui juntar a milonga gaúcha e o blues americano... estava feita a MILONGA BLUES. Informações e Venda Foto/Gilson Schlindwein / ***

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