P.º R. P. 301/04 DSJ-CT

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1 P.º R. P. 301/04 DSJ-CT - Registo de hipoteca legal por dívidas à Segurança Social sobre bens dos gerentes da sociedade devedora. Documentos instrutórios : certidão comprovativa da dívida e cópia autenticada do despacho de reversão proferido por técnico do referido Instituto. Registo a qualificar: Hipoteca legal requisitada pelo Instituto de Gestão Financeira de Segurança Social, mediante as Aps. 8 e 9 de 27 de Setembro de 2004, respectivamente, sobre os prédios n.º s e 00871, da freguesia de, e sobre o prédio n.º 00497, da mesma freguesia, os dois primeiros inscritos em nome de Maria de Lurdes V P F, casada com F C Francisco, sob o regime da comunhão de adquiridos, e o último em nome daquele Francisco, casado com Maria de Lurdes V, sob o regime da comunhão geral. Instruíram o pedido: certidão comprovativa da dívida à Segurança Social, por parte da sociedade Transportes Rodoviários &, Lda., emitida pelo identificado Instituto, em ; cópia autenticada do despacho de reversão contra os mencionados gerentes daquela sociedade; certidão de teor matricial dos artigos correspondentes às citadas descrições; e certidão de casamento dos titulares inscritos. O registo foi recusado com fundamento em manifesta falta de título, ao abrigo, portanto do previsto no art.º 69.º, n.º 1, alínea b) do Código do Registo Predial, e com base no facto do art.º 12.º do Dec.-Lei n.º 103/80, de 9 de Maio, ao prever sobre a hipoteca legal de que podem beneficiar as dívidas de contribuições à Segurança Social, delimita o seu âmbito de aplicação aos imóveis existentes no património das entidades patronais, excluindo os imóveis dos gerentes das sociedades de responsabilidade limitada, ainda que responsáveis por tais dívidas, nos termos do disposto no art.º 13.º do mesmo Decreto. O despacho em causa remete ainda para o B.R.N. n.º 8/2000, em cujo II caderno está publicado o parecer emitido no P.º R.º P. 88/2000 DSJ-CT, que versa sobre idêntica questão. O recurso hierárquico interposto (Aps. 6/7, de 2/11/04) defende que o caso concreto tem pressupostos legais e factuais diferentes dos que determinaram a orientação sufragada por este Conselho no parecer referenciado. É que, na altura, não tinha ainda sido aprovado o Dec.-Lei n.º 42/2001, de 9 de Fevereiro, por força de cuja disciplina, a competência para a instauração e instrução do processo de execução por dívidas à Segurança Social pertence ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, através das respectivas secções de processos. Por isso, ao tempo, sendo a 1

2 Segurança Social a apresentante do pedido de registo de hipoteca legal não poderia invocar a qualidade de revertido do sócio-gerente da sociedade empregadora., exactamente porque, não tendo meios processuais que lhe permitissem tornar efectiva a responsabilidade subsidiária dos gerentes das sociedades comerciais, prevista, de modo abstracto, no art.º 13.º do Dec.-Lei n.º 103/80, não podia juntar documentos que titulassem essa responsabilidade subsidiária; o que, naturalmente, não sucede, face ao regime legal introduzido pelo citado Dec.-Lei n.º 42/2001 No despacho de sustentação da recusa, alega-se, em síntese, que a responsabilidade dos gerentes das sociedades, prevista no art.º 13.º invocado é apenas pessoal e solidária, pelo que não pode interpretar-se extensivamente o citado art.º 12.º, de modo a que o registo da hipoteca legal possa também abranger os bens dos gerentes. A situação não se modificou porque foi alterada a competência para a instauração e instrução do processo de execução de dívida à Segurança Social, sendo que o mecanismo da reversão já funcionava antes. Dão-se, no resto, por integralmente reproduzidos os termos do respectivo despacho. A posição do Conselho vai expressa na seguinte Deliberação 1 O registo de hipoteca legal 1 é efectuado, nos termos do disposto no art.º 50.º do Código do Registo Predial, com base na certidão do título de que resulta a garantia e em declaração que identifique os bens, se necessário. 2 O órgão de execução fiscal pode, para garantia dos créditos tributários 2, quando o risco financeiro envolvido torne impossível proceder à 1 De acordo com a definição legal (art.º 704.º do Código Civil), esta garantia resulta imediatamente da lei, sem dependência da vontade das partes, podendo constituir-se desde que exista a obrigação a que serve de garantia e o respectivo credor promova o seu registo, já que este é aqui indispensável á sua própria constituição e não apenas como sucede relativamente à hipoteca voluntária requisito da sua eficácia. Cobra, assim, a sua razão de ser na necessidade de garantir determinados credores, v. g. o Estado que não poderiam obter, ou obter facilmente, o consentimento do devedor para uma hipoteca convencional. 2 Entende-se por créditos tributários, conforme o previsto no art.º 148.º, n.º1, alíneas a) e b) do Código do Procedimento e Processo Tributário, os tributos, incluindo impostos aduaneiros, taxas e demais contribuições financeiras a favor do Estado, adicionais, juros e outros encargos legais, bem como coimas e outras sanções pecuniárias fixadas em decisões, sentenças e contra-ordenações tributárias, desde que não aplicadas pelos tribunais comuns, admitindo o n.º 2 do mesmo preceito que possam ser cobradas também mediante processo de execução fiscal, outras dívidas ao Estado e a outras pessoas colectivas de direito público, bem como reembolsos e reposições (alíneas a) e b). 2

3 cobrança do imposto, constituir hipoteca legal, promovendo o seu registo a favor da Fazenda Pública, com base no respectivo acto constitutivo (art.º 195.º, n.ºs 1, 2,e 3, C.P.P.T.) 3, que é o título para tal registo e se analisa na decisão fundamentada da administração tributária nesse sentido. 3 Sujeitos passivos da responsabilidade tributária podem ser, não apenas o devedor originário, mas também o devedor subsidiário, nesta categoria se contando os gerentes de sociedades relativamente às dívidas ao fisco cujo facto constitutivo se tenha verificado no período de exercício do seu cargo ou cujo prazo legal de pagamento tenha terminado depois deste, quando, por sua culpa, o património da pessoa colectiva se tenha tornado insuficiente para esse pagamento, ou quando não provem que não lhes foi imputável a falta de pagamento das dívidas cujo prazo legal haja terminado no período de exercício das suas funções (art.º 24.º, n.º1, da Lei Geral Tributária, aprovada pelo Dec.- Lei n.º 398/98, de 17/12). 4 A responsabilidade subsidiária dos gerentes efectiva-se por reversão do processo de execução fiscal, condicionada à insuficiência do património da sociedade devedora, determinada pela inobservância das disposições legais e contratuais destinadas à protecção dos credores (art.º 23.º da Lei Geral Tributária e art.º 78.º do Código das Sociedades Comerciais). 5 A cobrança de créditos de natureza não tributária através do processo de execução fiscal depende sempre, consoante resulta do previsto no corpo do n.º 2 do art.º 148.º do Código do Procedimento e do Processo Tributário, da existência de lei expressa que preveja tal forma de cobrança; é o que se passa quanto às dívidas à segurança social para cuja cobrança foi criado, pelo Dec.-Lei n.º 42/2004, de 9 de Fevereiro, um processo executivo especial a correr termos em secções próprias do sistema de solidariedade e segurança social que mais não visa, conforme decorre do respectivo preâmbulo, do que a aplicação neste domínio do disposto naquele Código, conferindo-lhe maior celeridade e eficiência, e ao qual se aplica, em tudo o que não estiver regulado no próprio diploma, a legislação específica da segurança social, a Lei Geral Tributária e aquele Código (art.º 6.º, cit. Dec.-Lei). 3 Esta norma visa dar execução à alínea b) do n.º 2 do art.º 50.º da Lei Geral Tributária, aprovada pelo Dec.-Lei n.º 398/98, de 17`12, alterada pelas Leis n.º s 30-G/2000, de 29/12, 15/2001, de 5/6 e 55- B/2004, de 30/12, nos termos da qual a administração tributária dispõe do direito de constituição de hipoteca legal quando essa garantia se revele necessária para a cobrança efectiva da dívida ou quando o imposto incida sobre a propriedade dos bens. 3

4 6 Legislação específica da segurança social é a contida no Dec.-Lei n.º 103/80, de 9 de Maio, que estabelece o regime jurídico das contribuições para as instituições de previdência e cuja disciplina permanece inalterada, continuando a prever a possibilidade do recurso à garantia dos créditos prevista no seu artigo 12.º (hipoteca legal), desde que ela incida sobre os imóveis existentes no património das entidades patronais, 4 sem prejuízo da responsabilidade pessoal e solidária em que eventualmente incorram os gerentes e administradores das sociedades de responsabilidade limitada, pelo período da sua gerência, no que respeita às contribuições em dívida pelas mesmas (art.º 13.º, cit. Dec.-Lei e art. 78.º do Código das Sociedades Comerciais, aplicável ex vi do disposto no artigo único do Dec.-Lei n.º 68/87, de 9/2). 7 Não reconhece, assim, a lei atenta a natureza pessoal e solidária desta responsabilidade, tal como resulta dos preceitos legais acabados de referir à entidade credora o direito de se fazer pagar, de preferência a quaisquer outros credores, pelo valor dos imóveis pertencentes àqueles gerentes, direito que é característico das garantias reais, em cujo quadro se insere a hipoteca legal. 8 É, pois, de recusar, com fundamento na manifesta insuficiência do título, o registo, ao abrigo do referido art.º 13.º, de hipoteca legal sobre prédios inscritos a favor de outra pessoa que não seja a entidade patronal, ainda que instruído com documento comprovativo das dívidas de contribuições à segurança social por parte de determinada sociedade comercial. 9 A partir do momento em que é revertida a execução contra o responsável subsidiário, este adquire a posição processual de executado e o órgão da execução fiscal poderá constituir hipoteca legal sobre bens do executado por reversão, nos precisos termos do art.º 195º do C.P.P.T.. Desde então, portanto, a responsabilidade subsidiária poderá, no apertado condicionalismo do citado art.º 195.º, adquirir natureza real com o registo da 4 Enquanto que, relativamente aos créditos de natureza tributária, nem no citado art.º 50.º da L.G.T, nem no referido art.º 195.º do C.P.P.T., se indica quais os bens sobre os quais pode ser constituída a hipoteca legal, pelo que, em princípio, poderão ser abrangidos quaisquer bens do devedor originário ou subsidiário, susceptíveis de serem objecto de hipoteca (cfr. art.º 708.º, C. Civil); a menos que a mesma tenha em vista garantir dívidas de imposto sobre a propriedade dos bens, já que, então, só pode ser constituída sobre os bens a que esse imposto se reporta, como parece dever concluir-se do disposto na parte final da alínea b) do mencionado art.º 50.º. 4

5 hipoteca legal. Como bem salienta a recorrente, a possibilidade de constituição de tal hipoteca está ligada à natureza do crédito e não à qualidade do devedor. O que, assim, importa é que o crédito seja tributário, isto é, seja um crédito cuja cobrança coerciva tenha lugar em processo de execução fiscal Acontece, porém, que os documentos trazidos a registo não comprovam que o órgão da execução fiscal tenha constituído fundamentadamente hipoteca legal sobre bens executados por reversão. Face ao exposto, entende-se que o recurso não merece provimento. Esta deliberação foi homologada por despacho do Director-Geral de Cfr. tb. sobre o tema, deliberação proferida no P.ºR.P. 61/2003 DSJ-CT, in BRN, II, n.º 8/2004, pág.2. 5

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