Como falar corretamente e sem inibições
REINALDO POLITO Como falar corretamente e sem inibições Adaptação de: Raquel Dang Pergaminho
CAPÍTULO I Você Tem o Dom de Falar Bem Quando as pessoas me perguntam se falar bem é um dom com que se nasce, noto que, mais do que uma pergunta para esclarecer dúvidas, o objetivo é obter uma resposta afirmativa que as tranquilize. Ao discutir este tema, as pessoas procuram uma espécie de desculpa para as suas deficiências de comunicação, pois, se apenas alguns poucos privilegiados nasceram dotados para falar bem, elas, as excluídas pela natureza, estão a salvo das possíveis críticas e tranquilas com a sua consciência. Afinal, não há nada que possam fazer para mudar o destino que lhes foi determinado logo na conceção. No fundo já sabem a resposta, mas, como há sempre lugar para a esperança, torcem para estar enganadas. Como já conheço o filme, permaneço em silêncio à espera da próxima cena, que não falha: «Sabe, Polito, a verdade é que conheço algumas pessoas que falam muito bem e que nunca frequentaram um curso de Expressão Verbal.» Primeiro, quem é que garante que essas pessoas nunca frequentaram um curso de Expressão Verbal? Depois, frequentar um curso não é a única maneira de aprender a falar bem. Alguns, desde jovens, aproveitam as oportunidades e desenvolvem a sua comunicação. Por tentativas, errando e acertando, aprendem a fazer apresentações eficientes. Outros no entanto, a grande maioria dos casos, ou não encontraram circunstâncias favoráveis para desenvolver este aspecto, ou preferem resguardar -se e não se valem das oportunidades que surgem. Acontece que errar enquanto se é jovem talvez não traga consequências para a imagem do orador aprendiz, mas, depois de subir Como falar corretamente e sem inibições 23
os primeiros degraus na hierarquia, um erro pode ser fatal, vindo a comprometer posições arduamente conquistadas ou a interromper uma trajetória em ascensão. Neste caso, como a posição hierárquica não permite erros elementares de comunicação, alguns passam a recusar convites para falar e a fugir de situações que os exponham, e deixam, assim, de aprender. Tive um aluno que, na sua apresentação na primeira aula, disse que tinha passado a vida inteira a fugir e a dar desculpas para não ter de falar em público. Só que as pessoas já não acreditavam nas suas histórias, e, então, ele estava a frequentar o curso para aprender a falar e a tornar as suas desculpas mais eficientes. Nas situações em que, pela posição ocupada, não se podem cometer erros de comunicação, a solução é buscar ajuda profissional e apri morar -se sem o risco de se prejudicar com os deslizes comuns ocorridos na fase de aprendizagem. Também o jovem que prefere preservar -se, ou que não encontra oportunidades para desenvolver os seus dons, pode garantir e abreviar a sua aprendizagem procurando orientação especializada. É preciso não esquecer que a luta pela ascensão profissional começa hoje cada vez mais cedo, e a comunicação é um dos principais ingredientes para ser bem -sucedido. Todos nós aprendemos a falar O leitor já observou como a aquisição da fala é natural? Algumas crianças começam um pouco mais cedo; outras, com idade mais avançada, mas todas, desde que não tenham problemas graves que impeçam o seu desenvolvimento normal, são estimuladas e aprendem a falar. Só que essa aprendizagem quase sempre cessa nos primeiros estágios. Depois de as crianças aprenderem a identificar os objetos mais importantes e a construir frases que traduzem os seus pensamentos, são deixadas por sua própria conta. Se o aprimoramento da comunicação continuasse um pouco mais, com prática de leitura em voz alta, apresentações de improviso sobre diferentes temas, exposições planeadas de assuntos debatidos na imprensa ou de matérias escolares, 24 Reinaldo Polito
todos, sem exceção, desenvolveriam as suas capacidades para falar em público. E ninguém mais poderia dizer que falar bem é um dom natural apenas para alguns. A boa notícia é que nunca é tarde para continuar O facto de a aprendizagem ter sido interrompida não significa que nunca mais possa continuar. Em qualquer época, independentemente da idade, todas as pessoas podem dar sequência ao seu desenvolvimento e aprender a falar melhor. Mesmo porque, por mais drástica que tenha sido a interrupção, a evolução da fala não é completamente paralisada. O desenvolvimento pode não ter ocorrido da maneira ideal, mas de alguma forma ele caminhou. O leitor frequentou escolas, conversou com pessoas, enfim, esteve exposto à comunicação e aprimorou a fala. Agora é só continuar. O mais importante é ter consciência de que já sabe falar, de que essa aprendizagem está feita. O que terá de aprender é a usar a palavra em situações em que talvez não esteja tão acostumado, como à frente de uma plateia, por exemplo. Para ter sucesso nessa importante empreitada, procure comportar- -se em frente ao público da mesma maneira que age no dia -a -dia. Aqui reside o grande erro da maior parte das pessoas: quando usam a palavra em público, mudam a sua forma de ser e começam a agir de maneira diferente a postura fica contraída, os gestos são executados com movimentos mecânicos, os olhos mostram aquele brilho de distanciamento, a voz adquire um tom solene, o vocabulário é contaminado por expressões que até então só tinham sido encontradas no dicionário, mas nunca usadas para falar Ora, como é que alguém pode pretender sair -se bem numa apresentação se assume uma postura e uma atitude distintas daquelas a que está acostumado?! A pessoa fica artificial, insegura, e o resultado, de uma maneira geral, é muito deficiente. E depois lamenta -se por não ter o dom da oratória! O que vou dizer agora é tão importante que, sensivelmente com as mesmas palavras, um pouco mais à frente voltarei a falar deste Como falar corretamente e sem inibições 25
assunto: ponha -se à frente do público e procure comportar -se como se estivesse diante de um grupo de amigos. Quanto mais conseguir expressar -se da maneira como se expressa quando está diante de pessoas com quem normalmente se relaciona, mais seguro e confiante irá sentir -se e muito melhor será a qualidade da sua exposição. As palavras conhecidas, usadas no seu discurso quotidiano, fluirão espontaneamente; a postura será a correta, sem rigidez; os gestos identificarão e enfatizarão as informações importantes e estarão prontos para esclarecer as mensagens que apenas foram subentendidas. E, se olhar para os ouvintes como olha para os seus amigos, dificilmente se mostrará distante. Faça pequenas adaptações Falar em público nada mais é do que uma conversa animada, ou seja, deve continuar a ser uma conversa, mas uma conversa animada. Para que o discurso tenha essa característica e seja próprio para uma apresentação em público, ponha um pouco mais de energia na sua maneira de se expressar: Aumente um pouco o volume da voz, para demonstrar o seu envolvimento e interesse pelo assunto. Torne os seus gestos e a sua fisionomia mais expressivos, para corresponder ao maior volume da voz e obter mais harmonia entre os diversos aspectos da comunicação. Procure deixar as pausas mais acentuadas, para que os ouvintes percebam melhor a importância das informações, tenham condições de refletir sobre elas e aumentem a expectativa sobre o que virá na sequência. Aumente a energia e melhore a disposição na sua «conversa» quanto maior for a plateia. Leve tudo para a frente do público a sua presença de espírito, a sua alegria, o seu bom humor e o seu estilo pessoal. Se souber fazer imitações, use essa capacidade de vez em quando. Proceda da mesma maneira se souber cantar, dançar ou contar piadas, histórias 26 Reinaldo Polito
e casos interessantes. Enfim, aproveite e explore as suas melhores capacidades. E isto não é só um discurso para o motivar. Faço este trabalho há mais de trinta anos e emociono -me a cada dia ao constatar que pessoas que chegaram inibidas, a desconfiar da sua competência para falar em público, ao fim de poucas horas, ao aprenderem a usar o que já possuíam de melhor na sua comunicação, se tornaram confiantes e se sentem estimuladas para fazer apresentações perante plateias. Sem mudar, apenas aproveitando o que já haviam desenvolvido ao longo da vida, superaram as suas dificuldades e passaram a ser pessoas mais felizes. Seja você mesmo, use o dom natural que recebeu e tenha muito sucesso. Como disse Bernard Shaw: «A vida é como uma pedra de amolar, tanto pode desgastar -nos como afiar -nos, tudo depende do metal de que somos constituídos.» Como falar corretamente e sem inibições 27