CTA-CONFEDERAÇÃO DASASSOCIAÇÕES ECONÓMICAS DE MOÇAMBIQUE Análise do Relatório Doing Business 2016 esengo@cta.org.mz Novembro, 2015 1
O Banco Mundial divulgou recentemente o relatório Doing Business 2016, o qual faz uma análise comparativa do ambiente de negócios de 189 países, incluindo Moçambique. Nesta comparação, o Banco Mundial classifica a economia de Moçambique em 133 a com melhor ambiente de negócios, significando uma queda em 5 posições em relação ao relatório Doing Business 2015, no qual posicionara-se na 128 a (depois da actualização efectuada). Tabela 1: Evolução da classificação de Moçambique no Doing Business. Indicador DB11 DB12 DB13 DB14 DB15 DB16 Abertura de empresas 65 70 70 95 107 124 Obtenção de alvarás de construção 155 126 126 77 84 31 Obtendo electricidade 0 172 172 171 164 164 Registo de propriedades 144 156 156 152 101 105 Obtenção de crédito 128 150 150 130 131 152 Protecção dos investidores minoritários 44 46 46 52 94 99 Pagamento de impostos 101 107 107 129 123 120 Comércio internacional 133 136 136 131 129 129 Execução de contratos 132 131 131 145 164 184 Resolução de Insolvência 129 143 143 148 107 66 Total (Rank) 126 139 142 139 128 133 Fonte: Dados dos Relatórios do Banco Mundial (vários anos). Um aspecto que salta a vista, ao analisar o relatório Doing Business 2016, em comparação com os últimos cinco anos, é que a percentagem do salário mínimo mais baixo (sector 1) que cada trabalhador aufere é superior ao valor que o mesmo adiciona à empresa. Esta situação tende a agravar-se, ano a ano, como se pode verificar na figura a seguir. Intuitivamente, significa isto que este salário mínimo não depende da produtividade do trabalhador, ferindo os conceitos básicos da competitividade empresarial. 2
Fonte: Dados dos Relatórios do Banco Mundial (vários anos). O que melhorou? Segundo a avaliação, Moçambique, num conjunto de 10 indicadores, melhorou em apenas três indicadores, em comparação com os 189 países avaliados. Os três indicadores são (i) Obtenção de alvarás de construção; (ii) pagamento de impostos; e (iii) Resolução de Insolvência. No que se refere à Obtenção de alvarás de construção, Moçambique melhorou em todas as dimensões, nomeadamente em termos de procedimentos, tempo de espera para ter a licença de construção e o custo associado. No pagamento de impostos, Moçambique conseguiu reduzir o tempo despendido por ano no pagamento de impostos Moçambique tornou o pagamento de impostos mais fácil e menos onerosa para as empresas através da implementação de um sistema on-line para a apresentação de contribuições para a segurança social e pelo aumento da taxa de depreciação para máquinas copiadoras o que acelera a recuperação do investimento nelas. Esta foi a única reforma que Moçambique introduziu, segundo o relatório DB 2016. Na resolução de insolvência, a avaliação do Banco Mundial revela que Moçambique melhorou na componente do custo associado a insolvência, embora a recuperação empresarial não seja ainda uma realidade. O que não melhorou? No total, são sete indicadores nos quais Moçambique não conseguiu melhorar, nomeadamente: 3
i. Abertura de empresas: aqui, apesar do custo ter reduzido, o número de procedimentos aumentou de 9 para 10, fazendo com que a duração em dias para a obtenção da licença aumentasse de 13 dias para 19; ii. Obtendo electricidade: melhorou numa dimensão, relativamente ao custo, de obtenção que reduziu. Entretanto, é de notar a introdução de uma nova dimensão denominada Índice de confiabilidade do fornecimento e transparência das tarifas que, numa escala de 0 a 8, Moçambique tem zero pontos; iii. Registo de propriedades: houve melhoria em termos do custo. Aqui, também, foi adicionado uma nova dimensão denominada Índice de qualidade da administração da terra no qual, numa escala de 0 a 30, Moçambique tem 9,5 pontos; iv. Obtenção de crédito: aqui, caiu no Índice de alcance das informações de crédito e cobertura de órgãos de registo privados. Portanto, nota-se que a questão está mais a volta de informações sobre o crédito; v. Protecção dos investidores minoritários: sem nenhuma alteração nas dimensões; vi. Comércio internacional: este indicador sofreu muitas alterações, com adição de mais duas dimensões; vii. Execução de contratos: o tempo, em dias, para a execução de contratos aumentou, tornando difícil o contract enforcing. Neste indicador, foi introduzido uma nova categoria denominada Índice da qualidade dos processos judiciais que, de 0 a 18, Moçambique obteve 9 pontos. Na medida denominada Distância até a fronteira (DAF) 1, Moçambique registou um recuo, saindo de 56,92% para 53,98%. Analisando indicador a indicador, nota-se um recuo apenas no indicador sobre facilidade de abertura de empresas. Nos restantes houve avanço a aproximar-se aos melhores padrões mundiais em cada indicador, destacando-se a obtenção de alvarás de construção. Entretanto, os avanços que Moçambique regista são bastante lentos, se se olhar na diferença entre 2015 e 2016, significando haver necessidade de acelerar o processo de reformas e sua implementação. Portanto, sob esta perspectiva da DAF, apesar de não ter subido no ranking do Doing Business, Moçambique não registou, necessariamente, deterioração do ambiente de negócios. 1 A medida distância até a fronteira mostra a distância em termos médios de uma economia em relação ao melhor desempenho obtido por qualquer economia em cada indicador do Doing Business desde 2003 ou o primeiro ano em que os dados para o indicador foram colectados. A medida é normalizada para variar entre 0 e 100, onde 100 representa a fronteira ou a melhor prática. 4
Distância até a Fronteira Indicador DB 2015 DB 2016 Mudança Abertura de empresas 80,43 80,23 Afasta-se Obtenção de alvarás de construção 75,85 77,58 Aproxima-se Obtendo electricidade 42,89 43,37 Aproxima-se Registro de propriedades 58,69 58,99 Aproxima-se Obtenção de crédito 25,00 25,00 Manteve Protecção dos investidores minoritários 51,67 51,67 Manteve Paying Taxes 67,09 67,78 Aproxima-se Comércio internacional 58,20 58,20 Manteve Execução de contratos 27,32 27,32 Manteve Resolução de Insolvência 49,50 49,63 Aproxima-se Geral 56,92 53,98 Fonte: Dados do Relatório Doing Business 2015 e 2016 A medida do ambiente de negócios, DAF, é importante instrumento para monitorar porque, diferentemente do ranking Doing Business que é comparativo, ele é absoluto, tomando apenas um benchmark de boas práticas internacionais para esse indicador. Portanto, ele infere a distância por percorrer até atingir um padrão regulatório e de procedimentos. Perspectivas no Doing Business 2017 A queda de Moçambique no ranking Doing Business 2016 em cinco posições interrompeu dois anos consecutivos de subida, 2014 e 2015, destacando-se em 2015 onde melhorou 15 posições. Um aspecto comum nesses dois anos é que Moçambique tinha introduzido, no mínimo, duas reformas. Olhando a DAF, os indicadores em Moçambique ainda precisa fazer muito é Obtenção do crédito, onde, daquelas que são as melhores práticas, faz apenas um quarto. Mesmo na perspectiva do ranking Doing Business 2016, este indicador é o pior para Moçambique. São duas categorias que Moçambique melhorar aqui: informação de crédito e eficiência dos direitos legais. O processo de reforma iniciado em Moçambique, destacando-se a aprovação da Autorização Legislativa para a criação de centrais de informação de crédito de gestão privada, a sua implementação poderá ter grande impacto neste indicador. Três medidas foram propostas pela CTA para melhorar na obtenção do crédito, nomeadamente (i) a criação de uma secção nos tribunais judiciais para assuntos especializados bancários; (ii) o registo notarial de hipotecas aqui o Governo já avançou com a criação do sistema de entidades legais; e (iii) o registo electrónico de empresas também, já avançou. Estas medidas constam da agenda de reformas aprovadas pelo Governo e a CTA, para o período 2015-2016 o que espera-se que melhorem, significativamente o desempenho do indicador obtenção do crédito. 5
Outro indicador no qual Moçambique está longe das boas práticas, é a execução de contratos que mede o tempo e custo para resolução de disputas comerciais através de um tribunal local de primeira instância. Segundo a classificação do Doing Business, em Moçambique demora-se 950 dias, pouco mais que 2 anos e meio, em tribunais de primeira estância a resolver-se disputas comerciais, associado a um custo bastante elevado. A obtenção de electricidade é um outro indicador que Moçambique precisa de trabalhar mais. A introdução, este ano, de uma nova dimensão para este indicador que é o Índice de confiabilidade do fornecimento e transparência das tarifas que capta, um pouco a qualidade de energia eléctrica fornecida ao sector produtivo poderá deteriorar, ainda mais, o desempenho deste indicador. Nos últimos tempos, sem um grande diagnóstico, a percepção é de que a confiabilidade do fornecimento de energia eléctrica baixou em Moçambique, registando-se restrições constantes. O crescimento económico registado em Moçambique gerou aumento da procura por energia eléctrica, algo que não é acompanhado por investimentos necessários na rede de transporte e distribuição de energia eléctrica. Por fim, a resolução da insolvência é outro indicador que está abaixo dos 50% daquelas que são boas práticas internacionais. Tudo está relacionado com o tempo e a taxa de recuperação da massa falida. Aqui, também, é de mencionar a agenda de reformas 2015-2016 que inclui a necessidade de criação de uma associação de administradores de falência que poderá não só acelerar o processo de insolvência, mas também procurar recuperar empresários falidos. Notas finais Fazendo uma conjugação entre a classificação no ranking Doing Business 2016 e a perspectiva da distância até a fronteira, pode-se afirmar que a queda, em si, não significa que o ambiente de negócios tenha deteriorado em Moçambique. Significa que a quantidade de reformas efectuadas não são suficientes para estar melhor classificado que os outros. Entretanto, a distância até a fronteira fornece uma informação importante, na medida em que mostra quais os indicadores nos quais Moçambique precisa trabalhar mais. Nesta perspectiva, a obtenção do crédito, execução de contratos, obtenção de electricidade e a resolução de insolvência são indicadores que necessitam de uma atenção especial, por forma a conformar-se com as boas práticas, particularmente num mundo cada vez mais global. As perspectivas de melhoria são boas a nível de obtenção de crédito e resolução de insolvência, dado que existem medidas propostas pela CTA ao Governo e com nível de implementação bastante avançada. Refere-se, aqui, ao registo notarial de hipotecas que já existe uma proposta do Governo para a criação do sistema de entidades legais e o registo electrónico de empresas. Para a resolução de insolvência está em curso a criação da associação de administradores de falência que poderá não só acelerar o processo de insolvência, mas também procurar recuperar a massa falida que ainda tenha interesse empresarial. 6
Os dados combinados dos últimos cinco anos do Doing Business, nota-se que o salário mínimo pago em Moçambique, pelo menos no sector 1, não é compatível com os preceitos de competitividade empresarial, na medida em que supera o valor adicionado por trabalhador, com tendência crescente. Aqui, propõe-se a introdução de reformas no próprio modelo de fixação do salário mínimo, baseando-se nas produtividades sectoriais. O factor mão-de-obra, para um país que pretende criar indústria intensiva em mão-de-obra para gerar um crescimento inclusivo, se ele for muito caro, retirará a competitividade dessa mesma indústria. 7