O ambiente educativo e a ludicidade

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Transcrição:

Unidade 7 O ambiente educativo e a ludicidade Todo espaço/ambiente utilizado para fins educativos deve proporcionar os diferentes tipos de brincar e jogar, bem como interações. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, em seu art. 9.º, estabelecem que as práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira. (BRASIL, 2009) Agora, vamos utilizar a denominação ambiente brincante para pensar algumas questões. O que caracteriza um ambiente educativo? Todo ambiente é ou pode se tornar educativo? Como preparar um ambiente brincante ou cantos de atividades diversificadas? Em que momento da rotina escolar na Educação Infantil insere-se o brincar? Que momentos e espaços devem ser destinados às atividades lúdicas? Quais são os materiais e quando devem ser disponibilizados para brincar? De que forma a organização pedagógica das instituições de Educação Infantil pode colaborar para atender às demandas referentes ao brincar da criança pequena considerando a observação e a avaliação? Algumas dessas questões já foram tratadas em outras unidades; no entanto, vamos pensar em algumas características que devem ser levadas em conta a fim de respondermos a esses questionamentos. Ao longo do processo de ensino e aprendizagem da criança, ocorre sua integração com os elementos do meio sociocultural, as práticas sociais, a aprendizagem de valores essenciais para a formação humana respeito, cooperação, autonomia, solidariedade e amizade e, posteriormente, sua inserção no ambiente educativo/instituição 73

de Educação Infantil. Esses e outros aspectos compõem o contexto em que ocorre o processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança, entendido nas dimensões motora, afetiva e cognitiva, que corresponderá ao que chamamos de ambiente educativo. (WALLON, apud GALVÃO, 1995, p. 25) Woodleywonderworks/Creative Commons Em um ambiente educativo, a mobília, os materiais didáticos e a cobertura das paredes dialogam com quem o habita, refletindo um conjunto de relações que nele ocorrem, um jeito de ser, conviver e interagir. Se considerarmos o desenvolvimento infantil pela visão do psicólogo francês Henri Wallon, podemos dizer que as condições do meio presentes no ambiente educativo compõem o contexto no qual a criança fará suas aquisições a respeito do conhecimento, por meio das condutas de que dispõe, ao mesmo tempo em que retira dele os recursos para sua ação. (GALVÃO, 1995, p. 26) As aprendizagens resultantes da interação entre a criança e o meio são mediadas pelo adulto, seja de forma positiva, quando este desafia a criança a perceber, experimentar e conhecer o mundo à sua volta, diversificando e enriquecendo o ambiente com materiais significativos para ela, ou negativa, quando há omissão do adulto. A intencionalidade presente na ação educativa é o que possibilita à criança ampliar suas capacidades e realizar ações efetivas que lhe propiciem a conquista da autonomia pessoal, emocional e intelectual. Portanto, o ambiente que desafia a criança a se movimentar e buscar, com sua curiosidade, as novidades que a cercam é um espaço organizado e planejado pelo educador. 74

O conhecimento acerca das etapas do desenvolvimento infantil é fundamental para que o professor possa ambientar a sala conforme as necessidades das crianças em cada faixa etária, pois, como já vimos, cada criança reflete um momento único e processual de desenvolvimento e aprendizagem, o qual, por sua vez, reflete suas habilidades e capacidades adquiridas e as que ainda precisa adquirir (zona de desenvolvimento real zona de desenvolvimento proximal zona de desenvolvimento potencial). Tais capacidades, previstas em seu processo de desenvolvimento, estão intrinsecamente ligadas às oportunidades interativas presentes no ambiente. Portanto, a qualidade do ambiente depende das interações que nele se estabelecem, constituindo-se em um dos fatores determinantes para o pleno desenvolvimento das capacidades da criança em cada etapa. Mas é fundamental destacar que a qualidade do ambiente depende das atitudes que os adultos sejam eles educadores, professores ou atendentes têm na interação com as crianças e entre si. Além disso, a organização espaço/tempo planejada e executada diariamente reproduz em suas estratégias e encaminhamentos uma concepção pedagógica. (HORN, 2004) Toda prática educativa está alicerçada nas concepções de infância, de Educação Infantil e de trabalho pedagógico de que os profissionais envolvidos lançam mão durante o processo educativo. Assim, se quisermos formar indivíduos pensantes, reflexivos e críticos acerca da realidade, cientes de seu papel na sociedade como sujeitos cooperativos, éticos e criativos, precisamos refletir sobre o modelo de ensino e aprendizagem que reproduzimos. Partindo desse parâmetro, precisamos pensar sobre os sentimentos que alimentamos nas relações interpessoais, sobre a importância que damos à manifestação das emoções entre os pares, sobre a forma como conduzimos as atividades, pois tais aspectos são primordiais para que ocorra a tomada de consciência da própria prática como integradora dos elementos constitutivos do ambiente educativo. Nesse âmbito, ao identificarmos as ações que efetivamente constituem nossa rotina diária, podemos verificar se estamos contribuindo para o processo de desenvolvimento e aprendizagem das crianças. Portanto, tão mais próximos estaremos de uma prática coerente e adequada quanto maior for nosso conhecimento acerca das características do desenvolvimento infantil em suas diferentes etapas e, sobretudo, quanto mais olharmos para as crianças e as observarmos 75

em sua interação com o meio para podermos intervir. É com essa disponibilidade que poderemos compor um ambiente educativo pertinente para atender às demandas das crianças em quaisquer faixas etárias na Educação Infantil. Preparando o ambiente brincante Para pensarmos o encaminhamento do trabalho educativo, precisamos ter intencionalidade e clareza para a ambientação, ou seja, estruturação dos espaços, pois brinquedos, jogos, materiais de expressão plástica, leitura e outros possibilitam aprendizagens às crianças e necessitam de planejamento. (CURITIBA, 2006) Uma das maneiras de organizá-lo é oferecer diferentes situações simultâneas de aprendizagem às crianças, por um período do dia, que constituem os cantos de atividades diversificadas. Esses cantos devem ser previamente organizados por adultos, de modo que as crianças tenham várias possibilidades de atividades. Devem oportunizar a elas um momento de livre escolha. Eles possibilitam às crianças múltiplas e diferentes aprendizagens, que se destacam nos objetivos elencados pelas Diretrizes Curriculares para a Educação Municipal de Curitiba (CURITIBA, 2006, p. 9): Atribuir significados sociais a diferentes objetos e explorá-los no brincar; demonstrar preferências sobre espaços e brinquedos; escolher os objetos com os quais brincarem; reconhecer os diferentes cantos de atividades diversificadas, fora ou dentro da sala, etc. As formas de organização dos cantos passa pela decisão do número de propostas a serem oferecidas, considerando o número de crianças na turma, o espaço, os materiais disponíveis e os objetos estabelecidos para o grupo. Cabe ao professor analisar e decidir quantos cantos oferecer. Essa organização implica na delimitação dos espaços, que são marcados pelo contexto da brincadeira. Nesse contexto, os cantos devem ser dispostos de forma que o professor possa observar as ações da totalidade do grupo, oferecer condições de conforto e tranquilidade para a realização dos jogos e das atividades e permitir às crianças o contato visual com o adulto, que lhes transmite segurança enquanto brincam. Alguns lugares não dispõem de múltiplos espaços e muitas vezes é na sala de referência que acontecem atividades pedagógicas, refeições, sono e descanso. Por isso, é necessário um arranjo constante desse ambiente. 76

São várias as possibilidades de cantos que podem ser organizados, dependendo da faixa etária e do interesse das crianças, como leitura, casinha, jogos, faça você mesmo, blocos de construção, escritório, salão de beleza, escola, mercado e artes. Em todo esse processo de montagem dos cantos, é de extrema importância que o educador considere a opinião das crianças sobre quais atividades serão oferecidas, contemplando suas preferências. Nesse sentido, a observação atenta do profissional é fundamental para que proponha possibilidades de cantos de acordo com o que elas gostam de brincar. Conversas e combinados antes e depois dos cantos vão ajudando as crianças a construir autonomia no espaço coletivo. Para as crianças menores, os cantos de atividades diversificadas funcionam como espaços de exploração e descoberta de brinquedos e materiais diversos. Quanto menor é a faixa etária, maior é a intervenção do adulto na organização dos espaços e materiais para brincar e, à medida que as crianças vão apresentando condições em seu desenvolvimento, são envolvidas nesta. Já nos berçários, é importante que os materiais disponibilizados sejam manuseados com autonomia e segurança pelas crianças e sob a supervisão direta de um dos educadores. A variação e a mudança das propostas nessa faixa etária devem ser feitas ao longo do dia, em relação aos materiais propostos (CURITIBA, 2006, p. 15), a fim de que os bebês possam se movimentar e aproveitar o que está sendo proposto. Para a avaliação da aprendizagem das crianças em face da proposta de cantos de atividades diversificadas, é importante considerar vários instrumentos, como fotografias, filmagens e registros das falas das crianças durante a brincadeira, a partir da observação atenta do educador. Esses registros darão suporte à reorganização das propostas de cantos para o acompanhamento da aprendizagem das crianças. A pauta de observação vai além do registro se a criança alcançou o critério estabelecido ou se está em processo de aprendizagem. É preciso compreendê-la como um apoio de memória do educador sobre como as crianças se envolvem no processo, trazendo elementos que vão enriquecer relatórios e pareceres de avaliação, dando visibilidade às conquistas e necessidades de avanços das crianças. Além de destacarmos a necessidade de pensarmos em um ambiente educativo considerando o ambiente brincante e os cantos de atividades diversificadas, ressaltamos a importância da rotina escolar, uma vez que esta faz parte do ambiente educativo e tem por obrigatoriedade contemplar o lúdico como fenômeno inerente à infância. 77

Nesse sentido, a organização das atividades nas rotinas diárias, segundo Zabalza (1998, p. 52), desempenha, de uma maneira bastante similar aos espaços, um papel importante no momento de definir o contexto no qual as crianças se movimentam e agem. E ainda, conforme Oliveira (1992, p. 76), Planejar atividades, fazer uma boa organização do trabalho na creche, oferece, além disso, segurança também às crianças. Possibilita-lhes, desde pequenas, compreenderem a forma como as situações sociais que vivem são em geral organizadas. As rotinas atuam como as organizadoras estruturais das experiências cotidianas, o que surte importantes efeitos sobre a segurança e autonomia da criança. É necessário que estejam previstos na rotina escolar momentos destinados ao jogo livre, que possibilitem a interação entre as crianças e destas com objetos de forma espontânea. Wajskop destaca algumas condições necessárias para garantir a brincadeira independente na pré-escola: Que a rotina escolar contemple períodos razoavelmente longos entre as atividades dirigidas, para que as crianças se sintam à vontade para brincar; que existam materiais variados, organizados de maneira clara e acessível às crianças, de tal forma que possam deflagrar e facilitar o aparecimento das brincadeiras entre as crianças. O acesso e a organização dos materiais devem levar em conta a idade das crianças, sendo seu uso coordenado pelo adulto responsável pelo grupo, (...) que a sala onde as crianças passam a maior parte de seu tempo tenha uma configuração visual e espacial que facilite o desenvolvimento da imaginação. Os móveis, com mesas, bancos, cadeiras, devem ser de fácil manipulação, para permitir a reorganização constante do local pelas crianças, e a construção de casinhas, cabanas, lojas, castelos etc. (WAJSKOP, 2001, p. 37) Consideramos o professor/educador o principal agente e gestor dos aspectos e processos que envolvem a ludicidade. Por isso, esse profissional precisa conhecer, compreender, preparar e fazer os encaminhamentos metodológicos para posteriormente mediar, observar e avaliar. 78

Hoyasmeg/Creative Commons As rotinas na Educação Infantil devem propiciar experiências que estimulem a criatividade e a imaginação, desenvolvam a linguagem expressiva na criança e possibilitem a interação, levando-se em conta a faixa etária, as necessidades psicológicas, o tempo e o ritmo, que tipo de atividade propor, qual o momento mais adequado e o melhor local para realizá-la. Na próxima unidade, vamos estudar o papel do professor enquanto agente educacional dos processos lúdicos e educativos e os ordenamentos legais que envolvem a ludicidade. 79