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Tudo certo, compadre? A UU L AL A M Ó D U L O 10 Duduca Lemos, o fazendeiro, recebeu um convite para o lançamento do primeiro livro de poesias de Herculano Peçanha, mas decidiu que não iria. Não entende de poesia e não gosta de sair de seu canto. Numa conversa com Alma, sua esposa, fala da decisão e mostra-lhe a carta que pretende enviar ao Herculano. Alma, no entanto, tinha outros planos... Cenatexto - Alma, eu queria que você desse uma olhada na carta que vou mandar pro Herculano, falando que a gente não vai pro lançamento do livro dele. Você que fez curso de magistério e tá sempre lendo, pode me ajudar. - Nós não vamos, Duduca? Por quê? Você é tão amigo do Danilo, o Herculano gosta tanto de nós... - Não sei porque essa cara de espanto! Fazer o quê lá? Não entendo de poesia, não gosto daquela confusão da capital, não tenho nem roupa pra essas coisas. Não vai me dizer que você tava pensando que a gente ia. - Estava sim, Duduca! De uns tempos pra cá, a gente se enfurnou nessa fazenda, nem à cidade temos ido mais. Essa é a oportunidade para ir à Capital, ver pessoas diferentes, fazer umas compras, rever a família do Danilo. Tenho pensado muito na nossa vida e, quase sempre, me vem à cabeça o último verso de um poema de Drumond: Eta vida besta, meu Deus! - Não, Alma, não me venha com histórias novamente. São esses livros, essas novelas...

A U L A - Preste atenção, Duduca! Não é nada disso. Olhe pra você, com cinqüenta e dois anos e parece um velho. O mundo está mudando rapidamente! Nós temos condições, podemos viver melhor. Eu gosto aqui da fazenda, sei que esse é o seu mundo, mas não precisamos ficar isolados como bichos do mato. Eu não quero magoar você, mas também não pretendo deixar de falar o que sinto. Nós fomos criados numa época em que à mulher só cabia obedecer, servir o marido. Lembro muito minha mãe, sua mãe, coitadas... Felizmente, tudo isso está mudando. Duduca passa a mão pela barba meio branca e observa, demoradamente, a figura já madura de Alma. Depois, olha Alma nos olhos e, pela primeira vez, parece vê-la como pessoa, alguém que tem sentimentos, desejos... - Minha vida, você sabe melhor que eu, tem sido trabalhar. Procuro dar conforto pra família. Nenhuma fazenda por aqui tem o que a gente tem. Muita gente acha que eu gosto de aparecer, de ser superior, que sou esnobe. Esnobe... é isso mesmo, Alma? - É, Duduca, mas não é disso que estou falando. Além de carro, televisão, vídeo, som, cozinha azulejada e tantas outras coisas, a pessoa precisa ser tratada como igual. Necessita de outras pessoas, ver coisas novas, ter sonhos. Que bom, Duduca, que a gente está conversando sem brigar! - Também venho pensando sobre essas coisas. Às vezes, vejo você quieta pelos cantos, olhando longe... e não me aproximo. A vida rude, a necessidade de ganhar dinheiro, a falta de leitura, tudo isso me tornou seco, duro. No começo, quando você falava assim, eu ficava furioso. Depois, conversando algumas vezes com o Herculano, aprendi que as coisas mudam e que hoje pode ser diferente de ontem. - Apesar de ser mais novo que nós, o Herculano sabe mais da vida que a gente. Ele também me ajudou a compreender muita coisa. Houve um dia em que ele falou: Tia Alma, a senhora e o tio Duduca precisam conversar mais. A vida de vocês pode ser muito mais rica, mais bonita. A senhora precisa falar as coisas, tia! Quem sabe o quê que o calado quer?. - Acho gozado ele tratar a gente por senhor e senhora, mas gosto dele. E sei que você também gosta. No início, até tive um pouco de ciúme; depois, vi que era asneira. - Bobagem mesmo, Duduca. O amor que sinto pelo Herculano é o que teria pelo filho que não tivemos. - Alma, parece que a vida da gente vai tomar outro rumo. Tô gostando, mas peço pra você ter paciência. Não vai dar pra ir no lançamento do livro do Herculano, mas a gente vai lá em outra época. Veja a carta, e se quiser pode fazer outra. Oi, Herculano Recebi seu convite, mas não vai da pra ir no lançamento do seu livro. Fiquei satisfeito de você lembrar da gente. Entendo quase nada de poesia. A Alma queria ir, mas a época não é boa. Quando você vier aqui, a gente conversa mais. Aqui vai tudo bem, graças à Deus. Tava muito quenti, mais agora já começou à esfriar. Zequinha falou pra mandar um abraço procê. Manda o seu livro pra Alma, ela gosta muinto de ler. Vai gostar, garanto. Duduca, pelo amor de Deus! Ainda bem que não mandou essa carta. Está certo que você não gostava da escola, mas escrever procê, muinto, tava, quenti já é demais! Não é assim que a gente fala, Alma? Falar é uma coisa, escrever é outra. Sua carta está confusa, falta colocar o local de onde você escreve, a data, a assinatura. Você usa mais no lugar de mas, coloca crase onde não devia e deixa sem acento palavras que devem ser acentuadas. Carta, mesmo uma carta particular, tem lá suas regras. Oi, Herculano é demais... Tá bom, Alma! Por favor, escreve outra pra mim.

1. Nem sempre é preciso ir ao dicionário para saber o sentido de uma palavra ou expressão. Às vezes, o próprio texto nos dá o significado. De acordo com a Cenatexto de hoje, destacamos algumas ocorrências desse tipo, explique-as: a) (...) a gente se enfurnou nessa fazenda (...) Dicionário A U L A b) Você que fez curso de magistério (...) c) A vida rude, a necessidade de ganhar dinheiro (...) d) Depois, vi que era asneira (...) e) Muita gente acha que eu gosto de aparecer, de ser superior, que sou esnobe (...) 1. Quais os motivos alegados por Duduca para justificar sua decisão de não ir ao lançamento do livro de Herculano? Entendimento 2. Leia abaixo o poema de Carlos Drummond de Andrade que foi citado por Alma e diga o que há de comum entre a vida descrita pelo poeta e a vida da esposa do fazendeiro. Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai de devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. Fonte: Alguma poesia. Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, Obras Completas pág. 67. 3. Por que Alma diz que sua mãe e a mãe de Duduca eram coitadas? Você acha que ela está certa? 4. O que Alma e Duduca aprenderam com Herculano? 5. O que levava Herculano a tratar Duduca por senhor e Alma por senhora? 6. Duduca tinha motivos para sentir ciúme de Alma com Herculano? Justifique sua resposta.

Reescritura A U L A 1. Observando os comentários feitos por Alma, reescreva a carta escrita por Duduca. Você tem total liberdade, só não pode mudar o assunto. Continue, após o início: Fazenda Três Barras, 15 de maio de 1995. Prezado Herculano, Ficamos muito alegres ao receber o convite do lançamento de seu primeiro livro de poesias. Para nós, foi motivo de muita satisfação o fato de sermos lembrados para esse acontecimento tão importante em sua vida. Aprofundando Na aula anterior, aprendemos que um período composto tem mais de uma oração. Essas orações podem ser de vários tipos: as orações subordinadas, por exemplo, são aquelas que dependem de uma outra, que é chamada de oração principal. Observe: Eu queria que você desse uma olhada na carta. Temos aí dois verbos (queria e desse) e, portanto, duas orações. Isso quer dizer que o período é composto. Para unir essas orações, usamos a palavra que. Assim, o período é divido da seguinte maneira: 1ª oração 2ª oração Eu queria que você desse uma olhada na carta. A segunda oração é objeto direto do verbo da primeira oração (Eu queria), que chamamos de oração principal. A oração subordinada é nomeada de acordo com a função que exerce em sua relação com a oração principal. Nesse exemplo, em que é objeto direto do verbo da oração principal, a subordinada é chamada oração subordinada substantiva objetiva direta. Observe: Eu queria or. principal que você desse uma olhada na carta. or. subordinada substantiva objetiva direta Quando é objeto indireto da principal, a oração subordinada é chamada de oração subordinada substantiva objetiva indireta. Veja o exemplo: Você precisa or. principal de que comentem mais? or. subordinada substantiva objetiva indireta

1. Nos períodos abaixo, indique se a oração destacada é objetiva direta ou objetiva indireta. (Lembrete: Você precisa saber se o verbo da oração principal é transitivo direto ou indireto.) A U L A a) Ela sentia que sua vida estava mudando. b) Você se esquece de que está enfurnado na fazenda? c) Aprendi que as coisas mudam. d) Ele o informou de que não iria ao lançamento. e) A carta dizia que ele não podia ir. 2. Complete os períodos seguintes com orações subordinadas substantivas objetivas, dizendo se são diretas ou indiretas: a) Ele me comunicou Oração subordinada substantiva objetiva... b) Aos domingos não necessito Oração subordinada substantiva objetiva... c) Duduca sabia Oração subordinada substantiva objetiva... d) Alma não se lembrava Oração subordinada substantiva objetiva... Reproduzimos aqui um trecho extraído da peça teatral O burguês fidalgo, do grande escritor francês Jean Baptiste Molière, que viveu entre 1622 e 1673. Ele escreveu mais de trinta comédias e dirigiu sua própria companhia de teatro, percorrendo a França com apresentações, geralmente muito irônicas e avançadas para a época. Essa comédia foi escrita em 1670. Arte e vida

A U L A Prosa e verso Jourdain - Por favor. Aliás, eu vou lhe fazer uma confidência: eu estaria apaixonado por uma pessoa de alto gabarito e desejaria que o senhor me ajudasse a escrever algo num bilhetinho que eu preten deria deixar cair aos pés dela. Filósofo - Está bem. Jourdain - Vai ser o máximo da galanteria, não? Filósofo - É em verso que lhe quer escrever Vossa Excelência? Jourdain - Não, não! Nada de versos! Filósofo - Só em prosa? Jourdain - Não! Não quero nem em verso nem em prosa. Filósofo - Temo que só possa ser de uma maneira ou de outra. Jourdain - Por quê? Filósofo - Pela simples razão de que só podemos nos exprimir em prosa ou em verso. Jourdain - Só tem prosa e verso? Filósofo - Exato. Tudo que não é prosa, é verso; e tudo que não é verso, é prosa. Jourdain - E quando a gente fala, o que é que é? Filósofo - É prosa. Jourdain - O quê? Quando eu digo: Nicole, traga meus chinelos e me dá minha toca, isto é prosa? Filósofo Jourdain - Sim, Excelência. - Puxa vida! Há mais de quarenta anos que eu falo em prosa e não sabia. Fico agradecidíssimo por ter me ensinado isto. Aqui, Molière retrata com humor e fidelidade um fidalgo que, apenas aos sessenta anos e com a ajuda do filósofo, descobre que havia falado sempre em prosa. Trata-se de uma comédia de costumes, em que são retratadas figuras da sociedade, sobretudo da burguesia. Supondo que você seja o filósofo, discuta com seus amigos sobre o tema aqui apresentado por Molière. Em seguida, reescreva o texto com muito humor e ironia, usando seus conhecimentos sobre a distinção entre prosa e verso:..... Reflexão Na Cenatexto desta aula, você observou um diálogo entre marido e mulher, que discutiam sobre os vários problemas da vida cotidiana. Ao centro da discussão, colocamos a posição da mulher em nossa sociedade. Será que a mulher só deve obedecer? O homem deve mandar? Reflita sobre as falas de Alma e as respostas de Duduca. Pense no assunto e tire suas conclusões. As mudanças que têm ocorrido, em relação à posição da mulher na sociedade atual, estão sendo boas ou ruins para o ser humano? Justifique sua resposta.