IMAGENS DO SERTÃO PARA CLARINETA EM Bb E VIOLÃO

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Transcrição:

970 IMAGENS DO SERTÃO PARA CLARINETA EM Bb E VIOLÃO Marcelo Alves Brazil brazilmar@gmail.com Universidade Federal da Bahia O presente texto relata o processo de criação de uma composição original para duo de clarineta (Bb) e violão, suas bases estéticas e a proposta de diminuir as distâncias entre a música popular e a chamada música de concerto. A peça intitulada Imagens do Sertão surgiu originalmente como uma peça para clarineta solo no ano de 2007. Posteriormente, foi escrita a parte do violão procurando manter, ainda, o caráter solista do instrumento de sopro. Estreada em 2011, a composição é uma pequena suíte, executada de forma contínua, que aborda alguns dos diversos ritmos da música nordestina, principalmente aqueles praticados nos estados da Paraíba e de Pernambuco, onde o autor residiu por mais de vinte anos e onde iniciou os seus estudos musicais. Livremente inspirada na estética armorial, a peça traz uma linguagem que transpõe as barreiras que alguns teóricos insistem em criar entre a música chamada de popular e a denominada erudita ou de concerto. A música foi uma das manifestações artísticas exploradas pelos integrantes do Movimento Armorial, iniciado oficialmente em outubro de 1970 na cidade de Recife, Pernambuco, com um concerto e uma exposição de artes plásticas. (NÓBREGA, 2007). Seu fundador e mentor intelectual, o escritor Ariano Suassuna, definiu assim o movimento: A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos folhetos do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus cantares, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados. (SUASSUNA, 1974, p.7). A proposta de Suassuna era criar uma arte erudita brasileira partindo dos elementos da música popular do sertão nordestino. De acordo com Newton Júnior, coube a ele a identificação de princípios comuns nas obras de vários artistas que viriam a fazer parte do Armorial, e a elaboração, posteriormente, baseando-se nesses princípios, de toda uma fundamentação teórica para o movimento. (NEWTON JÚNIOR, 1999, p. 97) Elaborada dentro dessa proposta estética, onde o popular e o erudito se fundem, a obra também dialoga com o pensamento de Adorno que afirma que em uma peça de música séria: Cada detalhe deriva o seu sentido musical da totalidade concreta da peça, que, em troca, consiste na viva relação entre os detalhes, mas nunca na mera imposição de um esquema musical. (ADORNO,

971 1974, p. 117) Buscar um caráter erudito para a linguagem popular utilizada na composição foi uma das preocupações iniciais e, certamente, realizá-la sem interrupções foi a forma de buscar essa totalidade citada por Adorno. A peça inicia com um solo tranquilo de clarineta, representando um aboio 1, o começo de um dia de trabalho. O violão executa um acompanhamento em arpejos, reforçando o caráter modal da melodia, e juntos concluem com um melancólico intervalo de terça menor. Na sequência, em contraponto, temos um baião alegre onde os instrumentos interagem e dialogam dentro de uma linguagem tonal. Intitulado Brincando, o trecho reflete a alegria e a algazarra das crianças ao longo do dia, suas brincadeiras, brigas e jogos. O movimento seguinte, Caminho do Rio, é mais descritivo e utiliza os recursos de técnica expandida dos dois instrumentos para criar um clima misterioso e de reflexão. Dentro da linguagem modal, a melodia exposta pela clarineta é sustentada inicialmente por um acompanhamento delicado, quase etéreo. Os instrumentos dialogam até o momento onde o mistério e a surpresa de um fim de tarde no sertão surgem em formas diversas: luzes, sons, pássaros... O final lento encaminha o discurso musical para outro gênero da música popular nordestina, o xote. Aprender a dançar na cozinha é um fato bastante comum entre os jovens no sertão. Enquanto cozinham, as mulheres ouvem rádio e ensinam os passos de dança aos mais jovens, meninos e meninas. O Xote na cozinha traz a linguagem da sanfona através de uma melodia simples e marcada, típica desse gênero. Uma pequena cadência do violão leva a mais um movimento lento, intitulado Pôr do sol. Aqui temos o momento de fechamento das atividades do dia: o gado já está recolhido no curral, as brincadeiras das crianças vão se encerrando e o surgimento da primeira estrela conduz a um momento de oração e recolhimento. A clarineta canta uma melodia construída em dois níveis de altura, talvez conversando consigo mesma, como se estivesse refletindo e avaliando o seu trabalho diário, buscando respostas para mais um dia que irá chegar. Mas antes do descanso noturno, ainda existe espaço para a festa, para a alegria da noite nordestina. Com uma melodia que remete ao pífano 2, o Forró no Mulungú retrata um típico baile do sertão, com sua melodia rápida e alegre. O desenho melódico executado pela clarineta recorda, na cadência, o mesmo elemento estrutural do movimento anterior, criando um diálogo entre dois níveis de altura enquanto o violão reproduz uma zabumba com uma percussão executado no corpo do instrumento. O ritmo acelerado é interrompido bruscamente e surge novamente o aboio, um recomeço, agora tocado pelo violão 1 Aboio é um canto sem palavras e sem acompanhamento utilizado pelos vaqueiros para conduzir o gado. 2 Pífano ou pífaro é uma pequena flauta transversal feita de bambu, parte integrante do Terno de Pífano que, em Pernambuco, é composto por dois pífanos, uma caixa, um bombo, um surdo e um tambor. No nordeste brasileiro também é chamado de pife.

972 que conduz a peça calmamente para o seu final com algumas intervenções da clarineta. A estética da música armorial permeia a composição não apenas pelo uso de ritmos nordestinos ou da linguagem modal. A ideia de utilizar instrumentos modernos e tradicionais da música de concerto representando e reproduzindo os instrumentos típicos da música sertaneja está presente desde o início do movimento. Na contracapa do LP Chamada da Orquestra Armorial (1975), o maestro Cussy de Almeida, responsável pela regência do grupo, descreve o papel de cada instrumento na construção da sonoridade rústica: violinos e violas representando as rabecas, flautas transversais que substituem pífanos, uma viola de dez cordas que acrescenta a sonoridade das cordas pinçadas do cravo e o naipe de percussão que representa a zabumba. Cussy afirma: No fundo, a Armorial não passa de uma orquestra de câmara ligeiramente alterada, com a inclusão de percussão e das duas flautas que a integram. Os trabalhos até aqui apresentados são apenas uma tentativa de encontrar uma música que um dia, em mãos dos nossos compositores maiores, possa vir a representar, em âmbito universal, uma forma de música brasileira. (ALMEIDA, 1975) Concluindo, Imagens do Sertão traz um desdobramento da estética de Ariano Suassuna através de uma outra sonoridade, da busca de novos timbres, onde a clarineta pode ser um pífano e o violão, uma zabumba. PARTITURA 3 3 Dedicada a Rosa Barros - 2011

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985 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Theodor W. Sobre a música popular. In: COHN, Gabriel (org). Adorno: Sociologia. 2. ed. São Paulo: Ática, 1994. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, 54) ALMEIDA, Cussy de. Chamada: Orquestra Armorial. Texto de contracapa do LP. São Paulo: Continental, 1975. NEWTON JÚNIOR, Carlos. O Pai, o Exílio e o Reino: a poesia armorial de Ariano Suassuna. Recife, Editora Universitária da UFPE, 1999. NÓBREGA, Ariana Perazzo da. A música no Movimento Armorial. Anais do XVII Congresso da ANPPOM. São Paulo: 2007. SUASSUNA, Ariano. O Movimento Armorial. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1974.