DEVIDO À PROLAPSO PENIANO

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PENECTOMIA EM TARTARUGA TIGRE-D ÁGUA (Trachemys scrypta elegans) DEVIDO À PROLAPSO PENIANO Autores: Acacia Rebello COUTINHO 1, Luiz Eduardo de Souza TASSINI 2, Mário César Rennó de ARAÚJO 3, Tathiana Mourão dos ANJOS 4, Daniela Bastos de Souza Karam ROSA 5, Júlio César Cambraia VEADO 6 1 Aluna da Graduação do curso de Medicina Veterinária EV-UFMG, acaciarc-5@hotmail.com 2 Médico Veterinário Aluno Pós-Graduação EV-UFMG 3 Médico Veterinário 4 Médica Veterinária Doutoranda em Medicina Veterinária (UFMG); 5 Médica Veterinária Aluna Pós-Graduação EV-UFMG 6 Prof. Associado II Escola de Veterinária (Universidade Federal de Minas Gerais) RESUMO O pênis dos quelônios é exposto quando o animal se excita, podendo sofrer traumas, como por mordida, interrupção forçada da cópula ou tração durante a cópula, levando ao prolapso peniano ou parafimose. Quando o tecido está viável, é possível um tratamento conservativo com redução do edema e reversão do pênis à cloaca. Se houver necrose, deve-se realizar penectomia. Este trabalho tem por objetivo relatar um caso de prolapso peniano em Tigre-d água corrigido cirurgicamente, com descrição dos procedimentos pré, trans e pós cirúrgicos. A glande apresentava-se edemaciada, com áreas de necrose e fria ao toque, indicando a inviabilidade do tecido, sendo necessária a penectomia. Foi usado protocolo anestésico de cetamina e xilazina. Após exposição e antissepsia do pênis, os corpos cavernosos foram ligados individualmente. A sutura e a amputação foram realizados cranialmente ao tecido desvitalizado, e o coto suturado foi realocado na cloaca. Realizou-se sutura em bolsa de tabaco para evitar recidiva. Para o pósoperatório, foram prescritas aplicações de enrofloxacino e cetoprofeno, e que fosse feito curativo tópico com soro fisiológico, cloredixine 0,2% e pomada à base de nitrofurazona, uma vez ao dia. O animal se recuperou de forma adequada, sem ANAIS 37ºANCLIVEPA p.1189

intercorrências no pós-operatório. O proprietário relatou que ele se comportava normalmente, sem dificuldade para urinar e defecar, e alimentando-se bem. Quando o animal expôs o pênis este não reverteu à cloaca, o que sugere um prognóstico favorável. Graças à anamnese e exame clínico adequados, foram instituídos técnicas cirúrgicas, protocolo anestésico e tratamento seguros e eficazes, sendo o procedimento de penectomia um método efetivo para correção de prolapso peniano. Palavras-chave: répteis; amputação; parafimose. Keywords: reptiles; amputation; paraphimosis. REVISÃO DE LITERATURA O pênis dos quelônios fica retraído na cloaca, podendo se expor em situação na qual o animal está excitado. Em termos de macroestrutura, o pênis das tartarugas é formado por um corpo e uma glande, que é tipicamente cinza escura, roxa, ou próxima ao preto. Um longo ducto - sulco - seminal, envolvido por cumes seminais, extende-se da base do pênis até o óstio uretral na glande. Ao contrário do observado nos mamíferos, o sulco seminal é exposto, e não um ducto interno (ZUG, 1966). Quando em seu estado flácido, o pênis fica contido na cloaca. Esta cavidade é dividida em três porções: Coprodeum - porção inicial; Urodeum - porção média; Proctodeum - porção final, nas quais se desembocam, respectivamente, o intestino delgado, os vasos deferentes e os ureteres e, no caso dos machos, albergando o pênis quando não ereto (CUBAS et al., 2007). Em situações de trauma como mordidas, tração durante a cópula ou interrupção forçada de cópula, pode ocorrer o prolapso peniano ou parafimose (BOYER, 1996; BARTEN, 2006; CUBAS et al., 2007). Caso a vitalidade do órgão esteja preservada, indica-se tratamento conservativo com aplicação de compressas frias, agentes higroscópicos e hipertônicos para reduzir o edema. Realiza-se limpeza, lubrificação e reposição do pênis para a cloaca, podendo ser feita sutura em bolsa de tabaco para evitar recidiva (BOYER, 1996; GOULART, 2004). Quando o tecido apresenta necrose, deve-se realizar a penectomia (BOYER, 1996; GOULART, 2004). ANAIS 37ºANCLIVEPA p.1190

DESCRIÇÃO DO CASO Foi atendido no setor de animais silvestres da Clínica Veterinária Vetmaster, em Belo Horizonte, Minas Gerais, uma tartaruga Tigre-d água (Trachemys scrypta elegans), macho, de 9 anos de idade e pesando 1,85 Kg, com histórico de prolapso peniano há 3 dias devido a uma possível cópula. A glande estava edemaciada, com áreas de necrose e fria ao toque, indicando a inviabilidade do tecido. Por este motivo, optou-se pela cirurgia de penectomia. O protocolo anestésico foi a associação de cetamina (40mg/Kg) e xilazina (0,5 mg/kg), administrados por via intramuscular. O animal entrou em plano anestésico, apresentando parada do reflexo de retração de pescoço, cloaca, dígitos e córnea. O pênis foi exposto e realizado antissepsia local. Os corpos cavernosos foram ligados individualmente com ligadura em massa utilizando fio sintético absorvível nº 3-0. A sutura e a amputação foram realizados cranialmente ao tecido desvitalizado, e o coto suturado foi realocado na cloaca. Por fim, realizou-se sutura em bolsa de tabaco na cloaca para manter o coto retido, utilizando-se fio de nylon nº 2-0. O retorno anestésico ocorreu sem complicações. O pós-operatório foi realizado com aplicações de enrofloxacino (5 mg/kg, uma vez ao dia) e cetoprofeno (2 mg/kg, uma vez ao dia) injetáveis, via intramuscular, por 7 e 3 dias respectivamente. Prescreveuse curativo tópico com soro fisiológico, cloredixine 0,2% e pomada à base de nitrofurazona, uma vez ao dia. Nesse período, o macho foi mantido isolado da fêmea. A sutura externa foi retirada após duas semanas. O animal não apresentou intercorrências durante o pós operatório, recuperando-se de forma adequada. Um mês após a cirurgia, foi realizado retorno do paciente e o proprietário relatou que seu comportamento e alimentação estavam normais, sem dificuldade para urinar e defecar. DISCUSSÃO A penectomia é indicada em casos de parafimose com lesões graves, infecção, necrose ou em parafimose crônica. A necrose causa toxemia, septicemia e pode levar à morte. No caso descrito optou-se pela penectomia, pois o tecido avaliado já apresentava necrose; porém, caso o tecido avaliado estivesse ainda viável, poderia- ANAIS 37ºANCLIVEPA p.1191

se optar por tentativas de redução do edema (BOYER, 1996; CUBAS et al., 2007). Nestas situações, após eficaz redução do edema, o animal deve ser sedado, e é realizada uma sutura em bolsa de tabaco na cloaca, para reter o pênis e evitar recidiva. É importante lembrar que a sutura em bolsa de tabaco deve ser adequada de forma a não permitir que haja novo prolapso, porém frouxa o suficiente para permitir a eliminação de excretas (BENNET, 1989; BOYER, 1996; CUBAS et al., 2007). O proprietário deve ser orientado a monitorar o animal diariamente, observando se a eliminação de excretas está sendo realizada de forma adequada e sem dificuldades. Nos casos em que se opta pela penectomia, a ausência do órgão não prejudica a capacidade de micção, já que em tartarugas o pênis só tem função reprodutiva (BARTEN, 2006; CUBAS et al., 2007). Acredita-se que o animal tentou copular, expôs o pênis e este não reverteu à cloaca. Isso sugere um prognóstico favorável, pois o prolapso não foi secundário a situações como hiperparatireoidismo secundário nutricional, déficits neurológicos ou traumáticos envolvendo músculos retratores do pênis ou esfíncter cloacal (BENNET, 1989; BARTEN, 2006). Havendo suspeita de causas primárias ao prolapso, é preciso que seja determinada de forma a evitar recidiva, nos casos em que não se optou pela penectomia. O procedimento cirúrgico pode ser realizado com o animal sedado e sob anestesia epidural ou sob anestesia geral. Nesse caso, optou-se por utilizar anestesia geral com associação de cetamina devido à sua ação anestésica dissociativa e xilazina, por sua ação miorrelaxante (BENNET, 1989; BOYER, 1996). O plano anestésico foi adequado, considerando-se o reflexo de retração e de córnea. CONCLUSÃO A realização de uma anamneses e exame clínico adequados, que permitam diagnósticos diferenciais, é essencial para que o clínico possa direcionar o paciente à melhor conduta de tratamento. O protocolo anestésico utilizado mostrou-se seguro e eficaz, assim como a realização do procedimento de penectomia demonstrou ser um método efetivo para correção do prolapso peniano. Apesar de que após o procedimento o paciente fica incapaz de copular, seu prognóstico é favorável. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANAIS 37ºANCLIVEPA p.1192

BARTEN SL. Penile prolapse. In: MADER, D. R. Reptile medicine and surgery. 2 ed. Saunders, 2006, p.862-864. BENNET RA. Reptilian surgery, part I: basic principles, Compend Contin Edc Pract Vet 11:10, 1989. BOYER, TH. BOYER, DM. Turtles, tortoises, and terrapins. In: MADER, DR. Reptile Medicine and Surgery. Philadelphia: W.B. Saunders, 1996. cap. 7, p. 61-78. CUBAS ZS, SILVA JCR, CATÃO-DIAS JL. Tratado de animais selvagens. São Paulo: Roca, 2007. GOULART, CES. Herpetologia, Herpetocultura e Medicina de Répteis. Rio de Janeiro: LF Livros de Veterinária, 2004. 329p. ZUG, GR. 1966. The penial morphology and the relationships of cryptodiran turtles. Occasional Papers of the Museum of Zoology, University of Michigan 647, 1-24. ZWART P. Urogenital system. In: Beynon PH, Lawton MPC, Cooper JE, editors: Manual of reptiles, Gloucestershire, England, 1992, British Small Animal Veterinary Association. ANAIS 37ºANCLIVEPA p.1193