A INFLUÊNCIA DA CULTURA, DA ARTE E DO ARTESANATO BRASILEIROS NO DESIGN NACIONAL CONTEMPORÂNEO: UM ESTUDO DA OBRA DOS IRMÃOS CAMPANA

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1 A INFLUÊNCIA DA CULTURA, DA ARTE E DO ARTESANATO BRASILEIROS NO DESIGN NACIONAL CONTEMPORÂNEO: UM ESTUDO DA OBRA DOS IRMÃOS CAMPANA ADRIANA NELY DORNAS MOURA Belo Horizonte 2011

2 ADRIANA NELY DORNAS MOURA A INFLUÊNCIA DA CULTURA, DA ARTE E DO ARTESANATO BRASILEIROS NO DESIGN NACIONAL CONTEMPORÂNEO: UM ESTUDO DA OBRA DOS IRMÃOS CAMPANA Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Design. Linha de pesquisa: Design, Cultura e Sociedade Orientador(a): Professora Dra. Marcelina das Graças de Almeida (Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG). Coorientador(a): Professora Dra. Maria Regina Álvares Correia Dias (Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG). Belo Horizonte 2011

3 M939i Moura, Adriana Nely Dornas A influência da cultura, da arte e do artesanato brasileiros no design contemporâneo : um estudo da obra dos Irmãos Campana / Adriana Nely Dornas Moura. - - Belo Horizonte, xiv, 116 f. (enc.) : il. color. fots. ; 31 cm. Orientadora: Marcelina das Graças de Almeida Coorientadora: Maria Regina Álvares Correia Dias Dissertação ( Mestrado) Universidade do Estado de Minas Gerais / Escola de Design / Mestrado em Design. 1. Designers Brasil Teses. 2- Artesanato Brasil. 3. Mobiliário Brasil Séc. XX Séc. XXI. 4. Campana, Fernando Crítica e Interpretação. 5. Campana, Humberto Crítica e interpretação. I. Almeida, Marcelina das Graças. II. Dias, Maria Regina Alvares Correia. III. Universidade do Estado de Minas Gerais. IV. Título. CDU:

4

5 Dedico este trabalho às minhas meninas: vovó Luiza (in Memorian), mamãe Nely, Tia Olivia, Andréa, Lara, Yasmin, e a amiga Eliana, que me trouxe de volta a Belo Horizonte. Sem elas eu não teria chegado até aqui.

6 AGRADECIMENTOS Muitos foram os que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização desse trabalho para os quais deixo meus agradecimentos: - À Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), à coordenação desse Mestrado e a todos os professores; - Ao Rodrigo Stenner, funcionário da UEMG, pelo empenho em solucionar os problemas burocráticos que, em algumas horas, insistiram em aparecer no caminho; - À FAPEMIG pelo apoio financeiro; - Aos amigos da turma do mestrado de 2009, pelos conhecimentos compartilhados; - Exalto a confiança, apoio e sabedoria da orientadora Professora Doutora Marcelina das Graças de Almeida, que apostou na realização desse projeto de forma muito atenciosa e única; - À Professora Doutora Maria Regina Álvares Correia Dias pela coorientação desta pesquisa; - Ao Professor Edir Tenório (em memória), que com seu vasto conhecimento e sua doçura em ensinar, esteve presente no início dessa jornada; - A todos os meus amigos, em especial ao André Borges e José Nunes pela leitura crítica e sugestões dadas a esse projeto; - Aos profissionais que responderam a entrevista dessa pesquisa, em especial: Adélia Borges, Eduardo Barroso Neto e Maria Helena Estrada; - Ao Tadeu Chiarelli pelo envio do Catálogo da exposição de Fernando e Humberto Campana no MAM no ano de 2000; - A equipe dos Campana, principalmente a Júnia Tereno; Por fim, dedico àqueles que acompanharam minha jornada e acreditaram que eu venceria. Meu muito obrigada.

7 Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étniconacional, a de brasileiros.... Darcy Ribeiro

8 RESUMO Essa dissertação buscou investigar as influências do design nacional contemporâneo por meio de seu dinamismo criativo. Para alcançar os objetivos, foram feitas pesquisas bibliográficas e de campo, com o estudo de caso. A leitura de autores fundamentais dedicados ao tema possibilitou o entendimento de que no Brasil, a arte e o artesanato são fortes influenciadores da estética do design nacional. Foi possível entender que os aspectos culturais que correspondem ao comportamento humano, tais como, os semióticos, os subjetivos e outros, precisam ser incorporados ao conceito tradicional de design defendido por International Council of Societies of Industrial Design (ICSID), em Afinal, a cultura de uma sociedade é rica em símbolos e pode ser cumulativa no processo estético e funcional de um produto. Dessa forma o Brasil, que é possuidor de uma pluralidade de origens sociais e étnicas, fornece aos profissionais da arte, artesanato e design um repertório de insights que, por vez apropriados, originam produtos esteticamente diferenciados. O estudo de caso de dois designers brasileiros veio como reforço para a pesquisa exploratória de onde foi possível perceber que o caminho iniciado por eles na década de 1980 se moldou pela arte acima da funcionalidade. O uso inovador dos materiais e das novas formas produtivas deu aos seus produtos o significado de objetos-arte com um cunho autoral específico. De todo modo, esse significado não os tiraram da esfera conceitual do design nacional da época em que muitos se atinham ao formato estético internacional. Ao contrário, suas criações certificaram um momento muito próprio para o design: um novo design nacional com aspectos culturais brasileiros em destaque. O resultado da pesquisa confirmou que a pluralidade brasileira favoreceu o surgimento deste Novo Design, permeado por elementos da arte, do artesanato, ricos em originalidade. A obra dos dois designers estudados reflete essa confirmação; todavia, o repertório criativo de seus produtos não se atém somente a isso, configurando-os por muitos estudiosos como designers autorais. Por fim, concluiu-se que o conceito estético do design nacional contemporâneo é vasto e que a denominação Novo Design descrita por alguns autores é muito propícia ao cenário plural do país que também sofre modificações inerentes à globalização. Palavras-chave: Dinamismo criativo. Arte. Artesanato. Design nacional contemporâneo. Novo Design.

9 ABSTRACT This dissertation aims to understand the influences that give the national contemporary design a creative dynamism of its own. To achieve the objectives were made literature and field searches throughout the case study. The reading of the most expressive authors dedicated to the issue enabled the understanding that in Brazil, art and crafts are strong influencers of aesthetic of project of national design. It could be understood that the cultural aspects that correspond to human behavior such as semiotic, subjective and others, are incorporated into the traditional concept of design advocated by International Council of Societies of Industrial Design (ICSID). The culture of a society is rich in symbols and can be cumulative in the aesthetic and functional process of a product. Thus Brazil, which is owner of a plurality of ethnic and social backgrounds, provides to professionals of art, craft and design a repertoire of appropriate insights that originates products aesthetically differentiated. The case study of two Brazilian designers came as reinforcement for exploratory research where was revealed that the path they started in the 1980s was shaped by art conceptual beyond the functionality. The innovative use of materials and new forms of production gave of its products the meaning of art-objects with a specific copyright stamp. Anyway, this meaning does not have removed them from the conceptual pool of national design which was adhered to the international aesthetic format. Rather, his creations have certified a very suitable for the design: a new national design with Brazilian cultural aspects highlighted. The survey results confirmed that the Brazilian plurality favored the emergence of this New Design permeated by elements of art, craft rich in originality. The work of two designers studied reflects this acknowledgment, however, the creative repertoire of its products do not only stick to it, configuring them for many designers, scholars as copyrightdesigners. Finally, it was concluded that the aesthetic concept of the national contemporary design is vast and that the denomination New Design' described by some author is very appropriate to pluralistic scenario of the country also suffers modifications inherent in globalization. Keywords: Influence creative. Art. Craft. National contemporary design. New Design.

10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Série Bicho (Lígia Clark) Figura 2 Parangolé (Hélio Oiticica) Figura 3 Noivinhas de cerâmica do Vale do Jequitinhonha, MG/Brasil Figura 4 Linha cronológica dos conceitos de design Figura 5 Linha cronológica do design Figura 6 Utensílio criado por designers/artistas e artesãos. Projeto Jalapa/SEBRAE-TO Figura 7 Utensílio criado por designers/artistas e artesãos. Projeto Jalapa/SEBRAE-TO Figura 8 Jóias conceituais inspiradas nas raízes da cultura brasileira Figura 9 Jóias conceituais inspiradas nas raízes da cultura brasileira Figura 10 Luminária Esperança da empresa Venini. Design de Fernando e Humberto Campana Figura 11 Vasos de murano da empresa Venini. Design de Fernando e Humberto Campana Figura 12 Estilos e movimentos do design e seus materiais característicos Figura 13 Cadeira Multidão, Figura 14 Coleção As Desconfortáveis : Cadeira Positivo e Cadeira Negativo, Figura 15 Cadeira Etruscan, Figura 16 Cadeira Vermelha, Figura 17 Etapa produtiva da Cadeira Vermelha, Figura 18 Cadeira Verde, Figura 19 Cadeira Azul, Figura 20 Luminária Estela Figura 21 Imagens da exposição No Tech, MUBE, São Paulo, jul Figura 22 Cadeira Discos, Figura 23 Cadeira Favela, Figura 24 Cadeira Plástico Bolha, Figura 25 Mesa Tatoo em alumínio e PVC, Figura 26 Cadeira Anêmona, Figura 27 Cadeira Cone,

11 Figura 28 Cadeira Favela, a e b Figura 29 Três modelos de jóias da coleção Campanas para H. Stern, Figura 30 Peças exclusivas da Coleção Campanas para H. Stern, Figura 31 Coleção Campanas para Melissa, 2005, 2006, 2008 e Figura 32 Coleção Campanas + Lacoste, Figura 33 Coleção Campanas + Lacoste, Figura 34 Coleção Campanas + Lacoste, Figura 35 Coleção Campanas + Lacoste, Figura 36 Fotos do Interior da Loja Camper de Nova York, Figura 37 Processo produtivo da Cadeira Café que faz parte da coleção Transplásticos,

12 LISTA DE QUADRO Quadro 1 Análise comparativa das teorias da arte... 28

13 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ADI Associazione per il Desegno Industriale CMA Conselho Mundial do Artesanato ECAL École Cantonnale D'arts Lausanne ESDI Escola Superior de Desenho Industrial FAAP Fundação Armando Álvares Penteado FUMA Fundação Mineira de Arte Aleijadinho ICSID International Council of Societies of Industrial Design MAM Museu de Arte Moderna MoMA Museu de Arte Moderna Nova Iorque MUBE Museu Brasileiro da Escultura PAB Programa do Artesanato Brasileiro PNDA Programa Nacional do Artesanato SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

14 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Objetivo geral Objetivos específicos Estrutura do documento REVISÃO DE LITERATURA Cultura e identidade Cultura e identidade brasileiras e o design nacional Arte, artesanato e suas influências no design nacional contemporâneo Algumas considerações sobre arte Breves considerações da arte no Brasil Breves considerações do artesanato no Brasil Design Breve cronologia conceitual e histórica do design no Brasil e no mundo Principais norteadores do design nacional contemporâneo Arte e artesanato brasileiros Materiais: significado e importância para o design METODOLOGIA DA PESQUISA Procedimentos metodológicos ESTUDO DE CASO A marca Campana Análise da influência da cultura, arte e artesanato brasileiros nas criações dos Irmãos Campana A originalidade no uso dos materiais, da forma e da manufatura aplicados na obra dos Irmãos Campana O No Tech como resultado da originalidade criativa dos Irmãos Campana Breve retrospectiva do reconhecimento da obra dos Irmãos Campana no Brasil e no mundo Exposição no Museu de Arte Moderna (SP), Coleção Campana para H. Stern Coleção Campanas para Melissa... 78

15 4.4.4 Coleção Campanas para Lacoste Projeto de ambientes para Lojas Camper Considerações finais sobre o estudo de caso CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE A Relatório de Entrevistas ANEXO A Irmãos Campana

16 14 1 INTRODUÇÃO Ao se analisar o percurso da sociedade contemporânea na busca de produtos industrializados, observa-se uma tendência na busca de soluções estético-técnicofuncionais, em geral, evidenciadas pela história e cultura de seus projetistas. Obviamente, tais requisitos não são os únicos, especialmente em países como o Brasil, cujo contexto social, cultural e econômico associa-se à influência da industrialização internacional. A leitura histórica dessa influência retrata a performance das multinacionais no território brasileiro. O design produzido na chamada Era Militar (décadas de 1960 e 1970) se constituía de referências tipicamente internacionais, bem distante das locais. Esse cenário é relatado por Moraes (2006) que ressalta sua concomitância com a baixa estima do design brasileiro da época. Todavia, na década de 1980, já designada como Pós-Militar, os projetistas prenunciavam erguer a bandeira contra a indiferença das multinacionais com suas estratégias de lucro fácil e falta de apreço pela causa do design local (MORAES, 2006, p. 5), numa tentativa de submergir à influência internacional, apontando em suas criações subsídios culturais, sociais, históricos, econômicos e políticos próprios do Brasil. De todo modo, a industrialização das multinacionais, via de regra, já havia sido contrariada muito antes de sua proliferação. Designers-arquitetos como Zanini Caldas ( ), Joaquim Tenreiro ( ) e Sérgio Rodrigues já trabalhavam conceitos modernistas em móveis brasileiros, esboçando em seus projetos criações próprias e originais (ROIZENBRUCH, 2009). Mas foi entre o final dos anos de 1980 e 1990 que o design brasileiro se inseriu na pós-modernidade envolvido pela globalização. Vê-se claramente a absorção do domínio cultural e das questões identitárias no dinamismo criativo dos projetistas, reforçando a produção e originalidade dos designers locais. A transferência de valores culturais nos processos criativos, segundo Cidreira (2005), é uma forma de reconhecer a arte como um conjunto, contextualizando ideias, a partir de matérias cedidas pela natureza e pela história. Para Laraia (2001), cultura é um processo cumulativo e o homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Por isso, ele se torna herdeiro desse processo que é proveniente de

17 15 experiências adquiridas ao longo de muitas gerações que o antecederam, desenvolvendo a partir daí valores próprios. O resultado criativo advindo desse contexto culmina, sob a ótica de Lahire (2006), em sua maioria, na formação de produtos com influências culturais sintetizadas, subjetivas e sutis. O autor acredita que a fraca ou forte legitimidade que um campo cultural proporciona possa ser delimitada pelo aprofundamento ou não que o projetista faz, mas, em geral, isso não acontece na íntegra, porque, conceitualmente, cultura é algo construído, somado e variante, o que por si só já impossibilita a imposição de formas. Neste contexto, pode se afirmar que a pluralidade cultural brasileira é um campo vasto para a dinâmica criativa do design nacional. Entretanto, essa afirmação requer, ainda, um recorte mais preciso: as produções artísticas e artesanais brasileiras, somatório dessa pluralidade, podem ser influenciadoras do design nacional. Acredita-se que tais questões se dão devido ao fato de que o design, até então com a função de concretizar uma ideia em forma de projetos ou modelos (LÖBACH, 2006, p. 16), hoje é requisitado por uma história ou cultura, assumindo formas múltiplas e mutáveis, fruto de uma sociedade pós-moderna que associa o local ao global (ROIZENBRUCH, 2009, p. 33), caraterizando-se por multiidentitárias ou multiculturais. Nesse sentido, a presente pesquisa propôs compreender as influências criativas que dão ao design nacional contemporâneo o título de Novo Design com características muito próprias típicas de um país culturalmente rico Objetivo geral Esta pesquisa tem como objetivo geral investigar as influências criativas do design nacional contemporâneo, surgidas no contexto multicultural 1 A expressão Novo Design será utilizada como conceituação para compreensão do design contemporâneo. Não se trata de uma visão dicotômica, pela qual se rejeita o passado em função do presente, mas de uma perspectiva de visualizar as mudanças que estão sendo propostas por transformações sociais, culturais, econômicas e políticas sob as quais o design se constitui. Este conceito foi elaborado pelos seguintes autores: BRANZI, 2006, p. 16; MANZINI; MERONI, 2009, p e SCHNEIDER, 2010, p

18 brasileiro, a partir das interlocuções existentes entre a arte e o artesanato, contextualizadas na obra dos Irmãos Campana Objetivos específicos a) Descrever, por meio da revisão de literatura, os principais elementos influenciadores do design nacional contemporâneo; b) Entender as interações da arte e do artesanato brasileiros na formação do repertório criativo do design nacional contemporâneo; c) Verificar, pela análise da obra dos Irmãos Campana, a influência da cultura, da arte e do artesanato brasileiros no design nacional contemporâneo. 1.3 Estrutura do documento O texto desta dissertação está exposto em cinco capítulos divididos entre a introdução, contextualização teórica do tema, metodologia, estudo de caso, e por último, são demonstradas as conclusões. Ainda constam as referências bibliográficas, apêndice e anexos, lista de figuras, quadros e siglas. A seguir, é apresentada uma breve descrição das divisões desse documento. A primeira parte do trabalho traz a introdução do tema a partir de sua relevância, expondo, de forma abrangente, o comportamento da sociedade moderna frente às novas demandas de produtos industriais; ressalta-se o posicionamento influente da cultura e história local na criação de produtos industriais com design original e de vanguarda. Ainda aborda a atualização do tema no tocante ao status em que se encontra o processo de criação dos projetistas brasileiros, chamando atenção para a permissibilidade que o design adquire quando são entregues a esses profissionais, requisitos sociais e culturais múltiplos como os presentes no Brasil. Esse status criativo é tratado como algo que vai além das funções técnicas ou de funcionalidade, sendo capaz de imprimir características próprias e singulares nos produtos pilar escolhido para análise através do estudo de caso. O segundo capítulo traz a fundamentação teórica da pesquisa, analisando autores de estudos e livros relacionados à cultura e identidade, especialmente no Brasil, descrevendo suas interfaces com o design local. Posteriormente são

19 17 apresentados os principais conceitos de arte, artesanato e design, objetivando conhecer suas principais influências no design nacional contemporâneo. Ainda nesse capítulo é demonstrado o uso dos materiais e sua importância na formação de produtos com características próprias de um contexto cultural plural. O capítulo três traz a metodologia empregada na definição da pesquisa de campo estudo de caso e da escolha dos dois designers brasileiros estudados, além de se referir às várias formas de manuseio das informações pesquisadas. O capítulo quatro detalha o estudo de caso. Primeiramente é apresentada a trajetória artístico-profissional dos Irmãos Campana, seus trabalhos e suas experiências criativas, bem como, um breve relato sobre a projeção de suas carreiras no mercado brasileiro e mundial. Posteriormente complementa-se com a descrição do estudo de caso propriamente dito. Por fim, é identificada a influência do contexto multicultural brasileiro nos projetos da dupla, cuja característica principal é a originalidade das formas, muitas vezes resultantes do uso despojado dos materiais e das formas de fabricação. Este capítulo é permeado pelos autores estudados e pela análise descritiva das entrevistas concedidas à autora. O capitulo cinco corresponde à conclusão, onde são feitas as considerações finais, trazendo as principais constatações e descobertas da pesquisa e recomendações e sugestões para trabalhos futuros. Por fim, aparecem os apêndices e o anexo.

20 18 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Cultura e identidade O termo cultura foi sintetizado pela primeira vez pelo antropólogo britânico Edward Tylor ( ), em 1871, como Kultur e Civilization (de origem francesa) um todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (LARAIA, 2001, p. 25). Segundo Kessing (1974), cultura se divide em duas correntes: 1) aquela que considera cultura como um sistema adaptativo, ou seja, padrões de comportamento sociais transmitidos e adaptados em comunidades humanas de acordo com os estilos de vida; 2) uma teoria idealista divididas em: - cultura como sistema cognitivo, ou seja, um sistema de conhecimento; - cultura como sistemas estruturais onde se define cultura como um sistema simbólico que é a criação acumulada da mente humana e cultura como sistema simbólico onde cultura é um sistema de símbolos e significados compartilhados pelos membros de uma sociedade. Já, do ponto de vista da simbologia, Arantes (1981) afirma que os elementos culturais não significam nada se tratados individualmente, ou seja, só se tornam legítimos quando se conceituam participantes de um grupo. As variadas compreensões destes elementos inseridos nestes grupos são chamadas de eventos culturais. A partir daí, a cultura torna-se atividade concreta, passando por um jogo político divergente de segmentos sociais, adequando-se ao contexto de cultura como produto. Neste sentido, cabe destacar que a cultura está diretamente relacionada aos eventos dos grupos sociais, o que lhe dá características transformadoras e capazes de gerar identidades diversas. Tais identidades, chamadas de culturais não são naturais e nem inerentes aos indivíduos. De acordo com Pacheco (2007), a identidade cultural não é estática e permanente, mas fluída e móvel, capaz de ser construída e manipulada. Assim, Hall (2000, p. 11) entende que uma identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o eu real, mas este é formado e

21 modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que os mundos oferecem. 19 Deste modo, o conceito de identidade transita entre o interior do indivíduo e o exterior que o influencia. O indivíduo, com sua identidade própria, é composto não de uma única, mas de várias identidades. À medida que os sistemas formadores de identidade cultural se multiplicam, os indivíduos se esforçam para se identificar de forma única dentro de uma identidade possível (HALL, 2000, p ). Por outro lado, Berger (1998, p. 112) afirma que [...] as identidades são atribuídas pela sociedade. Neste caso, é preciso que a sociedade as sustente com regularidade. Um indivíduo não pode ser humano sozinho e, aparentemente, não pode apegar-se a qualquer identidade sem o amparo da sociedade. Pinto (2004) confirma Berger (1998) ao afirmar que a identidade equivale a uma nação, mostrando que esta se constrói a partir da interação entre o 'eu' e a sociedade. Ambas as concepções estabilizam os sujeitos e os mundos culturais. Santos (2005) ressalta que a identidade de um povo não é rígida ou imutável; ela se constrói e se modifica na sequência de um constante processo de transformação. No Brasil, essa modificação é em parte ocasionada pela pluralidade de origens sociais e étnicas que são características de sua formação histórica. Esse contexto dá ao país um conceito de multicultural. A diversidade cultural aparece em cenários onde a pluralidade de origens sociais e étnicas caracterizam a formação de um ambiente e da dinâmica sociocultural de uma sociedade (ROIZENBRUCH, 2009). Num ambiente como esse, as interferências entre culturas são entendidas como parte de um processo natural do seu amadurecimento. No entanto, a coexistência de culturas não deve ser vista como busca do predomínio ou da sobreposição de umas em relação às outras. A inter-relação da diversidade é a fusão entre diferentes tradições culturais e pode ser vista como uma forma natural de evolução das sociedades, promovendo a criatividade, produzindo novas formas de cultura e até mesmo contestando as identidades do passado (HALL, 2000). Burity (1999) aponta alguns problemas relacionados à multicultura: um deles é a associação entre identidade e território, cuja definição o autor atribui de

22 localismo. O outro problema é a contradição entre a afirmação de uma identidade e o avanço da globalização. Para o autor, tais problemas são divergentes, afinal, enquanto o ponto central de um é a ênfase na localização da cultura (como referência), o outro é a desterritorialização imposta pelos fluxos globais. Essa ambiguidade ressaltada por Burity (1999) pode ser representada pela emergência de demandas identitárias, num cenário contemporâneo bastante globalizado. Ao questionar se esse contexto representa oportunidades ou ameaças às experiências locais, o autor relata que a globalização se reinscreve num cenário cujas referências não se definem pelo isolamento nem pela territorialidade, mas estas são fundamentais para o registro das culturas. Já Krucken (2009) afirma que a identidade e diferença cultural são fatores determinantes de um território. Este entendimento se dá quando se promove a visibilidade de recursos locais convertendo-os em benefícios reais e duráveis para as comunidades, valorizando a cultura de um determinado espaço. Na realidade, a identidade não é consequência direta da diferença cultural, mas das interações dos grupos sociais e dos procedimentos que estes utilizam para apresentar tais diferenciações. O território local passa então a representar os limites físicos de uma determinada identidade cultural, cujas fronteiras são construídas socialmente (FLORES, 2002). O próprio conceito de território se refere a uma identidade cultural coletiva. Segundo Teófilo (2002, p. 47), território: [...] tende a ser uma microrregião com claros sinais de identidade coletiva compreendendo um número de municípios que mantenha uma ampla convergência em termos de expectativas de desenvolvimento, articulado com novos mercados, e que promova uma forte integração econômica, e social, ao nível local. 20 Semprini (1999) destaca que o território multicultural é, antes de tudo, um espaço de sentido onde circundam símbolos de uma sociedade. Um país pode ser considerado território multicultural quando formado por diversos povos e culturas que convivem e trocam informações. Barbosa (1998) caracteriza esse cenário de multicultura ativa. Mas Burke (2003, p. 17) traduz multicultura ativa como [...] uma necessidade de trocas culturais intra e interterritoriais. Para ele, são os encontros culturais que encorajam a criatividade, enfatizando as oportunidades que a globalização oferece

23 21 para a formação de conceitos estéticos. O resultado disso são produções com forte apelo cultural oriundos das comunidades que os produzem em seus respectivos territórios. Todavia, é importante ressaltar que tais favorecimentos criativos precisam ser trabalhados com cautela; afinal, é necessário se ater à originalidade e riqueza de significados dessas culturas. Para Krucken (2009), esse é um caminho muitas vezes seguido por diversas áreas. O design, por exemplo, tende a unir técnica e conhecimento em projetos repletos de elementos culturais e simbólicos Cultura e identidade brasileiras e o design nacional O aspecto cultural de uma dada sociedade é rico em símbolos oriundos das gerações passadas e que podem ser retrabalhados para as gerações atuais e futuras. Essa mutação é vantajosa, uma vez que a manipulação adequada e criativa desse conjunto cultural permite novas invenções e inovações (LARAIA, 2001). Segundo Canclini (1999), os objetos são símbolos de uma cultura e que, ao serem projetados, produzidos e utilizados, passam a fazer parte da cultura material de um grupo social, trazendo o conceito do design para uma discussão antropológica. Desta forma, ao criar um produto, o projetista entrega a ele, por meio da funcionalidade e da estética, uma carga de valores e símbolos já vivenciados. Lahire (2006) entende que essa transferência gera características muito próprias e sutis nos produtos projetados. Poynor (2010, p. 23) acredita que um cenário multicultural é muito propício para o rompimento estético das criações típicas da pós-modernidade. O autor identifica como apropriação a característica de criar em uma época em que [...] a inovação estilística já não é possível, tudo que resta é imitar estilos. Isso significa, segundo ele, que as criações contemporâneas ou pós-modernas irão sempre ter um resultado diferente, sem características direcionadas a uma única fonte de criação, ou seja, basicamente híbridas. Diante disso, e se considerando Michaelis (s.d.), a palavra híbrido é [...] 2. derivado de fontes dessemelhantes; 3. que está composto de elementos diferentes ou incôngruos. [...], pode-se afirmar que um produto que representa essa diversidade cultural denomina-se híbrido.

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