arquitetura Rua do olhar texto Rodrigo Apolloni imagens Rafael dabul Descansar o olhar sobre certas fachadas, sobre certas casas, pode ser uma experiência reveladora em Curitiba. Uma cidade de mil arquiteturas, de tantos estilos em um único imóvel merecedora, enfim, de verdadeira atenção. Neste ensaio-reportagem nos propomos a fazer um exercício do olhar a partir de imóveis históricos situados no final da Comendador Araújo, no Batel. Se depois de ler o texto e ver as fotos você ficar tentado a examinar com mais atenção a arquitetura de Curitiba, teremos alcançado nosso objetivo. Bon voyage!
Um pouco de História O trecho da Comendador entre a Desembargador Motta e a Benjamin Lins (ponto de partida da avenida Batel) é, sem dúvida, um espaço urbano sui generis. Lá, em pouco mais de três quadras, estão imóveis que chamam a atenção pela antigüidade e pela riqueza de elementos arquitetônicos. As casas explicam porque o Batel é sofisticado. Há muitos imóveis históricos em Curitiba, mas na Comendador destacase a densidade. Tanto é verdade que esse conjunto urbano, o trecho que indicamos, foi tombado pela Coordenadoria do Patrimônio Histórico estadual em 2004. É o único tombamento do gênero na cidade. De acordo com o historiador Marcelo Sutil, a Comendador Araújo pertence ao antigo Caminho do Mato Grosso, que ligava Curitiba ao interior do Estado. O Batel, em especial a região da Comendador, é uma área de ocupação antiga, que se tornou importante por ser uma via de penetração na cidade. Em Os Caminhos das Comarcas de Curitiba e Paranaguá, o historiador Júlio Moreira afirma que a estrada já existia em meados do século XVII. A Comendador, tal como a conhecemos, data de 1871, quando o governo determinou a abertura de uma via que conectasse a região da Rua XV ao acesso do Caminho do Mato Comendador, 1906 À direita está o Palacete de Ascânio Miró, que você também vê na página de abertura desta matéria. Grosso. Batizada de Rua Nova do Mato Grosso, em pouco tempo caiu no gosto dos capitães de indústria, que lá instalaram chácaras e construíram mansões. Em tempo: a rua ganhou seu nome atual em 1888 o homenageado, o político e empresário Antônio Alves de Araújo, tinha sua mansão ali. Acervo Casa da Memória Devaneios mais do que ecléticos Concentramos nosso olhar em sete casas, situadas nos números 598, 692, 711, 748, 776, 906 e 970. Mesmo sendo muito distintas entre si, todas pertencem a uma mesma onda arquitetônica, o Ecletismo, que vigorou no Brasil entre o final do século XIX e início do XX. A marca do Ecletismo é uma releitura nem sempre de bom gosto, é verdade do que a arquitetura já havia produzido. A Curitiba de meados do século XIX era uma cidade lusobrasileira, de casas muito parecidas. Os novos materiais e técnicas, a imigração e o aumento do fluxo de informações fizeram com que a nova arquitetura chegasse aqui, explica Marcelo Sutil. Dois dos imóveis guardam um nome de batismo ou de seu construtor: a Vila Margarethe, no número 692, e o Palacete de Ascânio Miró, no 776. Construída nos anos vinte pelo empresário Oscar Müeller, a Vila Maragarethe revela uma característica interessante da ocupação do espaço urbano. Como tinham terrenos maiores, as pessoas mais ricas podiam se dar ao luxo de construir mais no meio dos lotes, com jardins e entradas laterais, explica Marcelo Sutil. As entradas e jardins laterais, observa, foram uma contribuição dos imigrantes alemães à arquitetura curitibana. Eles também trouxeram um estilo construtivo mais pesado, visível em prédios como o da Santa Casa e o do Colégio Divina Providência (ambos no Centro), frontões curvos como o do Solar do Rosário (no Setor Histórico) e da fachada preservada no Bosque Alemão (de um imóvel originalmente localizado na Barão do Cerro Azul, no Centro). Na época, graças à legislação para a área central, a maior parte das casas seguia o alinhamento da rua, com a fachada diretamente para a calçada e os porões altos, perceptíveis pelas seteiras (aquelas janelinhas ) posicionadas pouco acima do nível da calçada. Os jardins ficavam nos fundos. Na casa de Oscar Müeller é possível observar, ainda, uma poderosa fonte de inspiração: a arquitetura normando-germânica, presente no telhado superinclinado. www.curitibadeluxe.com.br 9
Adereços e torreões As casas que examinamos também guardam uma influência de contornos suaves e festivos. No final do século XIX, os imigrantes italianos trouxeram uma arquitetura mais leve, com ênfase em adereços e elementos decorativos. No palacete de Ascânio Miró são notáveis as venezianas supertrabalhadas, especialmente a que faz frente para a própria Comendador. O palacete foi projetado por Cândido de Abreu, engenheiro e político curitibano responsável por outros projetos de mansões e palácios na cidade, como o Solar dos Leão e o Paço Municipal. Na mansão da Comendador, a característica que mais se sobressai é o torreão uma torre de base larga -, que predomina sobre o restante da casa. O elemento arquitetônico é encontrado em outros dois imóveis do trecho tombado da Comendador, os localizados nos números 598 (casa de Quinco Andrade) e 748. Quando essas casas foram construídas, a escala da arquitetura era a do homem comum, do caminhante. Os torreões conferem uma monumentalidade que é marcante no ecletismo, explica Marcelo Sutil. O mesmo apelo à grandeza é visível no palacete localizado ao lado do Shopping Curitiba a Casa de Tertuliano Müeller, que, apesar de não possuir um torreão, também se eleva aos olhos do passante. Marcelo Sutil acredita que a altura das construções também está relacionada à posição do bairro em relação aos arredores. É uma região mais alta. Eu acredito que as torres e terraços também serviam para ampliar a vista da parte baixa da cidade. Dado interessante: em Curitiba, os torreões são pouco comuns fora da área do Batel. Outra marca da monumentalidade são os frisos e elementos decorativos que imitam pedra, remetendo o observador a conceitos como solidez, nobreza e antigüidade. Os edifícios devem representar aquilo a que eles se destinam, diz Sutil. Assim, os palacetes tinham que ser grandiosos. Arte em Ferro Acima, corrimão do Palacete de Ascânio Miró. À direita, pára-raios e portão art nouveau da Vila Margarethe. 10 Anuncie na Deluxe - 3352 5384
arquitetura Grandiosidade Torreões e elementos decorativos rebuscados serviam para afirmar aspectos como riqueza, nobreza e poder. Cultivando o olhar A observação da arquitetura não cabe em um ensaio, até mesmo porque o olhar pessoal é essencial. Valem, porém, algumas sugestões. Você conhece a cidade quando a está palmilhando, que é o que as pessoas faziam quando essas casas foram construídas. Com isso, pode perceber as diferentes fases da arquitetura, observa Marcelo Sutil. Ele recomenda atenção aos detalhes e a comparação entre edifícios de diferentes épocas, tamanhos e usos. Percebemos como as grandes construções influenciaram as pequenas, como essa arquitetura se disseminou pela cidade, mesmo nos bairros onde o poder aquisitivo era menor. Não é preciso óbvio manter-se apenas na Comendador Araújo. É possível observar, por exemplo, as diferentes arquiteturas encontradas ao longo da antiga Estrada do Mato Grosso, das primeiras casas da própria Comendador às chácaras de imigrantes que sobrevivem no Campo Comprido. O eixo Riachuelo-Barão também possui imóveis fantásticos, e bairros como Santa Felicidade, Abranches e Umbará guardam um belíssimo acervo de casas de madeira. A prefeitura, informa Marcelo Sutil, tem listadas nada menos de 600 unidades de interesse de preservação ou seja, há muito para conhecer! E, se você tomar gosto pela coisa, pode saber mais a partir de matérias jornalísticas, textos de pesquisa, fotos históricas e projetos arquitetônicos originais são cerca de dois mil - conservados pela Casa da Memória (fone 3321 3219), que de tempos em tempos também promove exposições com base nesse acervo. www.curitibadeluxe.com.br 11