PARÓDIA E PARÁFRASE Prof. Sabrina Moraes Paródia e paráfrase são tipos distintos de intertextualidade. A intertextualidade pode ser definida como as relações que se estabelecem entre textos. Intertextualidade ocorre uma vez que vários autores se baseiam em textos já existentes para escrever seus próprios textos. Pode ser planejada, apresentando vestígios do texto original, bem como ser apenas uma coincidência. Paráfrase Paráfrase é caracterizada como sendo uma reafirmação de um tema já trabalhado por outro autor. Embora sejam usadas diferentes palavras, estruturas e estilos, as ideias transmitidas no texto original são conservadas, não havendo mudança na temática principal do texto. Diversos autores apresentam obras literárias e artísticas sobre temáticas comuns, como o enaltecimento da pátria, a mudança ao longo da vida, Deus, as intrigas da sociedade... Exemplos de paráfrase: "Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá..." (Canção do exílio, Gonçalves Dias) "Do que a terra mais garrida / teus risonhos, lindos campos têm mais flores / nossos bosques têm mais vida..." (Hino Nacional Brasileiro, J.O.D. Estrada) "Moro num país tropical / abençoado por Deus / e bonito por natureza..." (País Tropical, Jorge Ben Jor) Paródia Paródia é caracterizada como sendo uma subversão de um tema já trabalhado por outro autor. Ocorre um rompimento com o que foi dito anteriormente, havendo uma clara alteração da abordagem. A paródia é maioritariamente utilizada com finalidade jocosa e satírica. Assim, sendo engraçada e crítica, promove não só um momento de fruição, mas também de reflexão. Pagina: 1
Exemplos de paródia: Prof. Sabrina Moraes Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. (ditado popular) Se Maomé não vai à montanha, a montanha vaia Maomé. (paródia) Quem tem boca vai a Roma. (ditado popular) Quem tem carro vai a Roma. (paródia) Atenção! Paráfrase e paródia não são formas de plágio. São formas de intertextualidade legais e dependentes da criação do seu autor. Já o plágio é um tipo de intertextualidade ilegal caracterizada por haver cópia e uso indevido de um texto alheio, sem processo de criação envolvido. Paródia e Paráfrase: exemplos de intertextualidade Vânia Maria do Nascimento Duarte Procurando viabilizar nossa apreensão no que tange ao estudo sobre a intertextualidade, iremos contextualizá-la às situações cotidianas. Vez ou outra, mediante as nossas relações sociais, fazemos referência a algo anteriormente mencionado por alguém, a um fato histórico, a uma propaganda retratada pela mídia e até mesmo a um acontecimento polêmico. Até mesmo nos gestos, olhares, vestimentas, dentre outras atitudes, estamos de certa forma aludindo a um fato ou a alguém. O interessante é que, embora não relevante, tal procedimento tende a se conceber de forma tanto positiva quanto negativa. Sabe quando imitamos alguma atitude abominável aos nossos olhos referente a uma determinada pessoa? Eis aí um caso representativo. A intertextualidade também se faz presente nas artes em geral, como por exemplo, nas canções, escultura, dança, pintura e na literatura, bem como nos provérbios, na linguagem dramática, cinematográfica, nas charges e cartuns ao retratar de modo contundente sobre assuntos relacionados à política, dentre outros exemplos. Pagina: 2
Assim sendo, notamos que tais relações intertextuais se oriundam do diálogo estabelecido entre um texto ou entre uma situação e outra. E para enfatizarmos um pouco mais sobre a referida ocorrência, analisaremos as características de dois elementos que bem representam: a paráfrase e a paródia, ambos extremamente cultuados pelos representantes de nossas Letras. A paráfrase, originária do grego para-phrasis (repetição de uma sentença), constitui-se na recriação textual, tendo como suporte um texto-fonte. Ao parafrasearmos um texto, estamos atribuindo-lhe uma nova roupagem discursiva, embora mantendo a mesma ideia contida no texto original. Vejamos: Texto Original Canção do Exílio Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá, As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá. [...] Gonçalves Dias Paráfrase Meus olhos brasileiros se fecham saudosos Minha boca procura a Canção do Exílio. Como era mesmo a Canção do Exílio? Eu tão esquecido de minha terra Ai terra que tem palmeiras Onde canta o sabiá! [...] Carlos Drummond de Andrade Podemos notar que Carlos Drummond, pertencente à era Modernista, baseando-se na criação de Gonçalves Dias, nos apresenta outra versão, porém com o mesmo discurso poético. A paródia, de forma tendenciosa, também pauta-se pela recriação de um texto, entretanto, utiliza-se de um caráter contestador voltado para a crítica, muitas vezes sob um tom jocoso. Como podemos constatar em: Pagina: 3
MEUS OITO ANOS Prof. Sabrina Moraes Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! [...] Casimiro de Abreu MEUS OITO ANOS Oh que saudades que eu tenho Da aurora de minha vida Das horas De minha infância Que os anos não trazem mais Naquele quintal de terra! Da rua de Santo Antônio Debaixo da bananeira Sem nenhum laranjais [...] Oswald de Andrade Aqui, percebemos que a intenção de Oswald de Andrade foi a de criticar o romantismo e o sentimento nacionalista revelados pelas palavras de Casimiro de Abreu. Mesmo porque o ideário modernista perfez-se por um repúdio aos moldes anteriormente adotados por outros artistas, principalmente àqueles que compuseram o Romantismo e o Parnasianismo. INTERTEXTUALIDADE O QUE É? Intertextualidade é o nome dado à relação que se estabelece entre dois textos, quando um texto já criado exerce influência na criação de um novo texto. Pagina: 4
Diversos autores utilizam textos já existentes e reconhecidos, chamados de textos fontes, para servir de base às suas novas criações. Contribuem assim para o enriquecimento da exploração de um determinado tema, da exaltação de uma personalidade, da comemoração de um acontecimento, da valorização da cultura de um povo,... A intertextualidade pode ocorrer de várias formas, nos diversos gêneros: na prosa, na poesia, nas letras de música, na publicidade, nas imagens, na pintura,... Embora possa ocorrer de forma acidental, sendo uma mera coincidência, a intertextualidade é maioritariamente planejada, apresentando vestígios mais ou menos diretos do texto original, que permitem aos leitores reconhecer a influência exercida pelo texto fonte. Intertextualidade explícita e intertextualidade implícita A intertextualidade pode ser caracterizada como explícita ou implícita, de acordo com a relação estabelecida com o texto fonte, ou seja, se mais direta ou se mais subentendida. A intertextualidade explícita... é facilmente identificada pelos leitores; estabelece uma relação direta com o texto fonte; apresenta elementos que identificam o texto fonte; não exige que haja dedução por parte do leitor; apenas apela à compreensão do conteúdos. A intertextualidade implícita... não é facilmente identificada pelos leitores; não estabelece uma relação direta com o texto fonte; não apresenta elementos que identificam o texto fonte; exige que haja dedução, inferência, atenção e análise por parte dos leitores; exige que os leitores recorram a conhecimentos prévios para a compreensão do conteúdo. Exemplos de intertextualidade Pagina: 5
Dos diversos exemplos de intertextualidade existentes na literatura brasileira, um dos mais conhecidos é o poema Canto de Regresso à Pátria, de Oswaldo de Andrade, cujo texto fonte é o poema Canção de Exílio, de Gonçalves Dias. Canção do Exílio (texto fonte) Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar - sozinho, à noite - Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. (Gonçalves Dias) Canto de Regresso à Pátria (intertextualidade) Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Pagina: 6
Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Prof. Sabrina Moraes Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte pra São Paulo Sem que veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo. (Oswald de Andrade) Tipos de intertextualidade A intertextualidade pode assumir diversas formas e ser feita de diversas maneiras, apresentando assim diferentes tipos. Destacamos os seguintes como os principais: Paráfrase Na paráfrase, a intertextualidade incide na temática. Há uma reafirmação das ideias do texto fonte. É utilizado um tema previamente explorado por outro autor na criação de um novo texto com estrutura e estilo próprios. Exemplo de paráfrase: "Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá..." (Canção do exílio, Gonçalves Dias) "Moro num país tropical / abençoado por Deus / e bonito por natureza..." (País Tropical, Jorge Ben Jor) Paródia Na paródia, ocorre a subversão da temática do texto fonte, alterando e contrariando o que foi expresso anteriormente de forma irônica e satírica. Visa a crítica e a reflexão, promovidas através de um momento de fruição e jocosidade. Pagina: 7
Exemplo de paródia: Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. (ditado popular) Se Maomé não vai à montanha, a montanha vaia Maomé. (paródia) Referência ou alusão Na referência ou alusão, é feita a sugestão ou insinuação de um acontecimento, personalidade, personagem, local, obra,... Não é apresentada a intertextualidade de forma direta, mas sim através da apresentação de características simbólicas. Exemplo de referência ou alusão: A mais bonita de todas era sem dúvida Helena - a minha filha e não a outra. (Alusão a Helena de Troia, a mulher mais bonita do mundo) Citação Na citação, ocorre uma intertextualidade direta, havendo a reprodução de parte do texto fonte. Há uma transcrição das palavras de outro autor, devidamente destacada com aspas e com a identificação desse autor. A citação visa conferir credibilidade ao novo texto. Exemplo de citação: Segundo Bechara (2015, p.276), "o verbo se diz pronominal quando o pronome oblíquo se refere ao pronome reto". Epígrafe Na epígrafe, um autor utiliza uma passagem de um texto fonte para iniciar um novo texto, estabelecendo uma relação com essa passagem na criação da nova criação. É muito utilizada em trabalhos acadêmicos, atuando como um pensamento que serve de base à obra. Exemplo de epígrafe: "Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção." (Paulo Freire) Pastiche No pastiche, há a imitação direta do estilo de outros autores, mesclando esses diversos estilos numa única obra. Aparece como uma criação independente, Pagina: 8
sem o intuito de criticar ou satirizar. O pastiche é muito utilizado em músicas e imagens. Exemplo de pastiche: "Quis gravar amor no tronco de um velho freixo: Marília, escrevi." (Manuel Bandeira) Tradução A tradução é a passagem de um texto de uma língua estrangeira para a língua nativa de um determinado país. É considerada uma intertextualidade por haver diferentes interpretações e pela possibilidade de uso de diferentes expressões na adequação à realidade da nova língua. Exemplos de tradução: Nós amamos com um amor que era mais do que amor. "We loved with a love that was more than love." (Edgar Allan Poe) Pagina: 9