Ensaio Controlado Randomizado. Prof. Dr. Octavio Marques Pontes Neto

Documentos relacionados
Vieses e Confundimento. Prof. Dr. Octavio Marques Pontes Neto

10/04/2012 ETAPAS NO DELINEAMENTO DO ESTUDO EXPERIMENTAL:

Questão clínica: Tratamento/prevenção. Estudos de intervenção (experimentais) Ensaios clínicos randomizados Aula 1

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Epidemiologia Geral HEP-141. Maria Regina Alves Cardoso

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Epidemiologia HEP Cassia Maria Buchalla

n Sub-títulos n Referências n Métodos: n O que você fez desenho do estudo n Em qual ordem n Como você fez n Por que você fez n Preparação

Principais Delineamentos de Pesquisa. Lisia von Diemen

PESQUISA CLÍNICA (PESQUISA EM SERES HUMANOS) CNS/Res 196/1996

Tipos de Estudos Epidemiológicos


Bioestatística F Desenho de Estudos na Área da Saúde

Delineamentos de estudos. FACIMED Investigação científica II 5º período Professora Gracian Li Pereira

Desenho de Estudos. Enrico A. Colosimo/UFMG enricoc. Depto. Estatística - ICEx - UFMG 1/28

Vigilância Epidemiológica, Sanitária e Ambiental

Análise de Dados Longitudinais Desenho de Estudos Longitudinais

Princípios de Bioestatística Desenho de Estudos Clínicos

14/04/2013. Biofarmacotécnica. Introdução. Introdução. Planejamento de Estudos de Biodisponibilidade Relativa e Bioequivalência de Medicamentos

Estudos de Intervenção

Fases da pe squi qu s i a c a lín í i n c i a na i a i dú dú tr t ia far f mac êut u i t c i a

Ensaios clínicos. Definições. Estudos de intervenção. Conceitos e desenhos

ENSAIOS CLÍNICOS CLÍNICO CLÍNICOS. Introdução. Definições

Cirurgia da mama em casos de câncer de mama metastático: entendendo os dados atuais

PLANEJAMENTO DAS MEDIÇÕES PRECISÃO E ACURÁCIA. Objetivo Minimizar o erro das medições

Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa Gerência-Geral de Tecnologia de Produtos para a Saúde - GGTPS

Ajustar Técnica usada na análise dos dados para controlar ou considerar possíveis variáveis de confusão.

VALIDADE EM ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS

O desenho de um protocolo clínico

CONDUÇÃO DO DESENHO EXPERIMENTAL DE UM ESTUDO CONTROLADO RANDOMIZADO: EVIDÊNCIA CIENTÍFICA E EXPERIÊNCIA PRÁTICA. Leonardo Costa

Estatística Médica Silvia Shimakura

HOSPITAL MOINHOS DE VENTO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO E PESQUISA PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU: FISIOTERAPIA HOSPITALAR

ANATOMIA E FISIOLOGIA DA PESQUISA CLÍNICA

Gestão Farmacêutica & Farmacoeconomia

Revisão sistemática: o que é? Como fazer?

31/01/2017. Investigação em saúde. serviços de saúde

Desenhos de Estudos Epidemiológicos

Validade em Estudos Epidemiológicos II

Os Sete Pecados Capitais da Avaliação de Impacto

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Epidemiologia Geral HEP 141. Maria Regina Alves Cardoso

Tipos de Estudos Clínicos: Classificação da Epidemiologia. Profa. Dra. Maria Meimei Brevidelli

Uso do AAS na Prevenção Primária de Eventos Cardiovasculares

TIPOS DE ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS. CLÁUDIA PINHO HARTLEBEN MÉDICA VETERINÁRIA

METODOLOGIA DO PROJETO E TIPO DE VIÉSES. Prof. Dr. Elvio Bueno Garcia

Estatística Vital Aula 1-07/03/2012. Hemílio Fernandes Campos Coêlho Departamento de Estatística UFPB

Revisão Sistemática e Metaanálise. Aula

Método epidemiológico aplicado à avaliação de intervenções (ênfase em vacinas)

ONTARGET - Telmisartan, Ramipril, or Both in Patients at High Risk for Vascular Events N Engl J Med 2008;358:

TRABALHO DO PROFESSOR ANDRÉ VIANA RESUMO DO ARTIGO A SYSTEEMATIC REVIEW ON THE EFFECTIVENESS OF NUCLEOPLASTY PROCEDURE FOR DISCOGENIC PAIN

Estrutura, Vantagens e Limitações dos. Principais Métodos

Tipos de Estudos Científicos e Níveis de Evidência

Delineamento de Estudos Epidemiológicos

Delineamento de Estudos em Epidemiologia Nutricional

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Epidemiologia HEP 143

O estudo certo para o problema: qualitativos x quantitativos. Murilo Britto

Vale a pena vacinar quem foi tratada para lesão de alto grau? Fábio Russomano IFF/Fiocruz Trocando Idéias 14 a 16 de agosto de 2014

Anexo IV. Conclusões científicas

Desenhos de estudos científicos. Heitor Carvalho Gomes

Apresentação. Instituto Oncoclínicas

Comitês de Monitoramento de Dados e de Segurança

Pesquisador em Saúde Pública Prova Discursiva INSTRUÇÕES

O estado da arte da radioterapia em pacientes idosas com tumores de mama iniciais

Avaliação da qualidade de revisões sistemáticas e metanálises

Metodologia Científica I Roumayne Andrade

FORMULÁRIO DE APRESENTAÇÃO DE ENSAIO CLÍNICO (FAEC) Versão 3 CNPJ. País

Estudos de bioequivalência de medicamentos que contém hormônios: planejamento e realização

EPIDEMIOLOGIA ANALÍTICA: ESTUDOS DE COORTE

Modelos de estudo em saúde

Introdução à pesquisa clínica. FACIMED Investigação científica II 5º período Professora Gracian Li Pereira

Artículo Especial: Evaluación de la evidencia científica Albert J. Jovell Y Maria D. Navarro-Rubio Med Clin (Barc) 1995;105:

Produto: cotovelol Protocolo: XYZ123 Data: 10 de agosto de 2015 Página 1 de 5

Doença Localizada. Radioterapia exclusiva em estádios iniciais: quando indicar? Robson Ferrigno

A AMAMENTAÇÃO COMO FATOR DE PROTEÇÃO DO CÂNCER DE MAMA. Evidências em Saúde Pública HSM 0122 Novembro/2015

Planejamento de Experimentos. Como designar os tratamentos às unidades experimentais? Quantas vezes deve-se repetir os diferentes tratamentos?

SUMÁRIO 1 COMO ENCAMINHAR UMA PESQUISA?, 1 2 COMO FORMULAR UM PROBLEMA DE PESQUISA?, 7. Prefácio, XVII

Transcrição:

Ensaio Controlado Randomizado Prof. Dr. Octavio Marques Pontes Neto

Ensaio Controlado Randomizado (ECR) Conteúdo História Vantagens de um ECR sobre Estudos observacionais Estudos experimentais não-randomizados Estrutura de um ECR Randomização Mascaramento Análise ÉKca / regras de interrupção Controversias Friedman et al. 2010

Friedman et al. 2010 Ensaio Controlado Randomizado (ECR) História 1920s-30s: Sir Ronald Fisher p-valor Teste exato de Fisher ECR em agricultura 1931: Amberson et al. Estudo controlado para tuberculose Sanocrisina x salina Moeda para randomização Alocação cega para parbcipantes 1948: BMRC trial (Hill et al.) Estreptomicina para tuberculose Alocação randomizada 1980s: FDA Megatrials para aprovação de medicamentos

Friedman et al. 2010 Fases da pesquisa clínica Etapas para aprovação de uma intervenção Fase 1: Farmacociné@ca Dose máxima tolerada Geralmente 10-20 sujeitos Voluntários sadios ou pacientes refratários Fase 2: Titulação de dose AKvidade biológica Toxicidade e segurança Geralmente ~ 100 pacientes Fase 3: Eficácia Centenas a milhares de pacientes População alvo Fase 4: Pós comercialização Como funciona na vida real ECR ou observacional

ECR: pontos chaves Padrão-ouro para teste eficácia de uma intervenção Resposta a pergunta: diferença de desfecho é devido a intervenção testada Validade interna Redução de confundimento e viés Validade Externa Generabilidade

ECR: pontos chaves ECR é um experimento, não a verdade. Em ciência: verdade requer > 1 experimento. FDA exige pelo menos 2 ECR para aprovação de uma droga. Eficácia não quer dizer custo-efe@vidade.

ECR vs. Estudos observacionais Estudos observacionais Fatores de risco Toxicicidade Conduzidos por epidemiologista Desenho e análise sofiskcadas para minimizar confundimento Ensaio controlado randomizado Eficácia de medicamentos, devices, intevenções Não é ékco para comprovar risco ou toxicidade Conduzidos por clínicos entusiastas com pouco experkse em desenho de estudos Randomização minimiza confundimento por fatores conhecidos e não conhecidos

Confundimento por indicação Gravidade da Asma Beta2 - Agonistas Mortalidade

Confundimento por Contra-indicação Hemorragia prévia Marevan Sangramento

Alterna@vas experimentais a randomização Controle históricos Efeitos seculares e confundidores desconhecidos podem invalidar Evidência definikva se evidência histórica é contundente Antes-depois Pareamento perfeito? Aplicável em condições agudas que se repetem. Estudo randomizado cruzado Excelente para condições com resposta rápida sem efeito residual. Randomização do momento ao invés do sujeito. ImpraKcável para intervenções com efeito duradouro.

Randomização Alocação aleatória (imprevisível) da modalidade de tratamento ObjeKvo: Elimina o viés de seleção Balancear tanto as variáveis de confusão conhecidas como desconhecidas (eliminar o viés de confundimento) GaranKr risco comparável de desfecho entre os grupos no início do estudo. Método: Cartas em um chapéu, moeda Lista de números randômicos (tabela ou computador) Ordem não pode ser antecipada pelo inveskgador: dia da semana, sobrenome, hospital, etc. Alocação randômica Seleção randômica

Rothman. 2 nd ed. 2012 Tipos de Erros em Estudos Cieneficos Erro Erro Sistemá@co Erro aleatório Erro Sistemá@co (vies) Erro aleatório Tamanho da amostra

O milagre da Randomização N Engl J Med 2013;369:11-19.

Ensaio Clínico Randomizado Recrutamento Preocupações antes da Randomização Validade Externa Recrutamento selekvo Recrutamento ineficiente Elegibilidade Consen@mento Preocupações Depois da Randomização Validade interna Exclusão Perda de seguimento Adesão Contaminação Co-intervenção Avaliação dos desfechos Viés de informação Randomização Intervenção A Intervenção B Desfechos Desfechos

Problemas com a Randomização Viés acidental N Engl J Med 2013;369:11-19. N Engl J Med 2008;359:1317-29

Problemas com a Randomização Viés acidental N Engl J Med 2008;359:1317-29

Randomização Tipos de randomização Alocação randômica fixa (igual ou desigual) Alocação randômica simples Alocação randômica em bloco Equilíbrio da alocação ao longo do estudo Alocação randômica estrakficada Equilíbrio da alocação ao longo do estudo para fatores prognóskcos críkcos Requer coleta de informações sobre os fatores prognóskcos para randomização Alocação randômica adaptakva AdaptaKva a alocação basal AdaptaKva a resposta (play the winner)

Randomização Recomendações gerais Para grandes estudos mulkcêntricos: randomização em bloco estrakficada por centro. Para estudos mulkcêntricos menores: randomização em bloco estrakficada por centro e fatores prognóskcos críkcos Para estudos menores de centro único: Randomização em bloco estrakficada por fatores prognóskcos críkcos

Randomização Ameaças a randomização Aderência e conformidade Exclusão após a alocação Pode ser inevitável ParKcularmente susceevel a viés de seleção Inten.on-to-treat vs. per-protocol Resultados discordantes = Resultados indeterminados

IntenKon-to-treat vs. per-protocol N Engl J Med 2013;368:1092-100.

IntenKon-to-treat vs. per-protocol N Engl J Med 2013;368:1092-100.

IntenKon-to-treat vs. per-protocol N Engl J Med 2013;368:1092-100.

IntenKon-to-treat vs. per-protocol N Engl J Med 2013;368:1092-100.

IntenKon-to-treat vs. per-protocol N Engl J Med 2013;368:1092-100.

Randomização Ameaças a randomização Aderência e conformidade Exclusão após a alocação Pode ser inevitável ParKcularmente susceevel a viés de seleção Inten.on-to-treat vs. per-protocol Resultados discordantes = Resultados indeterminados Perda do mascaramento Análise dos desfechos Viés de informação: não-diferencial e diferencial

Análise Geralmente simples comparada a estudos observacionais Pré-especificada e divulgada Significado esta_s@co vs. significado clínico Riscos Controle de covariáveis não balanceadas Perda de seguimento: censura informa@va? Cuidado com a tentação da análise pos hoc

Equipoise

Monitorização dos dados e regras de interrupção ConsenKmento informado: indivíduo vs. colekvo ÉKca vs. informação Analise interina: segurança e eficácia Proteção dos sujeitos de pesquisa MulKplicidade de checagens requer reajuste do p-value! Potencial impacto da interrupção precoce EsKmaKva de efeito com viés randômico Dados imprecisos Intervalos de confiança largos Limitação para análise de subgrupos Pode perder efeito tardios da intervenção Inibição da repekção do estudo

Interrupção precoce do estudo ConsenKmento informado: indivíduo vs. colekvo ÉKca vs. informação Analise interina: segurança e eficácia Proteção dos sujeitos de pesquisa MulKplicidade de checagens requer reajuste do p-value! Potencial impacto da interrupção precoce EsKmaKva de efeito com viés randômico Dados imprecisos Intervalos de confiança largos Limitação para análise de subgrupos Pode perder efeito tardios da intervenção Pode perder o poder de analisar segurança da intervenção Inibição da repekção do estudo

Comunicação dos resultados

Conclusões Experimento: exposição controlada pelo inveskgador Confundimento por indicação Randomização controle para confundimento de base Mascaramento e conformidade: controle do vies de informação Importante minimizar as perdas pós-randomização Importante minimizar não-aderência Análise pre-especificada e por intenção de tratar Análise interina independente e regras de interrupção claras Limitações: generabilidade, analise de subgrupo e desfechos combinados

Conclusões ECR são caros e dirceis porém podem produzir resultados de alto impacto clínico Conselhos: Foco/parsimônia: responda bem 1 pergunta Taxas de eventos são geralmente menores do que esperamos Recrutamento geralmente é mais lento do que desejado Planejar recursos = ser pessimista Pior resultado de um ECR = não ser concluído

Homework 1. Liste a hipotese primária do seu estudo. 2. Liste o desfecho primário do seu estudo. 3. Liste as principais variáveis de teste e confundimento do seu estudo. 4. Monte a tabela 1 do seu estudo. 5. Monte a tabela de análise univariada do seu estudo. 6. Quais seriam as variáveis que você acredita que deverá incluir no seu modelo mulkvariado? 7. Qual o melhor modelo de controle de confundimento na análise do seu trabalho? AGENDAR HORARIO PARA DISCUSSÃO: opontesneto@fmrp.usp.br Segunda-feira: 14:00 as 17:00 Terça-feira: 14:00 as 17:00